Carta de Notícias Nº 7

ICK
Instituição Cultural Krishnamurti

70 anos

Carta de Notícias
Outono 2005 – n o 7 – Ano III *
A Carta de Notícias é um boletim trimestral, em formato eletrônico, editado pela Instituição Cultural Krishnamurti e distribuído gratuitamente, por email, aos que se cadastrarem no seu site www.krishnamurti.org.br. Além de levar notícias da ICK aos seus colaboradores e simpatizantes dispersos na vastidão geográfica de língua portuguesa, a Carta de Notícias procurará também, a exemplo do que fez durante décadas a versão impressa, difundir um pouco dos ensinamentos de J. Krishnamurti, razão de ser da Instituição.

*  versão eletrônica
ICK

DIRETORIA
Onofre Máximo
Gilberto Fugimoto

CONSELHO FISCAL
Liége Vieira
Agnes Jansen

RUA DOS ANDRADAS, 29 – SALA 1007
20051-000 – RIO DE JANEIRO – RJ
TEL. / FAX: (21) 2232-2646

www.krishnamurti.org.br

Editorial

Desde que foi lançado, há pouco mais de um mês, o nosso novo site de conteúdo interativo não pára de crescer, já tendo inclusive nos obrigado a pedir aumento de espaço no nosso provedor de hospedagem. Estamos agora com quase duas centenas de usuários cadastrados, muitos dos quais participando ativamente do nosso fórum, postando material de alto nível, num ambiente de cordialidade e cooperação. A par disso, o site tem recibido, em média, trinta e seis visitantes por dia, o que nos dá a certeza de que o nosso objetivo de tornar a presença da ICK na Internet uma referência brasileira em Krishnamurti, está sendo alcançado.

Departamento de Multimídia

A ICK criou recentemente o seu Departamento de Multimídia, composto por um grupo de pessoas do Rio e de São Paulo, com o objetivo de traçar novas estratégias para a produção e distribuição de livros e vídeos no Brasil.

A primeira tarefa do novo departamento será negociar com a KFT – Krishnamurti Foundation Trust, da Inglaterra, uma nova parceria que permita a produção de livros e dvd’s a preços compatíveis com o mercado brasileiro, que garantam o pagamento dos royalties àquela fundação sem prejuízo da subsistência da ICK.

Como primeiro passo para um novo relacionamento com a KFT, estamos solicitando uma reunião entre aquela instituição e um representante da ICK, já designado, para se realizar no princípio do próximo mês de julho.

Estaremos dando notícias da evolução das negociações através deste boletim e de artigos postados no nosso site.

DVD’s

Os DVD’s com as palestra de Brockwood 1983 e Rishi Valley 1984 estão sendo legendados em português e estarão brevemente sendo lançados no mercado brasileiro. Trata-se de uma iniciativa da KFT que contou com a colaboração de diversos voluntários basileiros para o trabalho de tradução e legendação.

Críticas e sugestões

Ajudem-nos a aprimorar o nosso boletim. Enviem, por favor, suas críticas e sugestões para ick@krishnamurti.org.br.

UMA BREVE INTRODUÇÃO AO TRABALHO DE KRISHNAMURTI

Pelo Professor David Bohm

Tradução: Cecília Lisboa


Meu primeiro contato com o trabalho de Krishnamurti foi em 1959 quando li o livro A PRIMEIRA E ÚLTIMA LIBERDADE. Meu interesse foi especialmente despertado pela profunda percepção da questão do observador e a coisa observada. Este assunto estivera de há muito intimamente ligado ao centro de meu próprio trabalho como físico teórico, fundamentalmente interessado no significado da teoria do quantum. Nesta teoria, pela primeira vez no desenvolvimento da física, a noção de que estes dois – o observador e coisa observada – não podem ser separados, foi apresentada como necessária à compreensão das leis fundamentais da matéria em geral. Por isso, e também porque o livro continha muitas outras percepções profundas, senti o quanto era urgente para mim conversar de modo direto e pessoalmente com Krishnamurti. E quando o encontrei pela primeira vez durante uma de suas visitas a Londres, fiquei impressionado com a sua capacidade de comunicação, o que se tornava possível devido à intensa energia com que ele escutava e por causa da isenção de barreiras e reservas auto-protetoras com as quais ele respondia ao que eu tinha a dizer. Como pessoa que trabalha com a ciência, senti-me completamente à vontade com este tipo de ação, a qual, em essência, é da mesma natureza daquela que encontrei nestes contatos com cientistas com os quais ocorreu uma íntima comunhão de mentes. E aqui penso especialmente em Einstein, que demonstrava ausência de barreiras e intensidade semelhantes durante um número de debates ocorridos entre ele e eu.

Depois disso comecei a encontrar-me regularmente com Krishnamurti e a debater com ele, sempre por ocasião de suas vindas a Londres. Iniciamos uma relação que desde então se tornou mais estreita ao interessar-me pelas escolas, como por exemplo a de Brockwood Park na Inglaterra, instalada por iniciativa de Krishnamurti. Durante estes debates aprofundamo-nos em muitas questões de interesse para o meu trabalho científico. Investigamos a natureza do tempo e do espaço, como também a universal, tanto com relação à natureza externa como à da mente. Continuamos então a considerar a desordem geral e a confusão reinante na consciência da humanidade. Foi aqui que encontrei o que sinto ser a maior descoberta de Krishnamurti: o que ele seriamente propunha é que toda esta desordem – raiz da causa de tão vasto sofrimento e conflito que impede os seres humanos de trabalharem juntos adequadamente – tem sua origem no fato de ignorarmos a natureza geral do nosso próprio processo pensante. Em outras palavras, podemos dizer que não somos capazes de ver realmente o que está acontecendo quando estamos ocupados com a atividade do pensamento. Por meio de uma atenção muito profunda e da observação desta atividade da mente, Krishnamurti percebe diretamente ser o pensamento um processo material que prossegue no interior do homem, no cérebro e no sistema nervoso, como um todo. Ordinariamente tendemos a estar perceptivos sobretudo quanto ao conteúdo deste pensar, em vez de vermos como realmente ele funciona. É possível ilustrarmos este ponto considerando o que acontece quando estamos lendo um livro. Usualmente, estamos quase que inteiramente atentos ao significado do que está sendo lido. Entretanto, é possível aplicarmos nossa atenção ao próprio livro, à sua estrutura constituída de páginas que podem ser viradas, às palavras impressas, à tinta, à contextura do papel, etc. De modo semelhante, somos capazes de estar conscientes da estrutura real e da função do processo do pensar e não unicamente de seu conteúdo. Como é possível acontecer tal percepção? Segundo a proposição de Krishnamurti, isto requer aquilo a que ele denomina meditação. Ora, à palavra meditação tem sido dado um vasto alcance de diferentes e até contraditórios significados, muitos dos quais envolvendo tipos de misticismo um tanto superficiais. Krishnamurti tem em mente uma noção clara e definitiva quando usa esta palavra. Temos possibilidade de obter uma valiosa indicação deste significado se considerarmos a origem das palavras. As raízes das palavras, em combinação com os seus significados atuais geralmente aceitos, muitas vezes produzem surpreendentes percepções dos seus significados mais profundos. A palavra inglesa meditação baseia-se na raiz latina “med” que significa “medir”. O significado atual da palavra é “refletir”, “ponderar” (i.e., pesar ou medir) e “dar cuidadosa atenção”. De modo semelhante, a palavra sânscrito para meditação, que é “dhyana”, está intimamente ligada a “chyati”, significando “refletir”. Desse modo, meditar seria ponderar, refletir, enquanto se dá cuidadosa atenção ao que está de fato acontecendo. Talvez seja isso o que Krishnamurti quer dizer por “o começo da meditação”. Isto é, damos toda atenção a tudo o que está acontecendo em combinação com a atividade real do pensamento, que é a fonte subjacente da desordem geral. Fazemos isso sem escolha, sem crítica, sem aceitação ou rejeição do que está ocorrendo. E tudo isto acontece juntamente com reflexões sobre o significado do que estamos aprendendo sobre a atividade da mente. (Talvez seja assim como se lêssemos um livro no qual as páginas estivessem fora de ordem e ficássemos intensamente conscientes desta desordem, em vez de estarmos “tentando encontrar sentido” no conteúdo confuso que aparece quando aceitamos as páginas como elas se apresentam). Krishnamurti tem observado que o próprio ato de meditação traz em si ordem à atividade do pensamento sem a intervenção da vontade, da escolha, da decisão, ou de qualquer outra ação do “pensador”. Quando tal ordem surge, o barulho e o caos constituintes do fundo psicológico de nossa consciência morrem, e a mente torna-se geralmente silenciosa. (O pensamento surge somente quando necessário a alguma finalidade genuinamente válida e então ele pára até que se torne novamente necessário). Neste silêncio, segundo diz Krishnamurti, acontece algo novo e criativo, impossível de ser transmitido em palavras, porém de extraordinário significado para a totalidade da vida. Assim, ele não tenta comunicar isso verbalmente, e em vez disso sugere aos que estão interessados, que explorem a questão da meditação diretamente por si próprios, através da atenção real voltada para a natureza do pensamento. Sem tentar sondar este significado mais profundo da meditação, podemos dizer entretanto que a meditação, no sentido dado por Krishnamurti à palavra, é capaz de trazer ordem à nossa excessiva atividade mental e isto pode ser um fator chave capaz de pôr um fim ao sofrimento, à agonia, ao caos e à confusão, coisas que através dos tempos têm sido o destino da humanidade, e que de modo geral ainda continuam, sem perspectivas visíveis de uma mudança fundamental para o futuro previsível. O trabalho de Krishnamurti é impregnado daquilo a que se pode denominar a essência das investidas científicas, quando isto é considerado na sua mais alta e pura forma. Assim, ele começa partindo de um fato, isto é, a natureza dos nosso próprios processos pensantes. Este fato é estabelecido através de uma atenção total, envolvendo um cuidadoso ato de escutar o processo da consciência, observando-o diligentemente. Nesta atenção estamos aprendendo constantemente e desse aprender vem a percepção da natureza geral e excessiva do processo do pensamento. Esta percepção é então testada. Primeiramente vemos se ele se mantém unido de um modo racional, e então observamos se ele leva à ordem e à coerência sobre o que dele flui na vida como um todo. Krishnamurti constantemente enfatiza não ser ele de modo algum uma autoridade. Ele tem feito certas descobertas e está simplesmente fazendo o que pode a fim de torná-las acessíveis àqueles capazes de escutar. Seu trabalho não contém um corpo de doutrinas nem oferece
técnicas ou métodos a fim de obter uma mente silenciosa. Ele não está tentando estabelecer nenhum sistema novo de crença religiosa. Em vez disso, cabe a cada ser humano ver se é possível descobrir por si só aquilo a que Krishnamurti dá o nome de atenção, e daí, continuar a fim de fazer novos descobrimentos próprios.
É claro que uma introdução como esta pode quando muito mostrar como o trabalho de Krishnamurti foi visto por uma pessoa especial, um cientista como eu. A fim de entender por completo o que Krishnamurti quer transmitir, é necessário, naturalmente, continuar a ler o que ele de fato diz, com aquela natureza de atenção dirigida à totalidade de nossas próprias reações interiores e exteriores.


Krishnamurti Fundation of America
Caixa Postal 216, Ojai, CA 93023

Participação do leitor

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