Desde que encontrei a felicidade – (…) visto que descobri a Verdade (…) – quisera mostrar-vos a senda. O caminho para a felicidade acha-se em vosso coração e em vossa mente, e em sua purificação reside a consecução. Não há dependência de auxílio externo para vos apoiar. (…) Para compreender a Vida, tendes de purificar vossa mente e vosso coração e estabelecer harmonia dentro de vós próprios. (…) (Uma Visão da Vida, em “A Estrela”, de março-abril de 1929, pág. 4)

Para poderdes alcançar a felicidade, precisais pôr de lado aquelas coisas que não são essenciais e olhar para a Vida nos campos abertos, a fim de vos guiardes. Somente com essa visão da Vida podereis crescer, ser sustentados e nutridos. Se fordes alimentados por coisas não essenciais, dar-se-á a fadiga do coração e a corrupção da mente. Deveis cultuar aquilo que é incorruptível, deveis dar o vosso amor àquilo que se acha para além da estagnação. (Idem, pág. 4)

Um rio que corre rápida e constantemente, procura caminho para os mares abertos, muitas vezes forma, às margens, poças de água estagnada que permanecem o ano inteiro, até que a estação chuvosa venha e leve as águas paradas para a corrente principal. A Vida, para mim, é semelhante a esse rio, e sustento que é mais rápido e fácil entrar no mar aberto da libertação e da felicidade nadando na corrente principal da Vida, do que permanecendo nas águas estagnadas, retardadas, onde a vida não existe, onde se criam crenças e executam ritos (O Rio da Vida, em “A Estrela”, de março-abril de 1992, pág. 11)

Eu sempre desejei a liberdade. Sempre andei descontente com dogmas, crenças e credos. (…) Em uma floresta espessa, podeis notar como uma pequena planta luta para crescer: as grandes árvores lançam sobre ela a sua sombra e não lhe permitem desfrutar a luz do sol e o ar fresco. (…) Assim como a semente que está sob a terra é forçada, pela vida interna, a despedaçar o solo duro e defrontar a luz, do mesmo modo se alguém for impelido pelo desejo de atingir a liberdade, despedaçará todas as limitações circundantes. (Idem, pág. 12)

A Vida é livre, incondicionada, ilimitável e, para atingi-la, é preciso não trilhar um caminho limitado, restrito, qualquer que seja ele. Pois a Verdade é o todo – e não a parte. A ela não podeis chegar com mentes não adestradas, apenas meio evoluídas e com semi-evoluídas emoções, pois ela é a perfeita harmonia, o perfeito equilíbrio da mente e do coração, que é a Vida. (Krishnamurti em Eerde, em “Boletim Internacional da Estrela”, de setembro de 1929, pág. 22)

É possível estarmos totalmente atentos ao todo da vida, não apenas aos fragmentos, às partes, porém à sua totalidade? Examinai o que se está dizendo e, por vós mesmos, senti, tomai conhecimento dessa ação fragmentária, para não considerardes sério aquilo que não é sério, e descobrirdes o que é uma mente realmente séria, que não funciona por fragmentos, porém considera a todo. Esta, de certo, é a mente séria; a mente que está cônscia do processo total da vida, não em fragmentos, mas como um todo indiviso. (Encontro com o Eterno, pág. 20-21)

Refiro-me a uma disciplina completamente diferente, uma disciplina que nasce espontaneamente quando se compreende esse extraordinário processo da vida, não em fragmentos, mas como um todo indiviso. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 214)

Pergunta: Qual é a vossa idéia do infinito?

Krishnamurti: Existe um movimento, um processo de vida, sem fim, que pode ser chamado infinito. Pela autoridade e imitação, nascidas do medo, cria a mente para si própria múltiplas falsas reações, e por meio delas limita-se a si própria. Identificar-se com essa limitação, é incapaz de acompanhar o movimento rápido da vida. (…) [Nota Revisor: Este último parágrafo está aleijado. O sentido não seria este: Ao identificar-se com essa limitação, fica-se incapaz….?]

Enquanto a mente-coração não puder libertar-se dessas limitações em plena consciência, não pode ter lugar a compreensão desse contínuo processo de vir-a-ser. Portanto, não pergunteis o que é infinito, porém descobri por vós mesmos as limitações que mantém a mente-coração em cativeiro, impedindo-a de viver nesse movimento da vida. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 19-20)

Para compreender a verdade, tem de haver observação silenciosa, e a descrição dela somente a torna confusa e limitada. Para compreendermos o infinito processo da vida, temos de começar negativamente, sem afirmações nem postulados, e daí construir o arcabouço do nosso pensamento-sentimento, da nossa ação e conduta. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 25)

Pergunta: Não conduz a experiência à plenitude da vida?

Krishnamurti: Vemos muitas pessoas passarem por experiências repetidas, multiplicando as sensações, vivendo as memórias passadas com antecipações futuras. Vivem esses indivíduos uma vida de plenitude? (…) Ou só existe plenitude da vida quando a mente está aberta, vulnerável, completamente desnuda de todas as memórias autoprotetoras?

A memória guia-nos por meio das experiências. Acercamo-nos de cada nova experiência com a mente condicionada, (…) sobrecarregada de memórias autoprotetoras de temores, de preconceitos e tendências. (…) Enquanto existirem memórias autoprotetoras e enquanto estas derem continuidade ao processo do “eu”, não pode haver plenitude de vida. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 60-61)

Portanto, devemos compreender o processo da experiência (…) Embora a mente procure evadir-se do sofrimento, auxiliada por essas memórias, desse modo ela apenas acentua o temor, a ilusão e o conflito. A plenitude da vida só é possível quando a mente-coração estiver integralmente vulnerável ao movimento da vida, sem nenhum obstáculo artificial e auto-criado. A riqueza da vida advém quando a carência, com suas ilusões e valores, tiver cessado. (Idem, pág. 61)

Devemos ter freqüentemente nos perguntado se porventura existe algo dentro de nós que tenha continuidade, um princípio algo vivo que tenha permanência, uma qualidade que seja perdurável, uma realidade que persista através de toda esta transitoriedade (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 89)

A vida está a todo momento em um estado de nascença, de surgir, de “vir-a-ser”. Nesse surgir, nesse “vir-a-ser”, por si mesmo não há continuidade, nada que se possa identificar como sendo permanente. A vida está em constante movimento, em ação; cada momento dessa ação jamais existiu anteriormente e jamais existirá de novo. Cada novo momento, porém, forma uma continuidade de movimento. (Idem, pág. 89-90)

Ora, a consciência forma a sua própria continuidade como individualidade (ente individualizado), pela ação da ignorância, e apega-se, numa ânsia desesperada, a essa identificação. Que vem a ser esse algo ao qual cada indivíduo se aferra, esperando que ele seja imortal, que esconda o permanente ou que, para além dele, resida o eterno? (Idem, pág. 90)

Este algo a que cada um se apega é a consciência da individualidade (ente individualizado). Essa consciência compõe-se de múltiplas camadas de lembranças, as quais vêm à existência ou se mantêm presentes onde houver ignorância, ânsia e carência. A ânsia, a carência, a tendência sob qualquer das suas formas, tem de criar conflito entre ela mesma e aquilo que a provoca, ou seja, o objeto da carência; esse conflito entre a ânsia e o objeto pelo qual se anseia, aparece na consciência como individualidade (ente individualizado).

Portanto, é realmente esse atrito que procura perpetuar-se a si mesmo. Aquilo que intensamente desejamos que continue nada mais é que o atrito, a tensão entre as várias formas do anseio e seus agentes provocadores. Esse atrito, essa tensão é essa consciência que sustenta a individualidade (ente individualizado) (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 90)

O movimento da vida não tem continuidade. Está a cada momento surgindo, vindo à existência, estando, portanto, num estado de ação, de fluxo perpétuos. Quando o indivíduo anseia pela própria imortalidade, precisa discernir qual o profundo significado desse anseio e o que é que deseja que continue. A continuidade é o processo automantenedor da consciência, do qual surge a individualidade (ente individualizado) por meio da ignorância, que é resultado da carência, do anseio; daí provém o atrito e o conflito nas relações mútuas, na moral e na ação. (Idem, pág. 90-91)

Para entender aquilo que é, deverá a compreensão principiar pela de nós mesmos. O mundo é uma série de processos indefinidos, variados, que não podem ser plenamente compreendidos, pois cada força é única em si mesma e não pode ser verdadeiramente perceptível em sua totalidade. O processo integral da vida, da existência no mundo (…) só podereis compreender por meio desse processo que se acha focalizado no indivíduo sob a forma de consciência (Palestras em Ojai, 1936, pág. 115)

Ora, a ação é esse atrito, essa tensão que se dá entre a ignorância, o anseio e o objeto de seu desejo. Tal ação sustenta-se a si própria e é isso que dá continuidade ao processo do “eu”. Portanto, a ignorância, pelas suas atividades auto-sustentadoras, perpetua-se sob a forma de consciência, que é o processo do “eu”. (Idem, pág. 117)

Com ele está, a todo instante, o fundo de preconceitos (herdados e adquiridos), de pensamentos, temores, desejos, anseios, esperanças, lembranças herdadas e adquiridas. (…) Com esse fundo, com essa mente assim condicionada, o indivíduo aborda a vida, e esforça-se por compreender o constante movimento dela. Isto é, partindo de um ponto fixo, tenta ele ir ao encontro da vida que está eternamente oscilando. (Palestras em New York City, 1935, pág. 43)

Só pode haver verdadeiramente entendimento, alegria real de viver, quando houver completa unidade, ou quando não mais existir o ponto fixo, isto é, quando a mente e o coração puderem acompanhar as livres e rápidas ondulações da Vida, da verdade. (Idem, pág. 43)

(…) Não é, pois, importante que aquele que indaga da finalidade da vida descubra primeiro se o seu instrumento de pesquisa é capaz de penetrar o processo da vida, as complexidades do seu próprio ser? Porque é só isso que temos: um instrumento psicológico modelado de acordo com as nossas próprias necessidades (Novo Acesso à Vida, pág. 52)

O que estou dizendo é que, para viver com grandeza, para pensar criativamente, tem o indivíduo de estar por completo aberto à vida, isento de quaisquer reações autoprotetoras. Tal se dá quando vos achais enamorados. Tendes, pois, de estar enamorados da vida. Isso exige grande inteligência, não informações ou conhecimentos, porém sim essa grande inteligência que desperta quando defrontais a vida abertamente, completamente, quando a mente e o coração estiverem por completo vulneráveis em face da vida. (Palestras em New York City, 1935, pág. 60)

Como é essencialmente simples a vida, e como a complicamos! Sabemos demais, e esta é a razão por que a vida se nos esquiva sempre; e esse “demais” é tão pouco! Com esse pouco nós encontramos o imenso; e como podemos medir o imensurável? Nossa vaidade nos embota, a experiência e o saber nos escravizam, e as águas da vida passam sem que nos banhemos nelas. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 208)

Como há de o indivíduo viver de modo que a ação seja preenchimento? Como pode o indivíduo enamorar-se da vida? Para enamorar-se da vida (…) obter o preenchimento, é preciso ter a mente livre, mediante a compreensão profunda das limitações que a deturpam e frustram (…) (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 58-59)

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