Trecho selecionado do livro “Ensinar e Aprender” (p. 48-53)

DA CRIAÇÃO DE IMAGENS
Na juventude, apraz-nos a atividade – escutar o canto matinal dos pássaros, admirar as colinas após a chuva, os rochedos cintilando ao sol, o brilho das folhas, contemplar a passagem das nuvens e alegrar-nos em uma clara manhã com o coração pleno e a mente aberta. No entanto, perdemos esta boa disposição com o correr dos anos, quando surgem as preocupações, as ansiedades, as contendas, os ódios, os temores, na eterna luta pela sobrevivência. Passamos os dias brigando uns com os outros, sentindo simpatias e antipatias, e algum prazer de vez em quando. Não ouvimos os passarinhos, já não admiramos as árvores, nem vemos o orvalho na grama, nem as aves a voar, nem o brilho da pedra numa escorregadia vertente à luz da manhã. Não costumamos ver nada disto quando nos tornamos adultos. Porquê? Não sei se a si próprios já fizeram tal pergunta. Se não, é este o momento de formulá-la. Do contrário, em breve estarão aprisionados. Irão para uma universidade, casar-se-ão, terão filhos, marido, mulher, responsabilidades; serão obrigados a cuidar da subsistência; depois virá a velhice e, por fim, a morte. Em geral, é isto o que acontece. Cumpre interrogar-nos, então, porque perdemos a sensibilidade, porque já não apreciamos as flores, nem nos deleitamos com o gorjeio dos pássaros. Porque deixamos de contemplar a beleza? Creio que a razão principal é vivermos tão ocupados com a nossa personalidade. Por certo, temos todos uma imagem de nós mesmos.

Sabem o que é uma imagem? Ê uma coisa esculpida na pedra, ou no mármore, a qual se destina à adoração em um templo. Ela é feita pela mão do homem. Vocês também têm uma imagem de si próprios, não construída de igual maneira, senão pela mente, pelo pensamento, pela experiência, pelo conhecimento, pelas lutas, por todos os conflitos e aflições de seu viver. Com o envelhecimento, essa imagem se fortifica, torna-se mais exigente e insistente. Quanto mais escutam, atuam, vivem através dessa imagem, tanto menos vêem a beleza e sentem alegria com alguma coisa desligada dos seus efeitos.

A razão da perda dessa plenitude é que, em regra, só há em vocês preocupações pessoais. Sabem o que significa ter preocupação de ordem pessoal? É estar o indivíduo com a idéia fixa em si mesmo, é manter-se ocupado com as próprias qualidades, se são boas ou más, com a opinião dos vizinhos, se o emprego que tem é bom; é ocupar-se em ser importante ou ficar à margem da sociedade. Os seres humanos estão sempre batalhando no escritório, em casa, nos campos. Estejam onde estiverem, façam o que fizerem, o conflito é constante, sem jamais se livrarem dele; e, não sendo capazes de consegui-lo, criam a imagem de um estado perfeito, do paraíso, de deus – outra imagem formada mentalmente. Criam-se imagens não somente superficiais, mas também mais profundas, e também estas estão em conflito entre si. Existirá conflito enquanto perdurarem as imagens, as opiniões, os conceitos, as idéias egocêntricas, tornando a luta cada vez maior.

Cabe então indagar: é possível viver neste mundo sem auto-imagem? O ser humano torna-se médico, cientista, professor, físico, e serve-se dessa profissão para criar sua imagem, e, deste modo, produz conflito ao exercê-la. Estão-me compreendendo? Se, por exemplo, a criatura dança bem, se toca um instrumento qualquer, ela usa o instrumento ou a dança para projetar-se, para demonstrar o quão maravilhosa é, como dança ou toca tão bem. A arte de dançar, de tocar, tem para ela um só objetivo – enriquecer a própria imagem. É assim que a maioria vive, ou seja, incentivando, fortalecendo o ego. Daí a intensificação do conflito; a pessoa, de tanto pensar em si, se embrutece, perdendo o sentido da beleza, da alegria, da lucidez.

A meu ver, faz parte da educação evitar que os alunos criem imagens. Dessarte, eles passarão a viver sem batalhar, sem lutar intimamente.

A educação nunca termina. Ela não se restringe à leitura de alguns livros, nem se resume no ver o estudante aprovado nos exames finais. No decurso da vida, desde o nascimento até a morte, existe o processo do aprendizado. O aprender não tem fim, é contínuo, perenal. Mas ninguém aprenderá se estiver batalhando dentro de si, ou em conflito com o próximo, com a sociedade. E sempre que houver uma imagem, estaremos em antagonismo com a comunidade social. Porém, se vocês perceberem como se forma essa imagem, estarão em condições de ver o céu, de contemplar o rio e as gotas de chuva que pingam das folhas, de sentir o frescor do ar matinal e da brisa que sopra por entre as árvores. A vida passa a ter um diferente e maravilhoso significado. A vida em si, e não aquela que concebemos, ou idealizamos, segundo a nossa maneira de ser.

ESTUDANTE: Quando o senhor olha para uma flor, qual é seu relacionamento com ela?

KRISHNAMURTI: Qual o relacionamento? Você olha a flor, ou pensa que está olhando para ela? Percebe a diferença? Olha realmente a flor, ou julga que deveria olhar; ou, quem sabe, olha para a flor com uma imagem que dela tem, por exemplo, supondo que é uma rosa? A palavra é a imagem, a palavra é o conhecimento e, por conseguinte, você está olhando para aquela flor com a palavra, com o símbolo, com o conhecimento, e, portanto, não a está olhando efetivamente. Ou, talvez, o faça com a mente, que ao mesmo tempo está pensando em outra coisa.

Quando você olha para a flor sem o conceito, sem a imagem, atento, qual é a sua relação com ela? Já o fez alguma vez? Algum dia já olhou para uma flor sem denominá-la? Já admirou uma flor intensamente sem a interferência do nome, do símbolo, ou seja, apenas observando-a? Até que o faça, não terá qualquer relacionamento com a flor. Para se entrar em relação com outro ser, com um rochedo ou com uma folha, é necessário olhar e observar com plena atenção. Seu relacionamento com o que vê será, então, inteiramente diferente. Não haverá observador algum. Só haverá aquilo. Se observar assim, não existirá opinião nem julgamento. A coisa é o que é. Compreendeu? Você o fará? Olhe para uma flor deste modo. Faça isto, meu amigo. Não fale apenas, mas faça-o.

ESTUDANTE: Se o senhor tivesse muito lazer, como o utilizaria?

KRISHNAMURTI: Faria o que estou fazendo. Olhe, quando gostamos do que fazemos, temos na vida o lazer necessário. Compreende o que eu disse? Perguntou-me o que eu faria se dispusesse de tempo. Respondi que faria justamente o que estou fazendo: e o que faço é ir a diferentes partes do mundo, pronunciar palestras, ver gente, etc. Faço isto pelo simples gosto de fazer; não porque fale para um grande auditório e me sinta importante. Quando alguém sente essa importância, não preza aquilo que faz, mas a si próprio. Assim, deve você preocupar-se, não com o que eu estou fazendo, porém com o que lhe incumbe fazer. Entendeu? Eu lhe disse o que estou fazendo. Agora, diga-me o que habitualmente faz nos momentos ociosos.

ESTUDANTE: Eu fico entediada.

KRISHNAMURTI: Fica entediada. Pois. bem. Tédio é o que a maioria das pessoas sentem.

ESTUDANTE: Poderia o senhor dizer-me como livrar-me do tédio?

KRISHNAMURTI: Vamos, escute. Quase todos se acham entediados. Porquê? E a jovem pergunta como livrar-se do tédio. Descubra-o pessoalmente. Se você se isola, ainda que por breve tempo, isso a enfada. Então apanha um livro, procura conversar com alguém, pega uma revista, vai ao cinema, busca distrair-se com alguma coisa. Recorre a isso para fugir de si mesma. Você fez uma pergunta. Agora, preste atenção ao que vou dizer. Sente-se entediada, vazia, por achar-se agora diante de si própria, o que poucas vezes lhe acontece. Daí o seu aborrecimento. E pensa: Nada mais sou do que isto? Sinto-me insignificante, estou tão amolada! Tenho de superar este sentimento. – Esta realidade – o que você é – lhe desagrada, e por isso tenta fugir. Porém, se disser que não quer permanecer entediada, que procurará saber porque assim se encontra, que deseja descobrir o que em verdade é, isso equivale a olhar-se num espelho. Nele você se vê tal como é, vê seu próprio rosto. E ele não lhe satisfaz; dirá, então: gostaria de ser bonita, de parecer-me com uma atriz de cinema. Mas, se logo acrescentar: “É assim que eu sou; meu nariz não é bem reto, meus olhos são um tanto pequenos, meu cabelo é liso”, aceitando esta verdade, vendo-se como efetivamente é, o tédio desaparecerá. O aborrecimento só surge quando você rejeita o que vê e almeja ser diferente. Do mesmo modo, quando você contempla o seu interior e o vê como é, isso não a entedia. É, pelo contrário, extraordinariamente interessante, pois, quanto mais se vê, mais há para ver. O indivíduo pode aprofundar-se cada vez mais, ampliar o autoconhecimento, sem jamais encontrar o fim. Em tal processo não existe tédio. Se chegar a esse ponto, estará fazendo aquilo que preza, e, se prezamos os nossos feitos, o tempo não existe. Quem gosta de plantar árvores, sabe regá-las e protegê-las. Quando fazemos uma coisa pelo simples gosto de fazê-la, os dias parecem mais curtos. De agora em diante, descubram vocês mesmos o que apreciam fazer, o que lhes agradaria realizar. Não se preocupem apenas com as vantagens de uma carreira.

ESTUDANTE: Senhor, como descobrir o que gosto de fazer?

KRISHNAMURTI: Como descobrir? Compreendendo que talvez isso difira daquilo que pretende fazer. Provavelmente quer ser médico por ser essa a profissão paterna, ou porque a julgue rendosa. Então, nesse caso, não prezamos o que fazemos, pois nosso objetivo imediato é o lucro, e prestigiar-nos através dele. Quando prezamos alguma coisa, o móvel para alcançá-la não existe. Não nos valemos do que estamos realizando com o fito de tornar-nos mais importantes.

Descobrir o que se gosta de fazer é algo bem difícil. É, aliás, uma das tarefas da educação. Para tanto, cumpre penetrar-nos profundamente. E isso não é nada fácil. Pode o indivíduo dizer: pretendo ser advogado e consegui-lo após muita luta, e depois, subitamente, descobrir que seu pendor era outro. O que ele gostaria era de ser pintor. Porém, é tarde demais. Já está casado, tem mulher e filhos, faltam-lhe condições para desistir daquela carreira, das responsabilidades assumidas. Então, sente-se frustrado, infeliz. Contudo, ele talvez resolva seguir sua inclinação e, assim, dedica sua vida àquele objetivo a pintura. Mas, um dia, inesperadamente, nota que jamais será um bom pintor, pois o que desejaria mesmo era ser aviador.

A educação correta não visa ajudá-los a encontrarem carreiras. Abandonem esta idéia. Educar-se não significa um simples acumular de informações através de um professor, nem aprender Matemática em livros, ou datas históricas relativas a reis e costumes; resume-se a educação em auxiliá-los a compreenderem os problemas humanos à medida que apareçam e isto requer uma mente. saudável – urna mente que raciocine, penetrante, sem crenças. A crença não é um fato. O homem que acredita em deus é tão supersticioso quanto ao que nele não crê. Para descobrir alguma coisa é preciso raciocinar, e não poderão raciocinar se antes já tiverem uma opinião, preconceitos, se já tiverem chegado a uma conclusão. Necessitamos, pois, de uma mente sã, sensível, lúcida, objetiva, e não de uma mente crédula e que obedece à autoridade. O objetivo da boa educação é ajudá-los a descobrirem, individualmente, o que gostariam de ser. Não importa o que seja, cozinheiro, jardineiro, etc., mas algo a que deverão dedicar-se. Então poderão ser eficientes, sem se tornarem brutais. E esta escola deve ser um lugar onde encontrem ajuda para verificarem e descobrirem, por si próprios, por meio de debates, pelo ouvir, pelo silêncio, através do viver, o que na verdade desejariam ser.

ESTUDANTE: Como podemos conhecer-nos?

KRISHNAMURTI: Esta é uma boa pergunta. Ouçam atentamente. Como sabem o que são? Compreendem o que interrogo? Vocês olham uma vez para o espelho; depois de alguns dias ou algumas semanas, tornam a olhar e dizem: “Este sou eu de novo.” Certo? Então, olhando-se diariamente no espelho, passam a reconhecer o próprio rosto, afirmando: “Este sou eu.” Pois bem. De igual modo, pela observação, serão capazes de saber como são? De conhecer seus gestos, a maneira de andar, o modo de falar, como se comportam, se são duros, cruéis, grosseiros, pacientes? É desta maneira que começam a descobrir-se. E virão a compreender-se observando-se no espelho do que fazem, do que pensam, do que sentem. Este é o espelho – o sentir, o fazer, o pensar. Através dele poderão observar-se. O espelho diz: este é o fato, mas ele não lhes agrada, e desejam alterá-lo. Começam então a distorcê-lo, pois não querem vê-lo como é. Ora, como eu disse antes, nós aprendemos quando existe atenção e silêncio. É assim que ocorre o aprender. Agora, sentem-se calmamente; não porque eu lhes estou pedindo, mas por ser este o meio de aprender. Sentem-se e fiquem tranqüilos, não apenas fisicamente, não só com o corpo, mas também com serenidade. Assim, nesse estado de quietude, prestem atenção. Atentem para os ruídos que vêm de fora, para o cantar do galo, dos pássaros, para todo e qualquer barulho; ouçam primeiro as coisas que acontecem externamente e, depois, o que se passa na própria mente. Então, poderão notar, nesse silêncio, se souberem escutar, que o som externo e o interno são o mesmo som.

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