Uma Eterna Primavera - ebook

Índice


Prefácio
Introdução
A Paisagem

CONVERSAS COM ALUNOS
Uma Eterna Primavera
O Oceano da Vida
Sobre o Medo
A Arte de Ver
Sobre Sentimentos

PERGUNTAS DOS ALUNOS
DISCUSSÕES COM PROFESSORES
A Semente de Uma Coisa Nova
Revelando o Processo de Pensar
Liberdade, Inteligência e Cuidado

CONVERSAS COM O PÚBLICO
A Verdade Não Tem Lugar Permanente
Você é o Mundo
A Causa Básica da Corrupção Humana
Os Motivos Distorcem
Compreendendo a Desordem
Morte, Meditação e Silêncio

DIÁLOGOS
O Que é o Ensinamento?
Pode o Observador Se Libertar Daquilo de Que Faz Parte?
Existe Alguma Coisa Sagrada Nesta Parte do Mundo?

A maioria das instituições educacionais não está interessada com o tipo de vida que você vai levar depois, em como vai ser a relação com sua esposa ou marido, ou com a sociedade; não estão interessadas em como você vai resolver seus muitos conflitos, seus muitos desesperos. A principal preocupação da maioria das escolas e faculdades é ajudá-lo a ter algum tipo de conhecimento de livro, e esperam que você, ao responder às questões das provas, repita o que aprendeu como um gramofone. Se você pode fazer isso com sucesso, é declarado bacharel, mestre ou PhD e, aí, entra nesta sociedade podre sem a inteligência necessária para lutar com a feiura, a corrupção, a crueldade, a bestialidade dela. Você não é encorajado a ser inteligente. É treinado para ser meramente esperto, para competir, ter um emprego e agarrar-se a ele a qualquer custo. Aí você engana, se conseguir; torna-se corrupto, e faz todas as coisas estúpidas que quase todos estão fazendo. Estou sendo claro?

Acho que a função da educação correta é não apenas nos ajudar a trabalhar duro – competente e eficientemente – exteriormente, mas também nos ajudar a não morrer interiormente. É nos ajudar a ter esse extraordinário dínamo interior, esse sentido interno de tremenda atividade que não busca um resultado. Educação correta é a integração de atividade – a interna com a externa. Atividade interna é não apenas a lembrança de alguns livros que possamos ter lido ou a habilidade para citar o Gita, os Upanishades, a Bíblia ou o último escritor comunista, mas ter um sentido de renascer novamente a cada dia; é ser livre. Isso pode ser feito, mas requer grande trabalho. Requer investigação severa, persistente, que é muito mais vigorosa do que o aprendizado por livros, pois, para estar internamente muito alerta, muito vivo, devemos ficar livres de toda dependência. Não só descobrir quanto somos condicionados, presos e influenciados, mas também se libertar de tudo isso é um trabalho muito duro. Infelizmente, consideramos a atividade externa importante – o que é – mas é a atividade interior que tem muito mais significado, porque ela controla a exterior. Então a educação, me parece, é para nos ajudar a não morrer interiormente. Vocês sabem, existe uma nascente, uma fonte, que não pode se esgotar, não pode ficar seca. A maioria de nós perdeu isso ou até nunca a encontrou. Para encontrar uma nascente que é infinita, imortal, uma fonte que nunca seca, nunca esmorece, a pessoa tem que estar muito alerta, e não se prender nas próprias aquisições passadas nem se sobrecarregar com informação, conhecimento e sistemas que estão mortos. Quando uma mente está ocupada com coisas mortas, a mente também estará morta. Por isso é muito importante compreender, desde a infância, este extraordinário problema da morte.

Portanto, é um de nossos problemas, sejamos educadores ou pais, cuidar de que essa excelência interior, inocência e vitalidade, que é destruída pelo medo, pela angústia, ganância e ambição, nunca seja destruída. Não morrer interiormente é um trabalho duro; é tão duro quanto levantar às 4 da manhã e meditar. Requer grande percepção e ‘insight’. Por isso é tão importante, enquanto somos jovens, sermos educados apropriadamente. E é função do educador – não é? – não só educar a si mesmo em sua relação com o aluno, mas também ajudar o aluno a ter essa mente extraordinariamente criativa, uma mente que está aprendendo sempre.

Mas, vejam, essa é apenas uma parte muito pequena da existência. Há muitas outras coisas envolvidas na vida. Não existe apenas sua vida individual, mas também a vida coletiva da sociedade. A sociedade na qual você vive lhe diz o que você deve ou não deve fazer, mas seus próprios anseios, ambições e desejos entram em conflito com tudo isso. Você é educado para se encaixar no padrão social e, com essa educação, você encontra a vida, o que é como um riozinho encontrando o vasto oceano. Tudo que você conhece é o riozinho plácido no qual você tem navegado por vinte ou trinta anos e então, de repente, você chega a essa enorme extensão de água, que é muito agitada e cheia de perigo. Navegar no vasto, não mapeado oceano da vida requer uma extraordinária capacidade para enfrentar seus muitos caprichos, mas, infelizmente, vocês não são educados para isso; nada lhes é dito sobre isso.

A maioria das instituições educacionais não está interessada com o tipo de vida que você vai levar depois, em como vai ser a relação com sua esposa ou marido, ou com a sociedade; não estão interessadas em como você vai resolver seus muitos conflitos, seus muitos desesperos. A principal preocupação da maioria das escolas e faculdades é ajudá-lo a ter algum tipo de conhecimento de livro, e esperam que você, ao responder às questões das provas, repita o que aprendeu como um gramofone. Se você pode fazer isso com sucesso, é declarado bacharel, mestre ou PhD e, aí, entra nesta sociedade podre sem a inteligência necessária para lutar com a feiura, a corrupção, a crueldade, a bestialidade dela. Você não é encorajado a ser inteligente. É treinado para ser meramente esperto, para competir, ter um emprego e agarrar-se a ele a qualquer custo. Aí você engana, se conseguir; torna-se corrupto, e faz todas as coisas estúpidas que quase todos estão fazendo. Estou sendo claro?

Para mim, inteligência é a capacidade de pensar muito claramente. É a capacidade de pensar sem nenhum desejo pessoal, fantasias, esperanças ou medos sendo projetados em seu pensamento. É ver os fatos como eles são. Ver a corrupção como ela é, ver a ambição como ela é, as demandas sexuais como elas são, ver todas as coisas claramente – sem nenhum tipo de distorção – é o começo da inteligência. Conquanto possa parecer difícil, se você pode fazer isso desde o início – começar no nível escolar – descobrirá que à medida que continua e entra na faculdade, terá a capacidade para questionar o que está fazendo. Você vai querer saber qual o significado da tradição e por que deve seguir, por que deve obedecer. Nesse próprio questionamento, você vai liberar a energia que precisa para ir além do livro, além do professor, além da moldura da sociedade.

Tudo que sabemos, aprendemos nos livros. Apenas repetimos o que lemos no Gita, no Corão ou na Bíblia e, desse modo, consideramos que resolvemos nossos problemas. Devemos ser educados para ir além do macaco treinado, além da máquina programada, além do processo repetitivo que chamamos de existência moderna. Para ir além do processo repetitivo, é preciso um cérebro que esteja extraordinariamente alerta, perceptivo; e, seguramente, é função da educação produzir tal cérebro mais do que um cérebro que grava e repete mecanicamente o que leu no livro, ou ouviu do professor. As máquinas já estão fazendo melhor que isso.

A: Quando estou sozinho, as perguntas aparecem, mas não quando estou na presença de pessoas mais velhas. Por que é assim?

K: Essa é uma pergunta muito boa vinda de um garotinho. Vamos ver o que está implicado nela. Quando ele está por conta própria, as perguntas aparecem, mas não aparecem quando está com pessoas mais velhas, pois ele fica amedrontado. Por estarem absorvidos em sua própria importância, em suas próprias preocupações, seus aborrecimentos e suas ambições, eles impediram as crianças pequenas de fazer perguntas. É isso que os mais velhos fazem com meninos e meninas pequenas. Por isso as perguntas só surgem quando elas – as crianças pequenas – estão andando sozinhas ou sentadas num canto do jardim. Assim, é responsabilidade dos mais velhos ver se as crianças não estão com medo de fazer perguntas. E vocês devem perguntar, investir, examinar, gritar; devem fazer tudo, exceto ter medo dos mais velhos.

Certo dia, alguns meses atrás, estava na Suíça passeando de carro com um amigo. Uma garotinha ia de bicicleta a nossa frente e, de repente, ela desceu e começou a empurrar a bicicleta. Imaginei por que e observei. Ela pegou um pedaço de papel que estava na rua, colocou numa lixeira próxima, montou novamente na bicicleta e foi embora. Vocês compreendem o significado do que estou dizendo? Não havia ninguém dizendo à garotinha para fazer o que ela fez, mas, como ela tinha o sentimento de manter a rua limpa, pegou o pedaço de papel que viu ali. Foi um desejo natural, espontâneo, de manter o lugar bonito. As pessoas que falam sobre ação não agem assim. Elas não veem o que de fato é e, consequentemente, não agem de imediato. Infelizmente, esse sentimento espontâneo provavelmente será destruído naquela garotinha à medida que ela vá crescendo. Ela irá para uma escola onde aprenderá a escrever e ler, estudará certas matérias e passará nas provas, mas esse sentimento terá acabado.

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