O problema relativo às idéias é inteiramente diverso. Os ideais são fictícios, não são realidades; são a “projeção” da mente. (…) Vós tendes o ideal da fraternidade, (…) da não-violência, (…) do amor, (…) da benevolência. (…) Se o fôsseis, não teríeis ideais. (O Problema da Revolução Total, pág. 75)

Ora, por certo, quando seguis um ideal, estais evitando “o que é” (…)? “Eu odeio, ou sou violento; estou-me exercitando na “não-violência”; tal é o meu ideal. (…) (Idem, pág. 76)

(…) A virtude, senhores, é uma coisa que não pode ser praticada. E, se se pratica, não é mais virtude. Porque a virtude é inconsciente e não pode ser mentalmente cultivada. Se o for, isso será apenas uma capa diferente (…) sob que se esconde o “eu”. (Idem, pág. 77)

(…) O homem que diz: “devo esquecer-me de mim mesmo na virtude e, portanto, vou praticar a virtude”, está vestindo o seu “eu” com a capa da virtude; é o “eu” disfarçado de virtude. (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 58)

(…) Afinal, a virtude é a capacidade de pronta adaptação, não é o cultivo de uma idéia; o cultivo de uma idéia não é virtude. A virtude não é a negação do vício, ela é um modo de ser (…) O homem que cultiva a virtude não é virtuoso. (…) (O que te Fará Feliz, pág. 59)

(…) A antítese é o prolongamento da tese; o oposto contém o elemento do oposto respectivo. Sendo violenta, a mente projeta o seu oposto, o ideal de não-violência. (…) O conflito entre o real e o ideal é evidentemente um meio de adiar a compreensão do real, e esse conflito apenas cria outro problema, que ajuda a esconder o problema imediato. O ideal é uma maravilhosa e respeitável fuga ao real. O ideal da não-violência, tal como o da Utopia coletiva, é fictício; o ideal, o que deveria ser, ajuda a esconder e a evitar o que é. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 95)

(…) Quando lutais para serdes não violento, esse mesmo processo de luta é violência. Isto é, no esforço por vos tornardes não violento, estais imitando o ideal da não violência (…) O ideal, pois, é de vossa própria fabricação, produto da vossa própria violência. (Nosso Único Problema, pág.75)

Sendo violento, criais o oposto; mas todo oposto contém sempre o seu oposto respectivo, e, por conseguinte, o ideal da não-violência tem de conter, forçosamente, o elemento da violência – as duas coisas não são diferentes. (…) (Idem, pág. 75)

Virtude é a compreensão do que é, sem fuga. Não podeis compreender o que é, se lhe resistis; porque a compreensão requer liberdade da reação condicionada ao que é. (…) A virtude é um estado de liberdade, porque a virtude traz ordem e clareza. A virtude é livre de vir-a-ser; ela é a compreensão do que é. (…) (Idem, pág. 75-76)

Compreender o fato é ser virtuoso. A cólera é um fato, e o compreendê-la, sem a condenar, sem tentar defendê-la ou justificá-la, nos liberta do fato; e a nossa libertação do fato é virtude. (Que Estamos Buscando?, pág. 162)

(…) A virtude, pois, não é um fim para ser alcançado. A compreensão do fato é virtude, e sem virtude não pode haver liberdade. (…) A liberdade é virtude, e a virtude é a compreensão do fato, do que somos (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 162)

A compreensão do que somos, (…) – feios ou belos, iníquos ou perversos – a compreensão de nós mesmos, sem nenhuma desfiguração, é o começo da virtude. A virtude é essencial, pois dá liberdade. (…) É só na virtude que podemos descobrir, que podemos viver – não no cultivo de uma virtude, pois isso só tem o efeito de nos tornar respeitáveis. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 75)

Há diferença entre ser virtuoso e tornar-se virtuoso. Ser virtuoso é um estado que advém da compreensão do que é, enquanto o tornar-se virtuoso (…) é encobrir o que é com aquilo que desejamos ser. (Idem, pág. 76)

Desconhecemos aquele amor. Ele, de certo, não pode ser cultivado. Cultivá-lo é como cultivar a humildade; só o homem vaidoso, arrogante, poderá cultivar a humildade – uma capa para cobrir-lhe a vaidade. Assim como a humildade não pode cultivar-se, assim também não se pode cultivar o amor. Mas, nós temos de tê-lo, o amor. Se não o tendes, não podeis ter virtude, (…) nem ordem (…) Repito, pois, que se não tendes amor, não tendes virtude; e, sem a virtude, só há desordem. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 155)

A ordem, por certo, só desponta com a virtude; porque, se não sois virtuoso, (…) em todas as coisas, vossa vida se torna caótica (…) Ser virtuoso, por si só, tem muito pouca significação; mas, quando sois virtuoso, há precisão no vosso pensamento, ordem em todo o vosso viver, e essa é a função da virtude. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 60)

A virtude é que, realmente, põe a mente em ordem; e nosso problema é como criar a virtude, sem “cultivar virtude”. Se eu a cultivo, ela deixa de ser virtude; entretanto, sem a virtude não existe ordem. A virtude não é um fim em si. Ela apenas torna a mente clara, livre, não contaminada pela sociedade. (…) (O Homem Livre, pág. 143)

A virtude liberta a mente, e a mente não está livre enquanto não há virtude. Mas a chama da virtude em que quase todos nós baseamos a nossa conduta é pura conveniência social; e a sociedade, radicada que está na aquisição, na compulsão, no egotismo, nenhuma possibilidade tem de compreender a virtude de ser e não de vir a ser. (Idem, pág. 144)

Se não compreendemos o que é ser virtuoso, nunca estará a mente livre para investigar, descobrir a Realidade. A virtude é essencial como conduta, comportamento; mas o comportamento baseado na compulsão, no conformismo, no medo, já não é ação de uma mente virtuosa. (…) (O Homem Livre, pág. 144)

O homem que cultiva a virtude está sempre a pensar em si mesmo; só se preocupa com seu próprio progresso, seu melhoramento pessoal, e isso é ainda atividade do “ego”, do “eu”; e essa atividade, evidentemente, nada tem em comum com a virtude, que é um “estado de ser” e não de “vir a ser”. (Idem, pág. 144)

(…) Devemos estar cônscios das atividades sutis e erradias do “ego”, pois, quando as compreendemos, começa a existir a virtude, porém a virtude não é um fim em si. O interesse egoísta não pode cultivar a virtude; ele só pode perpetuar a si mesmo, sob a máscara da virtude. Acobertada pela virtude, continua a atividade do “ego”. É como se quiséssemos ver a luz clara e pura através de óculos coloridos que estivéssemos usando sem o saber. Para vermos a luz pura, devemos primeiramente dar-nos conta de nossos óculos coloridos; (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 217-218)

A virtude, pois, é a negação do “vir-a-ser”; e essa negação só ocorre na compreensão do “que é”. E uma vez realizada, pelo autoconhecimento, essa transformação radical, tem-se a possibilidade de viver criadoramente. Porque a verdade não é uma coisa alcançável pelo esforço, não é um fim (…) Não é resultado de conhecimentos acumulados e armazenados, que é simples memória, condicionamento, experiência. (…) Porque, quem acumula é o “eu”, e ele acumula para se impor, para dominar, para expandir-se, para preencher-se. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 85-86)

(…) A virtude é aquele estado de liberdade em que não há quem faça esforço. Por conseguinte, a virtude é um estado no qual cessou de todo o esforço; mas, se fazeis um esforço para vos tornardes virtuoso, esse esforço não é virtude. (A Conquista da Serenidade, pág. 37)

A virtude traz liberdade, a qual dá ao pensamento tranqüilidade para compreender o Real. A virtude não é, pois, um fim em si; só a Verdade o é. Ser escravo da paixão é não estar livre (…) O desejo de Realidade é a mesma coisa que o desejo de posses. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 265)

(…) A virtude, portanto, é aquele estado que se manifesta depois de termos transcendido “o que é”. Mas esse transcender, esse passar além do “que é”, não pode realizar-se se fazemos esforço para ser algo. (…) Queremos mais compreensão, mais felicidade, mais sabedoria. O próprio desejo de ser algo é a negação do “que é”. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 83)

(…) Por certo, ser “o que é” constitui o começo da virtude; e contentamento é a compreensão do “que é”. O desejo de ser algo invariavelmente condiciona (…) (Nosso Único Problema, pág. 73)

A percepção mesma daquilo que sois, de como sois, no momento da ação, nas vossas relações, traz-nos a libertação daquilo “que é”. Só na liberdade é possível o descobrimento. Afinal, a ausência de virtude significa desordem, conflito, mas a virtude é liberdade, é a clareza do percebimento, que vem com a compreensão. (…) Virtude é a percepção imediata do “que é”. Assim sendo, o autoconhecimento é o começo da sabedoria; (…) (O Caminho da Vida, pág. 30)

Assim, (…) A atividade criadora é gerada pela liberdade, e só pode haver liberdade quando há virtude, e a virtude não é resultado do processo do tempo. A virtude vem quando começamos a compreender o que é, em nossa existência de cada dia. (Novo Acesso à Vida, pág. 82)

Pois bem, para ser livre para investigar, não se requer virtude? Mas a virtude que nos dá liberdade não é a virtude que se pode perseguir, prender e cultivar, pois essa só cria respeitabilidade, que é o signo da mediocridade. (…) O descobrir exige liberdade na investigação, requer aquela extraordinária vitalidade mental (…) Para investigar, necessitamos de liberdade; e a virtude dá-nos essa liberdade (…) (Poder e Realização, pág. 38-39)

Estamos (…) examinando, no seu todo, a questão da virtude. Se compreendermos corretamente a virtude, ela libera uma enorme vitalidade, e é dessa vitalidade, dessa energia, que necessitamos para realizar a transformação completa (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 132)

A virtude pertence ao coração, não à mente. Quando a mente cultiva a virtude, isso é cálculo sutil; é autodefesa, maneira hábil de ajustar-se ao ambiente. O auto-aperfeiçoamento é a negação mesma da virtude. Como pode haver virtude, se há medo? O medo é coisa da mente, não do coração. E se oculta debaixo de formas diferentes: virtude, respeitabilidade, ajustamento, beneficência, etc. (…) Para o encontro com a vida, necessita-se de vulnerabilidade e não da muralha respeitável da virtude, onde o “eu” se isola. O Supremo não pode ser alcançado; não há caminho, não há aperfeiçoamento (…) progressivo para se chegar lá. A Verdade tem de vir, ninguém pode ir a ela (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 31)

Na compreensão do processo da mente, que é o “eu”, nasce a virtude. A virtude não é resistência acumulada; é percebimento espontâneo, compreensão do “que é”. A mente não pode compreender; poderá traduzir o que foi entendido em ação, mas é incapaz de compreensão. (…) Virtude não é conflito e realização, exercício prolongado e consecução, porém, antes, um estado de ser que não é produto de desejo projetado. (…) (Idem, pág. 32)

Virtude não é, evidentemente, a conduta repetitiva do ajustamento a um padrão que se tornou “respeitável”, e que o sistema (…) aceita como moralidade. Temos de ser muito claros em relação ao que é a virtude. Ela surge; não pode ser cultivada, tal como não se pode cultivar a humildade ou o amor. A virtude surge – com a sua beleza, (…) ordem natural – quando sabemos o que ela não é; pela negação, descobrimos o positivo. (O Mundo Somos Nós, pág.34)

A virtude, pois, é essencial para se compreender a Realidade, e virtude não é respeitabilidade. Ser virtuoso, sem procurar tornar-se virtuoso, exige extraordinária investigação, lúcido pensar, e não terdes nenhuma forma de medo. (…) Descobrireis, então, que existe uma disciplina não relacionada com a disciplina da moralidade social; uma disciplina que (…) torna a mente capaz de seguir com incomum velocidade o célere movimento da Verdade. (…) (O Homem Livre, pág. 147)

Pergunta: Devo ser pacifista?

Krishnamurti: (…) Averigüemos o que se entende por pacifismo. Opõe-se o pacifismo à violência? A paz é a negação do conflito? O bem é o oposto do mal? Quando rejeitais o vício e passais para o seu oposto, isso é virtude? (…) O oposto implica conflito, não é verdade? (…) (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 47-48)

Assim, pois, enquanto vós e eu estivermos em conflito internamente, psicologicamente, tem de haver a projeção desse conflito no mundo, sob a forma de guerra. Sem compreenderdes o vosso conflito interior, o vos tornardes pacifista ou o ingressardes numa organização em prol da paz nenhuma significação tem. O homem que apenas resiste à guerra e permanece em conflito psicológico, está simplesmente criando maior confusão. (…) (Idem, pág. 48-49)

Mas, se realmente compreenderdes esse processo total do conflito interior, o qual se projeta no mundo sob a forma de guerra, então, obviamente, não sois nem mercador de guerra nem mero pacifista – sois algo diferente; como estais em paz com vós mesmos, estais em paz com o mundo. Estando em paz interior e, por conseguinte, exterior, é óbvio que não pertencereis a nacionalidade alguma, a nenhuma religião, a nenhum grupo ou classe (…) (Idem, pág. 49)

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