Nº 21

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Nº 21 – dezembro/2009

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Nota Editorial

Tivemos a satisfação de poder trazer um expressivo número de novos DVDs no semestre que ora se encerra, coroando o trabalho incansável dos nossos tradutores e revisores. O destaque é, sem dúvida, a série “A Transformação do Homem”, sobre a qual nos alongaremos mais adiante, mas, não menos importante, registramos o lançamento do documentário biográfico “O Desafio da Mudança”, que traz uma primorosa síntese da vida e da obra de Krishnamurti.

No campo editorial, tivemos ainda o lançamento, pela Editora Nova Era, do segundo volume do livro “Comentários Sobre o Viver”, obra em que Krishnamurti registra de próprio punho os seus encontros com diversas pessoas que vão consultá-lo sobre os mais variados assuntos. Podemos também, finalmente, anunciar a finalização do Nova Seleta, livro que deverá estar disponível no início do próximo ano.

Para a seção “Seleção”, escolhemos dois excertos de livros que tratam do findar do medo e do sofrimento, coisas que afligem a todos nós e que nos impedem ter uma vida plena e realmente profícua. Trouxemos também o texto “Alquimia e Mutação”, onde Krishnamurti discorre sobre a importante questão do equilíbrio entre o masculino e o feminino.

No ano que logo irá se iniciar, a ICK pretende continuar o excelente trabalho que foi desenvolvido em 2009, procurando cumprir a sua principal missão que é tornar disponíveis os ensinamentos de Krishnamurti aos estudiosos da grande comunidade lusófona mundial.

Novas

Novos Livros

Comentários Sobre o Viver (Vol. 2)

Neste segundo semestre, tivemos a satisfação de ver lançado, pela Editora Nova Era (Best Seller), o esperado segundo livro da trilogia “Breves textos”, “Comentários Sobre o Viver (Vol. 2)”, obra de grande importância, pois, ao contrário da grande maioria dos livros já publicados, que geralmente trazem transcrições de palestras, trata-se de registros feitos próprio Krishnamurti de seus diálogos com diversas pessoas.

Sinopse da Editora:

Neste segundo volume da trilogia Breves textos, Jiddu Krishnamurti registra seus encontros com indivíduos que se dizem em busca da Verdade. Oriundas de todas as posições sociais, essas pessoas questionam o vivaz pensador indiano na esperança de vislumbrar algo a respeito de suas próprias vidas. Em palestras e ensinamentos, Krishnamurti desembaraça seus ouvintes da rede emaranhada das ideias, das crenças organizadas e dos estados fixos da mente e os conduz para a bem-aventurança da verdade legítima: o entendimento do que é.

Nova Seleta

Após um longo atraso em relação às nossas previsões anteriores, provocado principalmente pelo cuidado com que foram feitas as revisões, podemos finalmente anunciar para muito breve o lançamento da Nova Edição da Seleta de Krishnamurti, obra original do nosso falecido ex-vice-presidente Carlos de Souza Neves, que se encontrava esgotada.

A capa aqui exibida pode sofrer ainda algumas pequenas modificações, mas o material todo já está praticamente finalizado e será enviado a uma editora logo no início do próximo mês de janeiro.

A nova edição, também conhecida por Nova Seleta, que traz uma coletânea de excertos de livros ideal para consultas por tema, é mais uma iniciativa ICK para tornar disponível ao público os ensinamentos de Krishnamurti.

Novos DVDs

A Transformação do Homem

A série de DVDs intitulada “A Transformação do Homem”, legendada em português, traz os diálogos havidos em 1976, entre Krishnamurti, o psiquiatra David Shainberg e o cientista David Bohm, quando foram abordados com grande profundidade diversos temas. São estes diálogos de fundamental importância para os estudiosos dos ensinamentos, pois reproduzem cerca de sete horas de acurada investigação realizada pelos três amigos.

O trecho abaixo, tirado da fala final de Krishnamurti no sétimo e último diálogo, dá bem a noção da profundidade que eles alcançaram:

“… todos estes diálogos têm sido um processo de meditação. Não um argumento habilidoso, mas uma meditação realmente penetrante, que causa um insight sobre todas as coisas que foram ditas. Penso que estivemos fazendo isso…”

A ICK, com o objetivo de tornar estes diálogos disponíveis ao maior público possível, está concedendo um grande desconto aos interessados em adquirir a série completa com os sete DVDs.

O Desafio da Mudança

O Desafio da Mudança é a arrebatadora história de um grande mestre religioso do século XX, começando com sua descoberta, na infância, em 1909, passando por suas palestras proferidas para grandes audiências, na maior parte do mundo, até sua morte em 1986.

Através da Sociedade Teosófica, da qual era presidente, Annie Besant, que adotou Krishnamurti e seu irmão, proclamou-o como sendo o Mestre Universal, historicamente vaticinado e esperado pela Sociedade. Krishnamurti rejeitou qualquer status especial quando dissolveu a Ordem da Estrela, que foi organizada em torno dele. Nesta ocasião, ele declarou que “A verdade é uma terra sem caminhos”, e contestou que pudesse haver qualquer autoridade nos assuntos religiosos.

Esta história notável, contada através de fotografias e filmes de arquivo, é uma valiosa introdução à vida e ao ensinamento de Krishnamurti. Há trechos de suas muitas palestras, bem como uma entrevista feita para o filme. Ele falou não como um guru, salvador ou mestre, mas como aquele que convocou o despertar da inteligência em todos os seres humanos.

Seleção

Excertos de livros selecionados.

O Despertar da Sensibilidade

O Fim do Sofrimento

Se me é permitido, desejo falar nesta tarde sobre assunto um tanto complexo e ao mesmo tempo muito simples. Necessitamos de uma extraordinária simplicidade ― não a simplicidade da tanga, porém a da mente que pensa com clareza, com simplicidade, sem filosofia e sem sistema. Essa mente é rara; e ela é necessária para se compreender o que é muito complexo, o que exige uma atenção não estorvada e sufocada por ideias, por palavras, por símbolos, por tantas coisas que o homem acumulou através de tantos séculos. Para se sondar o problema do sofrimento, do tempo, e aquele estranho fenômeno denominado “a morte”, necessita-se de uma mente sobremodo simples, mas ao mesmo tempo muito penetrante.

Quando vos vedes em presença de algo de natureza incomum, as palavras e teorias dialéticas e filosóficas, as opiniões, têm muito pouco valor, Não nos estamos ocupando com teorias, com nenhum sistema filosófico; estamo-nos ocupando diretamente com o sofrimento, em direto contato com ele e, para se compreender essa perene aflição, temos de abandonar todas as formas de fuga a esse fato, toda ideia ou sistema de pensamento; temos de chegar-nos a ela com uma mente penetrante e aquela clarividência que é necessária quando nos vemos diante de algo que precisa ser resolvido. O homem vive há tanto tempo, há tantos séculos, com o sofrimento. Já nos acostumamos com ele, já o aceitamos, e a seu respeito filosofamos, buscando explicações para ele, sua causa, etc. Entretanto, não o resolvemos, não acabamos com ele. O homem. que já viveu tanto tempo, não conseguiu ainda, com exceção de um ou outro, livrar-se totalmente dessa coisa que se chama “sofrimento”.

E nesta tarde, se me permitis, desejo explorar junto convosco se temos alguma possibilidade de pôr fim ao sofrimento. Isso não significa que devais crer que o sofrimento pode ter fim, porem, sim, que empreendais junto com o orador esta viagem de exploração, se desejais investigar profundamente esta questão e não apenas tratar dela intelectual ou verbalmente — o que nenhum valor tem. Dizer-se: “Compreendo intelectualmente”, ou “Verbalmente compreendo o que estais dizendo” ― tais asserções são completamente sem valor para o homem que está deveras investigando o problema do sofrimento. Não importa saber se o sofrimento se acabará ou continuará existente; mas muito importa saber que, a menos que o resolvamos, a menos que fiquemos completa, profunda e definitivamente livres dele, então, todo movimento, todo pensamento, toda ação continuará envolta em suas sombras, em sua escuridão; por conseguinte, nunca haverá um momento de liberdade, de completo bem-estar, equilibrado e racional, uma taça cheia, transbordante, sem o mais leve sopro do sofrimento.

Para se investigar esta questão, devemos também ter em mente a questão do tempo; porque as duas coisas estão unidas, não têm existências separadas. Mas isso não significa, se compreendo o sofrimento, ficarei livre do tempo; ou que, compreendendo o tempo, triunfarei do sofrimento ou compreenderei esse extraordinário mistério que se chama “a morte”; está-se dizendo apenas que os três estão relacionados entre ri. Se não puserdes fim ao sofrimento, não podereis por fim ao tempo ou deter a sua marcha; e se não detiverdes o tempo, não compreendereis o extraordinário significado da morte. Todos estão, repito, intimamente relacionados entre si.

Todas estas nossas palestras estão encadeadas umas às outras. Não podeis levar apenas uma parte delas e dizer que ides “viver com essa parte”. Ou as levais por inteiro, tudo o que se está dizendo, ou as rejeitais em todo o seu conjunto. Não podeis levar um fragmento e ir “viver com ele”, tentar compreendê-lo. Tendes de levar tudo. Analogamente, se desejais investigar cabalmente a questão do sofrimento, deveis dar atenção ao tempo, ao sofrimento e a essa coisa chamada “morte”. Tem o homem tentado, por meio de diferentes cultos e teorias, dissolver o seu terror da morte, libertar a mente desse exagerado medo ao desconhecido. Assim, se desejais compreender a beleza da morte, deveis também examinar a questão do tempo e do sofrimento, porque a morte está intimamente relacionada com a vida — mas não no fim da vida; não deveis colocá-a à distância e olhá-la de longe, cheios de medo, apreensão e agonia. Viver é morrer, e morrer é viver. Cumpre compreender isso, mas não teoricamente, quer dizer, citar o orador, como se o tivésseis compreendido. Temos de examinar isto juntos. E espero tenhamos tempo, neste tarde, para investigar este problema do tempo, do sofrimento e da morte.

Todos conhecemos o sofrimento. Há o sofrimento da mente que nunca se preencheu; que é pobre, vazia, insensível; que se tomou mecânica, cansada; que vê uma nuvem e não conhece a beleza dessa nuvem; que nunca foi capaz de ser sensível, de sentir, compreender, viver. Há o sofrimento da “não realização”, do “não vir-a-ser”, do “não ser”. O sofrimento da desilusão da vida. O sofrimento causado pela incapacidade de percebimento por parte da mente apoucada, inepta, ineficiente, limitada, superficial. O sofrimento da mente que se reconhece estúpida, embotada, indolente e que, por maiores esforços que faça, nunca se toma penetrante, lúcida, viva; isso também gera sofrimento.

Há o sofrimento em todas as formas que o homem pode conceber ou pelas quais já passou. O sofrimento existe, persistente, constante, vigilante ― ou oculto nos profundos recessos de nosso coração, jamais explorados, jamais abertos e devassados. Há o sofrimento inconsciente do homem que viveu séculos e séculos sem encontrar solução para essa coisa, para sua agonia, seu desespero, sua ambição. O sofrimento existe. E nunca entramos realmente em contato com ele; sempre o evitamos; sempre tratamos de fugir, de várias |maneiras, pelas vias de nossas esperanças, de teorias e ideias verbais, intelectuais, as mais variadas. Nunca entramos diretamente em crise com o sofrimento, enfrentando-o face-a-face, assim como também nunca entramos em crise com o tempo. Temos de levar o tempo a uma “crise”, mas nunca nos confrontamos com o problema do tempo em seu aspecto total.

Nunca exploramos essa coisa extraordinária e dolorosa, chamada “sofrimento”; e não podemos explorá-la, se a evitamos. É o que se precisa perceber em primeiro lugar: que não devemos evitá-la. Evitamos o sofrimento por meio de explicações, de palavras, de conclusões, de fórmulas, ou da bebida, dos divertimentos, dos deuses, do culto. A mente que deseja deveras compreender e pôr fim ao sofrimento deve deter completamente toda espécie de fuga. Esta e uma de nossas maiores dificuldades, porquanto temos todo um sistema de fugas, um complicado sistema de fugas. A própria palavra “sofrimento” é uma fuga ao fato real.

Por favor, procurai escutar com vossa mente e vosso coração, e não apenas verbalmente, pois desta maneira nada alcançareis e partireis desta reunião levando apenas cinzas. Se não estais escutando com aquela qualidade de atenção, o fazeis por vossa própria conta, pois eu estou falando de algo que vos concerne e não a mim. O problema é vosso; tendes de atendê-lo e de ‘”viver com ele”, transcendê-lo. Deveis, pois, escutar com intensidade, com paixão e vigilância: Não digais: “Como posso manter-me vigilante, apaixonado?” Não digais “como”, não há sistema nenhum. isso é como procurardes um médico quando necessitais de ser operado. Estais então diretamente em contato com o fato, ou seja que precisais ser operado. E, assim, tendes de dar-vos por inteiro à decisão de operar-vos ou não. Da mesma maneira, para poderdes enfrentar o tempo, compreender essa coisa chamada “sofrimento” — todas as vossas fugas, os deuses, as bebidas, as diversões, o rádio, tudo deve acabar.

Visto que o sofrimento é pensamento, e o pensamento tempo, deveis compreender o tempo. Há o tempo do relógio — ontem, hoje e amanhã. O Sol se põe e o Sol nasce ― o fenômeno físico. O ônibus sai a uma certa hora, e o trem parte na hora marcada; é esse o tempo do relógio, o tempo cronológico. Mas, existe outro “tempo”? Fazei a vós mesmo esta pergunta: “Há outro tempo, além do tempo cronológico?”. Há: o tempo compreendido como duração, separado do tempo cronológico, do tempo do relógio, Há duração, a continuidade da existência ― eu fui. eu sou, eu serei. As memórias, as experiências, as diferentes ansiedades, temores, esperanças — tudo isso está na esfera do tempo entendido como “passado”. E esse passado, que é psicológico, que é memória, essa carga de ontem, com todas as suas experiências, eu a estou transportando hoje; a memória a está transportando hoje, memória essa que está identificada, pelo pensamento, como “Eu”. Se não houvesse memória, se não houvesse identificação com aquela memória de que nasce o pensamento, não haveria nenhum “centro”, ou seja “Eu”, a transportar aquela carga de dia para dia.

Temos, pois, o tempo marcado pelo relógio. E há o tempo psicológico; mas este tempo é válido? É o tempo verdadeiro? O tempo não é o intervalo existente entre ações? Quando há ação espontânea, real, não há, com efeito, tempo. Estais esquecido do passado, do presente e do futuro, quando estais vivendo naquele estado de ação. Mas, quando a ação procede do passado, introduzistes o tempo na ação. Isto exige muita atenção de vossa parte, porque estamos tratando de um problema sumamente complexo, relativo à ação dentro do campo do tempo e à ação fora do campo do tempo; não se trata de teorias, não se trata do que está dito no Gita ou no Upanishads.

Quando este orador vos fala de “ação”, não compareis, não digais que “assim” está dito nos livros porque, nesse caso, não estais “vivendo com a questão”; estais “vivendo” com aquilo que ouvistes, com o que outra pessoa vos disse. O que outro disse pode não ser verdadeiro; não o é. Deveis investigar a questão por vós mesmo, e nesse investigar há extraordinária força, vitalidade, beleza, e originalidade. Tendes de ser original, e não citar o que disse Buda, Sankara ou outro qualquer.

Deveis ser original, para investigardes o que o orador está dizendo; investigá-lo por vós mesmo e não através do orador. Ele só vos está dando indicações por meio de palavras. Mas, escutando-o, deveis desembaraçar-vos de suas palavras e explorar; deveis ver se é falso ou real o que disse. E não podereis vê-lo, se estiverdes munido de vossas opiniões, vossas ideias, suspeitas, temores; não estais então em movimento. O que o orador está fazendo é levar o tempo a uma “crise”. Pois estamos habituados a servir-nos do tempo como meio de fuga. Ou, também, nos temos servido do como “o presente único”, “o agora”, tratando de tirar da vida o melhor proveito, agora — com todos os seus desesperos, agonias, ansiedades, temores, esperanças, alegrias. Dizemos: “Só temos poucos anos de vida, e vivamos com tudo o que a vida oferece, tirando dela o melhor partido”. É o que fazemos, e o mesmo têm feito todos os filósofos. E todos os que têm inventado teorias tem, também, um medo imenso da morte.

Estamos, pois, examinando o tempo. Dissemos que o tempo é o intervalo existente entre ações. A mente que está em ação pode existir sem o tempo. Prestai atenção, por favor. A mente que está em ação com uma ideia, um motivo, uma finalidade, uma fórmula, está enredada no tempo; sua ação, por conseguinte, não se completa e, portanto, dá continuidade ao tempo. Como sabeis, o tempo, para nós, é não só duração psicológica, mas também continuidade da existência. Serei isto futuramente ― amanhã ou no próximo ano. Esse “ser futuramente” está condicionado não só ao ambiente, à sociedade, mas também à reação a tal condicionamento, tal sociedade ― reação que consiste em dizer: “Serei isto e o alcançarei futuramente”. Quando uma pessoa diz: “Se hoje não sou feliz, se não sou rico interiormente, profunda, ampla, inexaurivelmente rico, eu o serei” — essa pessoas está na armadilha do tempo. O homem que pensa que será alguma coisa e se está esforçando para alcançar o que será, para esse homem a maior aflição é o tempo.

E possível a mente achar-se sempre em ação, diretamente, espontânea e livremente, de modo que nunca tenha um momento de tempo? Porque o tempo é pensamento periférico. Todo pensar é periférico, marginal ― todo. Pensamento é reação da memória, da experiência, do conhecimento, acumulados; daí procede o pensamento, a reação ao passado. O pensamento jamais pode ser original. Podeis usar palavras, pertencentes ao passado, expressar o original, mas o original não pertence ao tempo. Por conseguinte, para descobrir o original deve a mente estar inteiramente livre do tempo — do tempo psicológico; da duração; da ideia de “serei”, “alcançarei”, “tornar-me-ei”.

O funcionário, o pobre coitado que, por quarenta anos seguidos, tem de dirigir-se todos os dias a seu escritório, de trem subterrâneo, de ônibus, em transportes repletos de passageiros, malcheirosos, sujos — só pode nutrir a esperança de um dia tomar-se “Gerente”. A mulher o incita, a sociedade o impele, o compele a ser alguma coisa neste mundo, dono de uma casa maior, com mais conforto, mais satisfações. Todos necessitam de satisfação, de conforto físico. E, hoje em dia, cientificamente, é perfeitamente possível proporcioná-lo a todos os entes humanos. Mas isso não se verifica porque somos muito estúpidos: separamo-nos em nacionalidades; somos bairristas, estamos separados por línguas diferentes, etc., etc:. Eis o nosso único empecilho.

Assim como o bancário deseja tomar-se gerente do banco, e o gerente aspira a ser diretor, assim como o vigário aspira a ser arcebispo, assim como o sanyasi deseja “vir a ser”, alcançar, no final de tudo, isto ou aquilo — assim também nós adotamos perante a vida a mesma atitude. Abeiramo-nos do viver de cada dia com a ideia de realização e, assim, psicologicamente, abeiramo-nos da vida, dizendo “devo ser bom”, “devo fazer isto”, “devo vir a ser…”. É a mesma mentalidade, a mesma ambição; portanto, introduzimos o tempo em nosso viver. Nunca questionamos o tempo. Nunca dizemos: “É mesmo assim? Daqui a dez anos, serei feliz, inteligente, vigilante, imensamente rico interiormente, e então só uma coisa existirá?”. Nunca questionamos o tempo; aceitamo-lo, como temos aceito tudo o mais: cegamente, estupidamente, sem pensar, sem raciocinar.

Por isso eu digo que o tempo é veneno, que o tempo é um perigo contra o qual deveis estar sumamente precavidos, perigo tão vivo como um tigre. Deveis estar consciente, a cada minuto, de que o tempo é um veneno mortal, uma coisa fictícia. Estais vivendo hoje; e não podeis viver hoje de modo completo, com riqueza, plenitude, com extraordinária sensibilidade à beleza, à graça, se vindes com toda a carga de ontem. É preciso, pois, examinar a questão da memória. Memória, conhecimento, experiência, todo o acúmulo de dados científicos e técnicos, são da maior importância quando se trata de executar um trabalho material. Nas coisas de que necessitamos para viver, a memória deve funcionar com o máximo de eficiência, qual um cérebro eletrônico. Este é capaz de coisas as mais extraordinárias: pintar, escrever poemas, traduzir, e até dirigir uma orquestra. Mas, esse cérebro eletrônico só pode funcionar com os dados que lhe são fornecidos, por associação, etc. E quando se faz uma pergunta ao cérebro eletrônico, devem-se usar termos precisos; senão, ele não responderá. Por isso mesmo, há hoje todo um conjunto de cientistas empenhados em investigar a questão da ação na linguagem; mas não é este o assunto que nos interessa no momento.

Como já sabemos, a maioria de nós traz o passado para o presente, e o presente se torna mecânico. Se observardes vossa própria vida, vereis quanto é mecânica! Funcionais qual uma máquina, como uma imitação imperfeita do cérebro eletrônico. Porque aceitastes o tempo e com ele vos acostumastes. Ora, há uma vida fora do tempo, quando se compreende o passado, que é só memória e nada mais.

A memória, na forma de conhecimento, de acumulação de experiências, de coisas que o homem vem juntando há milhões de anos ― a memória é o passado, consciente ou inconsciente; nela estão depositadas todas as tradições. E com tudo isso vindes para o presente, para o agora e, por conseguinte, não estais, em absoluto, vivendo. Estais “vivendo” com as lembranças, as cinzas frias de ontem. Observai a vós mesmo. Com essas cinzas frias da memória, inventais o amanhã: um dia, serei não-violento; hoje sou violento, mas irei limando esta minha “grata” violência e, um dia, hei de ser livre, não-violento. Que infantilidade! E uma ideia que aceitastes e, portanto, não podeis desprezá-la. E há homens que dizem tais absurdos! E os tratais como grandes homens, porque estais aprisionados no tempo, tal como eles. Esses homens não vos estão libertando, fazendo-vos enfrentar o fato — o tempo — isto é, trazer para o presente o passado inteiro e levá-lo a uma “crise”.

Sabeis o que sucede quando vos vede numa crise — numa crise real, não uma crise inventada, uma crise verbal, de ideias e teorias? Quando vos vedes, de fato, em presença de uma crise, que vos exige atenção integral e “atenção integral” significa: atenção com vossa mente, vossos olhos, vossos ouvidos, vosso coração, vossos nervos, todo o vosso ser — sabeis o que acontece? Não existe, então, o passado; não há

então ninguém para dizer-vos o que deveis fazer; e, então, dessa extraordinária atenção vem a espontaneidade; e, nesse estado, não existe o tempo. Mas, no momento em que começais a pensar a respeito da crise, no momento em que começais a pensar. todo o passado entra em ação. O pensamento é a reação do passado — associação, etc. E verifica-se, nesse momento, o começo do tempo e do sofrimento.

Por conseguinte, quando a mente não se acha verdadeiramente num estado de ação, porém num estado de inação, daí vem mais inação, que é do tempo. Há duas espécies de inação: a inação gerada pelo tempo, e a inação que é o estado total da mente que se vê em presença de uma tremenda crise. Com o enfrentar uma crise tremenda, a mente se toma completamente inativa, quer dizer, livre de todo pensamento; e dessa inação vem ação; esta é a única ação importante, e não a outra.

Sendo assim, cumpre compreender a natureza do tempo e o significado do tempo. Com a palavra “compreender” quero dizer “ter vívido” com a coisa, tê-la penetrado; não ter aceito nenhuma teoria nem explicação verbal; não ter fugido por meio do passado, porém ter perquirido, de fato, o fenômeno do tempo psicológico. Fazendo-o, levais o tempo a uma “crise”; essa crise vos torna então sobremaneira atento e, por conseguinte, a mente fica num estado de ação. Fica atuando sempre, porque já se livrou daquele estado de “passado e futuro” — do tempo. E nesse estado, em que a mente não está interessada no passado nem no futuro, tem o presente uma diversa significação. Isso não é teoria, e não se trata de um estado de desespero. Por conseguinte, a cessação do sofrimento é a cessação do pensamento, e a cessação do pensamento é o começo da sabedoria. A cessação do sofrimento é sabedoria.

Tendes de compreender a morte. Por compreendê-la entendo “viver com ela” ― não no fim da vida, quando fordes um ente alquebrado, achacado, velho, quando vossas células já não puderem funcionar racionalmente, com clareza, penetração — porém agora, enquanto estais moço, vigoroso, cheio de vida e energia. Para “viverdes com a morte” deveis compreender a vida ― não a vida de outro, porém vossa própria vida ― a vida de cada dia, vosso emprego, vossas torturas, vossas aflições, vossas esperanças e desesperes — todo o amplo campo da vida. Se não conhecerdes a vida, não conhecereis a morte. Tende a bondade de escutar o que se está dizendo. Não se trata de coisas misteriosas, sobre que devais refletir amanhã. Estais vivendo agora, neste momento, e não amanhã. Por conseguinte, trata-se de escutar e não de guardar na memória, para meditar.

Acaba de dizer o orador que, se não souberdes o que é a vida, jamais sabereis o que é a morte. E se não souberdes o que é a morte, não sabereis o que é viver. O viver, pois, está intimamente relacionado com a morte. isso que chamamos “viver”, essa existência diária, e uma tortura, uma coisa tediosa, um estado de ansiedade e desespero, encoberto por brilhantes pensamentos e inúmeras máscaras de civilização. Vossa vida é uma vida vulgar, de disputas, ciúme, inveja. Se não a compreenderdes, se não puserdes fim às disputas, à avidez, ao sofrimento, a todas as mesquinhas tiranias da sociedade, sereis, então, meramente, um ente humano torturado e, inevitavelmente, a morte estará à vossa espera — a dez, quarenta, cem anos de distância.

Há, pois, o medo ao desconhecido — o desconhecido na figura da morte, ou o desconhecido na figura da vida. Sabeis o que entendemos por “vida”? Estar desperto e estar dormindo, e o intervalo entre esses dois estados, que é de escuridão, de sofrimento, conflito, incessante esforço; eis o que chamamos “viver”. Nunca perguntamos: “Isso é viver?”. Aceitamo-lo, assim como aceitamos a sordidez, a pobreza, a miséria que nos circunda. Tudo isso aceitastes como “a vida”, e desejais que continue; por isso é que temeis a morte; o conhecido é preferível ao desconhecido. E o conhecido é tão sem valor, tão insignificativo ― esforço laborioso, interminável, até morrer! Inventa-se, assim, um significado da vida, uma finalidade da vida, e começa-se a discutir a seu respeito.

Deste modo, nunca morremos para essa vida de desdita. Não a extirpamos “cirurgicamente”. Isso significa estar cônscio dela, enfrentá-la, sem escolha nem condenação, observá-la, simplesmente, olhá-la sem nenhuma formulação verbal, intelectual, nenhuma forma de fuga. Quando o indivíduo está frente a frente com a vida que vive todos os dias, sem buscar nenhuma espécie de fuga, acha-se no estado de crise, num estado de tremenda paixão; não estou empregando a palavra “paixão” no sentido de desejo camal.

Sabeis morrer sem esforço para uma coisa insignificante ― morrer para o hábito de fumar ou outro qualquer, para vossas ideias e temores? Morrer para o medo, sem esforço, é olhá-lo de frente, seguir-lhe o fio até o fim e não apenas até a metade do caminho, Porque o medo, como o sofrimento, é um estado perene do homem — medo da solidão, medo da opinião pública, medo do futuro, medo do passado, medo de não ser, medo de não vir a ser. Quando enfrentais o medo, deveis segui-lo até o fim; e isso só podeis fazer quando não há escolha, quando não há interferência verbal. E descobrireis então um extraordinário sentimento de isolamento, uma coisa semelhante à solidão; tendes de passar por esse estado.

Tendes, pois, de morrer, morrer para os cotidianos incidentes, experiências, lembranças, quer aprazíveis, quer dolorosas. Porque, quando a morte chegar, não podereis argumentar com ela, dizer-lhe: “Quero conservar o que me agrada, tirai-me só o que é doloroso”. Ela vai tirar-vos tudo. O homem que diz: “Que acontece após a morte? Credes na reencarnação? Existe continuidade do Eu?” ― esse homem jamais conhecerá a natureza da morte. E, se não conhecer a natureza e o significado do “morrer em vida”, nunca saberá o que é viver.

Não sabemos o que é o amor, Conhecemos o prazer, conhecemos o desejo, o deleite dele proveniente, a felicidade passageira, empanada pelo pensamento, pelo sofrimento. Não sabemos o que significa “amar”. O amor não é uma recordação, não é uma palavra, não é a continuidade de uma coisa, que nos dá prazer. Podeis ter convivência com vossa esposa, dizer: “Amo-a”; mas não a amais. Se amásseis vossa esposa, não haveria ciúme, não haveria domínio, não haveria apego.

Não sabemos o que é o amor, porque não sabemos o que é a beleza: a beleza do pôr do Sol, do choro de uma criança, do voo célere de uma ave que atravessa os ares, os delicados matizes do crepúsculo. Estais inconsciente da beleza, insensível à beleza; por isso, sois também insensível à vida.

Assim, para descobrirmos o que é a morte, temos de morrer, todos os dias, para tudo o que temos acumulado, guardado na lembrança, atravessado na vida. Se alguma vez já morrestes para um prazer, sabereis o que e morrer realmente; morrer para o prazer, não teórica ou verbalmente, porém chegar a seu fim, voluntariamente, com facilidade, sem a menor ideia de esforço, de recompensa, de punição, de motivo. Se sabeis morrer para uma coisa insignificante como o prazer, sabereis então também morrer totalmente para o passado; o tempo, o sofrimento. Se, todos os dias, morrerdes para tudo, sem hesitação, livremente, com um sorriso franco e deleite no coração, sabereis então o que é a morte.

A morte não é uma coisa remota, que se deve evitar, que se deve temer. Ela está sempre presente. quer vos agrade, quer não. Presente, como a beleza, como o amor. Mas, pusemo-la à distancia, e essa distância é o tempo. É assim que fazemos do tempo um veneno. Por essa razão, não vivemos completamente, totalmente, com plenitude e paixão, nem sabemos o que é viver ou morrer.

Morrer é acabar a continuidade: a continuidade de um pensamento, de um prazer, de uma ideia, de um problema. Neste findar está o começo da inocência e, por conseguinte, o começo do novo. O que tem continuidade jamais pode ser novo e, por conseguinte, o que tem continuidade jamais pode ser amor. Compreendei isso, por favor.

Necessitais de um mundo diferente, de uma cultura diferente, uma diferente sociedade. Consequentemente, tendes de morrer para todas as coisas que tendes conhecido, para que vossa mente se torne fresca, inocente, juvenil. E, nessa inocência, nesse frescor, nessa juventude, há amor. E quando esse amor existe, existe aquela intensidade da vida, do viver. Viver é então ação: ação de todas as horas, e não de um momento de trégua, de intervalo; ação existente a todas as horas, completamente. E, para compreenderdes isso, deveis morrer, para que vossa mente esteja sempre num “estado do desconhecido”, livre do conhecido. E vereis então que o medo, o sofrimento e as coisas que há milhares e milhares de anos vêm ensombrando a existência do homem, deixam de existir, e vossa mente se renova com a morte. (Bombaim, 23 de fevereiro de 1964. )

O Novo Ente Humano

O Fim do Temor

(Madrasta – VII)

Nesta tarde, cumpre-nos considerar vários assuntos, entre os quais a importância de o ente humano transformar-se, num ambiente, sociedade ou cultura onde impera a corrupção e a desintegração. É bem visível a necessidade de alterar-se o ambiente, ou seja a sociedade, a religião, a cultura, etc., e esse problema se torna bem mais importante porque pensamos que a estrutura social, a comunidade, o mundo que nos rodeis, não podem ser transformados por um só individuo, um só ente humano. Que importância tem um individuo, um ente humano transforma-se quando, em torno dele, há tanto caos, e aflição, e confusão, tanta loucura?

Esta é, a meu ver, uma pergunta errônea, porquanto o ente humano é o resultado da cultura em que vive. Já que ele mesmo criou a cultura, a sociedade, o ambiente, transformando a si próprio, estará transformando o ambiente. Ele é o mundo, e o mundo que o circunda é ele próprio. Não há divisão entre ele e o mundo. Esta é uma coisa que deve ser claramente compreendida, logo de inicio, ou seja que não há separação entre o indivíduo e a comunidade. A palavra indivíduo significa uma entidade indivisível. A maioria dos entes humanos são divididos, fragmentados, e isso resulta, em parte, da sociedade e da cultura em que vivem.

Importa, pois, compreender o fato de que os entes humanos resultam do ambiente em que vivem. Vós, que nascestes neste país, sois hinduísta, muçulmano, etc. Os nascidos no Ocidente são cristãos, divididos em católicos e protestantes, e respectivas subdivisões. Ora, logicamente, intelectualmente, pode-se admitir esse fato como ideia, matéria para raciocínio, mas daí não se passa, pois parecemos incapazes de traduzido em ação. E, se possível, trataremos, nesta tarde, não apenas do conflito do homem e, portanto, do mundo, isto é, do conflito existente dentro do homem e nas suas relações com o mundo ― o conflito entre os vários fatores da fragmentação, cada fragmento contra os outros fragmentos que compõem o ente humano — mas consideraremos também se é possível o ente humano libertar-se totalmente desses conflitos, já que só assim poderá ele conhecer o significado do amor e também, talvez, compreender a pleno o significado da morte e do viver. Assim, em primeiro lugar precisamos compreender o que o conflito faz à mente humana.

Em todo o mundo os entes humanos acham-se em conflito, dentro de si mesmos, com seus semelhantes, com o mundo, com o ambiente de que fazem parte. E enquanto não compreendermos este problema e por nós mesmos descobrirmos se há possibilidade de, definitiva e totalmente, pormos termo ao conflito, nunca conseguiremos viver em paz com nós mesmos nem com a sociedade.

Só a mente que se acha inteiramente em paz (mas não dormindo), a mente que não se põe hipnoticamente num estado que ela considera ser um estado de paz — a mente que um realmente em paz, só esta pode descobrir o que é a verdade, o que significa viver, o que significa morrer, e conhecer o amor em toda a sua profundeza e amplidão.

Vamos primeiramente investigar, em comum, porque o homem vive em conflito, porque viveis em conflito. Não sei se estais cônscio, se vedes que interiormente estais fragmentado, dividido. Sois negociante e chefe de família; sois artista e, ao mesmo tempo, ávido e invejoso, buscais poder, prestígio, fama. Sois cientista e também um ente humano como os outros, insignificante e vulgar. Como entes humanos estamos fragmentados, interiormente divididos, e a menos que vos torneis cônscios de estardes realmente fragmentados, a menos que compreendais totalmente este fato, vossa mente será incapaz de percepção.

Só a mente que não está sendo torturada, deformada, só a mente lúcida, livre de quaisquer marcas de conflito, pode ver o que é a verdade e, por conseguinte, ser capaz de viver. Ora, precisamos estar bem cônscios desse problema, desse conflito tanto individual como social. Qual a sua causa fundamental? Existe ele por culpa do ambiente, da educação que recebemos, da cultura em que vivemos? É por culpa do ambiente que vos vedes em conflito, constantemente, dia e noite, do nascer ao morrer? Se percebeis realmente que, em vós mesmo, estais fragmentado, dividido, em contradição, já deveis então ter perguntado a vós mesmo por que razão vive o homem nesse estado.

E fostes vós que criastes o ambiente, a sociedade em que viveis, as religiões e deuses que aceitastes. Vossos deuses são projeções vossas. Sois, portanto, responsável pelo conflito, pelo ambiente, pela sociedade em que viveis, por todas as crenças, dogmas e rituais. Sois, total e absolutamente, responsável pelo ambiente e pela sociedade em que viveis. Assim, uma vez cônscio, intensa e apaixonadamente cônscio, e não apenas verbalmente, de que sois o mundo e o mundo é vós, que acontece?

Não sei se já indagastes porque existe conflito no homem, em vós. Se já o fizestes, qual a resposta? Buscais a resposta no que outro disse — Sankara ou Buda — buscais a resposta em alguma autoridade? É isso que fazeis ao vos interrogardes porque — como ente humano responsável por toda a estrutura do ambiente em que viveis e do qual fazeis parte ― existe em vós esse conflito? Pode alguém responder por vós a essa pergunta? Se outros responderem, tal resposta será mera descrição, mera explicação. Mas, nem a explicação, nem a descrição são a coisa explicada ou descrita.

Cabe-vos, portanto, desconsiderar de todo a autoridade. Cumpre-vos descobrir porque vos achais em conflito e, para o descobrirdes, necessitais de energia. Necessitais de abundante energia para descobrirdes por vós mesmo a razão por que o homem — vós — vive em conflito.

Ora, investigando a causa do conflito, fazeis uso do intelecto, como instrumento de análise, não é verdade? Fazeis uso do intelecto como instrumento de análise e, por meio dele, esperais descobrir a causa do conflito. O intelecto é uma parte, um fragmento da totalidade. Esperais encontrar a solução de tamanha questão por meio de uma coisa fragmentária, chamada “intelecto”, o único instrumento que possuis. Assim, indagando a causa do conflito por meio do intelecto, só obtereis uma resposta parcial, pois o intelecto é fracionário, não sendo, portanto, o instrumento adequado. E isso significa que deveis desfazer-vos já desse instrumento e achar outro de diferente espécie.

Até agora temo-nos servido do intelecto como meio analítico de descobrirmos porque o homem sofre, porque vive em conflito; e o intelecto é um fragmento do todo. O homem não é só intelecto; é também sistema nervoso, emoções, etc. E, com uma parte dessa estrutura, queremos descobrir a causa do sofrimento e conflito do homem. Quando se examina com um instrumento fracionário, a compreensão será sempre parcial e, por conseguinte, incompleta.

E deveis ver, também, que necessitais energia, não? Ora, a energia que temos está dividida, é também fragmentária. Na fragmentação há energia. Em cada fragmento há energia, assim como no calor há energia; e, no controlá-la, há também energia. Dividimos, pois, a energia em fragmentos, ao passo que a energia humana, a energia cósmica, toda e qualquer espécie de energia é um movimento unitário. Como dissemos, necessitamos de energia para compreendermos a estrutura e natureza do conflito e fazermo-lo cessar. Necessita-se de intensa energia, e não de energia fragmentária, como, quando dizemos: “Preciso libertar-me do conflito”.

Quem é o “eu” que diz “devo livrar-me do conflito” ou “devo reprimi-lo”? É uma fração de energia. São, portanto, energias em conflito. Estamos indagando qual é a causa desse conflito. É bem fácil achá-la: a causa é o observador separado da coisa observada. Há, em vós, o “observador”, que olha aquela árvore com seus conhecimentos, seu condicionamento, trazidos do passado, e a olha como coisa separada de si próprio.

O “observador” diz: “Faça isto, não faça aquilo.” O observador tem certos valores, certos juízos e é, em verdade, o censor, que está sempre a observar, a rejeitar, a controlar, e a separar-se da coisa que está observando. Se, ao sentirdes cólera ou ciúme, vos observardes atentamente, vereis que existe o observador que diz: “Estou enciumado, encolerizado.” O dar nome à reação, o chamá-la “cólera”, separa-o da cólera.

Sois capaz de olhar aquela árvore sem lhe dar nome, sem deixar interferir o pensamento, que é reação da memória — sois capaz de observá-la simplesmente? A esse respeito falamos sumariamente na reunião anterior; dissemos que olhais para a árvore através da imagem que dela tendes e, portanto, não a estais olhando realmente, De modo idêntico, se tendes uma imagem de vossa esposa, marido ou amigo, olhais para a pessoa através dessa imagem. Há, pois, dualidade. Essa divisão entre o observador e a coisa observada é a essência mesma do conflito, da divisão.

Quando sinto cólera, nesse momento não há observador. Prestai atenção: vou examinar esta questão passo a passo. Acompanhai-me, observando a vós mesmo, observando que em vós mesmo está ocorrendo. Ao sentirdes cólera, nesse momento, nesse segundo, não há observador; um segundo após entra em cena o observador, dizendo: “Estive encolerizado.” O observador se separou da cólera, dando-lhe nome, dando nome ao sentimento. Deu-lhe nome para reforçar a memória. A memória diz: “Você esteve encolerizado.” A memória é o censor que diz: “Você não devia ter-se encolerizado; seja generoso, não reaja, dê-lhe a outra face.” A reação da memória, como pensamento, se torna o observador separado da coisa observada e a dizer: ” Tenho cólera, ciúme, inveja.” — e começa o conflito.

Assim, onde há observador e coisa observada, lá está a raiz do conflito.

Ora, é possível observar-se a cólera sem o “observador”? Esta é a questão imediata. No momento da cólera ou do prazer, não há observador; um segundo após, aparece o observador. O observador é o “censor”, o “registrador”, as células cerebrais, em que se conservam as “memórias”, e, por consequência, o observador diz: “Devo, não devo, quero mais, quero menos.” Assim, perguntamos: Pode haver observação sem “observador”? Entendeis? Esta é uma questão imensa. Estamos condicionados para criar esse conflito que surge quando há um observador diferente da coisa observada. Tal é nossa tradição, nossa condição, o resultado de nossa cultura. E, se funcionamos com base no hábito, há desperdício de energia. E quando reagimos prontamente, isto é, quando O “observador” reage imediatamente a uma emoção, a reação provém sempre do velho cérebro. Estamos agora perguntando se pode haver observação sem o “observador”‘. Para se pôr fim a um hábito, uma tradição, sem conflito, requer-se energia.

Simplificando: Estou encolerizado; neste momento não há “observador”, como “eu”, a dizer: “Estou encolerizado.” Um segundo após, surge a entidade “observador”. Essa entidade é o “censor”, que diz: “Não devo encolerizar-me.” A reação do observador vem da tradição, do hábito, do velho cérebro, e dissipa energia, quando necessitamos de nossa energia total para observar sem o “observador”, Estais-me seguindo?

Formulamos de modo diferente a questão: Que é vossa vida, vossa vida de cada dia, não vossa vida ideológica, a vida que gostaríeis de ter ou esperais ter: vossa vida real de cada dia — “o que é”? Que é vossa vida? Uma batalha, não, com ocasionais lampejos de prazer, prazer sexual ou outras formas de prazer sensual. Vossa vida é uma constante batalha. Pode essa batalha cessar?

Para pordes fim a essa batalha, deveis olhar todo o campo da existência; não apenas uma parte dele: sua totalidade. Em nosso estado atual somos incapazes de observar o campo inteiro ― o todo — porque dividimos a vida em vida de negócios, vida de família, vida religiosa, etc.; e, como cada uma dessas frações tem sua própria energia ativa, cada fragmento está oposto aos outros fragmentos e, assim, essas energias fragmentárias estão dissipando nossa energia total.

Pode-se olhar o campo inteiro, nossa complexa existência — seu aspecto econômico, social, familial, pessoal, comunal — como um só todo, percebê-lo totalmente? Para percebê-lo totalmente, necessitamos de uma mente não fragmentada. Como consegui-la? Como pode a mente fragmentada sacudir todos os

fragmentos, para ter uma percepção total? Entendeis esta pergunta? Não posso ver o inteiro e complexo campo da existência através de uma estreita fresta que chamo “intelecto”. Não posso vê-lo, porque o intelecto é um fragmento e não posso servir-me de um fragmento para compreender o todo. Eis um fato muito simples. Deve haver uma diferente espécie de percepção e essa espécie de percepção só existe quando o observador está ausente, quando podeis olhar uma árvore sem nenhuma imagem, quando podeis olhar vossa esposa ou marido sem imagem de espécie alguma, quando podeis olhar o muçulmano e o muçulmano pode olhar-vos, sem as respectivas imagens. Essas imagens são produzidas pelo observador e, se percebeis esta verdade, não como simples dedução lógica, porém como fato real e verdadeiro ― como quando vedes a periculosidade de uma serpente ― atuais imediatamente. Assim, ao verdes a verdade de que há conflito sempre que há observador — e o observador é o produtor de imagens, é tradição, é a entidade condicionada, é o censor ― ao verdes esta verdade, estareis então observando sem observador e vendo a totalidade da existência.

Tem a mente, então, uma energia tremenda, porque sua energia não está sendo dissipada. Nós dissipamos energia no controlar. Já observastes um sannyasi ou um monge que fez os votos de celibato e de pobreza? Quantas torturas não atravessa ele por causa da imagem que tem de que a Verdade só será descoberta se ele for celibatário, senão, diz ele, haverá desperdício de energia pela atividade sexual. Para encontrar a Realidade, ele necessita de sua energia total, mas acha-se, interiormente, empenhado numa batalha. Compreendestes? Tem ele, portanto, a imagem de que deve ser celibatário; essa imagem cria a divisão entre ele próprio e o que realmente é.

Ora, se puderdes observar “o que é”, sem o censor, haverá transformação de “o que é”. Sou violento; e esta é, aparentemente, a condição humana normal: ser violento. Sou violento; no momento da violência não há observador; este só aparece segundos após, dizendo: “Não devo ser violento.” Isso, porque tenho uma imagem, um ideal da “não violência”, que me impede de observar a violência. Assim, digo entre mim: “Tornar-me-ei cada dia menos violento; dia por dia alcançarei o estado final de “não violência.” Ora, que implica este simples fato de que sou violento e um dia serei “não violento”? Implica, em primeiro lugar, que existe “observador” e “coisa observada” e, em segundo lugar que, antes de alcançar o estado de “não violência”, o “observador” estará semeando os germes da violência. E há, também, o fator tempo, ou seja o tempo que decorrerá até ele se tornar completamente “não violento” ― o espaço entre a

violência e a “nāo violência”. Nesse espaço, sobrevêm outros fatores, de maneira que ele nunca ficará livre da violência. Observa-se que as pessoas que falam incessantemente sobre “não violência” são extremamente violentas; porque, alegando que, no fim de certo tempo, alcançarão o estado de não violência, no ínterim continuam violentas.

O fato, pois, é a violência; “o que é” é a violência. Esse fato posso observar, mas tal observação só é possível quando a mente não está ocupada com o ideal da “não violência”. Então ela é capaz de observar “o que é”. Ora, como observais “o que é”? Com vossa mente condicionada, dizendo “Não devo ser violento”? Com a imagem que tendes a respeito da violência ― Ou existe uma qualidade de observação sem a palavra, sem a imagem? Observar sem imagem requer abundante energia. Observando sua imagem, não desperdiçais energia, reprimindo ou transformando o que observais (a violência) ou seguindo um ideal de “não violência”.

Examinemos agora, pela mesma maneira, O problema relativo a isso que chamamos “amor”. ]á vimos o que é que chamamos viver: uma coisa artificial, uma batalha; e, investigando essa questão, vimos que é possível — não intelectualmente, porém realmente — livrar-nos desse conflito. Investiguemos, agora, a fundo, o que é o amor, não segundo vossa opinião ou a opinião ou conclusão de alguém: o que ele realmente é. Que é o amor? É prazer, é desejo, é sexo, ciúme, posse, domínio, dependência? Se dependeis, estais na rede do medo. Se dependo de minha mulher, porque ela me proporciona prazer sexual, se dela dependo para ter conforto, companhia, essa dependência gera medo, essa dependência gera ciúme, ódio, antagonismo, espírito de posse, desejo de domínio. Isso é amor? indagai, examinai, descobri. O prazer, associado ao sexo, é amor?

E porque se tornou o sexo tão desmedidamente importante em nossa vida? Porque, senhores, porque no mundo moderno, e também na antiguidade, fizemos do sexo uma coisa de colossal importância? Porque se diz que não podemos alcançar a realidade, o esclarecimento, se temos atividades sexuais? Vejamos.

Em primeiro lugar, cumpre investigar o que é prazer. Vedes uma bela árvore, uma nuvem formosa, o rosto encantador de uma criança, as belas feições de um homem ou de uma mulher; que acontece então? Vedes os suaves raios da Lua a rutilar sobre as águas com tanta beleza e, logo a seguir, chega o pensamento, dizendo: “Que bela experiência! — preciso repeti-la amanhã? Estais prestando atenção? O pensamento, que é reação da memória, ao ter aquela bela experiência diz: “Quero repeti-la amanhã? No momento da percepção daquela luz espelhada na água, nada havia — nem prazer, nem o desejo de repetição. Era a plena e absoluta percepção da beleza. Veio depois o pensamento: “Vamos repetir isso amanhã; vamos olhar novamente aquelas águas.” Já se trata, pois, de prazer: a repetição de uma “experiência” que o pensamento reduziu a prazer; é desse modo que o pensamento dá continuidade e força ao prazer. É preciso compreender isso. Na semana passada sofrestes dor física, uma terrível dor de dentes. Temeis que ela volte amanhã, na próxima semana; está em ação o pensamento.

O pensamento sustenta tanto o prazer como o medo. Em torno do amor, ele ergueu uma estrutura de prazer e, por essa razão, os santos e as religiões dizem: “Não olheis uma mulher; reprimi, controlai o desejo” — e o que acontece é ficardes empenhado numa batalha, dissipando energia. Que é, pois, o amor? É prazer, medo? O medo é ciúme, violência. Quando possuís vossa esposa, quando a chamais “minha”, isso não é violência, e violência é amor?

Estamos agora perguntando porque é que os entes humanos fizeram do sexo uma coisa tão importante. Já refletistes sobre isso? Já observastes porque, em vossa vida, o sexo se tornou de tamanha relevância? Já notastes como vossa vida é mecânica ― trabalhar todos os dias, repetir, repetir sempre ― e quanto sois mecânico, citando vossos livros religiosos, praticando vossos ritos, denominando-vos hinduísta, muçulmano, cristão, comunista e sabe Deus o que mais? Tudo hábito mecânico, tudo repetição!

Só uma coisa possuís fora dessa existência de competição e repetição: o sexo. Mas vós o reduzistes a um hábito que vos alivia do tédio da vida. Convertestes, pois, o amor numa coisa mecânica, numa fonte de prazer. Isso é amor?

Para descobrirdes o que é o amor, tendes de rejeitar tudo o que ele não é. Essa rejeição implica compreensão do que é o prazer. É necessário compreendê-lo, em vez de dizer-se: “Devo rejeitar o prazer” — o que equivale a dizer “devo rejeitar o desejo”. Para isso é que fostes educado, isto é, para aceitar a tradição de que o desejo é pecaminoso e que é necessário transcendê lo.

Ao admirardes uma árvore, a beleza de uma folha, a dança de sua sombra, sentis grande deleite. Que mal há nisso? Porque negastes a beleza, vossa vida se tomou mecânica. Nunca olhais as árvores; preferis derrubá-las; nunca olhais para o céu, as nuvens, a beleza da paisagem, porque, no fundo de vossa mente, entretendes a ideia de que, para ser verdadeiramente religioso, não deve o homem olhar para as coisas belas, porque a beleza pode lembrar a mulher. Eis o que chamais religião, eis o caminho que estais trilhando para achar Deus. Para achardes a realidade, necessitais de uma mente livre, e não de uma mente torturada; necessitais de amor sem ciúmes nem temores. Ignorais o que significa amar, o quanto isso é belo, porque não sabeis o que exprime viver uma vida de beleza, livre de conflito: só conheceis o viver sujeito a tal ou tal padrão e, portanto, fragmentário. Separastes o viver do morrer. Vede o que isso implica.

A morte lá está, à distância. Podeis afastá-la do pensamento, mas sabeis que qualquer dia ela chegará; por isso, inventamos teorias ― como a reencarnação. Existe uma próxima vida? Se credes na reencarnação, se credes que o que sereis na próxima vida dependerá do que tiverdes feito nesta vida, então a vida presente é bem mais importante do que a futura, quer dizer, muito importa o que fazeis agora, a maneira como vos comportais agora é relevante. Mas, na realidade, não credes na reencarnação. É uma mera teoria que vos proporciona uma temporária consolação. Se nela crêsseis verdadeiramente, então, cada minuto do dia teria peso, cada ação, significado. Portanto, agora é o momento de serdes virtuoso, e não na próxima vida. Não sei se estais compreendendo bem. Tendes incontáveis teorias a respeito da morte, e nunca a olhastes de frente.

Tratai, pois, de descobrir a natureza da morte enquanto estais vivo, cheio de vitalidade e energia; não o deixeis para quando estiverdes prostrado pela doença, inconsciente ou cheio de dores e de aflição. Não é nesse instante que podeis descobrir o que é a morte, e, sim, quando sois capaz de olhar, de andar, de observar, de estar cônscio do mundo exterior e interior, de compreender o que é viver e o que significa amar.

Que é, pois, a morte? Os velhos fazem esta pergunta por medo, porque estão perto de morrer. A velha geração nada vos oferece senão teorias sobre a morte. Nada tem para vos oferecer de tradicional ou de atual. Que vos deram eles, cultural, social, economicamente? Vede, senhor, o que eles vos deram: uma estrutura social corrompida, cheia de iniquidade, uma estrutura que fomenta a guerra, o nacionalismo, etc. Qualquer homem inteligente rejeita totalmente tal estrutura, inclusive a respectiva moralidade. Que pode, pois, oferecer-vos a velha geração ― que teme a morte? Nada, senão palavras e mais palavras, e medo. Não aceiteis, pois, o que outro homem disser sobre a morte. Tratai de descobrir seu significado.

Que significa morrer ― não de velhice, paralisia, doença, acidente — mas agora, aqui sentados, conscientes, despertos, escutando com uma mente verdadeiramente séria? Estamos perguntando o que é morrer, o que é não ter medo. Não sabeis o que significa morrer; só sabeis o que significa findar, isto é, o fim das coisas que conheceis, de vosso saber acumulado, de vossas esperanças, de vossa família, de vossa esposa, de vossos filhos, que pensais amar; se deveras os amásseis, teríeis um mundo diferente. Que significa, pois, morrer? Temeis o fim do conhecido; não temeis a morte, porque dela não sabeis absolutamente nada.

Que temeis, então? O fim do conhecido? E, que é o conhecido? São vossas “memórias”, todo o conjunto de vossas tribulações, vossos móveis, vossa casa, ressentimentos acumulados, conflitos, tristezas; a tudo isso estais apegado e dizeis: “Nāo quero morrer.” É disso que tendes medo — de largar o conhecido, e não da morte? Ora, largai o conhecido, largai vossas lembranças, largai todos os vossos prazeres, “memórias” acumuladas, pesares, ânsias; morrei por inteiro para tudo isso, para terdes uma mente de todo nova. Eis o que significa morrer: não levar para diante vossas “memórias”, vossas fúteis ou deleitáveis experiências. Vivei, cada dia, sem acumulação, e sabereis o que significa morrer completamente, de modo que a mente seja amanhã nova, juvenil, “inocente”, cheia de energia. Do contrário, não importa o que façais, se não tendes amor, se não tendes a compreensão da beleza desse morrer, jamais tereis acesso àquilo que é indenominável.

Madrasta, 10 de janeiro de 1971.

Alquimia e Mutação

Diálogo entre Krishmamurii (K) e duas pessoas amigas (P e S)

Publicado originalmente na carta de Notícias nº 257, janeiro -junho de 1989

― Nova Déli, 14 de dezembro, 1970

P — Eu estava pensando se valeria a pena discutirmos a tradicional atitude indiana ante a alquimia e a mutação, e verificar se as descobertas da alquimia têm alguma importância para o que o senhor está dizendo. Nagarjuna, um dos maiores expositores do pensamento budista, era um Mestre alquimista. A busca alquímica. na Índia, não se destinava propriamente a transformar metal em ouro; consistia, pelo contrário, em investigar certos métodos psicofísicos e químicos que, através da mutação, libertassem o corpo e a mente da deterioração causada pelo tempo e dos processos de decadência. Essa investigação implicava dominar a respiração, tomar um elixir preparado em laboratório (substância em que entrava o mercúrio como elemento principal) e provocar uma explosão na consciência. A ação dessas três coisas produzia uma mutação no corpo e na mente. Os alquimistas usavam uma simbologia sexual: o mercúrio era a semente masculina de Xiva e a mica, a semente da deusa; a união das duas, não apenas fisicamente, nos cadinhos do laboratório, mas também na própria consciência, determinava uma mutação no ser, um estado livre do tempo e do processo de envelhecimento, um estado que nenhuma relação tinha com os dois elementos que, unidos, haviam causado a mutação. Terá isso alguma relação com o que o senhor está dizendo?

K ― Está falando do estado de consciência que se acha fora do tempo?

P ― Em todo indivíduo vemos o elemento masculino e o feminino em ação. O alquimista viu a necessidade da união, do equilíbrio. Haverá algum valor nisso?

K ― Acho que podemos observar isso em nós mesmos. Frequentemente tenho verificado que em cada um de nós existem os elementos masculino e feminino. Ou se encontram em perfeita harmonia, ou em desarmonia. Quando ocorre esse equilíbrio perfeito entre o masculino e o feminino, então o organismo físico nunca adoece realmente; poderá ter uma doença leve, mas nada tão grave que destrua o organismo. Talvez fosse isso que buscassem os antigos — simbolizando o masculino e o feminino com o mercúrio e a mica e procurando, através da meditação e do estudo, e mesmo através de alguma espécie de medicina, conseguir essa harmonia perfeita. Podemos ver, claramente, atuando em nós, o masculino e o feminino. Quando um dos dois se toma mais forte, o desequilíbrio produz a doença — não, uma doença passageira, mas uma enfermidade grave. Já notei, em mim mesmo, que, em diferentes situações e locais, com pessoas agressivas, violentas, o aspecto feminino se manifesta mais forte. E disso o outro procura valer-se. Mas, quando aumenta a feminilidade, o macho deixa de ser agressivo e não resiste mais.

S — Quais são os elementos masculino e feminino?

 

 

K – O masculino, geralmente, é agressivo, violento, dominador e o feminino é a docilidade que é tomada por submissão e explorada pelo homem. Mas a docilidade, considerada como a qualidade feminina, é, de fato, a bondade que, aos poucos, conquista o outro. Quando 0 feminino e o masculino se encontram em perfeita harmonia, a natureza de ambos muda, já não é mais nem masculina nem feminina. É algo totalmente diferente. O masculino e o feminino são vistos como positivo e negativo em virtude de sua natureza dual ao passo que o equilíbrio, a harmonia dos dois possui uma nova natureza. Posso dizer uma coisa? É como a natureza da terra: tudo vive nela embora nada seja dela. Já muitas vezes observei como isso atua. Quando a mente sai do físico e do meio-ambiente é como se estivesse muito distante — não, no espaço nem no tempo, mas num estado que nada consegue tocar. Esse estado não é abstração nem isolamento, mas um total não-ser interior. Essa harmonia perfeita, sem conflito, tem a sua própria vitalidade. Ela não destrói o outro. Portanto, o conflito não está somente no exterior, mas no interior também e, quando cessa, ocorre uma mutação livre do tempo.

P — A isso o alquimista denominava o nascimento de Kumara, da criança encantada — aquele que nunca, envelhece, aquele que é totalmente inocente.

K ― Isso é muito interessante; só que a alquimia se tomou sinônimo de charlatanice.

P ― Mas os alquimistas, os Mestres que eram conhecidos como rum siddhas (os mensageiros da essência), afirmavam que aquilo que eles descreviam tinham visto com os próprios olhos, que aquilo que relatavam não era coisa de ouvir dizer nem fora transmitido por qualquer instrutor. E há outro fato importante. Na alquimia, dava-se muito valor ao instrumento que era o receptáculo. Daí nasceu a metalurgia — e um dos vasos ou yantras era o que se conhecia como garbha yantra, isto é, o vaso do útero. Essa é uma palavra-chave da alquimia. Haverá algo assim como preparar o útero da mente?

K ― A palavra preparação implica um processo no tempo.

P ― Os alquimistas também sabiam que o ponto de mutação, de fixação do mercúrio, do nascimento do atemporal, não dependia do tempo.

K — Não empregue a palavra preparação. Vejamos assim: será necessário um estado, uma base (“background”), um receptáculo para isso? Diria que não. Quando, no passado, descobriram o menino Krishnamurti, as pessoas que eram tidas como clarividentes notaram que ele não tinha qualquer traço de egoísmo e que, por isso, podia ser o receptáculo e creio que isso não mudou.

S ― Talvez seja assim; mas o que acontece com as pessoas comuns como nós? Será um privilégio somente para uns pouquíssimos, um em cada mil anos ou mais, ou poderá também ocorrer com as pessoas que estão interessadas em tudo isso, empenhadas nisso, que investigam, seriamente, essa questão?

K — Para responder a essa pergunta, é preciso considerar certos fatores físicos e estados psicológicos. Do ponto de vista físico, é indispensável a sensibilidade. Não pode haver sensibilidade física enquanto se fuma, se bebe e se come carne. É imperioso manter a sensibilidade do corpo. Isso é fundamental. Tradicionalmente, um corpo assim permanecia em determinado lugar, cuidado por discípulos, pela família. O corpo não podia sofrer qualquer perturbação nem ser exposto a coisa alguma. Poderá um homem que leve isso tudo a sério, com um corpo que passou pelo processo comum de embrutecimento, torná-lo altamente sensível? E quanto à psique: poderá livrar-se ela de todas as feridas e marcas deixadas pelas experiências de modo que se renove, de modo que fique livre das cicatrizes do sofrimento? São duas coisas essenciais, portanto: a sensibilidade e a psique sem cicatrizes. Creio que qualquer pessoa realmente séria consegue realizar isso. O útero, Como sabem, está sempre apto a conceber. Ele se renova a si mesmo.

P — Como a terra, o útero possui uma inerente capacidade de renovação.

K — Creio que a mente também.

P — Tanto a terra que dorme quanto o útero que descansa, ambos têm esse inerente poder de renovação.

K — A terra, o útero e a mente são da mesma natureza. Quando a terra fica em repouso, o útero, vazio e a mente, sem qualquer movimento, então há renovação. Quando a mente fica de todo vazia, é como o útero: pode renovar-se, receber.

P — Esse, portanto, é que é o vaso, o receptáculo.

K ― Sim, esse é o vaso; mas precisamos ser muito cuidadosos ao usar a palavra vaso, receptáculo. Essa peculiar aptidão que a mente possui de se renovar pode ser chamada de eterna juventude.

P — Conhecida como kumara vidya.

K — Por conseguinte, o que é que faz a mente envelhecer? E claro que é o movimento do eu.

P — O eu danifica as células?

K — O útero sempre está pronto a receber. Ele tem o poder de auto-purificação; mas a mente, com a carga do eu, que é atrito, não tem espaço para se renovar. Tão ocupado fica o eu consigo mesmo e com suas atividades, que a mente não tem espaço para se renovar. O espaço é necessário, não somente o espaço físico mas o psíquico também. Como se relaciona isso com a alquimia?

P — Eles usam uma linguagem diferente. Falam de mutação através da união.

K ― E tudo isso implica esforço, conflito.

P — Como sabemos?

K — Desde que envolve um processo qualquer e uma forma de realização, já implica esforço.

* Krishnamurti. Tradition and Revolution. New Delhi, Orient Longman, 1972, p. 4-7. Livro ainda inédito em português.

* Trad. do diálogo: Vanfredo. Rio, 1989

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Com a grande aceitação da publicação do livro online “Seleta de Krishnamurti”, do falecido ex-vice-presidente da ICK Carlos de Souza Neves, uma coletânea de excertos de 160 obras de Krishnamurti, que o autor selecionou durante doze anos, decidimos estender a ideia e trazer ao público mais material de consulta e estudos. Agora os visitantes do nosso site poderão encontrar vasto material para impressão ou leitura online, pois a ICK, com a colaboração de um grupo de tradutores e revisores voluntários, está dando início à publicação de toda a obra de Krishnamurti já disponibilizada em inglês na Internet. Os textos originais vêm do site J. Krishnamurti Online, repositório oficial dos ensinamentos, o que garante a autenticidade dos mesmos. As traduções serão publicadas à medida que forem sendo concluídas, pedimos, porém, aos leitores que puderem cotejá-las com os originais, também ali publicados, que nos ajudem a aprimorar o nosso trabalho, enviando sugestões e comentários.

Já estão disponíveis as dez palestras da Série Saanen 1963 e o texto avulso “Um Diálogo Consigo Mesmo”, mas, em breve, esta lista irá crescer bastante, uma vez que os trabalhos de tradução e revisão continuam sendo feitos de forma continuada.

Os textos podem ser encontrados no nosso site, no link Biblioteca online.

 

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