Trecho selecionado do livro “A Essência da Maturidade” (p. 16-19)

A questão, pois, é se há possibilidade de ver a coisa em seu todo imediatamente, e com esse ato de ver pôr-lhe fim.

Vê-se de maneira total, quando o problema é suficientemente urgente, não só para a própria pessoa, mas também para o mundo. Há guerra, externamente, e há guerra internamente, dentro de cada um de nós; é possível acabarmos com ela de imediato, voltarmos-lhe as costas, psicologicamente? Ninguém pode responder a esta pergunta senão vós mesmo - isto é, quando a ela respondeis sem dependerdes de nenhuma autoridade, de quaisquer conceitos intelectuais ou emocionais, quaisquer fórmulas ou ideologias. Mas, como dissemos, isso exige muita seriedade e séria observação - observação, quando estais sentado num ônibus, de tudo o que vos cerca; observação daquilo que está diante de vós mesmo, a mover-se, a transformar-se; observação, sem motivo algum, de todas as coisas tais como são. O que é tem muito mais importância do que o que deveria ser. Como resultado desse zelo, dessa atenção, talvez venhamos a saber o que é amar.

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Trecho selecionado do livro “Ensinar e Aprender” (p. 48-53)

DA CRIAÇÃO DE IMAGENS

Na juventude, apraz-nos a atividade - escutar o canto matinal dos pássaros, admirar as colinas após a chuva, os rochedos cintilando ao sol, o brilho das folhas, contemplar a passagem das nuvens e alegrar-nos em uma clara manhã com o coração pleno e a mente aberta. No entanto, perdemos esta boa disposição com o correr dos anos, quando surgem as preocupações, as ansiedades, as contendas, os ódios, os temores, na eterna luta pela sobrevivência. Passamos os dias brigando uns com os outros, sentindo simpatias e antipatias, e algum prazer de vez em quando. Não ouvimos os passarinhos, já não admiramos as árvores, nem vemos o orvalho na grama, nem as aves a voar, nem o brilho da pedra numa escorregadia vertente à luz da manhã. Não costumamos ver nada disto quando nos tornamos adultos. Porquê? Não sei se a si próprios já fizeram tal pergunta. Se não, é este o momento de formulá-la. Do contrário, em breve estarão aprisionados. Irão para uma universidade, casar-se-ão, terão filhos, marido, mulher, responsabilidades; serão obrigados a cuidar da subsistência; depois virá a velhice e, por fim, a morte. Em geral, é isto o que acontece. Cumpre interrogar-nos, então, porque perdemos a sensibilidade, porque já não apreciamos as flores, nem nos deleitamos com o gorjeio dos pássaros. Porque deixamos de contemplar a beleza? Creio que a razão principal é vivermos tão ocupados com a nossa personalidade. Por certo, temos todos uma imagem de nós mesmos.

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Trecho selecionado do livro “O Despertar da Sensibilidade” (p. 13-19)

Vou agora examinar esta questão do conflito. Para compreender o conflito, tendes de observar a vós mesmo. E a observação exige desvelo. Desvelo significa compreensão, afeição: como quando se cuida de uma criança, em que não há repúdio ou condenação. Cuidar de uma criança é observá-la, sem condená-la, sem compará-la. Observá-la com infinita afeição, imensa compreensão; estudá-la em todos os seus movimentos, em todas as fases de seu desenvolvimento, em suas travessuras, suas lágrimas, seus risos. O observar, pois, exige desvelo. Esse é o primeiro requisito da auto-observação; por conseguinte, nunca deve haver um momento de condenação, de justificação ou comparação, porém sempre a observação pura e simples de tudo o que está ocorrendo, a cada momento do dia, quer a pessoa se ache no escritório, ou viajando num ônibus, ou conversando com alguém, etc. Cada um deve observar a si próprio tão completamente, com tão infinito desvelo, que daí resulte a precisão, uma precisão absoluta, e não apenas idéias vagas, ação ineficaz.

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