Pergunta: Há diversos caminhos para a Realidade?

Krishnamurti: (…) Há em cada indivíduo uma tendência dominante, seja intelectual, seja emotiva ou sensitiva; tendência para o conhecimento, para a devoção ou para a ação. Todos apresentam complexidades e atribulações próprias. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 150)

Se seguirdes uma, exclusivamente, rejeitando as outras, não descobrireis a plenitude, a realidade; mas, se vos tornardes cônscios das dificuldades inerentes a cada tendência, passando, pois, a compreendê-las, alcançareis o todo. (Idem, pág. 150)

Ao perguntarmos se há vários caminhos para a realidade, não queremos aludir às dificuldades e empecilhos que cada tendência defronta, bem como ao desejo de transcendê-los para descobrir o real? Para transcendê-los, necessitais de vos cientificar de cada tendência, e observá-la com vigilância passiva e desinteressada (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 150)

Mediante contínua percepção meditativa, compreenderemos as nossas tendências com seus impedimentos e alegrias, enfeixando-as num todo. (Idem, pág. 150)

(…) Mas não é possível haver uma só vocação para todos nós; não atitudes divergentes, não interesses divergentes, mas um interesse genuíno, comum a todos nós, ou seja: “a compreensão do que é verdadeiro, do que é real”? Esta é, por certo, a verdadeira vocação de todos nós – a qual não significa tornar-se engenheiro ou marinheiro, ou soldado ou advogado.

A verdadeira vocação de cada um de nós é, indubitavelmente, a de encontrar a Realidade. Porque, nós somos entes humanos que sofremos e buscamos; e se pudermos ter aquela verdadeira vocação, por meio de adequada educação (…) por meio da liberdade, etc., haveremos então de cooperar em liberdade, sem estarmos sujeitos a ser condicionados eternamente pelo pensamento coletivo, e obrigados a agir em conjunto. Se, como entes humanos, pudermos achar aquela Realidade, será então possível a verdadeira ação criadora. (Poder e Realização, pág. 90)

(…) Quando consideramos o que está ocorrendo no mundo, começamos a compreender que não há processo exterior nem processo interior, há só um processo unitário, um movimento integral, total, sendo que o movimento interior se expressa exteriormente, e o movimento exterior, por sua vez, reage no interior. Ser capaz de olhar esse fato – eis o que é necessário, só isso; porque, se sabemos olhar, tudo se torna claríssimo. O ato de olhar não requer nenhuma filosofia, nenhum instrutor. Ninguém precisa ensinar-vos como olhar. Olhai, simplesmente. (Liberte-se do Passado, pág. 15)

Pergunta: Os homens nascem desiguais. (…) Por que dizeis então que vossa mensagem é para todos (…)?

Krishnamurti: Senhor, é bem óbvio que todos somos desiguais. (…) Mas há diferença quando amais alguém? (…) Para o homem que busca a realidade não há divisões. Buscar a verdade é estar ativo, é ter sabedoria, é conhecer o amor. (A Arte da Libertação, pág. 34-35)

O que estou dizendo é para todos, sem levar em conta a posição de cada um na vida, sem levar em conta o seu temperamento. Todos nós sofremos (temos problemas, estamos carregados de preocupações e em conflitos incessantes. (…) (Idem, pág. 35)

Nesta manhã (…) devemos compreender que o movimento exterior e o movimento interior da vida são essencialmente a mesma coisa. (…) É quando dividimos esse movimento da vida em “exterior” e “interior”, “material” e “espiritual” que começam todos os conflitos e contradições. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 212)

Mas, se experimentarmos (…) esse movimento como um processo unitário, incluindo tanto o “interior” como o “exterior”, então não há conflito. O movimento interior já não é, então, uma reação ao “exterior”, uma fuga ao mundo e, portanto, não precisamos retirar-nos para um mosteiro. (…) (Idem, pág. 212)

Quando compreendemos o significado do “exterior”, o movimento interior deixa de ser o oposto do exterior, não é uma reação e, portanto, pode penetrar muito mais profundamente. Penso, pois, que esta é a primeira coisa que cumpre compreender: que não podemos separar o interior do exterior. Trata-se de um processo unitário. (…) Mas, para podermos penetrar mais amplamente nesse processo unitário, precisamos compreender a natureza de humildade. (Idem, pág. 212)

Não há divisão entre o externo e o interno, entre o mundo que os seres humanos hão criado externamente, e o movimento que se dá internamente – é como uma maré, saindo e entrando, é o mesmo movimento. Não existe uma divisão como o externo e o interno, é um só movimento contínuo. Para compreender esse movimento, temos de observar juntos nossa consciência. (La Llama de la Atención, pág. 79)

O homem que se volta para fora diz que todos os problemas humanos podem ser resolvidos dominando o ambiente. Isto é, diz que o pensamento humano pode ser modificado, alterado, controlado por meio de organizações, quer do trabalho, quer dos meios da produção e distribuição Ele tem o homem como se fosse barro, para ser moldado pelo ambiente (…) (Palestras em New York City, 1935, pág. 13)

A seguir, tendes o homem voltado para o interior, o qual diz que a vida nada mais é que espírito. Deixai isso e (…) permiti que siga o que há de mais alto, como é ensinado pelos instrutores, (…) sistemas filosóficos; deixai que ele se torne mais religioso (…), que tenha disciplina, que entre em organizações espirituais e obedeça às autoridades (…) (Idem, pág. 14-15)

O homem que diz que o ambiente tem a primazia e o homem que diz que, em primeiro lugar, vem o espírito, pelos seus exageros e suas ênfases falsas destroem seus próprios fins. Enquanto, para mim, a solução (…) reside no perfeito equilíbrio entre as duas coisas; para além e acima das duas está o equilíbrio, na sua modalidade simples e direta. (Idem, pág. 15-16)

Fazeis parte do ambiente, parte desse movimento exterior que flui para o interior. Não se trata de duas coisas separadas. Se não compreenderdes o exterior, não compreendereis o interior, deveis partir do exterior para o interior – e não começar do interior. (…)(O Despertar da Sensibilidade, pág. 102)

Está-se vendo (…) Necessitamos de ordem social e (…) também de ordem interior. Mas, não se trata de ordens diferentes. Nós é que, infelizmente, dividimos a vida em “exterior” e “interior”. E, ou desprezamos o “exterior” para concentrar-nos no “interior”, ou rejeitamos o “interior” para aceitar o mundo tal como é, e dele tirar o melhor proveito possível. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 100)

Não percebemos que se trata de um movimento único, um movimento unitário – exterior e interior. Se não há ordem interior, não há ordem exterior. E, para se promover a ordem exterior, cumpre compreender o mundo exterior, (…) (Idem, pág. 100)

Ora, se se percebe com toda a clareza a verdade contida em tudo isso, ocorre então um movimento que é tanto exterior como interior, não há divisão. É um movimento: movimento que consiste em ver as coisas exteriores precisa, clara e objetivamente, tais como são; e esse mesmo movimento se verifica também interiormente, não como reação, porém como o movimento das marés, que é o fluxo e refluxo das mesmas águas. (O Passo Decisivo, pág. 103)

O movimento para fora significa ter os olhos, os sentidos, todo o nosso ser, abertos, vivos. E o movimento para dentro é o fechar dos olhos (…); ninguém precisa ficar de olhos fechados. O movimento para dentro é a visão interior. Depois de compreender o exterior, os olhos se voltam para dentro; mas não como reação. E a visão interior, a compreensão interior significa quietude, tranqüilidade completas; porque nada mais há para buscar, para compreender. (Idem, pág. 103)

Não gosto de empregar a palavra “interior” (…) Esse estado interior é que é criação. Ele nada tem em comum com o poder humano de inventar, de produzir coisas, etc. É o estado de criação. Esse estado de criação só se manifesta quando a mente compreendeu a destruição, a morte. E só quando a mente vive esse estado de energia, que é amor, só então há criação. (Idem, pág. 103)

Examinemos (…) essa questão (…) O movimento exterior é também o movimento interior (não são dois movimentos separados); é como o movimento “para dentro” e “para fora”, da maré. Compreender esse movimento não separado, não dividido – nisso consiste a beleza da meditação. Portanto, o que se requer para vivermos totalmente livres de luta e de contradição é equilíbrio e harmonia, e a meditação é o caminho que leva a esse estado. (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 98)

Assim, se desejais descobrir o que é verdadeiro, deveis quebrar todos os elos que vos prendem, para investigardes não só o exterior, vossas relações com coisas e pessoas, mas também o interior, i.e., conhecer a vós mesmos – tanto superficialmente, na consciência desperta, como no inconsciente, nos ocultos recessos do intelecto e da mente. Requer isso observação constante; e, se observardes dessa maneira, vereis que não existe uma separação real entre o exterior e o interior; porque o pensamento, como a maré, tanto flui para fora como para dentro. (O Passo Decisivo, pág. 202-203)

Tudo constitui um só processo de autoconhecimento. Não podeis rejeitar o exterior, porquanto não sois uma entidade separada do mundo. O problema do mundo vos concerne, e “exterior” e “interior” são as duas faces da mesma moeda. Os eremitas, os monges, e os chamados religiosos que renunciam ao mundo, estão apenas, com todas as suas disciplinas e superstições, fugindo para suas próprias ilusões. (Idem, pág. 203)

Cada um de nós tem muitos problemas, tanto externos como internos, e os problemas interiores excedem os exteriores. Se compreendermos os problemas interiores, se os penetrarmos profundamente, os problemas exteriores se tornarão então bastante simples e claros. Mas o problema exterior não difere do problema interior. (O Passo Decisivo, pág. 180)

Assim, podemos começar a “entrar em nós mesmos”, isto é, partindo do exterior, percebendo as coisas exteriores – as árvores, a pobreza, suas causas, toda a estrutura social e econômica existente – e compreendendo-as. (A Suprema Realização, pág. 85)

Podeis, então, “entrar em vós mesmo”. Mas, antes de fazê-lo, deveis compreender esta coisa principal: que sejais rigorosamente honesto em relação a vós mesmo, de modo que não se crie ilusão de espécie alguma. É tão fácil nos iludirmos! (…) (Idem, pág. 85)

Há uma incomparável beleza no viver. Essa beleza se mostra na natureza – ao observarmos uma árvore, ao estarmos em comunhão com ela. E, se não sabeis “olhar para fora”, olhar por onde estais andando, observar o que estais dizendo, externamente, os gestos que fazeis, vossa maneira de mostrar respeito e desrespeito – se nada disso observais, como podereis “olhar para dentro”? (A Suprema Realização, pág. 86)

Como se vê, esse desejo de alterar o que é constitui uma dissipação de energia. Já se olhardes o que é, o que há realmente – vossa cólera, vosso ciúme, vossa lascívia, vossa violência – sem nenhuma interpretação, tereis então energia. (A Suprema Realização, pág. 87)

Também, para olhar, deve a mente estar em absoluto silêncio. Quando o cientista está a observar com o microscópio (…) acha-se num estado de silêncio, e não num estado de conhecimento. O que vê, traduz então em conhecimento; por conseguinte, há ação. Mas é “de dentro do silêncio” que ele observa. (Idem, pág. 88)

Daí, podemos ir mais longe. Isto é, mediante a observação das coisas exteriores, alcançarmos o interior. “Interior” e “exterior” não são dois estados diferentes; são o mesmo estado de observação “de dentro do silêncio”. (Idem, pág. 89)

ACESSO AO ETERNO; DISCIPLINA E VIA ESPONTÂNEA

Quando a mente busca, não pelo desejo de resultado, mas pela simples necessidade de buscar, porque percebeu a falsidade do que estava fazendo – então esse processo de investigação é disciplina que nenhuma relação tem com auto-aperfeiçoamento. (…) A verdade é para ser achada, e não para se crer, e para achá-la a mente deve ser livre. (…) (O Homem Livre, pág. 147)

A virtude, pois, é essencial para se compreender a Realidade, e virtude não é respeitabilidade. Ser virtuoso, sem procurar tomar-se virtuoso, exige extraordinária investigação, lúcido pensar. Descobrireis, então, que existe uma disciplina não relacionada com a disciplina da moralidade social; uma disciplina que é essencial, porquanto torna a mente capaz de seguir com incomum velocidade o célere movimento da Verdade. (…) (Idem, pág. 147)

Se desejais compreender o que é a Realidade, vossa mente deve ser capaz de extraordinária lucidez, silêncio, velocidade; e não é lúcida, não é silenciosa, não é veloz a mente quando agrilhoada a qualquer forma de disciplina. (…) Ao compreenderdes isso, vereis que existe uma disciplina, uma austeridade não resultante de atividade egocêntrica; e essa disciplina é que é essencial, para que a mente possa seguir o rápido movimento da Verdade. (Idem, pág. 147)

Ora, a mente que busca a Realidade encontra, nessa própria busca, um “processo” de disciplina em que não há experimentar por parte do “experimentador”. Para que o “experimentador” não tenha experiências, requer-se extraordinária lucidez, espantosa firmeza de pensamento, de compreensão; e dessa compreensão da totalidade da mente, que é autoconhecimento, provém uma disciplina, uma conduta, um comportamento produtivo daquela austeridade tão essencial ao “abandono” (de si mesmo). Com esse “abandono” (…) encontra-se a Beleza. Só a mente que de todo se abandona é realmente austera, e ela é que pode compreender a Verdade, a Realidade. (O Homem Livre, pág.148)

Pergunta: Não é necessária a prática de uma disciplina regular?

Krishnamurti: Um dançarino ou um violinista pratica muitas horas por dia a fim de manter os dedos macios e os músculos flexíveis. Ora, é possível mantermos a mente maleável, reflexiva, compassiva, com o praticar determinado sistema de disciplina? Ou só podeis conservá-la aberta, aguda, com a percepção constante do pensamento-sentimento? (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 170)

Ao passo que, se nos tornarmos conscientes e compreendermos que pensamos em termos de sistemas, fórmulas e padrões, então o pensamento-sentimento, libertando-se deles, tornar-se-á pouco a pouco flexível, alerta e agudo. Se considerarmos plenamente (…) seremos capazes de compreender e sentir ampla e profundamente. (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 170-171)

Essa larga e profunda percepção traz a própria disciplina, disciplina não imposta, exterior ou interiormente (…) resultante do conhecimento de nós mesmos, (…) do correto pensar, da compreensão. Tal disciplina é criadora, não forma hábito nem estimula a indolência. (Idem, pág. 171)

Pergunta: Todas as religiões têm encarecido a necessidade de alguma espécie de disciplina. (…) Mas pareceis dar a entender que tais disciplinas constituem um obstáculo. (…)

(…) O que em geral acontece é que escolheis o que é mais conveniente, (…) satisfatório; simpatizais com o homem, sua aparência, suas idiossincrasias. (…) Mas, deixemos de lado tudo isso. (…) (Solução para os nossos Conflitos, pág. 79-80)

Que implica a disciplina? Por que nos disciplinamos (…)? A disciplina e a inteligência são compatíveis uma com a outra? (…) A maioria das pessoas acha que precisamos, mediante dada espécie de disciplina, subjugar ou controlar o bruto, o ignóbil que está em nós. Mas esse bruto, essa coisa ignóbil, é suscetível de controle mediante disciplina? (Solução para os nossos Conflitos, pág. 81)

Que entendemos por disciplina? (…) Um padrão de conduta que, se praticado com diligência, aplicação e muito ardor, me dará, no fim, aquilo que desejo. Poderá ser penoso, mas estou decidido a segui-lo. Isto é, o “eu”, essa entidade agressiva, interesseira, hipócrita, cheia de ansiedades e temores; esse “eu”, que é a causa do bruto que em nós existe, nós o desejamos transformar, subjugar, destruir. (Idem, pág. 81)

E como se consegue isso? Conseguir-se-á pela disciplina, ou pela compreensão inteligente do passado do “eu”, da identidade do “eu”? (…) Isto é, devemos destruir o bruto (…) pela compulsão, ou pela inteligência? E a inteligência se consegue pela disciplina? (…) (Solução para os nossos Conflitos, pág. 81-82)

Outrossim (…) O temor está no fundo de nosso desejo de ser disciplinados, mas o desconhecido não pode ser colhido na rede da disciplina. Pelo contrário, o desconhecido necessita de liberdade e não do padrão da vossa mente. Essa a razão por que é essencial a tranqüilidade da mente. Quando a mente está cônscia de estar tranqüila, já não está tranqüila; (…) (Solução para os nossos Conflitos, pág. 88)

(…) Pode o que é real ser percebido através da disciplina ou da vontade? Isto é, pela compulsão, pelo esforço do intelecto, curvando, controlando, disciplinando, guiando, forçando o pensamento em uma direção particular, podeis conhecer-vos? E podeis conhecer-vos por meio de padrões de conduta, torcendo o vosso pensamento e o vosso sentimento aos seus ditames (…)? (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 77)

Há, então, o outro estado, que é espontâneo. Podeis conhecer-vos somente quando estiverdes despreocupados, quando não estiverdes calculando, nem protegendo, nem constantemente observando para guiar, para transformar, para subjugar, para controlar; quando vos virdes inesperadamente, isto é, quando a mente não tiver preconcepções com relação a si mesma, quando estiver aberta, não preparada para defrontar o desconhecido. (Idem, pág. 78)

Assim, a espontaneidade só pode surgir quando o intelecto não se está defendendo, (…) protegendo, quando já não teme por si; e isso só pode suceder partindo do interior. Isto é, o espontâneo deve ser o novo, o desconhecido, o incalculável, o criativo. (…) Observai os vossos próprios estados emocionais e vereis que os momentos de grande alegria, de grande êxtase, não são premeditados; eles acontecem, misteriosa, obscura, desconhecidamente. (…) (Idem, pág. 79)

A humildade, pois, não é uma coisa que se deve alcançar com esforço. Alcançá-la-eis naturalmente, facilmente, “graciosamente”, uma vez percebido como um processo total esse movimento do exterior e do interior. Então começareis a aprender. Aprender é o estado da mente que jamais acumula experiência como memória. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 213)

E vereis que da humildade provém a disciplina. Em maioria, não somos disciplinados. Submetemo-nos, ajustamo-nos, reprimimos, sublimamos. (…) Submissão não é disciplina e, sim, meramente, um produto do medo; por conseguinte, torna a mente estreita, estúpida, embotada. (Idem, pág. 213)

Refiro-me a uma disciplina que se torna existente espontaneamente, quando há esse extraordinário senso de humildade, e a mente, por conseguinte, se acha num “estado de aprender”. Não é então necessário impor à mente nenhuma disciplina, porquanto o “estado de aprender” é, em si mesmo, disciplina. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 213)

Espero estar explicando isso bem claramente. Refiro-me a uma disciplina completamente diferente, uma disciplina que nasce espontaneamente, quando se compreende esse extraordinário processo da vida, não em fragmentos, mas como um todo indiviso. Quando compreendeis a vós mesmo, não “especializado” como músico, artista, orador, iogue, etc., mas como ser humano total, então há um “estado de aprender”, e esse mesmo “estado de aprender” é disciplina na qual não há ajustamento, imitação. A mente não está sendo moldada de acordo com nenhum padrão e, portanto, é livre, e nessa liberdade há um espontâneo senso de disciplina. (Idem, pág. 213-214)

(…) Podemos viver mil vidas, praticando a autodisciplina, sacrificando, subjugando, meditando, mas por esse meio nunca seremos levados ao direto percebimento, o qual só é realizável em plena liberdade, e não por meio de controle, de subjugação, de disciplinas; e só pode aparecer a liberdade quando a mente se torna cônscia, de pronto, de seu condicionamento, pois então se verifica a cessação desse condicionamento. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 10)

Quase todos nós desejamos encontrar uma pessoa autorizada que nos ensine o que devemos fazer. (…) Ora, pode-se chegar a Deus – essa entidade suprema, inefável, indefinível – (…) pela disciplina, pela observância de um padrão de ação? Queremos alcançar determinado alvo pela disciplina, reprimindo, sublimando ou substituindo (…) (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 155-156)

Que implica a disciplina? Por que nos disciplinamos (…)? Podem coexistir a disciplina e a inteligência? A maioria das pessoas crê que podemos, por meio de certa disciplina, subjugar ou controlar o bruto que em nós reside. Esse bruto, (…) monstro, pode ser controlado pela disciplina? O “eu”, entidade agressiva, egoísta, hipócrita, inquieta, medrosa (…), esse “eu”, que gerou o bruto em nós, queremos transformá-lo, subjugá-lo, destruí-lo. (Idem, pág. 156)

Como consegui-lo? Pode-se conseguir isso por meio de disciplina, ou só pela compreensão inteligente do passado do “eu”, da natureza do “eu”, sua origem, etc.? Será destruído o bruto que existe no homem pela compulsão, ou só pela inteligência? Inteligência é questão de disciplina? (…) (Idem, pág. 156)

Antes de tudo, deve a mente estar tranqüila, (…) não perturbada, para que possa compreender qualquer coisa, principalmente aquilo que não conheço, (…) que minha mente é incapaz de descobrir, ou seja (…) Deus. (…) Pode essa tranqüilidade profunda ser atingida por meio de qualquer forma de compulsão? (…) A resistência, pois, não é o caminho. (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 157)

O primeiro requisito, não como disciplina, é evidentemente a liberdade; só a virtude pode dar essa liberdade. Avidez é confusão; cólera é confusão; malevolência é confusão. Ao perceberdes isso, estais livre dessas coisas; não mais lhes resistis, porque vem a compreensão de que só em liberdade podeis descobrir, e que toda forma de compulsão não é liberdade, não permite descobrimento. (Idem, pág. 158)

A palavra “disciplina” significa aprender de um homem que sabe; supõe-se que vós não sabeis e tendes de aprender dele. É isso o que implica a palavra “disciplina”. Mas, aqui, não a vamos empregar com o sentido de aprender de outrem, mas, sim, com o significado de observar a si próprio. A observação de si próprio exige uma disciplina em que não haja repressão, imitação, obediência ou, sequer, ajustamento; (…) O próprio ato de aprender é, em si, disciplina, já que requer muita atenção, grande energia e “intensidade” e instantaneidade de ação. (Fora da Violência, pág. 21)

As atitudes cultivadas da moça, e aquelas disciplinadas do asceta chamado religioso, são, igualmente, resultados deformados de uma mente vulgar, pois ambos repelem a natural espontaneidade. Temem-na, um e outro, porque a espontaneidade os revela, a si próprios e a outros, tais como são; ambos estão diligenciando destruí-la, e a medida do seu sucesso é o completo ajustamento ao padrão. (…) A espontaneidade é a única chave que abre a porta do que é. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 132)

A reação espontânea revela a mente tal como é; mas o que se revela é imediatamente adornado ou destruído, e, com isso, se põe fim à espontaneidade. A destruição da espontaneidade é própria da mente vulgar. Só na espontaneidade, na liberdade, pode haver descobrimento. A mente disciplinada não pode descobrir; poderá funcionar com muita eficiência (…); não pode, porém, desvelar o insondável. É o medo que cria a resistência, chamada disciplina; mas o espontâneo descobrimento do temor é libertação do temor. Ajustar-se a um padrão é medo, e este só pode gerar conflito, confusão e antagonismo. (Idem, pág. 132)

Sem espontaneidade não pode haver autoconhecimento; e sem autoconhecimento a mente é moldada por influências passageiras. (…) O que se junta peça por peça pode ser desfeito, e o que não foi ajuntado só pode ser descoberto pelo autoconhecimento. O “eu” é uma coisa que foi ajuntada, e, só quando se desmancha o “eu”, pode aquilo que não é resultado de influência, que não tem causa ser conhecido. (Idem, pág. 132-133)

“Parece uma coisa interminável, essa constante análise, introspecção, vigilância. Tudo já tentei: gurus de caras raspadas, gurus barbados, sistemas de meditação – o “repertório” que bem conheceis. No fim de tudo, a gente fica de boca seca e oco por dentro.”

Por que não começar pelo outro lado, o lado que desconheceis – a outra margem que não podeis enxergar desta margem? Começai com o desconhecido, em lugar do conhecido, pois o constante exame e análise só têm o efeito de condicionar mais ainda o conhecido. Se vossa mente viver com suas raízes no outro lado, todos os vossos problemas deixarão de existir. (A Outra Margem do Caminho, pág. 124)

“Mas, como posso começar do outro lado? Eu o desconheço, não posso vê-lo.”

Essa pergunta – como posso começar do outro lado? – tem sua base neste lado. Portanto, não a façais, e parti do outro lado, que desconheceis completamente, de uma outra dimensão que pensamento, malgrado sua sagacidade, é incapaz de apreender. (A Outra Margem do Caminho, pág. 124)

“Não vejo como posso começar daquele lado. Em verdade, não compreendo essa vaga asserção. Eu só posso me dirigir a um lugar que conheça.”

Mas, que é que conheceis? Só conheceis uma coisa já terminada, acabada. Só conheceis o ontem, e nós estamos dizendo: parti daquilo que desconheceis, vivei com vossas bases lá. (…) Mas, se viveres com o desconhecido, estareis vivendo em liberdade, agindo com base na liberdade, e isso, afinal, significa amor. Se disserdes: Eu sei o que é o amor” – nesse caso não sabeis o que é ele. (…) Já que não é isso, vivei então com aquilo que desconheceis. (A Outra Margem do Caminho, pág. 125)

“Não sei o que é isso de que estais falando. (…)”

Estou fazendo uma pergunta muito simples. Estou dizendo que, quanto mais se cava, mais há para cavar. Esse mesmo ato de cavar é condicionamento, e cada porção que se retira com a pá forma um degrau – degraus que não levam a parte alguma. Quereis que outros façam para vós os degraus, ou quereis vós mesmo fazer os degraus que vos levarão a uma dimensão de todo diferente? (…) Portanto, abandonai tudo e parti do outro lado. Mantende silêncio, e o descobrireis. (A Outra Margem do Caminho, pág. 125)

Desejo explicar hoje que há um modo de viver naturalmente, espontaneamente, sem a constante fricção da autodisciplina, do ajustamento. Quando viveis completamente na harmonia de vossa mente e coração, então o vosso agir é natural, espontâneo, sem esforço. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 130)

(…) Ninguém pode, de modo algum, forçar a espontaneidade. Nenhum método vos dará a espontaneidade. (…) Nenhuma disciplina produz a alegria espontânea do desconhecido. Quanto mais vos esforçardes para ser espontâneo, tanto mais a espontaneidade se afasta e se torna oculta e obscura. (…) Tendes de vos aproximar dela negativamente, não com a intenção de capturar o desconhecido, o real. (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 81)

Se não tiverdes simpatia nem afeição, jamais podereis alcançar ou identificar-vos com a meta. A mente que está contente e satisfeita nunca adquirirá simpatia, nem tampouco dará entendimento a outrem. Tenho observado pessoas que desejam muito ajudar a outrem, mas não sabem como fazê-lo. São incapazes de se colocar no lugar de outrem, e assim perceber seu ponto de vista. (Vida em Liberdade, em “Carta de Notícias” da ICK nº 1 a 6, de 1945, II, pág. 15)

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