Carta de Notícias Nº 8

 

ICK
Instituição Cultural Krishnamurti

70 anos

Carta de Notícias
Inverno 2005 – n8 – Ano III *
A Carta de Notícias é um boletim trimestral, em formato eletrônico, editado pela Instituição Cultural Krishnamurti e distribuído gratuitamente, por email, aos que se cadastrarem no seu site www.krishnamurti.org.br. Além de levar notícias da ICK aos seus colaboradores e simpatizantes dispersos na vastidão geográfica de língua portuguesa, a Carta de Notícias procurará também, a exemplo do que fez durante décadas a versão impressa, difundir um pouco dos ensinamentos de J. Krishnamurti, razão de ser da Instituição.

*  versão eletrônica
ICK

COMISSÃO EXECUTIVA
Onofre Máximo
Ivan Mourão
Rolf Mayr 

COMISSÃO FISCAL
Carlo Corabi
Gilberto Fugimoto 

RUA DOS ANDRADAS, 29 – SALA 1007
20051-000 – RIO DE JANEIRO – RJ
TEL. / FAX: (21) 2232-2646

www.krishnamurti.org.br

Editorial

A Carta de Notícias vem sendo publicada pela ICK desde 1936. Durante décadas ela foi editada em papel, na forma de livreto e distribuída gratuitamente, pelo correio, entre os associados, mas, com o passar dos anos, a elevação dos custos de impressão e postagem, aliada a não renovação do quadro de associados, tornou inviável a continuidade da sua publicação.


O advento da Internet e a criação do nosso site abriu novas oportunidades de comunicação com o vasto público brasileiro, e mesmo do exterior, através de meios eletrônicos eficientes e baratos. Voltamos então a publicar a Carta de Notícias na forma de boletim eletrônico que você vê agora.



Recentemente, recebemos um email da empresa WS Comunicação & Marketing Ltda. dizendo-se propritária da marca Carta de Notícias e nos ameaçando com medidas legais caso continuemos a publicar o nosso tradicional boletim.



Numa visita ao site da reclamante em www.cartadenoticias.com.br constatamos não haver a menor possibilidade de confusão entre o nosso singelo boletim e o que aquela empresa comercializa.



Como se isso não bastasse, acreditamos ter direito de precedência sobre a marca, pois podemos provar, através de números antigos da Carta de Notícias, que a usávamos de boa fé há quase 50 anos.



Entendemos contudo, que o que está em voga aqui não é uma mera questão legal, mas sim a velha intolerância humana, que persiste apesar de todo o ensinamento que  Krishnamurti nos legou.



Estatísticas do nosso site


No mês passado,  o nosso site atingiu  a média  de  82 visitas diárias.



Cerca de trezentas pessoas estão cadastradas, em menos de seis meses de funcionamento do nosso fórum, e esse número cresce rapidamente, na medida em que novas inscrições são feitas quase todo dia.


DVD’s

Continuam os entendimentos com a KFT – Krishnamurti Foundation Trust para o lançamento no Brasil de DVD’s das palestras de Krishnamurti com legendas em português. Trata-se de material com alta qualidade técnica que, se puder ser oferecido a bom preço, irá substituir com vantagens as fitas de VHS e os VCD’s.

Críticas e sugestões

Ajudem-nos a aprimorar o nosso boletim. Enviem, por favor, suas críticas e sugestões para ick@krishnamurti.org.br.

Perguntas e Respostas

Do livro “Palestras no Brasil”

Pergunta: É possível viver sem exploração, individual e comercial?

Krishnamurti: A maioria de nós é arrastada pela mera sensação da posse. Desejamos adquirir e portanto começamos a acumular cada vez mais, imaginando que através do acúmulo encontraremos felicidade, segurança. Enquanto existir o desejo de acumular e de adquirir haverá exploração e somente poderemos nos libertar dessa exploração quando começarmos a despertar a inteligência, através da destruição dos valores auto-protetores. Porém, se meramente tentarmos descobrir quais são as nossas necessidades e a elas nos restringirmos, então nossa vida tornar-se-á pequena, superficial e mesquinha. Ao passo que, se vivêssemos inteligentemente, sem acúmulos auto-protetores, então não existiria a exploração com suas múltiplas crueldades. Tentar resolver estes problemas pelo mero controle das condições econômicas do homem ou pela simples renúncia, parece-me uma abordagem errônea de tão complicado problema. Só mediante a compreensão voluntária e inteligente da futilidade e da ignorância da auto-proteção é que pode advir a libertação da exploração.

Despertar a inteligência é descobrir, por meio da dúvida e do questionamento, o verdadeiro significado dos valores que adquirimos, das tradições, sejam elas religiosas, sociais ou econômicas, que herdamos ou conscientemente construímos. Num tal questionamento, se é real e vital, funda-se a descoberta inteligente das nossas necessidades. Esta inteligência é a garantia da felicidade.

Pergunta: Deveremos quebrar nossas espadas e transformá-las em arados ainda que o nosso país seja atacado por um inimigo? Não será um dever moral defender nosso país?

Krishnamurti: Para mim a guerra é coisa fundamentalmente errônea, seja ela defensiva ou agressiva. O sistema de aquisições no qual se baseia toda esta civilização tem de, naturalmente, criar distinções raciais, nacionais e de classe, conduzindo inevitavelmente à guerra, que se pode denominar defensiva ou ofensiva, de acordo com os ditames dos líderes comerciais e dos políticos. Enquanto este sistema econômico explorador existir, tem de haver guerra; e o indivíduo que se defronta com a questão de dever ou não combater, decidirá de acordo com a sua cobiça, a qual, por vezes, ele chama patriotismo, ideais, e assim por diante. Ou então, compreendendo que todo esse sistema deve inevitavelmente conduzir à guerra, ele, enquanto indivíduo, começará a se libertar inteligentemente deste sistema. O que vem a ser a única solução verdadeira, a meu ver.

Através de nossa cobiça, nós construímos no decurso de muitos séculos este sistema esmagador de exploração, que está destruindo toda a nossa sensibilidade, nosso amor pelo outro. E quando perguntamos “não deveríamos combater pelo nosso país, não será esse o nosso dever moral?”, há algo inerentemente errôneo, algo fundamentalmente cruel na própria pergunta. Para se libertar dessa estupidez extrema – guerra – o homem tem de reaprender a pensar desde o princípio. Enquanto a humanidade estiver dividida pela religião, por seitas, por credos, por classes, por nacionalidades, haverá guerra, haverá exploração, haverá sofrimento. Só quando a mente começa a se libertar dessas limitações, só quando a mente mergulha dentro do coração, é que existe verdadeira inteligência, a qual é a única solução restante para as crueldades bárbaras desta civilização.

Pergunta: Como poderemos ajudar melhor a humanidade a compreender e viver vossos ensinamentos?

Krishnamurti: É muito simples: vivendo-os vós mesmos. O que é isto que estou eu ensinando? Não vos dou um novo sistema, ou um novo conjunto de crenças; porém digo-vos, olhai para a causa que engendrou esta exploração, esta falta de amor, medo, guerras contínuas, ódio, distinções de classes, a divisão de homem contra homem. A causa é, fundamentalmente, o desejo por parte de cada um de proteger-se por meio da aquisição, por meio do poder. Todos desejamos prestar auxílio ao mundo, porém jamais começamos por nós mesmos. Pretendemos reformar o mundo, porém a mudança fundamental terá de operar-se primeiro em nós mesmos. Principiai, portanto, por libertar a mente e o coração deste sentimento de posse. Isto exige, não a mera renúncia, mas discernimento, inteligência.

Pergunta: Qual a vossa atitude em face do problema do sexo que desempenha papel tão preponderante em nossa vida diária?

Krishnamurti: Isso se tornou um problema porque não há amor. Não é assim? Quando realmente amamos, não existe problema, há um ajustamento, um entendimento. Só quando perdemos o senso do verdadeiro afeto, aquele profundo amor no qual não há sentimento algum de posse, é que o problema do sexo surge.  Somente quando nos entregamos completamente à mera sensação é que há múltiplos problemas relativos ao sexo. Como a maioria das pessoas já perdeu a alegria do pensar criativo, naturalmente voltam-se para a mera sensação decorrente do sexo, que se torna um problema que lhes devora a mente e o coração. Enquanto não principiardes por investigar e compreender o significado do ambiente, dos múltiplos valores que haveis criado ao redor de vós para a proteção individual e que esmagam o pensar fundamental, criativo, naturalmente tereis que recorrer a muitas formas de estímulo. Daí surgem inúmeros problemas para os quais não há outra solução exceto a fundamental e inteligente compreensão da própria vida.

Por favor, fazei experiências com o que estou dizendo. Principiai por descobrir o verdadeiro significado da religião, do hábito, da tradição, de todo esse sistema de moralidade que vos está forçando continuamente, orientando-vos em determinada direção; principiai a questionar sem preconceitos seu inteiro significado. Então começareis a despertar aquele pensamento criativo que dissolve os múltiplos problemas nascidos da ignorância.

Pergunta: Acreditais na reencarnação? É ela um fato? Podeis fornecer-nos provas oriundas de vossa experiência pessoal?

Krishnamurti: A idéia da reencarnação é tão velha como as montanhas; a idéia de que o homem, por meio de múltiplos renascimentos, passando por inúmeras experiências, chegará finalmente à perfeição, à verdade, a Deus. Ora, o que é isso que renasce, o que é isso que continua? Para mim, essa coisa que supostamente continua nada mais é que uma série de camadas de memórias, de certas qualidades, certas ações incompletas que foram condicionadas, obstruídas pelo medo nascido da auto-proteção. Agora, essa consciência incompleta é o que nós chamamos o ego, o “eu”. Como expliquei no começo, em minha ligeira palestra de introdução, a individualidade é o acúmulo dos resultados de várias ações que foram obstruídas, oprimidas por certos valores e limitações herdados e adquiridos. Espero não estar tornando tudo muito complicado e filosófico; procurarei simplificar o assunto.

Quando falais no “eu”, entendeis por tal um nome, uma forma, certas idéias, certos preconceitos, certas distinções de classe, qualidades, preconceitos religiosos, e assim por diante, que foram desenvolvidos por meio do desejo de auto-proteção, de segurança e de conforto. Para mim, portanto, o “eu”, baseado numa ilusão, não tem realidade alguma. Portanto, a questão não é saber se existe a reencarnação ou não, se existe ou não uma futura possibilidade de crescimento, mas sim se a mente e o coração podem libertar-se dessa limitação do “eu”, do “meu”.

Haveis perguntado se acredito ou não na reencarnação porque esperais, através da minha garantia, poder postergar o entendimento e a ação no presente, e que chegareis eventualmente a perceber o êxtase da vida ou da imortalidade. Desejais saber se, sendo forçados a viver num ambiente condicionado com limitadas oportunidades, podereis um dia, através dessa miséria e desse conflito, chegar a compreender aquele êxtase da vida, a imortalidade. Visto a hora estar adiantada, sou obrigado a resumir e espero que reflitais sobre o que se segue.

Afirmo que existe a imortalidade; para mim, é uma experiência pessoal, entretanto, ela só poderá ser percebida quando a mente não está procurando um futuro em que haverá de viver mais perfeita, completa e ricamente. A imortalidade é o infinito presente. Para entender o presente com o seu pleno, rico significado, a mente tem que se libertar do hábito da aquisição auto-protetora, e quando ela está por completo desnuda, somente então há a imortalidade.

Pergunta: Para podermos alcançar a Verdade, devemos trabalhar sós ou coletivamente?

Krishnamurti: Se me permitis uma sugestão, deixai de lado a questão da Verdade; consideremos se é inteligente trabalhar pelo proveito individual ou pelo coletivo. Durante séculos, cada indivíduo procurou sua própria segurança, tendo sido cruel, agressivo, explorador, conseqüentemente criando a confusão e o caos. Tudo isto considerado, vós, os indivíduos, voluntariamente começareis a trabalhar pelo bem do conjunto. Nesse ato voluntário, o indivíduo jamais se tornará mecânico, automático, um mero instrumento nas mãos do grupo, assim sendo, jamais pode haver conflito entre o grupo e o indivíduo. A questão da expressão criativa individual em oposição e em conflito com o grupo somente desaparecerá quando cada um agir integralmente, na plenitude da compreensão. Somente isto dará lugar à cooperação inteligente, na qual a compulsão, seja ela proveniente da cobiça ou do medo, não mais se produzirá. Não espereis serdes arrastados a agir coletivamente, porém começai a despertar tal inteligência, despojando-vos de todas as idiotices da aquisição, e então haverá a alegria do trabalho coletivo.

Pergunta: Como encarais a mediunidade e a comunicação com os espíritos dos mortos?

Krishnamurti: Pode-se rir disto ou tomá-lo à sério. Em primeiro lugar, não discutamos se os espíritos existem ou não, porém consideremos o desejo que nos leva a nos comunicarmos com eles, pois esta é a parte mais importante da pergunta.

Para a maioria das pessoas que se dão a essas práticas, na comunicação com os mortos está implícito o desejo de serem guiadas, de que se lhes diga o que devem fazer, por se acharem constantemente incertas relativamente as suas ações e esperam que, pela comunicação com aqueles que estão mortos, encontrarão orientação, poupando-se do trabalho de pensar. Portanto, o seu desejo é por orientação, por direção, a fim de não cometerem erros e não sofrerem. E esta atitude é a mesma de algumas pessoas relativamente aos Mestres, os seres considerados como mais avançados, e por isso capazes de dirigir os homens por intermédio de seus mensageiros e outras coisas mais deste teor.

O culto da autoridade é a negação do entendimento. O desejo de não sofrer gera a exploração. Portanto, esta busca da autoridade destrói a plenitude da ação, e a orientação traz a irresponsabilidade, pois há o forte desejo de navegar pela vida sem conflito, sem sofrimento. Por essa razão adotam-se crenças, ideais, sistemas, na esperança de que a luta e o sofrimento possam ser evitados. Porém, essas crenças, esses ideais, que se tornaram vias de fuga, são a própria causa do conflito, criando maiores ilusões, sofrimento maior. Enquanto a mente buscar conforto por meio da orientação, por meio da autoridade, a causa do sofrimento, que é a ignorância, jamais pode ser dissolvida.

Pergunta: Para atingir a Verdade deve o indivíduo abster-se do casamento e da procriação?

Krishnamurti: Bem, a Verdade não é um objetivo, uma finalidade que possa ser atingida por meio de certas ações. É a compreensão nascida do contínuo ajuste à vida, o que exige grande inteligência; e pelo fato da maioria das pessoas não ser capaz deste ajustamento isento de autodefesa ao movimento da vida, criam certas teorias e ideais que, esperam, as guiarão. Assim, fica o homem preso no círculo das tradições, dos preconceitos e opressivas moralidades, ditados pelo medo e pelo desejo de auto-preservação. Isto acontece por ser ele incapaz de discernir continuamente o significado da vida em constante movimento, e, por tal, desenvolve certos “deve-se” e “não se deve”. Um viver completo e rico, e por tal eu entendo uma vida inteligentíssima, não uma existência de auto-proteção e defesa, exige que a mente esteja livre de todos os tabus, temores e superstições, sem o “deve-se” e o “não se deve”, coisa que só se pode dar quando a mente entender integralmente o significado e a causa do temor.

Para a maioria das pessoas há conflito, sofrimento e ajustamento incessante no casamento e para muitos o desejo de atingir a verdade nada mais é que uma evasão desta luta.

Pergunta: Negais a religião, Deus e a imortalidade. Como pode a humanidade tornar-se mais perfeita e mais feliz sem acreditar nessas coisas fundamentais?

Krishnamurti: É pelo fato de Deus e a imortalidade serem para vós apenas uma crença, é por somente acreditardes nessas coisas que há tanta miséria, sofrimento, e exploração. Só podeis descobrir se existe verdade, imortalidade, na completude da própria ação, não através de uma crença qualquer, nem por meio da afirmação autoritária de outrem. Só na plenitude da própria ação está oculta a realidade.

Agora, para a maioria das pessoas, a religião, Deus e a imortalidade, são simplesmente uma evasão. A religião apenas ajudou o homem a fugir do conflito, do sofrimento da vida e, portanto, a fugir de entendê-la. Estando em conflito com a vida, com seus múltiplos problemas de sexo, exploração, ciúme, crueldade, etc., como fundamentalmente não desejais compreendê-los – pois compreendê-los exige ação, ação inteligente – e como vos falta a vontade de fazer o esforço, inconscientemente tentais fugir para aqueles ideais, valores, crenças que vos foram transmitidos. E assim, a imortalidade, Deus, a religião, tornaram-se meros abrigos para uma mente que está em conflito.

Para mim, tanto aquele que crê como aquele que não crê em Deus e na imortalidade estão em erro, porque a mente não pode compreender a realidade até que esteja completamente livre de todas as ilusões. Somente então podeis afirmar, não acreditar ou negar, a realidade de Deus e da imortalidade. Quando a mente está inteiramente liberta dos múltiplos embaraços, das limitações criadas pelo sentimento de auto-proteção, quando está aberta, inteiramente desnuda, vulnerável, na compreensão da causa da ilusão auto-criada, somente então todas as crenças desaparecem, cedendo lugar à realidade.

Pergunta: Sois contra a instituição da família?

Krishnamurti: Sou, se a família for o centro, a base da exploração. (Aplausos). Por favor, que vale apenas concordardes comigo? Precisais agir para alterar este estado de coisas. O desejo de perpetuação cria a família que se torna o centro da exploração. Portanto, a pergunta, realmente, deve ser esta: pode-se viver sem explorar? A questão não é se a vida em família é certa ou errada, se ter filhos é certo ou errado, mas sim se a família, as posses, o poder, não são o resultado do desejo de segurança, e de autoperpetuação. Enquanto houver este desejo, a família será o centro da exploração.

Poderemos jamais viver sem exploração? Afirmo que sim. Tem de haver exploração enquanto houver a luta pela autoproteção; enquanto a mente buscar segurança, conforto através da família, da religião, da autoridade ou da tradição, haverá exploração. E a exploração só cessa quando a mente discerne o que há de falso na segurança e não mais fica presa na armadilha do seu próprio poder de criar ilusões. Se experimentardes o que eu digo, então compreendereis que não estou destruindo o desejo, porém, que podeis viver neste mundo, sã e ricamente, uma vida sem limitações, sem sofrimento. Só podeis descobrir isto experimentando, não negando, não pela resignação nem pelo mero imitar. Onde funciona a inteligência – e a inteligência cessa de funcionar quando há medo, desejo de segurança – não pode haver exploração.

A maioria das pessoas está esperando por uma mudança que irá, miraculosamente, alterar este sistema de exploração, aguardam revoluções para realizarem suas esperanças, seus anseios não satisfeitos, porém, nesse esperar, vão lentamente morrendo. Pois eu penso que simples revoluções não mudam os desejos fundamentais do homem. Se, porém, o indivíduo começa a agir com inteligência, sem compulsão, sem atentar às condições atuais ou ao que as revoluções prometem de futuro, então haverá uma riqueza, uma plenitude cujo êxtase não pode ser destruído.

Pergunta: A mera revolução econômica e social resolveria todos os problemas humanos ou deveria ela ser precedida por uma revolução espiritual interna?

Krishnamurti: Pode dar-se o caso de vir a revolução e, ao invés de um sistema capitalista, suponhais que se estabeleça uma forma comunista de governo. Pensais, no entanto, que uma simples revolução externa resolverá os múltiplos problemas humanos? Pelo sistema atual sois forçados à vos ajustardes a um certo método de pensamento, de moralidade, de ganhar dinheiro. Se um sistema diferente for estabelecido por meio da revolução, haverá uma outra forma de compulsão, talvez para melhor, mas, como pode a mera compulsão produzir o entendimento? Estais satisfeitos em continuar a viver de maneira destituída de inteligência no presente sistema, crendo e esperando por alguma miraculosa mudança externa que altere também a vossa mente e coração? Por certo que só existe para isso um meio, e é o de verificar que o presente sistema se acha baseado na exploração egoísta em que cada indivíduo, violentamente, busca a sua própria segurança e, portanto, luta para conservar suas distinções e aquisições. Compreendendo isto, o homem inteligente não esperará que uma revolução venha, porém começará a alterar fundamentalmente a sua ação, a sua moral e começará a libertar sua mente e coração de todo o desejo de aquisição. Um homem assim estará liberto do fardo de qualquer sistema, podendo então viver inteligentemente no presente. Se realmente desejais encontrar o verdadeiro modo de ação, esforçai-vos por viver no presente, com a compreensão do inevitável.

Pergunta: Não pertenço a religião alguma, porém sou membro de duas sociedades que me dão conhecimento e sabedoria espiritual. Se as abandonar, como poderei alcançar a perfeição?

Krishnamurti: Se compreenderdes a futilidade de todas as corporações religiosas organizadas, com seus interesses monetários, com sua exploração, com a completa estupidez de suas crenças baseadas na autoridade, na superstição e no medo; se verdadeiramente alcançardes o significado disto, então não pertencereis a nenhuma sociedade ou seita religiosa. Imaginais que qualquer sociedade ou livro vos pode dar sabedoria? Livros e sociedades podem fornecer-vos informação. Se, porém, disserdes que uma sociedade vos pode dar sabedoria, estareis simplesmente depositando nela a vossa confiança e ela se torna vossa exploradora. Se a sabedoria pudesse ser adquirida por meio de uma seita ou sociedade religiosa, todos seriamos sábios, pois tivemos religiões conosco por milhares de anos. A sabedoria, porém, não se adquire por essa forma. A sabedoria é a compreensão do fluxo contínuo da vida ou da realidade, e somente é apreendida quando a mente está aberta e vulnerável, isto é, quando a mente não mais está embaraçada pelos seus próprios desejos de auto-proteção, reações e ilusões. Nenhuma sociedade, nenhuma religião, nenhum sacerdote, nenhum líder vos dará, jamais, a sabedoria. É só pelo nosso próprio sofrimento, ao qual tentamos escapar aderindo a corporações religiosas e mergulhando em teorias filosóficas; é somente pela atenção à causa do sofrimento e a como libertar-nos dele que a sabedoria nasce natural e suavemente.

Pergunta: Desejo muitas coisas na vida, que não possuo. Podeis dizer-me como obtê-las?

Krishnamurti: Por que haveis de querer muitas coisas? Todos precisamos de roupas, alimento, abrigo. Porém, o que é que está por detrás do anseio por muitas coisas? Ansiamos por coisas porque imaginamos que seremos felizes se as possuirmos e que, pela aquisição, alcançaremos o poder. Por detrás desta pergunta está o desejo do poder. Na busca do poder há sofrimento e pelo sofrimento vem o despertar da inteligência que revela a completa futilidade do poder. Vem, depois, a compreensão das necessidades. É possível que não desejeis muitas coisas materiais; talvez compreendais o absurdo das muitas posses, porém, ainda sois capazes de desejar o poder espiritual. Entre este desejo e o de possuir muitas coisas não há diferença. Ambos são iguais, embora a um chameis materialista e ao outro deis um nome mais refinado, o de espiritual, em essência, porém, ambos têm em vista a sua própria segurança e nesta jamais pode haver felicidade ou inteligência.

Pergunta: Parece que negais o valor da disciplina e dos padrões morais. Pois não será a vida um caos sem disciplina e sem moral?

Krishnamurti: Eu disse, no começo da palestra desta noite, que fizemos da moral e da disciplina um abrigo protetor sem nenhum profundo significado, sem realidade alguma. Pois não existem as guerras, a exploração violenta, um completo caos no mundo, apesar das vossas disciplinas, das vossas religiões e dos vossos rígidos moldes de moral? Examinemos, pois, esta estrutura de moral e de disciplina que construímos e que nos tem explorado, que está destruindo a inteligência humana. No próprio exame desta estrutura fechada de moral e disciplina, se procederdes com grande cuidado e sem preconceitos, começareis a compreender e a desenvolver a verdadeira moral que não pode ser sistematizada, petrificada.

A moral, a disciplina que agora possuís, baseia-se na busca individual da salvação própria, da segurança, pela exploração religiosa e econômica. Talvez faleis de amor e fraternidade aos domingos, porém, às segundas-feiras explorais os outros em vossas várias ocupações. Religião, moral, disciplina, são coisas que apenas atuam como capas da hipocrisia. Semelhante moralidade, do meu ponto de vista, é imoral. Na medida em que violentamente buscais a segurança econômica, da qual nasce uma moral adaptada a esse propósito, criastes religiões por todo o mundo, as quais vos prometem a imortalidade através de suas peculiares disciplinas e moralidades cerradas. Enquanto esta moral fechada existir, haverá guerras e exploração, não haverá o real amor humano. Esta moral, esta disciplina acham-se, na verdade, baseadas no egoísmo e na violenta busca por segurança individual. Quando a mente se liberta deste centro de consciência limitada, que se baseia no engrandecimento próprio, vem, então, o delicado e primoroso ajustamento à vida, que não exige regras nem regulamentos, sendo, na verdade, consumadamente inteligente, expressando-se na ação integrada do verdadeiro discernimento.

Pergunta: Eu não me importo com o que acontecer depois da morte, porém, tenho medo de morrer. Devo combater este medo? Como hei de vencê-lo ?

Krishnamurti: Vivendo no presente. A eternidade não está no futuro, está sempre no presente. Não há remédio nem substituição para o medo, exceto no entendimento da causa do próprio medo. A mente está sendo continuamente limitada pelas recordações do passado, e essas lembranças obstruem o cumprimento da ação no presente. Por isso não há plenitude de ação no presente, o que cria o temor da morte.

Viver no presente não é um feito intelectual. Exige compreensão da ação e o libertar a mente da ilusão. A mente possui o poder de criar a ilusão, e é com isso que mais nos preocupamos – criar ilusões, escapes, acobertando as coisas que não queremos compreender. A mente cria ilusões como meios de evasão, e essas ilusões, com seu poder, impedem a plenitude da ação e a completa compreensão do presente. Assim, as antigas ilusões criam novos e ulteriores embaraços e limitações. Eis porque começamos a crer no tempo como um meio de compreensão, e crescimento. A compreensão está sempre no presente, não no futuro. E a mente recusa discernir imediatamente, porque isso implica uma revolta inteligente contra tudo que ela construiu na busca de sua própria segurança.

Pergunta: Deixo a minha imaginação vaguear sem medo. Estará isto certo?

Krishnamurti: Efetivamente, pode-se temer muitas coisas. Esse vôo da imaginação é mais uma evasão aos problemas da vida. Se é uma evasão, é uma completa perda de energia mental. Esta energia só pode tornar-se criadora e efetiva quando o indivíduo se libertar dos temores e das ilusões que as tradições e os desejos auto-protetores lhe impuseram.

Pergunta: Estais pregando o individualismo?

Krishnamurti: Receio que o consulente não tenha exatamente entendido o que eu disse. Eu não advogo o individualismo em absoluto. Infelizmente, a grande maioria das pessoas dificilmente encontra uma oportunidade de expressão individual. Podem elas supor que estão agindo voluntária e livremente, triste é, porém, dizer que são meras máquinas funcionando dentro de um sulco particular, sob a compulsão das circunstâncias e do ambiente. Como pode, pois, dar-se a plenitude individual, que é a mais elevada forma de inteligência? Aquilo a que chamamos expressão individual, no caso da maioria das pessoas, nada mais é que uma reação, na qual há mui pouca inteligência.

Existe, porém, uma espécie diferente de individualidade, que é única, resultante da ação voluntária e compreensiva. Isto é, se alguém compreende o ambiente e atua com inteligência e discernimento, então há verdadeira individualidade. Esta individualidade não é separatista, pois que é a própria inteligência.

A inteligência é só, é única. Se, porém, agirdes meramente impelidos pelas circunstâncias, então, embora imagineis ser um indivíduo, vossas ações serão apenas reações desprovidas de verdadeira inteligência. É pelo fato de ser o indivíduo atual mera reação na qual não pode haver inteligência que existe caos no mundo, onde cada indivíduo busca a sua própria segurança e insensata saciedade.

A inteligência é única e não pode ser dividida em minha e vossa. Só a ausência de inteligência pode ser separada em unidades, sob a forma de “meu” e de “teu”, e nisso está a fealdade da distinção, da qual nascem a exploração, a crueldade e a tristeza.

Pergunta: Que pensais da caridade e da filantropia social?

Krishnamurti: A filantropia social restitui à vítima um pouco daquilo que o filantropo violentamente lhe arrancou. Primeiro vós a explorais, fazendo-a trabalhar incontáveis horas e tudo mais, amontoando grande riqueza por meio de ardis, de fraudes e depois voltai-vos, magnanimamente, e dais um pouco à pobre vítima. (Risos) Não sei porque estais rindo, visto que fazeis a mesma coisa, apenas diferentemente. Talvez não sejais astutos, hábeis, violentos o bastante para amontoar riquezas e vos tornardes filantropos, porém, espiritualista e idealisticamente, amontoais aquilo que chamais conhecimento, a fim de vos protegerdes.

A caridade é inconsciente de si própria; não há acúmulo prévio nem distribuição consecutiva. É semelhante a uma flor, natural, aberta, espontânea.

Pergunta: Deveriam ser destruídos os dez mandamentos?

Krishnamurti: Não estão eles já destruídos? Existem eles ainda? Talvez nos livros de orações, petrificados, para serem adorados como ideais, porém na realidade não existem. Por muitos séculos foi o homem conduzido por meio do medo, forçado, compelido a agir por meio de certos padrões; porém, a mais alta forma de moral é fazer uma coisa pelo seu próprio valor intrínseco e não por um motivo ou em vista de recompensa. Ora, em vez de sermos coagidos a seguir um padrão, temos que descobrir individualmente o que é a verdadeira moral. É esta uma das coisas mais difíceis de executar: descobrir, por si próprio, como agir verdadeiramente exige inteligência, um ajuste contínuo, não o seguir de uma lei ou de um sistema, porém a intensa atenção, o discernimento no próprio momento da ação. E isto só pode dar-se quando a mente se vai libertando, com entendimento, do temor e das compulsões.

Pergunta: Existe Deus?

Krishnamurti: Pondero: que valor teria eu responder sim ou não? Afirmar ou negar não revelaria a realidade. O indivíduo tem de descobrir por si próprio. Portanto, não podeis aceitar ou rejeitar. Se eu dissesse que sim, que aconteceria? Seria acrescentar uma crença mais ao vosso museu de crenças. Se eu dissesse que não, seria uma outra crença, que pertenceria a outro tipo de museu. Uma coisa ou a outra não têm importância alguma para vós. Se eu dissesse sim, tornar-me-ia uma autoridade e talvez modelásseis a vossa vida de acordo com esse padrão; se eu dissesse não, estabeleceria uma outra espécie de padrão. Não podeis acercar-vos deste problema, de se existe Deus ou não, com qualquer preconceito, seja pró, seja contra. O que podeis fazer é preparar o terreno da mente e ver o que acontece. Isto é, deixai que a mente se liberte de todas as ilusões, de todos os temores, de todos os preconceitos e desejos e permanecei isentos de qualquer expectativa, e tal mente então poderá discernir se existe Deus ou não. A mente é especulativa e, por diversão intelectual, tenta resolver esta questão; a mente assim, porém, não pode achar resposta verdadeira. Tudo que podeis fazer é destruir a falsidade, as ilusões que criastes ao redor de vós próprios. E isto exige não um inquérito sobre a existência de Deus, mas sim o ato de integração do vosso ser inteiro no presente.

Pergunta: Não são necessários os sacerdotes para conduzir os ignorantes à retidão?

Krishnamurti: Por certo que não. Mas quem são os ignorantes? Esta pergunta só pode ser feita a cada um de vós e não a uma massa vaga denominada ignorante. A massa sóis vós. Necessitais vós de sacerdotes? Quem pode dizer quem são os ignorantes? Ninguém. Portanto, sendo ignorantes, necessitais de sacerdote, e pode um sacerdote conduzir-vos da ignorância à retidão? Se meramente imaginardes que um indivíduo ignorante, vagamente existindo em certo lugar e a quem não conheceis, necessita de um sacerdote, então perpetuareis a exploração e todas as manobras da religião. Ninguém vos pode conduzir à retidão exceto vós próprios, por meio de vosso próprio entendimento, por meio de vosso próprio sofrimento.

Pergunta: É possível atingir a perfeição entre os imperfeitos?

Krishnamurti: Em que outro lugar podereis alcançar a perfeição, em que outra parte podereis compreender a perfeição a não ser entre os imperfeitos? Entretanto, toda esta idéia de alcançar a perfeição é fundamentalmente errônea. Por favor, tendes que refletir cuidadosamente acerca disto. Quando falais de perfeição tendes em vista alcançar um fim, uma certeza, um poder que vos possa dar segurança, da qual jamais possa surgir conflito e tristeza. A perfeição não é um fim, um ponto fixo, absoluto, porém, um contínuo vir-a-ser. Quando a mente está liberta dos opostos, então há um contínuo movimento, um contínuo fluxo da realidade. A perfeição é a ação, o fluxo contínuo da realidade, não um objetivo absoluto em direção ao qual estejais progredindo por meio de inúmeras experiências, lembranças, lições e sofrimento. Para compreender este fluxo da vida, a mente deve estar inteiramente livre de finalidades, de certezas, que nada mais são do que o resultado do desejo de auto-proteção.

Se refletirdes sobre o que vos tenho dito esta noite, discernireis a clausura que criamos através de muitos séculos, da qual nos tornamos prisioneiros, destruindo nossa inteligência criadora. Se a mente puder principiar a derrubar as paredes dessa prisão, por meio da compreensão, então haverá ação sem tristeza, ação normal e verdadeira.

Pergunta: Não é o egoísmo a raiz da exploração econômica e religiosa?

Krishnamurti: É obvio, senhor. Foi o egoísmo que criou as gaiolas da religião; é o egoísmo que cria a exploração dos povos. O interrogante está ciente desse fato, porém que é que faz? Sabemos que há cruel exploração por parte dos astutos e dos habilidosos; sabemos que existe a miséria no meio da opulência. Terá, porém, o interrogante inquirido a si próprio se não estará também tomando parte nesta luta cruel e estúpida de aquisições? Se na verdade ele sentisse o espantoso absurdo de tudo isto e agisse inteligentemente, tornar-se-ia como uma chama a consumir todas as idiotices ao seu redor.

Pergunta: Não poderemos ser guiados na vida diária pelos sábios conselhos que nos são dados por vozes e pelos espíritos dos mortos?

Krishnamurti: Vejo que alguns dentre vós impacientam-se com esta pergunta; podeis julgar que é estúpido procurar os conselhos dos espíritos. Para tornar esta pergunta também aplicável aos outros, simplifiquemo-la. É possível que alguns dentre vós não assistam às sessões espíritas, nem se dediquem à psicografia, mas não têm escrúpulos de procurar por mestres, que possivelmente vivam em algum país distante, e aceitar as suas mensagens trazidas por seus mensageiros. Fundamentalmente, qual é a diferença? Nenhuma, absolutamente. Em ambos os casos procura-se a orientação de outrem. Alguns esforçam-se para se porem em contato com os mortos, por meio dos médiuns, mediante a psicografia e outras coisas infantis; ao passo que outros buscam a orientação daqueles a quem chamam Mestres, através de seus representantes, coisa essa igualmente infantil. Assim, eu vos peço que não condeneis aqueles que procuram os médiuns e assistem às sessões espíritas, quando vós próprios diligentemente seguis as regras e sistemas dados pelos assim chamados representantes dos Mestres. Há outras pessoas que dependem dos sacerdotes e das cerimônias, de tradições e de convencionalismos para sua orientação. Todos estão no mesmo caso.

Ora, nesta pergunta, se devemos ou não buscar o conselho e a orientação dos espíritos, dos Mestres, por intermédio de seus representantes, dos salvadores, por intermédio de seus sacerdotes, está implícito o desejo de buscar abrigo sob a capa da autoridade. O que nos ocupa não é, no momento, averiguar se os Mestres ou os pretensos espíritos existem ou não. Por que é que buscais orientação e conselho, por que é que desejais orientação? Este é o problema. É porque dais maior valor aos mortos, ao oculto e ao passado, do que aos vivos e ao presente, porque por meio dos mortos, do oculto e do passado, vossa mente pode esculpir suas imagens agradáveis, e viver completamente satisfeita com estas ilusões; o presente, porém, e os vivos, não vos deixam dormir tranqüilamente. Assim, para fugir a esse conflito, que se resume em vencer o presente, buscais orientação e conselho. O indivíduo que busca orientação, o homem que cria ídolos para adorar, viverá no temor, será explorado e sua inteligência será lentamente destruída, coisa que está acontecendo por todo o mundo. O desejo de obter orientação dos espíritos e dos Mestres, através de seus representantes, surge do temor da tristeza.

Pode alguém, seja quem for, salvar-vos da tristeza? Se puderdes ser salvos por outrem, então o problema da autoridade cessa de existir. Nada mais tendes a fazer do que buscar a autoridade mais adequada e mais conveniente e adorá-la. Eu, porém, digo-vos que ninguém pode salvá-los da tristeza, exceto vós próprios, através do vosso próprio entendimento. Só mediante o vosso pessoal discernimento sobre a causa do sofrimento, e não pelas explanações de outrem, é que podem ser abertos os portais da ventura maior, que conduzem ao êxtase do entendimento. Enquanto buscardes conselhos e orientação, coisas que nada mais são que vias de fuga ao conflito, enquanto não discernirdes por vós próprios a causa do sofrimento, sendo simplesmente confundidos por explicações, ninguém vos pode salvar da tristeza, nenhum sacerdote, nenhum livro, nenhuma teoria, nenhum sistema, nenhum espírito ou Mestre. Porque essa realidade, essa libertação da tristeza, reside em vós próprios e só por vós mesmos a ela podereis chegar.

Pergunta: Têm os ensinamentos atribuídos a Grandes Mestres – Cristo, Buda, Hermes e outros mais – algum valor para o encontro do direto caminho para a Verdade?

Krishnamurti: Se não me entendêsseis mal eu diria que os ensinos dados perdem o seu valor porque a mente humana, sendo tão cheia de sutilezas, tão ardilosa em seus desejos de auto-proteção, torce as lições para adaptá-las aos seus propósitos pessoais e cria sistemas e ideais como meios de escape, dos quais surgem igrejas petrificadas e sacerdotes exploradores. Religiões por todo o mundo, através de seus sistemas e das armadilhas de sua exploração organizada, procuram ensinar o homem a amar, a pensar, a viver sã e inteligentemente; mas como pode um sistema criar amor ou ensiná-los a pensar sem egoísmo? Como não desejais fazer isto, como não quereis viver completa, integralmente, com a mente e o coração vulneráveis, criastes um sistema que se tornou vosso mestre, um sistema que é contrário e destruidor do pensamento e do amor. Portanto, é completamente inútil multiplicar os sistemas. Se a mente se libertar da ilusão de suas exigências e desejos de auto-proteção, então haverá amor, inteligência; então não mais existirá esta divisão gerada por religiões e crenças; o homem não mais se levantará contra o homem.

Pergunta: Se é um fato que o vosso futuro como um Instrutor do Mundo foi previsto, então não será a predestinação um fato da natureza, e não seremos nós meramente escravos de um destino determinado?

Krishnamurti: Se vossa ação estiver condicionada pelo passado, pelo temor, pelo ambiente, sendo por isso incompleta, deverá haver o amanhã para completar essa ação. Isto é, se vosso pensamento estiver limitado, atado pela tradição, pela consciência de classe, pelo temor ou pelo preconceito religioso, não poderá completar-se na ação; cria, portanto, seu próprio destino, sua própria limitação. Isto é, vossa própria ação incompleta determina seu futuro limitado. Onde quer que haja ação incompleta existe sofrimento, que cria seu próprio cativeiro. A verdadeira ação é sem escolha, mas se a ação estiver limitada pelo preconceito da escolha, todas as ações ulteriores terão que, inevitavelmente, criar maiores e mais estreitas limitações. Assim, em vez de somente perguntardes se a predestinação existe ou não, começa por agir de modo completo. Ao perceber a necessidade da ação completa, discernireis, na própria ação, quais os preconceitos seculares que começam a impedir essa ação, amputando-lhe a realização. Quando há o fluxo da ação, que é inteligência, então torna-se a vida um contínuo vir-a-ser sem o conflito da escolha.

Pergunta: O que é o poder da vontade humana?

Krishnamurti: Nada mais que reação contra a resistência. A mente, através de seu desejo de auto-proteção e conforto, criou muitos impedimentos e barreiras, ocasionando a sua incompletude, a sua tristeza. Para libertar-se desta tristeza, a mente começa a lutar contra esta resistência e limitações que ela própria criou. Neste conflito nasce e se desenvolve a vontade, com a qual a mente se identifica, dando, assim, nascimento à consciência do “eu”. Se essas barreiras não existissem, haveria a contínua realização na ação e não uma luta para vencer o conflito. Vós vos esforçais por destruir, por vencer essas limitações auto-impostas, donde apenas resulta o nascimento da resistência a que chamamos vontade. Se, porém, compreendêssemos porque essas barreiras foram criadas, nesse caso não haveria a necessidade de vencer, de sobrepujar, que cria ulterior resistência. Estas barreiras, estes empecilhos vieram à existência em virtude do desejo de auto-proteção, travando-se, então, um conflito entre o movimento de vida eterna e esse desejo. Daí surge a tristeza e as múltiplas e bem cultivadas vias de escape para dela fugir. Onde houver evasão tem que haver ilusão, tem que haver criação de barreiras.

A vontade nada mais é que outra espécie de ilusão nascida da busca da auto-proteção; e é somente quando a mente se liberta de seu próprio centro de ilusões e está criativamente vazia que existe o discernimento daquilo que é verdadeiro. O discernimento não resulta da vontade, pois que a vontade brota da resistência. A vontade é o resultado do conflito da escolha, porém, o discernimento é sem escolha.

Pergunta: Que é a ação?

Krishnamurti: Ação é o movimento livre da inteligência, não tolhido pelo medo, pela compulsão, pelo conflito da escolha auto-protetora. Esta ação pura é a expressão da própria vida. Contudo, isto não é uma resposta filosófica, a ser tratada apenas como uma teoria, impraticável na vida diária. Preocupamos-nos com a ação a todo o instante do dia, mas só conheceremos o êxtase desta ação livre quando a mente estiver se renovando por meio da completude. Compreenderemos o pleno significado da ação quando o pensamento estiver livre e desimpedido. Isto é, quando houverdes passado além das falsas ilusões, dos falsos valores que haveis criado, que se tornaram o vosso ambiente, o vosso fardo, então dar-se-á o fluxo da realidade ou da vida, que é a própria ação. Tendes que começar, individualmente, a discernir o significado da cobiça, na qual se baseia toda a estrutura do nosso pensamento e ação. Ao vos desvencilhardes dela, somente surge o sofrimento quando não há compreensão, só quando há compulsão. Para realizar, porém, o êxtase desta ação desimpedida, o pensamento tem que libertar-se dos moldes dos ideais, despertando essa incerteza que é única, a incerteza da não-acumulação. Quando a mente é capaz de discernir sem o conflito da escolha, então há o êxtase da ação.

Pergunta: Se a inteligência da maioria das pessoas for tão limitada que elas não possam encontrar a Verdade por si próprias, não serão os Mestres e os instrutores necessários para mostrar-lhes o caminho?

Krishnamurti: Se simplesmente consideramos que o não-inteligente necessita do inteligente, manteremos o não-inteligente sempre em seu estado de não-inteligência. Se imaginardes que um tolo necessita de um guia, um Mestre, criareis circunstâncias para mantê-lo na idiotice. Se o homem inteligente percebe a necessidade de ajudar a um idiota, não em direção a um determinado sistema, crença ou dogma, porém de auxiliá-lo a ser inteligente, então o não-inteligente não será explorado. Mas a questão não é se o ignorante necessita de Mestres, de salvadores, mas se vós necessitais deles. Questionando realmente esta necessidade, descobrireis que ninguém vos pode salvar, que ninguém vos pode dar compreensão, pois a compreensão reside em vosso próprio discernimento. A inteligência não é dádiva de Mestres e instrutores, porém faz parte da vossa própria percepção e ação criativas.

Pergunta: Não pode o homem ser liberto por meio da ciência?

Krishnamurti: Ela pode poupar ao homem muitos pesares, porém é grande a proporção de sofrimentos, de misérias, de explorações, apesar do avanço da ciência. Cada um conhece a bestialidade e a fealdade da guerra, o resultado do interesse pecuniário e do nacionalismo. De que modo impediu a ciência este sofrimento, esta doença? É o coração do homem que necessita ser modificado, entretanto, porque esperar por um determinado dia futuro quando está já em vosso poder produzir uma inteligente e salutar alteração?

Pergunta: Desejaria saber se necessitamos de oração e como devemos orar?

Krishnamurti: Senhor, não será a idéia fundamental da prece a de buscar auxilio e entendimento para além de nós mesmos? Se assim é, estamos dependendo de algo, o que nos enfraquece em nossa própria inteligência.

Pergunta: É a alma uma realidade?

Krishnamurti: Uma vez mais pediria ao auditório que atentasse a este ponto sem preconceitos, sem beatice. Quando falais da “alma”, entendeis algo existente entre o material e o espiritual, entre o corpo e Deus. Então dividis a vida em matéria, espírito e Deus. Não é assim? Se me é permitido dizê-lo, vós que falais de “alma” nada sabeis a respeito, apenas aceitais o que se vos diz a autoridade, ou baseados em alguma esperança ou em algum anseio não satisfeito. Muitas são as idéias fundamentais por vós aceitas através da autoridade, assim como aceitais a “alma” como uma realidade.

Por favor, considerai o que vou dizer-vos, sem nenhum preconceito a favor ou contra a noção de alma e sem nenhuma idéia preestabelecida a fim de descobrirdes o que é verdadeiro. A única coisa real de que estamos completamente cônscios, com a qual temos que nos preocupar, é o sofrimento; somos conscientes desta constante insatisfação, desta limitação, deste sentimento de incompletude que causa conflito e sofrimento. Esta consciência da tristeza é a única realidade que vos pode servir de ponto de partida, e somente compreendendo a causa do sofrimento e inteligentemente vos libertando dela é que advirá o êxtase da realidade. Quando a mente se houver desembaraçado de todas as ilusões e esperanças, então terá lugar a ventura da realidade.

Através de todo este conflito e miséria, sente-se que deve haver uma realidade, um Deus, uma inteligência infinita, ou como quer que o chameis. Esse sentimento pode ser mera reação desta angústia, assim sendo, irreal, e é possível que, ao segui-lo, nos enredemos em crescente ilusão; ou pode ser o desejo intrínseco de descortinar a Verdade, que não pode ser medida nem sistematizada. Se pudermos descobrir o que cria o conflito e quem é o criador da tristeza, no arrancar da sua causa terá lugar a verdadeira felicidade do homem. Esta batalha quase incessante, esta aparentemente infindável tristeza, é criada por essa consciência limitada que chamamos o “eu”. Criamos ao redor de nós muitos valores falsos e falsos ideais, aos quais a mente se escravizou. Uma luta contínua trava-se entre as ilusões e o presente, e tem de haver sempre conflito enquanto essas ilusões de auto-proteção existirem. Este conflito cria em nossas mentes a idéia do particular, do “eu”. Assim, desta consciência limitada surge a divisão entre o “eu” impermanente e o “eu” permanente, eterno. Quando a mente está inteiramente liberta das ilusões de auto-proteção e falsos valores, que são a causa da consciência limitada e de suas múltiplas idiotices, então cada indivíduo verificará por si próprio se existe a Verdade ou não.

Se eu dissesse simplesmente que a alma existe, só acrescentaria mais uma crença às vossas crenças múltiplas. Portanto, que valor teria isso? Ao passo que o fato único de que somos conscientes é esta luta, este sofrimento, esta exploração da qual nos tornamos escravos, e libertando-nos inteligentemente, sem fugir, discerniremos o perdurável no transitório, o real na ilusão.

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