Pergunta: Por que a verdade é intragável?

Krishnamurti: Se eu acredito que sou belo, e você me diz que não o sou, o que bem pode ser verdade, gostarei disso? Se penso que sou muito inteligente, muito arguto, e você assinala que sou, na realidade, uma pessoa um tanto tola, isso me será intragável. E o fato de você apontar minha estupidez lhe dá um certo prazer, não é mesmo? Isso lisonjeia sua vaidade, mostra que você é muito arguto. Mas você não quer olhar para sua própria estupidez; você quer fugir daquilo que você é, deseja esconder-se de si mesmo, quer encobrir o seu próprio vazio, a sua solidão. Então procura amigos que nunca lhe dizem o que você é. Você deseja mostrar aos outros o que eles são; mas quando outros lhe mostram o que você é, você não gosta disso. Você evita o que expõe a sua natureza interior.

Pergunta: Qual é a definição de estudante?

Krishnamurti:  É    fácil    encontrar uma definição. Tudo o que se tem de fazer é abrir um dicionário no lugar certo e ele lhe dará a resposta. Mas esse não é o tipo de definição que você quer, não é? Você quer fa­lar a esse respeito, você quer descobrir o que vem a ser um verdadeiro estudante. É um verdadeiro estudante aquele que passa nos exames, obtém um emprego e depois fecha todos os livros? Ser um estudante implica estudar a vida, não apenas ler os poucos livros exigidos pelo currículo; implica a capacidade de observar tudo através da vida, e não apenas algumas poucas coisas num período particular. Um estu­dante, certamente, não é apenas aquele que lê, mas aquele que é capaz de observar todos os movimentos da vida, exterior e interiormente, sem dizer: “Isto está certo, isto está errado.” Se condena alguma coi­sa, você não a observa, não é mesmo? Para observar, você precisa es­tudar sem condenar, sem comparar. Se eu o comparar com outra pes­soa, não o estou estudando, estou? Se eu o comparar com seu irmão menor ou com sua irmã maior, será a irmã ou o irmão que será impor­tante; portanto, não estou estudando você.

Mas nossa educação está inteiramente voltada para a compara­ção. Você está interminavelmente se comparando ou comparando al­guém com outrem — com seu guru, com seu ideal, com seu pai que é tão esperto, com um grande político, e assim por diante. Esse proces­so de comparação e condenação impede que você observe, que estude. Assim sendo, um verdadeiro estudante é aquele que observa tudo na vida, externa e também internamente, sem comparar, sem aprovar, sem condenar. Ele não só é capaz de pesquisar matérias científicas, mas é também capaz de observar as operações de sua própria mente, seus próprios sentimentos — o que é muitíssimo mais difícil do que observar um fato científico. Entender todo o processo de nossa pró­pria mente requer boa soma de introvisão, grande dose de pesquisa sem condenação

Pergunta: Então, qual é a sua ideia do tipo certo de educação?

Krishnamurti: É o que acabo de dizer. Veja, vou mostrar-lhe de novo. Afinal, uma pessoa religiosa não é a que adora um deus, uma imagem feita pela mão ou pela mente humana, mas a que está realmente bus­cando a verdade, buscando a Deus; e tal pessoa é realmente educada. Pode não ir à escola, pode não ter livros, pode até não saber ler; mas está se libertando do medo, do egoísmo, do egocentrismo, da ambi­ção. Por conseguinte, a educação não é meramente um processo de aprender a ler, a calcular, a construir pontes, a realizar pesquisas cien­tíficas para encontrar novos meios de utilizar a energia atômica e o resto. A função da educação é, antes de mais nada, ajudar o homem a libertar-se de sua própria mesquinhez e de suas ambições estúpidas. Toda ambição é estúpida, mesquinha — não há nenhuma ambição grandiosa. E a educação também implica ajudar o estudante a crescer com liberdade e sem medo, não é mesmo?

Pergunta: Como podemos ter nossas mentes livres quando vivemos nu­ma sociedade cheia de tradições?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, você precisa ter a necessidade, a exi­gência de ser livre. É como o desejo que o pássaro tem de voar, ou o desejo de correr das águas. Você tem essa necessidade de ser livre? Se tiver, o que acontecerá? Seus pais e a sociedade procurarão forçá-lo a enquadrar-se num molde. Poderá resistir-lhes? Você encontrará aí algu­ma dificuldade, porque tem medo. Tem medo de não obter emprego, de não encontrar o marido certo ou a esposa adequada; tem medo de passar fome ou de que os outros falem de você. Embora queira ser livre, você tem medo, de modo que não vai resistir. Seu medo do que possam dizer ou do que seus pais possam fazer o bloqueia e, desse modo, vê-se forçado a ajustar-se ao molde.

Ora, será que você pode dizer: “Eu quero saber, e não me impor­ta morrer de fome. Haja o que houver vou lutar contra as barreiras des­ta sociedade podre, porque quero ser livre para descobrir coisas?” Você pode dizer isto? Quando sente medo pode enfrentar todas essas barrei­ras, todas essas imposições?

Assim, é muito importante que a criança, desde a mais tenra ida­de, seja ajudada a ver as implicações do medo e a libertar-se dele. No momento em que você tem medo, cessa a liberdade.