Trecho selecionado do livro “O Novo Ente Humano” (p. 82-90)

Autoconhecimento não significa acumular conhecimentos sobre si próprio; significa observar a si próprio. Se aprendo acumulando conhecimentos, nada aprendo a respeito de mim mesmo. Há duas maneiras de aprender. A primeira é aprender acumulando conhecimentos c, com eles, observar; isto é, observar através do crivo do passado. Observo-me, tenho experiências, acumulo conhecimentos derivados dessas experiências; olho-me através dessas experiências, isto é, olho-me mediante o passado. Essa é uma das maneiras de aprender. A outra maneira é observar o movimento de todos os pensamentos, de todos os “motivos”, e jamais acumular. Por conseguinte, este aprender é um processo constante.

Explicando melhor: Vejo que sou violento; observo minha violência e a condeno. Condenando-a, aprendi que não deve existir violência. Na próxima ocasião em que me observo como pessoa violenta, reajo de acordo com o que aprendi. Por conseguinte, não há uma observação nova, porque estou olhando a nova experiência com “olhos velhos”, com o conhecimento anteriormente adquirido. Logo, não estou aprendendo. Aprender é um movimento constante, não oriundo do passado; um movimento de momento em momento, portanto sem acumulação. Nós somos o resultado de milhares de anos de acumulação, e continuamos a acumular; e, se quiserdes compreender essa acumulação, cumpre-vos observá-la e deixar de acumular. Deve, pois, haver uma observação que seja um constante aprender sem acumulação. Acumulação é o “centro”, o eu, o “ego”; e, para compreendermos esse centro, devemos estar livres de toda espécie de acumulação; não, deixarmos de acumular num nível, para acumularmos noutro nível, com outro alvo.

Temos, pois, de “aprender o que somos”, observando-nos sem condenação, sem justificação, observando simplesmente nossa maneira de andar, de falar, as palavras que empregamos, os diferentes “motivos”, propósitos, intenções: estando totalmente vigilantes, sem escolha. E esse percebimento não significa acumulação, mas, sim, estar vigilante de instante em instante. Se, em qualquer momento, deixardes de estar vigilante, não vos preocupeis: começai de novo. Vossa mente está, assim, sempre nova. A auto-observação, pois, não se limita ao nível superficial, mas penetra o nível mais profundo, o chamado “nível inconsciente”, “oculto”. Como observar uma coisa que se acha mui profundamente radicada, oculta, fechada? Nossa consciência é tanto superficial como oculta; e temos de conhecer todo o conteúdo dessa consciência, uma vez que o conteúdo integra a consciência. Não são coisas separadas: o conteúdo é a consciência.

Por conseguinte, para se compreender o conteúdo deve haver observação sem o “observador”. Esta é uma das coisas mais fascinantes: descobrir como olhar a vida de maneira nova. Para observarmos o “oculto”, precisamos de olhos não condicionados pelo passado; não devemos ser hinduístas, cristãos, etc. Devemos olhar-nos cada vez como se fosse a primeira vez e, por conseguinte, sem acumular. Se puderdes observar-vos dessa maneira, observar vossas ações, seja no trabalho, seja no lar; observar vossos apetites sexuais, vossa ambição – observar sem condenar, sem justificar, observar simplesmente – vereis que nessa observação não há conflito de nenhuma espécie. Mas, se observardes com uma mente torturada, deformada, jamais descobrireis o que é a verdade. Entretanto, em geral, nossa mente é deformada, torturada, degradada pelo controle, pela disciplina, pelo medo.

Afirmam os psicólogos que precisamos sonhar, senão enlouqueceremos. Enquanto dormimos, deve haver sonhos, devem acontecer coisas em sonhos. Tomai interesse nesta questão, por favor, porque, em vossa vida, sonhais todas as noites. Quando dormis, há sempre alguma espécie de sonho, de atividade; e dizem aqueles especialistas que sonhar é essencial à sanidade mental do ente humano. Ora, nós vamos questionar essa afirmativa averiguar se de fato é absolutamente necessário sonharmos. Temos, pois, de rejeitar tudo o que dizem os profissionais e interrogar-nos, descobrir por nós mesmos o que são os sonhos. Não são eles a continuação das atividades de cada dia, porém em forma simbólica? Peço-vos não concordar nem discordar. Nós estamos investigando juntos, viajando juntos e, por conseguinte, não pode haver concordância nem discordância. Estamos, vós e eu, observando, indagando se é realmente necessário sonhar.

Que são os sonhos? Não são eles o movimento da vida diária – disputas, infortúnios, violência, ressentimentos – não são eles a continuação desse movimento enquanto dormimos, porém em forma simbólica – visual ou verbal? Verificai isso. Deveis saber que o cérebro necessita de ordem, para funcionar racionalmente. Já alguma vez, antes de dormir, passastes em revista o dia – o que fizestes, o que dissestes, os erros cometidos, etc.; já alguma vez passastes em revista o dia, antes de dormir? Porque é necessário fazê-lo? Porque, se não o fizermos conscientemente, enquanto despertos, a mente consumirá energia, durante o sono, para pôr a si própria em ordem.

Estais-me seguindo? A ordem é necessária na vida de cada dia. O cérebro exige uma vida com ordem, uma vida sã, senão ele não funcionará eficientemente. E ordem é virtude, pois, se não sois virtuoso, se estais em desordem, como pode o cérebro funcionar? O cérebro só é capaz de funcionar impecavelmente quando há nele segurança e ordem.

Assim, enquanto dormis, enquanto o corpo dorme, o cérebro tem de pôr-se em ordem, porque, no dia seguinte, irá enfrentar de novo a desordem; por conseguinte, necessita de um meio de extinguir a desordem, de colocar-se em ordem. Esse meio são os sonhos. Mas se, durante as horas de vigília, produzirdes a ordem, então, quando o corpo físico estiver dormindo, o cérebro poderá viver uma vida totalmente diferente. Isso faz parte da meditação. A pessoa que não tem ordem, que se acha em desordem, dizendo uma coisa e fazendo outra, não pode de modo nenhum compreender o que é meditação. Ora, como podeis vós, como pode o cérebro, a mente, estabelecer a ordem durante o dia? Ordem é virtude; não a virtude da moralidade social, mas a virtude da ordem.

A ordem não é uma fórmula traçada pelo Gita, pela Bíblia, pelo instrutor. A ordem é uma coisa viva, e não uma fórmula. Se tendes alguma fórmula, há desordem entre o que sois e o que deveríeis ser; por conseguinte, nessa contradição há conflito. Conflito é desordem. –Assim, só tereis possibilidade de descobrir o que é a ordem se compreenderdes a desordem. Nossa vida de cada dia, tal como a estamos vivendo, é desordem, não achais?

Se sois realmente honesto perante vós mesmo, podeis dizer que vossa vida está perfeitamente em ordem, que viveis sã, lúcida, harmoniosamente? Não podeis, decerto; se assim fosse, não estaríeis aqui. Seríeis entes humanos livres, maravilhosos entes humanos, criadores de uma sociedade diferente. Como seres humanos, estamos em desordem, em contradição. Observai, pois, vossa desordem e contradição, sem nada rejeitar, nada justificar; vede como estais assustado, como sois invejoso, como ambicionais prestígio, posição, como temeis vossa esposa ou marido, como dependeis do que vosso vizinho pensa de vós. Observai esse conflito, essa luta constante, sem justificar nem condenar. Observai totalmente essa desordem, e vereis então surgir uma ordem verdadeiramente harmoniosa, toda movimento, e vida, e vigor. Vereis que, em todas as horas do dia, estareis pondo em ordem a vossa vida, nela estabelecendo uma ordem matematicamente precisa. E, para compreenderdes essa ordem, tendes de compreender o medo e o prazer, que examinamos ligeiramente na reunião anterior. E. compreendendo tudo isso, sem escolha, vereis que, quando dormis, vossa mente não tem sonhos. Em conseqüência, a mente, o cérebro se renova durante o sono e, na manhã seguinte, o cérebro tem urna extraordinária capacidade. (Faculdade de receber e reter – power of receiving and retaining – Dic. Funk & Wagnals – N. do T.)

Isso faz parte da autocompreensão. Deveis amá-lo, devotar-lhe vossa vida – devotar vossa vida à compreensão de vossa vida, porque vós sois o mundo, e o mundo é vós; portanto, se vos transformardes, transformareis o mundo. Esta não é uma mera idéia intelectual, porém uma coisa de que deveis compenetrar-vos ardorosa e apaixonadamente. E a meditação liberta tremendas energias.

Pensais que, para se alterar o ambiente, necessita-se de algum sistema ou método. Graças ao método, ao sistema, pode-se atuar eficientemente. Se desejo alterar o ambiente, preciso planejar o que cumpre fazer. Se desejais construir uma casa, tendes de traçar o respectivo plano. (Krishnamurti está apenas citando os argumentos dos que pensam ser necessário um sistema ou método para se efetuar a transformação – N. do T.) Ora, ao estabelecer-se um sistema, que sucede? Que sucede, exteriormente? São necessários uns poucos indivíduos competentes para pôr em prática o sistema. E que acontece, então? Esses indivíduos se fazem bem mais importantes do que o sistema ou a idéia de alterar o ambiente. Já não notastes isto? Tornam-se os mandões, os que utilizam o sistema para tornar a si próprios importantes à maneira dos políticos por este mundo fora. Prestai atenção a isto, por favor. Para efetuar-se a mudança do ambiente, necessita-se de um grupo de indivíduos competentes, munidos de um sistema. Mas, esses indivíduos competentes são entes humanos como nós outros, sujeitos à cólera, ao ciúme, à inveja, desejosos de posição. Já tendes observado isso, não? Usam, pois, o sistema para seus próprios fins, e esquecem-se do resto.

E, agora, queremos um sistema de meditar. Vede a diferença entre estas duas coisas: sistema e meditação. Pensamos que seríamos capazes de meditar, de pensar, de investigar eficientemente, se tivéssemos um sistema. Mas, que implica um sistema? Tende, pois, bem clara na mente a distinção entre ambas as coisas. Se desejais alterar o ambiente físico, necessitais de um grupo de indivíduos competentes para pôr em prática o sistema. Tais indivíduos deveriam ser impessoais, não egotistas, não cuidar de encher os próprios bolsos – figurada e fisicamente falando. Por conseguinte, os entes humanos importam mais do que o sistema. Percebeis isto?

O mesmo dizemos em relação à transformação de nós mesmos, ou seja que só mediante um sistema poderemos transformar-nos, só mediante um sistema poderemos aprender a meditar. Porque o sistema parece conferir eficiência. Confere-a, de fato? Como sabeis, todo guru, na Índia e noutras partes, oferece um sistema de meditação. Ora, os sistemas implicam repetição, prática, observância de um método. Se seguis algum método, sistema ou prática, essa coisa se torna uma rotina – a que procurais fugir por meio de sexo ou de outras maneiras. Por conseguinte, evitai a todo preço os sistemas de meditação, porque uma mente mecânica não tem possibilidade alguma de descobrir o que é a verdade. A mente mecânica pode tornar-se bem disciplinada, ter muita ordem, mas essa ordem está em contradição com a ordem de que falamos, porque, nessa espécie de ordem existente na repetição, há contradição entre o que sois e o que deveríeis ser – o ideal. Existe, pois, essa contradição. E onde há contradição, há deformação; e a mente deformada, torturada, jamais descobrirá qualquer coisa nova. Portanto, não adoteis nenhum sistema, não sigais nenhum guru.

Certa vez, um famoso guru veio visitar-nos. Um episódio engraçado. Alguns de nós estávamos sentados num pequeno colchão e, por cortesia, nos levantamos e convidamos “o grande homem” a sentar-se naquele colchão. Sentou-se. Trazia um cajado. Depositou o cajado diante de si e ficou sentado, muito solene, como convém a um guru. E pôs-se a dizer-nos o que devíamos fazer – só porque estava sentado um pouco mais alto que nós (Os demais se sentaram no chão – N. do T.), no pequeno colchão que por polidez lhe oferecêramos. Vaidade, desejo de poder e posição, e de seguidores… Tais indivíduos jamais descobrirão o que é a Verdade. Só acharão o que desejam: sua própria satisfação.

Não há sistema de meditação. Se compreenderdes isso, vossas mentes se tornarão despertas, penetrantes, capazes de descobrir. Mas, que desejais descobrir? Nós, em maioria, desejamos experiências diferentes das experiências ordinárias, de todos os dias. Queremos “experimentar” um transcendental estado de “iluminação”, A palavra “experiência” significa “passar por” (um certo estado), e, ao desejardes “experiências transcendentais”, isso quer dizer que estais cansado do viver diário. Todos os que tomam drogas supõem que, por meio delas, terão experiências extraordinárias. Em suas “viagens” (Gíria dos viciados em drogas, ou seja o estado de “clarividência” provocado pela droga – N. do T.), suas experiências são expressões de seu próprio condicionamento. As drogas lhes dão uma certa vitalidade, uma certa lucidez, que nenhuma relação têm com o esclarecimento ou “iluminação”. Deste modo, por meio das drogas jamais se iluminarão.

Assim, que buscamos nós? Que deseja o homem? Ele vê o que é sua vida – tédio, rotina, um campo de batalha, luta constante, nunca um momento de paz, a não ser, talvez, ocasionalmente, por meio do sexo ou de outra coisa. Daí conclui que a vida é transitória, a vida é mutável e, portanto, deve haver uma coisa superior e permanente; essa permanência ele deseja, deseja algo diferente da mera rotina física, da mera experiência de cada dia. A essa coisa ele chama “Deus”. Conseqüentemente, crê em Deus; e todas as imagens e ritos baseiam-se nessa crença. A crença é produto do medo. Se não há medo, podeis ver a folha, a árvore, o céu estrelado, a luz, os pássaros… Há, então, beleza, e, por conseguinte, bondade; e onde está a bondade, aí se encontra a Verdade.

Cumpre, pois, compreender o viver diário. Precisamos compreender por que razão nossa vida é tão mecânica, porque seguimos outrem, porque cremos, porque não cremos, porque lutamos. Sabemos ser isso o que se está passando sempre em nossa vida cotidiana, e desejamos fugir dessa espécie de vida. Eis porque desejamos experiências mais amplas e profundas. E os livros, os gurus, os instrutores, prometem-nos a “iluminação”, esse estado extraordinário, Os sistemas no-la oferecem: “Praticai estas coisas, e a alcançareis; segui este caminho, e lá chegareis” – como se a Verdade fosse uma coisa fixada num lugar, como uma estação, aonde levam muitos caminhos.

Não há nenhum caminho e nenhuma Verdade fixada num ponto; por conseguinte, necessitais de uma mente sobremodo desperta, vigilante, capaz de aprender.

E temos, em seguida, a questão da concentração. Não sei quem vos diz tais coisas – que precisais de concentrar-vos, de aprender a controlar o pensamento, reprimir vossos desejos, nunca olhar para uma mulher ou um homem. Não sei porque prestais ouvidos a tais pessoas. já alguma vez vos concentrastes, isto é, fixastes a atenção em alguma coisa? Quando um colegial deseja olhar pela janela, para ver o movimento das folhas, ver a árvore e o transeunte, o professor lhe diz: “Olhe para o livro, não olhe para a rua”. Isso é concentração – focarmos a atenção e erguermos uma muralha em torno de nós para não sermos perturbados. A concentração se torna exclusão, resistência. Percebeis isto? Nessa concentração há sempre batalha. Desejais concentrar-vos e vossa mente foge, vosso pensamento se põe a perseguir isto ou aquilo, e, conseqüentemente, há conflito; se, entretanto, durante o dia, prestardes atenção, ainda que por poucos minutos de cada vez, se ficardes totalmente atento – com a mente, com o corpo, o coração, os olhos, os ouvidos, o cérebro – vereis que não há limites à atenção, não há resistência. Nesse estado de atenção, não há contradição. Prestai atenção e, em seguida, largai-a; recomeçai, tornai a “pegá-la”, para que a atenção seja cada vez sempre nova; sabereis então quando há desatenção, pois no estado de desatenção há conflito; observai o conflito, prestai-lhe toda a atenção, tomai pleno conhecimento dele, para que vossa mente se torne sobremodo viva, “não mecânica”. Isso faz parte da meditação.

Também vos dizem que deveis adquirir uma mente silenciosa, não é verdade? Este mesmo orador já vos disse tal coisa. Esquecei o que ele disse, mas vede por vós mesmo porque deve a vossa mente estar quieta, em silêncio. Vede-o por vós mesmo. Para verdes qualquer coisa com clareza, vossa mente não deve estar “tagarelando”. Se desejo escutar o que estais dizendo, minha mente deve estar quieta, não? Se desejo compreender o que estais dizendo, preciso escutar-vos. Percebeis? Por conseguinte, para escutar, para observar, a mente deve estar quieta. Só isso, e nada mais.

Ora, perguntais, corno pode a mente ficar tranqüila, se está sempre “tagarelando” a respeito disto e daquilo? Se tentais deter a “tagarelice”, essa tentativa redunda em conflito. A mente habituou-se a tagarelar, a falar entre si ou com alguém, a usar palavras e mais palavras, infinitamente. E se tentais deter essa torrente de palavras pela ação da vontade, surge contradição.

Por conseguinte, descobri porque tagarela a mente, investigai esse fato, compreendei-o. O seu tagarelar não tem muita importância. Mas, porque tagarela a mente? Porque precisa estar sempre ocupada com alguma coisa. Porque precisa estar sempre ocupada? Estou fazendo esta pergunta por vós, mas tratai de descobrir isso, perguntei o que aconteceria se a mente não tagarelasse, não se conservasse ocupada. Se vossa mente não estivesse ocupada, que aconteceria? Ver-se-ia diante do vazio, não é verdade? Se esse hábito cessasse subitamente, vos sentiríeis confuso.

Aquele vazio é o medo de vossa própria solidão. Desse medo, dessa solidão, desse vazio, tentais fugir, tagarelando ou ocupando-vos com alguma coisa. Assim, penetrai bem fundo nessa solidão, não tenteis reprimi-la ou dela fugir; observara simplesmente. Mas, só podeis observá-la com a mente quieta, porque, no momento em que a condenais, no momento em que dizeis “não devo tagarelar”, tendes conflito. Entretanto, se apenas observardes a solidão, descobrireis que vossa mente, em presença desse vazio, fica completamente só.

Há diferença entre solidão e “estar só”. Solidão é isolamento, total isolamento; e no viver cotidiano estamos sempre a isolar-nos. Em vossas atividades diárias, estais sempre a isolar-vos; podeis ser casado, dormir com vossa mulher, mas que está acontecendo? Tendes vossas próprias ambições, vossa avidez, vossos problemas, e ela tem os seus; ambos procuram estabelecer uma relação entre problemas diferentes. A atividade egocêntrica vos está isolando, e daí esse sentimento de aterradora solidão.

Compreendendo isso, ficais, então, só. Esse “estar só” significa total rejeição da autoridade – de toda autoridade espiritual, da autoridade de outrem ou da autoridade de vossos conhecimentos, acumulados como experiência, que é o passado. Rejeitando totalmente, em vós mesmos, a autoridade, já não seguis nenhum sistema; e, compreendendo o medo e o prazer, há, então, nessa compreensão, alegria. A alegria nada tem em comum com o prazer. Podeis ter um momento de grande alegria, mas, se ficais pensando nessa alegria, a reduzis a prazer.

A ordem não é uma fórmula; ela vem com a compreensão da desordem – que é a vossa vida. A virtude é uma coisa viva, como a humildade; não se pode cultivar a humildade. Graças a essa compreensão, a mente se torna sobremodo clara e, portanto, só. Surge então aquele silêncio não resultante de disciplinamento, e que não é o oposto do barulho – silêncio sem causa e, por conseguinte, sem começo nem fim. Vem então a essa mente, que se acha num estado de ordem absoluta e, portanto, completamente só, ou seja num estado de inocência – o que significa que ela jamais pode ser ferida – vem então a essa mente um maravilhoso silêncio.

O que nesse silêncio se passa é indescritível. Se descreves o que sucede, vossas palavras não são a coisa – a coisa descrita. A descrição não é a coisa descrita. Por conseguinte, a Verdade, aquela bem-aventurança, aquele inefável silêncio e seu movimento, não há palavras que possam descrevê-los. Se chegastes até aí, estais então esclarecido, não buscais mais nada, não desejais nenhuma experiência; sois luz. Esse é o começo e o fim da meditação.
Madrasta, 13 de janeiro de 1971.

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