Pergunta: Sonho muito. Têm os sonhos alguma significação?

K.: Este é realmente um problema de extraordinária importância (…) Primeiro, estamos geralmente despertos, parcialmente despertos ou adormecidos? Quando estais despertos? (…) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 189)

Ora bem, qual é o significado dos sonhos? O significado é, por certo, o seguinte: A mente consciente, durante o dia, está ativamente empenhada no ganhar dinheiro, no executar tarefas rotineiras, no aprender, ou está aplicada a alguma ocupação técnica. Está, pois, a mente consciente, durante o dia, ativamente ocupada com coisas superficiais, como ir ao templo, (…) ao escritório, discutir com a esposa ou com o marido, pensar, ler, evitar, deleitar-se; está constantemente ativa. (Idem, pág. 190)

Quando a mente adormece, que sucede? A mente superficial fica moderadamente tranqüila. Mas a consciência não é só a camada superficial. A consciência é constituída de muitas e muitas camadas (…): impulsos ocultos, desejos, ansiedades, temores, frustrações, etc. E essas camadas da consciência podem projetar-se, e de fato se projetam, na mente consciente; e, quando esta desperta, diz: “Tive um sonho”. (…) (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 190)

Há, é claro, sonhos superficiais e há sonhos que têm significação real. Os sonhos superficiais são aqueles criados pelas reações corporais: dispepsia, excesso de alimento, etc. Tais sonhos não precisamos considerar. Outros sonhos representam comunicações procedentes das camadas mais profundas da consciência. (…) Acontece freqüentemente que, enquanto sonhais, a interpretação se processa. (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 190-191)

Não sei se já o notastes. Isto é, os sonhos são, realmente, símbolos, imagens, representações, que a mente consciente traduz (…) São símbolos e impulsos ocultos que, ao se projetarem no consciente, são traduzidos em símbolos que vos transmitem uma significação, ao despertardes. (…) (Idem, pág. 191)

Por que sonhamos e o que são os sonhos? Nos sonhos, se a pessoa os observa, e quer fazer uma experiência, pode anotar num papel todas as manhãs os sonhos que teve, e descobrirá que há uma relação consecutiva (associativa) entre cada sonho. Eles são a continuação de sua vida diária, apenas de forma simbólica, com cenas, variações, formas de subterfúgios, porém a continuação de nossa vida diária – lutas (…), conflitos, (…) irritações, (…) medos, prazeres. É o mesmo movimento, em palavras, cenas, símbolos. (…) (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 21)

(…) Penso que a maioria das pessoas com isso concordaria, exceto os neuróticos, para os quais os sonhos implicam muita significação. Através dos sonhos, tem-se a esperança de encontrar alguma espécie de universo misterioso, mas é realmente um movimento de nossa vida diária. (Idem, pág. 21)

O cérebro, que é resíduo da memória, tanto a consciente como a inconsciente, funciona como uma máquina e, portanto, nunca tem sossego. É como um motor que está constantemente em atividade, dia e noite, infindavelmente. Portanto, que acontece? Tal cérebro se torna cansado, age erraticamente, erroneamente, preso à ilusão; ele não tem vitalidade, energia. Os sonhos tornam-se desnecessários, se você aprende a observar o movimento da vida durante o dia, se você se acha totalmente atento ao que está fazendo na vigília. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 22)

Então o cérebro se torna extraordinariamente ativo, sensível, atento a todo movimento do pensamento. Você descobre todos os motivos, também os ocultos, os impulsos sutis, as complexidades. (…) As palavras usadas, os gestos, o desprezo, o desrespeito, a violência, a brutalidade, a competição, a vulgaridade transparecem, se você fica atento a tudo isso durante o dia. Então o cérebro, a total estrutura dos nervos, o corpo, o organismo, permanecendo assim alerta, quando você vai dormir, tudo isso fica muito quieto. Ele se aplicou durante o dia a compreender o que ia acontecendo. Então, quando dorme, não tem o cérebro de se ordenar. (Idem, pág. 22)

Você percebe que os nossos cérebros são, na maioria, desordenados. Funcionamos com apenas uma pequena parte desse cérebro, e temos grande desordem e muita confusão. Assim, o cérebro só pode funcionar apropriadamente, sãmente, quando há ordem. Se tem observado, quando vai dormir, o cérebro tenta se organizar antes de dormir; tem percebido isso? Você tenta observar o que aconteceu durante o dia, num retrospecto, e diz: “Bem, eu deveria fazer isto – (…) ter feito aquilo” (…) Eu não deveria ter feito isto” (…) Eu devo ter (…), “isto é certo, é errado”. Ele tenta realizar alguma ordem e, como você não conseguiu ordem durante o dia, o cérebro a realiza durante a noite. Isso são fatos, pode experimentar consigo mesmo e descobrirá. Nada há de misterioso acerca disso. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 22-23)

Pode a compreensão surgir por meio dos sonhos? Vale dizer: podem os sonhos revelar-nos, enquanto dormimos, as camadas profundas do inconsciente, a coisa que permanece oculta? Os especialistas dizem que se deve sonhar e que a não ocorrência de sonhos indica certo tipo de neurose. Também sustentam que os sonhos ajudam a compreender todas as atividades ocultas da mente. (…) (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 118)

Durante o dia, a mente está ocupada com todas as trivialidades da cotidianidade – o trabalho no escritório, o doméstico, as disputas e irritações (…), umas imagens em luta contra outras imagens, etc. Então, antes de dormir, vocês fazem um inventário de tudo quanto ocorreu ao largo do dia. Não é isso que sucede (…)? (Idem, pág. 118-119)

Pois bem (…) A mente repassa as atividades do dia porque quer ordenar tudo; de outra maneira, quando vocês dormem, o cérebro continua trabalhando e trata de induzir ordem em si mesmo, porque o cérebro só pode funcionar sãmente, normalmente, quando se encontra em completa ordem. Por conseguinte, se não existe ordem durante o dia, o cérebro trata de estabelecê-la enquanto o corpo permanece quieto, dormindo, e o estabelecimento dessa ordem é parte dos sonhos. (…) (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 119)

Pergunta: O sono é necessário ao funcionamento adequado do corpo físico. Afora isso, qual é a função do sono?

Krishnamurti: Obviamente, o sono é essencial não só ao bem-estar físico, mas também ao bem-estar psicológico. Porque, é evidente que, durante esse período, a mente consciente, ativa, comum, que vai ao escritório, essa mente está tranqüila, realmente tranqüila, quando dormis. Entretanto, essa é apenas uma parte da mente, a parte mais superficial. O resto da mente continua a funcionar. (Poder e Realização, pág. 29-30)

(…) A mente, sem dúvida nenhuma, jamais dorme. Isso pode observar-se quando temos um problema profundo, uma perturbação ou ansiedade profunda, uma questão fundamental, (…) sem encontrar solução; entretanto, depois de desistirmos de encontrá-la, a mente mais profunda, que nunca dorme, continua a indagar, a investigar. E porque investiga livre da interferência da mente superficial (…) a mente mais profunda está mais apta a investigar. (Idem, pág. 30-31)

Eis, porque, às vezes, despertando subitamente pela manhã, exclamamos: “Extraordinário! Aqui está a solução”. Ou, também, se apresenta uma idéia nova, uma nova perspectiva, uma impressão nova. Essa nova impressão surge (…) quando a chamada mente superficial está tranqüila. Luto com um problema, considero-o sob todos os aspectos, converso e discuto a respeito dele; e quando, desistindo de encontrar a solução, adormeço, surge a solução correta. (Poder e Realização, pág. 31)

Conseqüentemente, o sono é muito importante. Entretanto, quase todos nós vivemos e agimos no nível superficial da mente, sem nunca tocarmos a outra parte. Talvez, em certas ocasiões, por meio de sonhos, a outra parte apresente sugestões; mas essas sugestões são traduzidas pela mente trivial; e a própria tradução transforma em coisa trivial aquilo que tem significação. (Idem, pág. 31)

Assim, pois, tanto o dormir como o estar desperto, o estar completamente desperto durante o dia, tem igual significação (…) Não me é possível, durante o dia, não ser escravo da mente superficial, mas manter-me vigilante de todo o “processo” da mente, de todos os diferentes níveis da consciência; (…)? Não podemos, durante o dia, estar conscientes do processo total da mente e não apenas de um segmento dele? Esse processo pode ser compreendido mais claramente no sono; e, assim, a consciência da vigília se torna, também, muito mais significativa. (Poder e Realização, pág. 31-32)

Nessas condições, o que é importante não é o que acontece durante o sono, nem a interpretação dos sonhos, (…) mas, sim, o estar vigilante, observando o processo integral da mente, da consciência, durante o dia, de modo que, de noite, o sono se transforme numa compreensão mais profunda, mais penetrante, de tudo o que se passa. Durante o sono, apresenta-se um grande número de sugestões que a mente consciente nunca é capaz de conhecer. (Idem, pág. 32)

Mas enquanto houver um intérprete, o tradutor, o censor, aquele que julga e condena, o processo total da consciência não será compreendido. Não pode haver uma entidade distinta, observando a consciência e traduzindo as sugestões. O processo total não pode ser compreendido pela parte, pela entidade que observa e traduz. Eis por que é necessária uma mente silenciosa, (…) que não condena, (…) não julga. Então o processo total da consciência se revela em cada ação e em cada palavra. Por conseguinte, tanto a consciência que está desperta como a que dorme são muito importantes; (…) (Idem, pág. 32)

Que é esse inconsciente tão venerado, de que toda gente fala? Será preciso, para o saber, percorrer todos os livros escritos pelos especialistas? Será necessário recorrer a um deles para que nos diga o que é o inconsciente? Ou queremos sabê-lo por nós mesmos – completamente, e, não, parcialmente, ou em fragmentos? (O Mundo Somos Nós, pág. 88)

Diz-se que é necessário sonhar, se não enlouquece-se, porque os sonhos são avisos, mensagens do inconsciente e das camadas secretas, inexploradas, da mente. Os sonhos serão, portanto, uma expressão dessas camadas mais profundas; e, desse modo, se a própria pessoa ou o analista for capaz de interpretar os sonhos, poder-se-á então expor, esvaziar o inconsciente. (Idem, pág. 88)

Depois de fazermos a pergunta, vamos investigar se é possível não sonhar, porque o inconsciente é o depósito do passado, a herança racial e familiar, a tradição social, as várias fórmulas e sanções, os motivos, a herança vinda do animal – está tudo lá. (O Mundo Somos Nós, pág. 88)

Através dos sonhos, tudo isso é revelado, pouco a pouco, mas a pessoa terá de ser capaz de os interpretar corretamente, o que sem dúvida é impossível. Há especialistas que poderão traduzir todos esses sonhos – mas de acordo com o seu condicionamento, (…) com os seus conhecimentos, com a informação que obtiveram de outros. (Idem, pág. 88)

A consciência implica, como é óbvio, não só o que está à superfície, mas também o que está subjacente – tudo isso. Se durante a parte do dia em que se está acordado, o conteúdo da mente puder ser observado, olhado com atenção, então quando se dorme não haverá necessidade de sonhar. (O Mundo Somos Nós, pág. 89)

Veremos então, se o fizermos com seriedade, (…) intensidade, paixão para descobrir, que as nossas noites serão cheias de paz, sem um único sonho, de tal modo que ao acordar a mente estará fresca, lúcida, sem distorção alguma. O elemento pessoal é dissolvido, e ela pode assim observar completamente; isto é possível, não por se aplicar o que os especialistas dizem, mas pelo estudo de nós próprios, olhando como nos olhamos ao espelho (…) Descobriremos então que todo esse inconsciente é tão limitado, pouco profundo e embotado como a mente superficial, não contendo assim nada de vulnerável. (Idem, pág. 89)

Pergunta: Os sonhos têm significação? Se têm, como devemos interpretá-los?

Krishnamurti: Que se entende por “sonho”? Quando dormimos, nossa mente está funcionando; e, ao despertar, lembramo-nos de certas impressões, certos símbolos, expressões verbais ou quadros. É isso o que entendemos por “sonho” (…) essas expressões de que nos recordamos ao despertar, esses símbolos, sugestões, alusões apresentadas à mente consciente e relativas a coisas que não foram compreendidas completamente. (A Arte da Libertação, pág. 163-164)

Isto é, nas horas em que estamos despertos, a consciência, a mente está de todo ocupada em ganhar a vida, com as relações imediatas, (…) divertimentos, etc. A mente consciente, pois, leva uma vida muito superficial. Mas nossa vida não é apenas a camada superficial, ela está em movimento, nos diferentes níveis, a todas as horas. (Idem, pág. 164)

Esses níveis diferentes estão constantemente se esforçando por transmitir o seu significado à nossa mente consciente; e quando a mente consciente está tranqüila, como acontece durante o sono, as sugestões e mensagens do oculto são transmitida sob a forma de símbolos, e, ao despertarmos, esses símbolos persistem em nossa lembrança como sonhos (…) (A Arte da Libertação, pág. 164)

Ora, há necessidade de sonharmos? Há sonhos muito superficiais. Se comeis demais à noite, (…) tendes sonhos violentos. Há sonhos que são o resultado de refreamento do apetite sexual e de outros apetites. Quando reprimidos, esses apetites se declaram enquanto dormis, e vos lembrais disso como sonho, quando desperto. Há muitas formas de sonhos, mas (…) temos necessidade de sonhar? (Idem, pág. 164)

Se é possível não sonhar, não há então nada que necessite ser interpretado. Dizem os psicólogos (…) que é impossível não sonhar. Julgo que é possível não sonhar, e podeis experimentá-lo com vós mesmo (…) Como disse, sonhais porque a mente consciente não está cônscia do que está realmente acontecendo a cada minuto, (…) de todas as sugestões, alusões, impressões e reações que sobem constantemente à superfície. (Idem, pág. 164-165)

Mas será possível ficar passivamente cônscio, de modo que tudo seja logo percebido e compreendido? É possível, sim. É só quando há percebimento passivo de cada problema, que ele é resolvido imediatamente, em vez de ser transferido para o dia seguinte. Ora, quando tendes um problema e este causa muita preocupação, que acontece? Ides deitar-vos dizendo: “Vou deixá-lo para amanhã.” (A Arte da Libertação, pág. 165)

Na manhã seguinte, voltando ao problema, verificais que pode ser resolvido e ficais livre dele. O que de fato sucede é que a mente consciente, depois de muito procurar e atormentar-se, se torna quieta; e, então, a mente inconsciente, que continua a ocupar-se com o problema, envia as suas sugestões, suas mensagens, e, ao despertardes, o problema está resolvido. (Idem, pág. 165)

Pergunta: Só é possível estar consciente durante as horas de vigília?

Krishnamurti: Quanto mais estiverdes conscientes de vossos pensamentos e emoções, mais percepção tereis de todo o vosso ser. Em tais condições, as horas de sono se tornam uma intensificação das horas de vigília. Até no chamado sono, como sabemos, a consciência funciona. (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 83)

Tornam-se, assim, discerníveis as sugestões das camadas mais profundas da consciência e, ao despertardes, o problema parece haver-se tornado mais claro e mais fácil de resolver. Conseqüentemente, quanto mais cônscios estiverdes de vossos pensamentos-sentimentos durante o dia, (…) tanto mais serena e vigilantemente passiva se torna a mente, habilitando-se assim a responder e compreender as sutis insinuações. (…) (Idem, pág. 83-84)

Quanto mais alerta vos mantiverdes durante as horas de vigília, menos sonhos haverá. Os sonhos indicam pensamentos-sentimentos e ações incompletas, não compreendidas, que requerem interpretação nova, ou pensamento ansioso e frustrado que necessita ser plenamente compreendido. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 84)

Nem todos os sonhos merecem atenção. Cumpre interpretar os significativos e isso depende de vossa capacidade de com eles não vos identificardes (…) de aguda inteligência. Mantendo-vos penetrantemente alerta, desnecessária é a interpretação; (…) se tendes posses, preferis ir a um especialista de sonhos (…) Ficareis, assim, gradativamente na sua dependência (…) (Idem, pág. 84)

Embora vos ocupeis com vossos deveres e dispenseis atenção à existência cotidiana, a percepção interna continua; tal como chapa fotográfica, ela vai gravando toda e qualquer impressão, todo pensamento-sentimento, para ser estudado, assimilado e compreendido. É de suma importância essa faculdade, esse novo sentimento, pois revelará o eterno. (Idem, pág. 85)

(…) Qual é a importância do dormir? Consiste em passar-se sonhando nas horas em que se dorme? Ou é possível não sonhar nunca? Que são os sonhos, por que sonhamos? E é possível a uma mente não sonhar, de modo que, enquanto dorme, tenha ela um repouso total que, dessa maneira, gere nela uma classe por completo diferente de energia? (La Verdad y la Realidad, pág. 214)

Se durante as horas de vigília prestamos completa atenção a nossos pensamentos, (…) ações, (…) conduta, se estamos totalmente alertas, então, são necessários os sonhos? Ou os sonhos são continuação de nossa vida cotidiana, em forma de quadros, imagens, acontecimentos – uma continuidade dos movimentos conscientes ou inconscientes que se desenvolvem durante o dia? (La Verdad y la Realidad, pág. 211)

De modo que, quando a mente chega a estar por completo alerta durante o dia, vê-se que os sonhos deixam de ter importância; (…) portanto, já não se sonha. Há unicamente completo dormir; isso significa que a mente descansa em sua totalidade, que pode renovar-se a si mesma. (…) (Idem, pág. 214)

(…) Há um estado de percepção alerta quando você dorme, assim como quando está desperto? (…) Vale dizer: durante o dia, o indivíduo está superficial ou profundamente atento a tudo que ocorre em seu interior; é consciente de todos os movimentos do pensar, a divisão, o conflito, a infelicidade, a solidão, as exigências próprias do prazer, a persecução da ambição, da inveja, da ansiedade (…), está ele atento a tudo isso. Quando você está assim alerta durante o dia, continua essa percepção alerta durante a noite sob a forma de sonhos? Ou não há sonhos, mas unicamente um estado de percepção alerta? (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 178)

Por favor, escute isto: estou eu, está você atento durante o dia a cada movimento do pensar? Seja honesto (…): não está. Está atento em intervalos. O indivíduo está atento por dois minutos, logo há uma grande lacuna, e, depois uns poucos minutos, ou meia hora mais tarde, me dou conta de que me esqueci de mim mesmo e o tomo de novo. Há brechas em nosso estado de percepção alerta – nunca estamos continuamente alertas, e pensamos que deveríamos estar alertas todo o tempo. Pois bem, em primeiro lugar, existem grandes espaços entre um e outro momento de percepção alerta, não é assim? (…) (Idem, pág. 178)

Eu sei o que ocorre quando estou alerta. (…) não ocorre nada. Estou ativo, vital, em movimento; nisso nada pode ocorrer porque não há preferência com relação a algo que haja de ocorrer. Pois bem, quando estou inatento, (…) não estou alerta, então sim ocorrem coisas. Então digo coisas que não são verdadeiras, (…) fico nervoso, ansioso, perturbado e caio no desespero. Por que sucede isso? (…) (Idem, pág. 178-179)

Vejo que não estou alerta, e vou vigiar o que sucede nesse estado em que não estou alerta. Estar alerta do fato de que não estou alerta é o estado de percepção alerta. Sei quando estou alerta; quando existe o estado de percepção alerta, isso é algo por completo diferente. E sei quando não estou alerta; torno-me nervoso, retorço as mãos, faço toda sorte de coisas estúpidas. Se houver atenção nessa inatenção, toda a coisa termina. (…) Eu necessito estar alerta todo o tempo. (…) De modo que (…) então todo o movimento experimenta uma mudança. (Idem, pág. 179)

Bem, que ocorre durante o sono? Há percepção alerta quando você dorme? Se, durante o dia, está alerta em intervalos, então isso continua enquanto dorme – é óbvio. Porém, quando você está quanto alerta, e também o está quanto ao fato de que se acha inatento, ocorre um movimento de todo diferente. Então, quando você dorme, há uma percepção alerta de completa quietude. A mente está alerta a respeito de si mesma. (…) Veja, quando a mente está alerta de maneira profunda durante o dia, esse estado de percepção alerta em profundidade produz uma qualidade de absoluta quietude na mente durante o sono. (Idem, pág. 179)

O cérebro exige ordem (…) Porém quando você está atento durante o dia, e atento à sua falta de atenção, então ao finalizar o dia existe ordem; então o cérebro não tem de lutar durante a noite para produzir ordem. Portanto, o cérebro descansa, está quieto. E na manhã seguinte o cérebro é algo extraordinariamente vivo, não uma coisa morta, corrupta, drogada. (Idem, pág. 179-180)

Pergunta: Talvez possamos ficar nesse estado de inocência ou meditação, enquanto despertos; mas que acontece quando dormimos?

Krishnamurti: Estamos despertos durante o dia? Presumimos que sim. Estamos despertos, se estamos aprisionados em hábitos de pensamento, em atividades e condutas rotineiras? Se estais constantemente condenando, comparando, julgando, avaliando, ou vos considerando como pertencente a certa raça, nacionalidade, “cultura” ou religião – estais desperto? (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 208)

Se estais dominado pelo hábito e, por conseguinte, não estais desperto durante o dia, o sono, nesse caso, é apenas uma continuação desse mesmo estado mental. Faz, então, muito pouca diferença se, fisicamente, estais dormindo ou acordado. (Idem, pág. 208)

Podeis freqüentar assiduamente a igreja, recitar orações, ou cantar um mantra (…); ou podeis repetir frases feitas (slogans), como os políticos, ou contemplar a vida do ponto de vista artístico; mas constitui qualquer dessas coisas um estado de inteligência desperta? (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 208)

Estar nesse estado de “inteligência desperta” é ser a luz de si mesmo. Não se tem então nacionalidade, nem igreja (…); não se depende da música, da pintura (…) E quando uma pessoa está tão completamente desperta, que é então o sono? Que significação tem o sono, quando tanto o consciente como o inconsciente estão totalmente despertos? (Idem, pág. 208)

É a mente embotada, envolvida em conflito, que sonha. Os sonhos são apenas sugestões do inconsciente. A mente que está totalmente desperta durante o dia, tudo observando, dentro e ao redor de si mesma – mas não de um “centro” de julgamento ou condenação – essa mente, quando dorme, nenhum sonho tem. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 208)

Se quando estais desperto (…), ficais cônscio, imediatamente e sem reação, de cada sugestão ou mensagem do inconsciente, (…) então, quando ides dormir, vossa mente está quieta; (…) E vereis que esse estado de profundo silêncio, durante o sono, traz frescor, inocência e, assim, o dia seguinte é um dia diferente, traz consigo algo novo. (…) (Idem, pág. 209)

Quanto mais vigilante for a nossa meditação nas chamadas horas de vigília, tanto menos sonharemos e tanto menor o temor e a ânsia relativamente à interpretação de nossos sonhos. Porque, na autovigilância das horas de vigília, as diferentes camadas da consciência vão sendo descobertas e compreendidas, e, no sono, há a continuação da vigilância. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 161)

A meditação não é para determinado período, somente; ela deve ser praticada tanto nas horas de vigília como nas de sono. Quando dormimos, em virtude da adequada vigilância meditativa das horas de vigília, pode o pensamento descer a profundidades grandemente significativas. A meditação continua mesmo durante o sono. (Idem, pág. 161)

Pergunta: Como posso compreender o significado dos meus sonhos?

Krishnamurti: O que importa não é compreender a significação dos sonhos, mas, sim, por que sonhais. Por certo, esse é que é o problema, e não como interpretar os símbolos, as imagens projetadas pela mente inconsciente, quando se acha adormecida a mente consciente. (…) (Visão da Realidade, pág. 225)

Afinal, vossa consciência não é só a mente superficial que vai ao escritório, (…) possui certas virtudes, (…) roupas (…); vossa consciência é, também, o inconsciente. Quando dormis, a mente superficial está mais ou menos em repouso e, assim, o inconsciente atua e tendes sonhos; (…) (Idem, pág. 226)

(…) Mas se, ao contrário, durante as horas de vigília, puderdes estar cônscio de todas as coisas que vos cercam e de vossas reações a elas; (…) vereis então que deixareis de sonhar, porque vossa mente estará ocupada em compreender, a todas as horas, e não apenas quando estais dormindo; e os símbolos, por conseguinte, já nada significarão. (Visão da Realidade, pág. 226)

Se, durante o dia, ficardes passivamente vigilantes para cada pensamento, cada sentimento, cada reação, observando-os sem interpretá-los, condená-los ou julgá-los, de modo que sejam compreendidos, a mente se tornará, então, muito tranqüila e, ao dormirdes, não tereis mais sonhos. Nesse sono sem sonhos, a mente pode descer a profundidades muito maiores e experimentar algo completamente inacessível à consciência desperta. (Idem, pág. 226-227)

Deve, pois, a mente compreender cada um dos valores por ela acumulados e, nesse processo, as numerosas camadas da consciência, tanto as claras como as ocultas, são descobertas e compreendidas. Quanto mais nítida for a percepção das camadas conscientes, tanto mais facilmente virão à superfície as camadas ocultas. Se as camadas conscientes estiverem confusas e turvas, não poderão as camadas mais profundas da consciência penetrar no consciente, senão pelos sonhos. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 121-122)

Mas, se for o indivíduo incapaz de aprofundar, completamente e plenamente, cada pensamento-sentimento, começa então a sonhar. Os sonhos requerem interpretação, e o interpretar demanda inteligência livre e aberta; (…) É só na percepção profunda e extensa que se porá fim aos sonhos e à ânsia de interpretá-los. (Idem, pág. 122-123)

Isso não é questão de análise (…) O inconsciente não pode ser examinado pelo consciente. Já vos digo por quê. Através de sonhos, de sugestões, de símbolos, de mensagens diversas, tenta o inconsciente comunicar-se com a mente consciente.

Essas sugestões e mensagens requerem interpretação, e a mente consciente as interpreta conforme seu próprio condicionamento, suas idiossincrasias. Entretanto, se não compreendermos o inconsciente e não nos libertarmos dele, com sua carga “histórica” (…) haverá sempre contradição, conflito (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 15)

O inconsciente tem um papel muito importante em nossa vida. A maioria de nós não conhece o inconsciente, a não ser através de sonhos, (…) de ocasionais sugestões ou mensagens relativas a coisas que estão ocultas. Eu acho que não é absolutamente necessário sonhar; isso é um desperdício de energia. Se estais desperto, cônscio, sem escolha, momento a momento, e, portanto, não estais acrescentando nada ao que antes conhecestes; se estais observando tudo o que vos cerca, bem como todo movimento de pensamento dentro de vós, descobrireis, então, que o sonhar cessa completamente (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 86)

Se não estais semi-adormecido durante o dia, porém completamente desperto, observando tudo o que se passa ao redor e dentro de vós – cada movimento do pensamento, cada sentimento, cada reação – descobrireis, então, que, quando dormis, não sonhais. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 67)

Interlocutor: Disseram-me certos especialistas que sonhar é tão importante como pensar e estar ativo durante o dia, e que o meu viver diário estaria sujeito a enorme pressão e tensão se eu não sonhasse. (…) Desejo também perguntar por que razão a linguagem dos sonhos é simbólica.

Krishnamurti: A própria linguagem é símbolo, e nós estamos habituados aos símbolos: vemos a árvore (…), vemos o nosso próximo através da imagem que a seu respeito temos. Aparentemente, uma das coisas mais difíceis para o ente humano é olhar qualquer coisa diretamente, e não através de imagens, opiniões, conclusões – tudo isso símbolos. E, assim, nos sonhos, os símbolos representam um papel muito importante e, por esse motivo, podem ser muito enganosos e perigosos. O significado de um sonho nem sempre é claro, embora compreendamos que ele se compõe de símbolos, que tentamos decifrar. (…) (A Luz que não se Apaga, pág. 118)

(…) Somos incapazes de percepção direta e imediata, prescindindo de símbolos, palavras, preconceitos e conclusões. A razão disso é também perfeitamente óbvia: é que isso faz parte da atividade egocêntrica, com suas defesas, resistência, fugas e temores. Há uma “resposta” cifrada da atividade cerebral, e os sonhos, naturalmente, são simbólicos, porque, durante as horas em que estamos despertos, somos incapazes de reação em percepção direta. (Idem, pág. 119)

(…) Os símbolos são um expediente do cérebro para proteger a psique, que é a totalidade do processo do pensamento. O “eu” é um símbolo, e não uma realidade. Tendo criado o símbolo do “eu”, o pensamento se identifica com sua conclusão, sua fórmula, e defende-a; daí provém toda aflição e sofrimento. (Idem, pág. 119)

(…) Durante as horas em que estamos despertos, há sempre o observador diferente da coisa observada, o agente separado de sua ação. Da mesma maneira, há o sonhador separado do seu sonho. Pensa que o sonho está separado de si; e por isso necessita de interpretação. Mas o sonho é separado do sonhador, e há necessidade de interpretá-lo? Quando o observador é a coisa observada, que necessidade há de interpretar, de julgar, de avaliar? (…) (A Luz que não se Apaga, pág. 120)

(…) As expressões da mente são fragmentos da mente. Cada fragmento se expressa de sua maneira própria e contradiz outros fragmentos. Um sonho pode contradizer outro sonho, uma ação, outra ação, um desejo, outro desejo. A mente vive nessa confusão (…) Assim, cada fragmento tem seu observador próprio, sua atividade própria; em seguida, um super-observador procura juntá-los todos harmonicamente. O “super-observador” é também um fragmento da mente. São essas contradições, essas divisões, que dão origem aos sonhos. (A Luz que não se Apaga, pág. 123)

A verdadeira questão, pois, não é a interpretação ou compreensão de dado sonho, porém, sim, a percepção de que esses numerosos fragmentos estão contidos no todo. Vedes, então, a vós mesmo como um todo, e não como fragmento de um todo. (Idem, pág. 123)

(…) A consciência é o homem inteiro e não pertence a ninguém pessoalmente. Quando há consciência pessoal, surge o complexo problema da fragmentação, da contradição, da guerra. Quando, durante as horas de vigília, há no ente humano a percepção do movimento total da vida, que necessidade há então de sonhos? Esse percebimento total, essa atenção, põe fim à fragmentação e à divisão. Não existindo conflito de espécie alguma, a mente não necessita sonhar. (Idem, pág. 123-124)

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