Carta de Notícias Nº 2

ICK
Instituição Cultural Krishnamurti
Carta de Notícias
Verão 2004 – n o 2 – Ano II *
A Carta de Notícias é um boletim trimestral, em formato eletrônico, editado pela Instituição Cultural Krishnamurti e distribuído gratuitamente, por email, aos que se cadastrarem no seu website www.krishnamurti.org.br. Além de levar notícias da ICK aos seus colaboradores e simpatizantes dispersos na vastidão geográfica de língua portuguesa, a CN procurará também, a exemplo do que fez durante décadas a versão impressa, difundir um pouco dos ensinamentos de J. Krishnamurti, razão de ser da Instituição.

*  versão eletrônica
ICK

DIRETORIA
Onofre Máximo
Gilberto Fugimoto
Rachel Fernandes

CONSELHO FISCAL
Liége Vieira
Agnes Jansen

RUA DOS ANDRADAS, 29 – SALA 1007
20051-000 – RIO DE JANEIRO – RJ
TEL. / FAX: (21) 2232-2646

www.krishnamurti.org.br

Editorial

Encontrar o melhor formato para uma publicação desta natureza implicou num certo atraso do nosso segundo número. Muitas pessoas se queixaram de não ter conseguido abrir a CN no 1 em razão de a mesma ser graficamente mais sofisticada trazendo muitos links e imagens. Optamos agora por um boletim mais limpo, ainda que visualmente mais pobre, totalmente escrito em puro html, que esperamos possa ser lido em qualquer browser e sob qualquer sistema operacional. Façam-nos saber, por favor, de quaisquer dificuldades nesse sentido.
A CN no 1 pode ser lida diretamente no nosso website www.krishnamurti.org.br/cn.html.

Participação do leitor

Se você tem alguma notícia, texto interessante de K ou relacionado aos seus ensinamentos, que gostaria de compartilhar conosco, envie-nos um email através do nosso website www.krishnamurti.org.br. O material selecionado será publicado numa próxima edição da CN.

Esclarecimento

Não estamos divulgando aqui os nossos emails devido à grande quantidade de spam que temos recebido. Àqueles que querem nos enviar mensagens, pedimos que o façam através de formulário próprio disponível no nosso website www.krishnamurti.org.br.

Krishnamurti no Brasil

Amigos,

Jornais e revistas deram curso a tantos conceitos errôneos e mal-entendidos relativamente a minha pessoa, que julgo seria melhor dar uma explicação que venha esclarecer o caso. As pessoas, geralmente, desejam ser salvas por outrem ou, então, por meio de algum milagre ou mediante idéias filosóficas; e receio que muitos aqui venham eivados desse desejo e na esperança de que, por simplesmente me ouvirem, irão encontrar solução imediata para os seus múltiplos problemas. Nem a solução dos seus problemas, nem a sua pretensa salvação lhes pode ser outorgada por intermédio de outra pessoa ou mesmo por qualquer sistema de filosofia. O entendimento da verdade ou da vida, obtém-se pelo nosso próprio discernimento, pela nossa própria perseverança e clareza de pensamento. Pelo fato de nós, em grande maioria, termos demasiada preguiça de pensar por nós mesmos, vamos, cegamente, aceitando e seguindo pessoas ou idéias, que se tornam para nós meios de evasão, em tempos de conflito e sofrimento. Antes de tudo, desejo declarar que não pertenço a sociedade alguma. Não sou teosofista nem missionário teosófico e nem tampouco aqui vim para vos converter a qualquer forma especificada de crença. Acredito não ser possível seguir a alguém ou aderir a determinada crença e, ao mesmo tempo, possuir a capacidade de pensar com clareza. Eis porque a maioria dos partidos, das sociedades, das seitas e das corporações religiosas se tornam meios de exploração. Tampouco sou portador de uma filosofia oriental, concitando-vos a que a aceiteis. Quando falo na Índia, dizem-me ali que anuncio uma filosofia do ocidente; e quando venho para países ocidentais, dizem que trago um misticismo oriental que não é prático e que, portanto, é inútil para o mundo das ações. Se, porém, realmente refletirdes, haveis de ver que para o pensamento não há nacionalidades, nem tampouco se acha ele restrito a qualquer país, clima ou povo. Portanto peço-vos que não considereis o que vos vou dizer como o resultado de um determinado preconceito racial, de uma especificada idiossincrasia ou peculiaridade. O que vos tenho a dizer é atual, efetivo no sentido de poder ser aplicado á vida atual do homem, e não, em absoluto, coisa teórica, baseada em certas teorias ou crenças, porém sim baseada, se me é permitido personalizar, em minha própria experiência. É praticável e aplicável ao homem.

Agora, o pleno significado do que vos vou dizer, somente pode ser compreendido por meio da experiência e, portanto, da ação. À maioria de nós outros agrada a discussão sobre questões filosóficas que não se relacionam com as nossas ações diárias; ao passo que, aquilo de que vos falo não é uma filosofia nem um sistema de pensamento, e seu profundo significado somente pode ser compreendido por meio da experiência e, conseqüentemente, da ação. O que vos digo não é uma teoria ou crença intelectual para ser meramente discutida, para servir de motivo a controvérsias; é coisa que exige reflexão demorada; e, para descobrir a sua utilidade prática, a verdade que contém, o de que se necessita é ação e não debate intelectual. Não é um sistema para ser guardado de memória nem um conjunto de conclusões a ser aprendido e automaticamente executado. Deve ser criticamente compreendido. Critica, porém, é coisa diferente de oposição. Se realmente fordes críticos, não vos oporeis pura e simplesmente, mas haveis de vos esforçar para averiguar se o que eu digo tem mérito intrínseco em si mesmo. Isso exige clareza de pensar de vossa parte, de modo a vos ser possível passar além da ilusão das palavras, não permitindo que os vossos preconceitos, sejam eles econômicos ou religiosos, vos impeçam de pensar fundamentalmente. Isto é, tendes que pensar a partir, do começo, pensar simples e diretamente. Todos nós havemos sido educados com muitos preconceitos, muitas idéias preconcebidas, fomos criados por entre tradições que corrompem, limitados pelo ambiente, e, por isso, está o nosso pensamento, continuamente, sendo torcido e pervertido, impedindo, destarte, a simplicidade da ação. Tomai, por exemplo, a questão da guerra. Sabeis que muita gente discute sobre se a guerra é um bem ou um mal. Certamente, não pode haver duas maneiras de encarar este assunto. A guerra é, fundamentalmente, um mal, seja defensiva ou ofensiva. Ora, para pensarmos, desde o principio, a respeito deste assunto, tem a mente que estar inteiramente liberta da moléstia do nacionalismo. Somos impedidos de pensar fundamental, direta e simplesmente, em virtude dos preconceitos que têm sido explorados, durante idades, sob a forma de patriotismo, com todo o seu séquito de coisas absurdas. Por muitos séculos, pois, havemos, criado hábitos, tradições, preconceitos que impedem o individuo de pensar de maneira integral, fundamental, acerca dos vitais assuntos humanos. Ora, para compreender os múltiplos problemas da vida, com todas as suas variedades de sofrimento, temos que, por nós próprios, descobrir seus motivos e causas fundamentais, com seus implícitos resultados e efeitos. Porque, se não estivermos plenamente conscientes das nossas ações e das suas causas e respectivos efeitos, nós exploraremos e seremos explorados, tornar-nos-emos escravos de sistemas, vindo as nossas ações a tornar-se apenas mecânicas e automáticas. Enquanto não pudermos, conscientemente, libertar as nossas ações de seu efeito limitador, por meio da compreensão do significado de suas causas, a não ser que, conscientemente, rompamos com as velhas formas de pensamento que em nosso derredor havemos construído, não nos será possível ultrapassar as inúmeras ilusões que nos rodeiam e havemos criado, nas quais estamos embaraçados. Cada qual tem que perguntar, a si próprio, o que está buscando, a fim de averiguar se está meramente deixando-se arrastar pelas circunstâncias e condições ambientes, sendo, portanto, irresponsável e irrefletido. Aqueles dentre vós que realmente se acharem descontentes, aqueles que forem críticos, devem já ter perguntado a si próprios o que é que cada individuo anda procurando. Procurais conforto, segurança, ou procurais a compreensão da vida? Muitas pessoas dirão que estão buscando a verdade. Se, porém, analisarem a natureza; de suas aspirações, de sua busca, verificarão que, realmente, estão á procura de conforto, de segurança, de uma evasão do conflito, do sofrimento. Ora, se andais á procura de conforto, de segurança, essas coisas terão que se basear na aquisição, portanto, na exploração e na crueldade. E, se disserdes que estais buscando a verdade, tornar-vos-eis prisioneiros da ilusão; pois que a verdade não é coisa em cujo encalço se corra, não pode ser buscada, tem que ser ela um acontecimento. Isto é, o seu êxtase é somente perceptível quando a mente está, por completo, despojada de todas as ilusões que haja criado em virtude da busca de sua própria segurança e conforto. Só então terá lugar o alvorecer daquilo que é a verdade. Expressando isto mesmo em outros termos: temos que, a nós próprios, interrogar no sentido de saber em que é que toda a nossa vida, todo o nosso pensamento e toda a nossa ação se baseiam. Se pudermos responder a esta pergunta de modo completo e verdadeiro, então, por nós mesmos, averiguaremos quem é o criador das ilusões, o criador dessas supostas realidades, das quais nos havemos tornado prisioneiros. Se, realmente, refletirdes, sobre isto, verificareis que toda a vossa vida está baseada na consecução da segurança, da salvação e do conforto individual. Desta busca de segurança, naturalmente, nasce o medo. Ao buscar conforto, ao tentar evadir-se da luta, do conflito e da tristeza, a mente tem de criar varias vias de fuga, e essas vias tornam-se as nossas ilusões. Portanto, o medo, que é a resultante da busca individual da segurança, é também o criador das ilusões. Este medo arrasta-vos de uma para outra seita religiosa, de uma filosofia para a outra, de um para outro instrutor, até encontrardes a segurança e o conforto que desejais. A isto chamais busca da verdade e da felicidade. Ora, conforto e segurança são coisas que não existem; existe somente a clareza de pensar, que produz a compreensão da causa fundamental do sofrimento, a qual, unicamente, pode libertar o homem. Nessa libertação reside a beatitude – do presente. E digo-vos que existe uma eterna realidade, a qual só pode ser descoberta quando a mente está liberta de todas as ilusões. Portanto, acautelai-vos contra a pessoa que vos dá conforto, pois nela tem que haver exploração; essa pessoa cria uma armadilha na qual ficais colhidos como o peixe na rede. Na busca do conforto e da segurança, a vida chegou a ser dividida em vida religiosa ou espiritual e vida econômica ou material. A segurança material encontra-se por meio da posse de bens que proporcionam o poder; e é em virtude desse poder que esperais alcançar a felicidade. Para, atingir esta segurança material, este poder, tem que haver exploração, a exploração do vosso próximo mediante um sistema deliberadamente estabelecido, que se tem tornado hediondo pelas suas múltiplas crueldades. Esta busca de segurança individual em que se acha incluída também a nossa família, criou as distinções de classe, os ódios de raça, o
nacionalismo; coisas essas que, eventualmente, terminam em guerras. E há um fato curioso que podeis verificar se sobre ele refletirdes: a religião, a quem competia a condenação da guerra, ajuda a promovê-la. Os sacerdotes, que se teriam como sendo os educadores do povo, animam todas as espécies de absurdos criados pelo nacionalismo, e que cegam o povo em momentos de ódio nacional. Naturalmente, pois, criais um sistema, baseado no conforto e na segurança individual a que chamais religião. Vós é que haveis criado as religiões que são formas cristalizadas do pensamento e que têm por fim assegurar a imortalidade pessoal. Em uma de minhas próximas palestras, hei de abordar de novo esta questão da imortalidade. Assim, pois, em virtude da busca de segurança individual, movidos pelo desejo da continuidade do ser individual, haveis criado uma religião que vos explora por meio do clericalismo, por meio das cerimônias, por meio dos pretensos ideais. O sistema a que chamais religião, e que foi, originariamente, criado em virtude do vosso apelo por segurança, tornou-se tão poderoso, tão realista, que mui poucos são os que se libertam do seu peso, do fardo esmagador da tradição e, da autoridade. O ponto inicial de partida para uma verdadeira critica, reside na perquirição dos valores que a religião, em nosso redor, estabeleceu. Ora, todos nós estamos encerrados neste âmbito; e enquanto estivermos escravos de um ambiente e de valores não pesquisados, não postos em dúvida, sejam passados ou presentes, têm eles que perverter a integridade das ações. Esta perversão é a causa do conflito entre o indivíduo que busca a segurança, e a coletividade; entre o individuo e o continuo movimento da experiência. E do mesmo modo por que, individualmente, havemos criado este sistema de exploração e de esmagadora limitação, temos também que, individual e conscientemente, derrubá-lo por meio da compreensão relativa ao alicerce dessa construção, e não pelo mero criar de novos conjuntos de valores que nada mais serão que novas séries de evasões. E assim, verdadeiramente, começaremos a penetrar o significado real do viver. Sustento que existe uma realidade, dá-lhe embora o nome que quiserdes, a qual somente poderá ser compreendida e vivida quando a mente e o coração houverem penetrado a ilusão dos falsos valores e deles se tiverem libertado. Somente então existirá o eterno.

Primeira palestra no Rio de Janeiro (excerto) – 13 de Abril de 1935.
Do Livro “Palestras no Brasil”.

Projetos da ICK

  1. Reedição do livro “Palestras no Brasil”. Em fase de diagramação.
  2. Produção de DVDs ou Vídeo-CDs de palestras de K, legendadas.
  3. Digitalização das Cartas de Notícias para disponibilização no nosso website.
Doações

Aos que, ao se cadastrarem, manifestaram a intenção de contribuir para a ICK, solicitamos uma visita à nossa nova página de doações onde se encontram intruções e um formulário para notifições.


www.krishnamurti.org.br/contrib.html

Direitos

Permitida a reprodução e distribuição. Para modificações é favor solicitar o prévio consentimento da Instituição Cultural Krishnamurti.

Importante

O nosso antigo domínio www.krishnamurti.ong.org está sendo desativado. Solicitamos a todos que mantém links para as nossas páginas que os atualizem para www.krishnamurti.org.br.

Subscrições e cancelamentos

Para subscrever este boletim basta cadastrar-se no nosso website www.krishnamurti.org.br, onde também está disponível opção para descadrastamento.

Fechar Menu