Carta de Notícias Nº 4

ICK
Instituição Cultural Krishnamurti
Carta de Notícias
Inverno 2004 – n o 4 – Ano II *
A Carta de Notícias é um boletim trimestral, em formato eletrônico, editado pela Instituição Cultural Krishnamurti e distribuído gratuitamente, por email, aos que se cadastrarem no seu website www.krishnamurti.org.br. Além de levar notícias da ICK aos seus colaboradores e simpatizantes dispersos na vastidão geográfica de língua portuguesa, a Carta de Notícias procurará também, a exemplo do que fez durante décadas a versão impressa, difundir um pouco dos ensinamentos de J. Krishnamurti, razão de ser da Instituição.

*  versão eletrônica
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DIRETORIA
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CONSELHO FISCAL
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20051-000 – RIO DE JANEIRO – RJ
TEL. / FAX: (21) 2232-2646

www.krishnamurti.org.br

Editorial

A ICK tem recebido muitas consultas de estudiosos dos ensinamentos de Krishnamurti procurando obter da instituição alguma interpretação sobre os complexos assuntos por ele abordados.

Temos repetido que o entendimento das palavras de Krishnamurti é uma tarefa basicamente individual e que cabe à ICK, tão somente e na medida do possível, oferecer meios que facilitem a busca por tal entendimento.

A esse propósito, estamos trazendo neste número, algumas respostas que Krishnamurti deu no Brasil quando questionado sobre o assunto.

Há ainda, um texto muito interessante, um depoimento pessoal e sincero de Emily Lutyens, que nos fala sobre a frustrante recusa de Krishanmurti em trazer consolo, insistindo que cada indivíduo seja o seu próprio guia.

Participação do leitor

Se você tem alguma notícia, texto interessante de K ou relacionado aos seus ensinamentos, que gostaria de compartilhar conosco, envie um email para cartas@krishnamurti.org.br. O material selecionado será publicado numa próxima edição da Carta de Notícias.

Novos VCDs

Já estão disponíveis os VCDs com a 2a e a 3a palestras de Benares 85, completanto assim a série.
Também disponível a série completa (6 palestras) de Saanen 83.
Ojai 83 (4 palestras) está em preparação.

Críticas e sugestões

Ajudem-nos a aprimorar o nosso boletim. Enviem, por favor, suas críticas e sugestões para opiniao@krishnamurti.org.br.

Leitura on-line

A Carta de Notícias também pode ser lida diretamente no nosso website www.krishnamurti.org.br/cn.html.

Perguntas e Respostas

Pergunta: Não pertenço a religião alguma, porém sou membro de duas sociedades que me dão conhecimento e sabedoria espiritual. Se as abandonar, como poderei alcançar a perfeição?

Krishnamurti: Se compreenderdes a futilidade de todas as corporações religiosas organizadas, com seus interesses monetários, com sua exploração, com a completa estupidez de suas crenças baseadas na autoridade, na superstição e no medo; se verdadeiramente alcançardes o significado disto, então não pertencereis a nenhuma sociedade ou seita religiosa. Imaginais que qualquer sociedade ou livro vos pode dar sabedoria? Livros e sociedades podem fornecer-vos informação. Se, porém, disserdes que uma sociedade vos pode dar sabedoria, estareis simplesmente depositando nela a vossa confiança e ela se torna vossa exploradora. Se a sabedoria pudesse ser adquirida por meio de uma seita ou sociedade religiosa, todos seriamos sábios, pois tivemos religiões conosco por milhares de anos. A sabedoria, porém, não se adquire por essa forma. A sabedoria é a compreensão do fluxo contínuo da vida ou da realidade, e somente é apreendida quando a mente está aberta e vulnerável, isto é, quando a mente não mais está embaraçada pelos seus próprios desejos de auto-proteção, reações e ilusões. Nenhuma sociedade, nenhuma religião, nenhum sacerdote, nenhum líder vos dará, jamais, a sabedoria. É só pelo nosso próprio sofrimento, ao qual tentamos escapar aderindo a corporações religiosas e mergulhando em teorias filosóficas; é somente pela atenção à causa do sofrimento e a como libertar-nos dele que a sabedoria nasce natural e suavemente.

Pergunta: Não são necessários os sacerdotes para conduzir os ignorantes à retidão?

Krishnamurti: Por certo que não. Mas quem são os ignorantes? Esta pergunta só pode ser feita a cada um de vós e não a uma massa vaga denominada ignorante. A massa sóis vós. Necessitais vós de sacerdotes? Quem pode dizer quem são os ignorantes? Ninguém. Portanto, sendo ignorantes, necessitais de sacerdote, e pode um sacerdote conduzir-vos da ignorância à retidão? Se meramente imaginardes que um indivíduo ignorante, vagamente existindo em certo lugar e a quem não conheceis, necessita de um sacerdote, então perpetuareis a exploração e todas as manobras da religião. Ninguém vos pode conduzir à retidão exceto vós próprios, por meio de vosso próprio entendimento, por meio de vosso próprio sofrimento.

Pergunta: Se a inteligência da maioria das pessoas for tão limitada que elas não possam encontrar a Verdade por si próprias, não serão os Mestres e os instrutores necessários para mostrar-lhes o caminho?

Krishnamurti: Se simplesmente consideramos que o não-inteligente necessita do inteligente, manteremos o não-inteligente sempre em seu estado de não-inteligência. Se imaginardes que um tolo necessita de um guia, um Mestre, criareis circunstâncias para mantê-lo na idiotice. Se o homem inteligente percebe a necessidade de ajudar a um idiota, não em direção a um determinado sistema, crença ou dogma, porém de auxiliá-lo a ser inteligente, então o não-inteligente não será explorado. Mas a questão não é se o ignorante necessita de Mestres, de salvadores, mas se vós necessitais deles. Questionando realmente esta necessidade, descobrireis que ninguém vos pode salvar, que ninguém vos pode dar compreensão, pois a compreensão reside em vosso próprio discernimento. A inteligência não é dádiva de Mestres e instrutores, porém faz parte da vossa própria percepção e ação criativas.

abril-maio/1935

Do livro “Palestras no Brasil”

Verdade e Conforto

Por Lady Emily Lutyens

Em uma de suas recentes conferências européias, Krishnamurti externou-se pela seguinte forma: “A Verdade não oferece consolos”. Nesta frase tersa, acha-se registrado um fato que se refere, assim me parece, ao desengano e vacuidade corrosivos que o ensino de Krishnamurti trouxe a muitos corações. Nos dias em que muitos de nós esperavam pela vinda do Instrutor do Mundo, imaginávamos que ele, não somente instruiria a humanidade, porém ainda a consolaria dos seus males. Ele ia ser o Consolador do Mundo, ao mesmo tempo que o Instrutor do Mundo. Quando qualquer mal tombava sobre nós, quer fosse individualmente, quer sobre o mundo, dizíamos a nós próprios: “quando ele vier, tomará sobre si nossos fardos e nos aliviará das nossos tristezas”. No Cristianismo tornou-se-nos familiar a concepção da redenção por intermédio de outrem, o pensamento de um salvador sobre quem poderíamos deitar o fardo, não somente de nossas culpas, como de nossas angústias. Aqueles que tinham a Krishnamurti como Instrutor do Mundo naturalmente esperavam dele o desempenho deste papel de confortador. E que fácil teria sido tudo para nós se ele tal fizesse! Que felizes teríamos sido se nossas expectativas houvessem sido correspondidas e ele houvesse confirmado as nossas caras crenças em vez de as despedaçar! Imaginávamos que viria falar-nos ainda de Deus, que animaria nossa confiança nas deidades por nós mesmos criadas. Ele, porém, nos ensina a andar em amor com a Vida, aquela que cria os deuses e os homens.

Pensávamos que ele nos viria falar do plano de Deus para com os homens e a maneira pela qual poderíamos cooperar nesse plano e encaminhar nossas vidas individuais, de acordo com os seus éditos. Ele, porém, nos vem dizer que a Vida não tem plano, que não existe Ser algum sobre-humano a encaminhar os nossos destinos, que não existe determinismo nem fado. Afirma que o homem é absolutamente livre e que sua liberdade é sua limitação. Que o homem é o seu próprio guia, o seu próprio regente e que não pode buscar a outrem para sua salvação.

Tínhamos a esperança de nos tornarmos discípulos seus, de seguirmos uma regra de vida que ele para nós ordenasse e assim viéssemos a ser poupados do incômodo de evoluir por nós próprios. Estávamos preparados para seguir e obedecer, para trabalhar em seu serviço e atrair outros para o rebanho de sua instituição. Ele porém não quer discípulos, não estatui regras, diz que instituição alguma de ordem espiritual pode conduzir o homem à Verdade, a qual é matéria de pura percepção individual. Não nos pede trabalhos; não solicita conversões para o seu rebanho porque não possui rebanho. Somente diz que cheguemos a “Ser”, que nos libertemos deste cativeiro de limitação, por meio da intrepidez, do desapego que conduz ao apercebimento e à intuição que é a própria Vida.

Não encontramos em Krishnamurti nada do que esperávamos e isto conduziu, quer a um profundo desengano e desilusão, quer a uma profunda e justificada alegria. A alegria surgiu no coração daqueles que sentem que ali está o verdadeiro Instrutor que não se aterroriza de ferir, que não se curva por maneira alguma à fraqueza e à credulidade humanas, que não oferece propinas nem recompensas.

0 desapontamento e a desilusão surgiram só nos corações daqueles que se sentem atraiçoados, seja pelo Instrutor que não é o que esperaram que fosse, seja por aqueles que os conduziram a aguardar um outro Instrutor que não Krishinamurti.

Muitas pessoas, no entanto, alimentam sentimentos errôneos. Tendo vivido vidas muito ativas em várias instituições, assistindo sempre a reuniões e a serviços, falando, escrevendo, organizando, Krishnamurti abriu-lhes agora os olhos para a futilidade de tais atividades e eles não podem mais prosseguí-las com qualquer espécie de convicção; apesar disso, acham difícil viver sem elas. Não sabem mais o que pensar ou fazer e acham a vida vazia e desolada.

Afirma-se por vezes, que aqueles que encontraram conforto em outros esquemas de pensamento o encontram agora também nas idéias de Krishnamurti. Eu não posso formar idéia de que alguém haja encontrado “conforto” em qualquer dos aspectos do ensino de Krishnamurti. Inspiração, estimulo, força, coragem, isso sim, porém, conforto, não. Toda a minha vida fui uma grande pesquisadora do conforto, por haver tido muitos temores e sempre ter sido capaz de sublimar esses temores, procurando refúgio em crenças que vejo agora serem ilusórias. É imensamente confortante o acreditar em um Deus que é pai, amigo e guia, que perpetuamente se preocupa com as tristezas e dificuldades dos indivíduos, porém, como Deus se encontrava de certo modo distante e inspirava terror, eu o substituí pelo Cristo, meu amante e amigo. Eu estive “enamorada” de Jesus toda a minha juventude. Eu o conduzia, por assim dizer, pela mão, em todos os meus infantis aborrecimentos. Com a idade de dezessete anos sentia-me muito mais feliz em orar no meu aposento do que em fazer frente a um mundo no qual me sentia atormentada pelo acanhamento. Jesus era meu refúgio contra um mundo ao qual não podia enfrentar. Ulteriormente, porém, quando vim para a Teosofia, substitui Cristo pelo Mestre. Isto conduziu meu refúgio um passo além na direção da realidade humana.

É muito confortador o pertencer a uma igreja ou a uma sociedade onde todos pensam da mesma forma e o sermos sustentados em todas as nossas ilusões pelas crenças de outros seres humanos. É imensamente confortador para a nossa vaidade, que nos torna sempre um joguete em um mundo de tumulto, o sentirmo-nos “eleitos”. É muito agradável ser “salvo”, desde que haja bastante pessoas a se “danarem”; muito agradável “andar e conversar com Deus”, ao passo que a maioria dos indivíduos só podem andar e palestrar com os homens. É ainda mais lisonjeante o saber ou que nos digam que, embora no mundo sejamos apenas uma pessoa muito vulgar, sem muita capacidade ou virtude evidente, nos planos superiores se é um grande ego, um ser espiritual esplêndido.

Uma vez mais, que confortadores são os vários consolos que se referem à morte e à sua angústia implícita! 0 céu – não por completo sem inferno -, a reencarnação, o espiritismo: poder-se acreditar seja em que teoria for que mais nos conforte.

Não existe lugar para nenhuma destas ilusões confortadoras nos ensinos de Krishnamurti. Ele fala de uma coisa única, de uma só – a busca da Verdade; e a “Verdade não oferece consolos”. Assim, pois, o primeiro passo ao longo deste caminho é o nos despojarmos das ilusões. É o que Krishnamurti nos propele a fazer em todas as suas palestras; pois que mais do que isso significa a análise critica de nossos pensamentos, emoções e ações? E não é fácil, especialmente a uma geração por tal maneira envolta em ilusões como a nossa o tem sido, o tornar-se rude ao rasgar os envoltórios da alma. Produz feridas o abandonar crenças que nos tem suavizado e confortado, mesmo que se haja reconhecido sua vacuidade. É duro como nada mais o é, estar-se internamente ativo e externamente ocioso, quando toda a nossa vida temos estado a fazer o inverso do que devêramos.

Quando se fica nu, tiritando em um cimo árido da montanha, é difícil não olhar por vezes para trás, para os vales verdejantes e macios que estão lá em baixo. É em momentos tais que volvemos sobre Krishnamurti a nossa ânsia quase desesperada para que ele reconheça as nossas dificuldades e resolva pelo menos um de nossos problemas de maneira a que nos proporcione paz. E sua resposta é: “A Verdade não traz consolos e eu falo somente da Verdade”.

Vem-me à memória um símile que pode servir para mostrar a situação tal como a vejo: quando outro dia o Professor Picard e seu companheiro subiram dez milhas em balão, passaram para além das nuvens, para o claro espaço azul. Se então os houvessem inquirido acerca dos problemas que nos preocupam do lado de cá das nuvens, que resposta útil nos poderiam eles dar? Para eles, então nada mais existia que o céu azul sem nuvens.

Assim, pois, quando vamos a Krishnamurti e lhe perguntamos como poderemos solver nossos problemas humanos, como havemos de defrontar-nos com o amor e o ódio, com a fome e a saciedade, com a morte e o além, responde-nos ele: “realizai a Verdade, libertando-vos da consciência-do-ego e verificareis que todos esses problemas terão cessado de existir”. Podemos viajar a qualquer distância sobre o solo, em sentido horizontal e continuaremos a estar ainda na região do sol e da sombra, alternando-se, na região das nuvens e dos céus límpidos. Se, porém, mudarmos nossa direção e passarmos através as nuvens, verticalmente, chegaremos ao azul eterno do espaço.

Krishnamurti não nega a existência de nossos problemas, nega, porém, o valor das soluções por nós propostas, pois que elas apenas perpetuam a causa que conduz a todo o sofrimento.

Muitas pessoas hão sido perturbadas e se têm sentido angustiadas pelo repúdio aparente de Krishnamurti no que se refere ao fato da reencarnação, e ainda pelos seus últimos enunciados a respeito. Em parte alguma disse ele que a reencarnação é cousa que não exista, porém insiste em afirmar que a reencarnação nada mais sendo que o prolongamento do ego através do tempo, não pode, de forma alguma, curar-nos das tristezas que se originam da existência dessa individualidade separada a que denominamos ego. Continuidade alguma através do tempo e do espaço pode conduzir o homem a essa Verdade que é integridade (completeness) para além do tempo e do espaço. Portanto, o conforto que desejamos encontrar mediante a idéia da reencarnação é puramente ilusório.

Krishnamurti nos diz que “tudo isto é tão simples” – e como tal deve apresentar-se ao homem que encontrou a Verdade. Não pode, porém, ser tão simples ou fácil, para o homem que se encontra emaranhado nas complexidades, o libertar-se de tais embaraços. Uma geração que tem sido encaminhada pela autoridade, consolada pelas ilusões. tecida pelos temores, não acha simples ou fácil permanecer solitária sobre um cimo de montanha fazendo face aos ilimitados espaços da Verdade, isolada e intrépida. À medida que pusermos à prova nossa força, nossos temores se desvanecerão e nossa coragem surgirá e abençoaremos, então, a mão que nos desemaranhou das ilusões, mesmo que o processo haja sido penoso.

À medida que os nossos temores se esvaecem, nosso anseio pelo conforto desaparecerá também. Se quisermos consolos, eles abundam nas várias religiões e filosofias do mundo; se pretendermos a Verdade, lancemos fora o anseio de conforto, pois que “a Verdade não oferece consolos”.

Boletim da Estrella – nº 9 – setembro/1931

Qualidade dos vídeos em VCD

O processo de conversão de fitas VHS para VCDs continua novos títulos já estão disponíveis. A aceitação dos dois primeiros VCDs que produzimos foi excelente, a despeito dos problemas técnicos envolvidos em tal tipo de conversão.

As fitas que servem de base para as conversões apresentam freqüentemente defeitos, sejam originais ou sejam decorrentes da ação do tempo e do desgaste pelo uso, que, na medida do possível, tentamos minimizar ao gravar as novas mídias.

A qualidade dos VCDs é pois, apenas acitável, mas achamos que o processo vale a pena, não só pelo seu baixo custo, como também pela preservação do trabalho de todos os envolvidos nas traduções e locuções em português.

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