Mas, a experiência revela a Verdade (…)? A experiência, sem dúvida, é uma distração (…) Dentro de nós, quer o admitamos quer não (…) existe um estado de pobreza, um vazio, que procuramos encobrir, (…) evitar. E no processo de encobrir o vazio temos experiências diversas; (…) Isto é, o indivíduo sente em si, consciente ou inconscientemente, um vazio, um aniquilamento, uma insuficiência. (Nós Somos o Problema, pág. 63-64)

Quase todos estamos conscientes disso, mas não nos agrada encará-lo de frente, (…) compreendê-lo; procuramos fugir a esse estado de vazio, (…) de aniquilamento, apegando-nos à propriedade, ou ao nome, à família, ao saber. A essa fuga de nós mesmos chama-se experiência (…) Os meios de fuga oferecem felicidade e, por isso, a experiência se transforma num obstáculo à compreensão do “que é”. (…) (Idem, pág. 64)

Por outras palavras, (…) sentimos solidão; e, para escapar a essa solidão, ligamos o rádio, lemos um livro, apegamo-nos a uma pessoa (…) Essa fuga do “que é” proporciona várias experiências; e a elas nos apegamos. Então a propriedade, o nome, a posição, o prestígio, passam a ter grande importância. (…) Assim também a instrução, como meio de fugirmos a nós mesmos, torna-se extraordinariamente importante. (Idem, pág. 64)

Enchemos, pois, esse vazio, essa solidão, com instrução, relações e haveres; (…) – já que, sem essas coisas, nos sentimos perdidos. (…) Mas a realidade, ou Deus, é o desconhecido; (…) e, para atingi-la, temos de afastar todas as fugas e enfrentar “o que é” – nossa solidão, nosso extraordinário senso de sermos nada. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 64-65)

A solidão não é isso; é o sentimento de estar completamente isolado de tudo. (…) Quanto mais desperto vos achais, quanto mais indagais, procurais, exigis, tanto mais a sentis: nas profundezas da consciência, em todos os níveis, vos vedes completamente isolados. E esta é uma das coisas mais tristes: nos vermos enredados nesse tremendo sentimento de solidão, com sua potente energia, e não sermos capazes de transcendê-lo. (A Suprema Realização, pág. 63)

Esse sentimento tem vitalidade, força, pertinácia, fealdade; e dele fugimos de todas as maneiras possíveis. Se somos indivíduos muito talentosos, escrevemos (…); ou tratamos de divertir-nos, para não termos contato com ela. E, assim, ela continua existente, emboscada, como um câncer, a aguardar a oportunidade de declarar-se. É necessário entrar em contato com a solidão. (…) (Idem, pág. 63)

Essa solidão é também uma forma de morte. Como dissemos, morre-se (…) também quando não encontramos a solução, a saída que procuramos. Esta é também uma forma de morte: ver-se perpetuamente trancado na prisão do próprio egocentrismo. Quando vos vedes acorrentado a vossos pensamentos, vossa agonia, vossas superstições, à mortal rotina do hábito e da indolência, isso também é morte. (…) (Idem, pág. 63)

A solidão, afinal, é um estado de auto-isolamento, porque a mente se fecha e segrega de todas as relações e de todas as coisas. Nesse estado, ela conhece a solidão; mas, se, sem condenar a solidão, a mente ficar vigilante, então, sem dúvida alguma, a solidão sofre uma transformação. (…) (As Ilusões da Mente, pág. 89)

(…) Essa transformação poderá chamar-se “estar só” (…) Nesse “estar só” não há temor. A mente que se sente solitária porque se isolou por meio de várias atividades, teme aquela solidão. Entretanto, se há um percebimento completamente isento de escolha – (…) de condenação – então a mente já não está solitária, porém “só”, estado em que não há corrupção nem (…) auto-isolamento. (…) (Idem, pág. 89)

(…) Precisamos estar sós, é necessário esse “estar só”, no sentido que lhe damos. A solidão é um estado de frustração, o “estar só” não é; mas “estar só” não é o oposto da solidão. (As Ilusões da Mente, pág. 89-90)

Pergunta: Sinto-me muito só, e aspiro a certa forma de relações humanas (…) Não podendo encontrar (…) que devo fazer?

Krishnamurti: Uma das nossas dificuldades, sem dúvida, é essa de querermos ser felizes por meio de alguma coisa, (…) de uma pessoa, de um símbolo, de uma idéia, da virtude, da ação, da companhia de alguém. (…) (Poder e Realização, pág. 58)

Assim, pois, vendo-me só, desejo encontrar alguém, ou alguma idéia, por intermédio da qual eu possa ser feliz. Mas a solidão permanece, apesar disso; ela está sempre presente, acobertada. (…) Imaginamos que, por meio de coisas – como sejam móveis, uma casa, livros, pessoas, idéias, ritos, símbolos (…) alcançaremos a felicidade. (…) (Idem, pág. 58-59)

Não é muito importante, portanto, que eu compreenda essa solidão, essa dor do extraordinário vazio (…)? Desde que, se eu compreender isso, então, talvez, não me servirei mais de coisa alguma para encontrar a felicidade; (…) (Idem, pág. 59)

(…) A coisa que me está corroendo o coração é esse sentimento de temor, essa (…) solidão e vazio. Posso compreendê-la? Posso dissolvê-la? (…) Podemos fazer o que quisermos: nem rádio, nem livros, nem política, nem religião – nada disso pode disfarçar aquela solidão. (…) (Poder e Realização, pág. 59-60)

(…) É justamente quando fugimos à solidão que se cria o temor, e não quando a examinamos. Para poder examiná-la, estar em contato com ela, não devo condená-la. E quando sou capaz de encará-la, sou então capaz de amá-la e observá-la. (Idem, pág. 60)

Esta solidão (…) Não é ela, com efeito, um estado essencial, a porta, talvez, que me conduzirá à compreensão? Essa porta pode levar-nos mais adiante, habilitando a mente a compreender aquele outro estado em que a mente deve “estar só”, livre de contaminação. (…) (Idem, pág. 60)

(…) Se a mente puder viver em contato com a solidão, sem condená-la, talvez possa encontrar, através dela, o “estar só” – o estado em que a mente não está solitária, porém “só”, independente, em que não precisa de coisa alguma para achar o que procura. (Poder e Realização, pág. 61)

Não é necessário “estar só” para conhecer aquela solidão que não é criada pelas circunstâncias, (…) que não é isolamento, (…) que é criação, na qual a mente já não busca felicidade, nem virtude, nem cria resistência alguma? É a mente que está “só” que é capaz de achar – e não a mente que se contaminou, (…) (Idem, pág. 61)

(…) Assim, pois, essa solidão de que todos estamos bem cônscios, talvez possa, se soubermos compreendê-la, abrir-nos a porta da Realidade. (Idem, pág. 61)

Que entendeis por solidão? (…) A solidão, por certo, não é um estado equivalente ao “estar só”. (…) É essencial compreender que “estar só” não significa isolamento. Isolamento é o sentimento de estar fechado, (…) de ausência de relações, (…) de estar segregado de todas as coisas. Isso é inteiramente diferente do estar só, que é um estado de extraordinária vulnerabilidade. Quando nos vemos solitários, apodera-se de nós um sentimento de temor, de ansiedade, de dor ao isolamento. Amais alguém e sentis que, sem esse alguém, estais perdido; (…) (Nosso Único Problema, pág. 68-69)

Chegamos, pois, à questão real, que é o desejo de fuga. Que temeis? Por que tendes medo ao desconhecido, àquela insuficiência ou àquele vazio? Se temeis, por que não investigais? Por que esse temor de perder nossos haveres, (…) ligações, contatos? (…) Nunca fazemos frente ao conflito de nossa insuficiência: estamos sempre empenhados em sufocá-lo, reprimi-lo, em fugir a ele, não conhecemos o que é. Mas se enfrentássemos o conflito sem temor, sem condenação, encontraríamos, então, a verdade a seu respeito; (…) (Idem, pág. 70)

(…) Por medo à insuficiência, a mente atua sobre o pensamento, em vez de o olhar – e, só quando temos a capacidade de olhar para o pensamento, encontramos a possibilidade de compreender aquilo que formou esse pensamento, com o que se nos revela todo o processo de fuga ao que é. Então a solidão se transforma em “estar só”. E esse “estar só” é um estado de vulnerabilidade capaz de acolher o desconhecido, o imponderável, o imensurável. (…) (Idem, pág. 70)

Naturalmente, a grande maioria das pessoas vive a fugir de si mesma. Mas, pelo fugirdes de vós mesmos, vos tornastes dependentes. A dependência se torna mais forte e as fugas mais essenciais, em proporção com o medo do que é. A esposa, o livro, o rádio, adquirem extraordinária importância; as fugas se tornam da mais alta significação, (…) valor. (…) (Comentários sobre o Viver, pág. 198)

Isso está bastante claro. (…) Mas por que foge uma pessoa? De que foge? De sua própria solidão, (…) vazio, daquilo que é. Se fugirdes do que é, sem o verdes, é bem evidente que não o compreendereis; portanto, em primeiro lugar, deveis parar, deixar de fugir, pois, só então podereis observar a vós mesmos, tal como sois. Mas não se estais sempre a criticá-lo (…) Vós o chamais solidão e fugis dele; e a própria fuga ao que é, é medo. Tendes medo dessa solidão, (…) vazio, e a dependência é o manto em que o cobris. O medo, portanto, é constante, (…) enquanto estiverdes a fugir do que é. (…) (Idem, pág. 198)

Nada podeis fazer a respeito. Tudo o que fizerdes será sempre uma atividade de fuga. Esta é a coisa mais essencial: cumpre compreendê-la. Podereis ver, então, que não sois diferente ou separado daquela vacuidade. Sois aquela insuficiência. O observador é o vazio observado. Depois, se fordes mais longe, não lhe dareis mais o nome de solidão, cessou a verbalização; e, se fordes mais além, o que é um tanto difícil, a coisa conhecida como solidão não existirá mais; ocorrerá o completo desaparecimento da solidão, do vazio, do pensador, do pensamento. Só isso põe fim ao temor. (Comentários sobre o Viver, pág. 198-199)

Ora, se se reconhece que todos os meios de fuga são iguais, e se percebe a significação de dado meio de fuga, pode-se ainda fugir? (…) E, se não estais fugindo, há ainda conflito? (…) É a fuga ao que é, o esforço para alcançar uma coisa diferente do que é, que cria o conflito. Assim, para que a mente possa transcender esse sentimento de solidão, essa súbita cessação da lembrança de todas as relações, as quais envolvem ciúme, inveja, ânsia de aquisição, esforço de ser virtuoso, etc. – primeiro ela tem de enfrentá-lo, passar por ele, de modo que o medo em todas as suas formas definhe até desaparecer de todo. (O Passo Decisivo, pág. 74-75)

Dessarte, pode a mente perceber, em dado meio de fuga, a futilidade de todas as fugas? Não há então conflito (…) Porque já não há nenhum observador da solidão: há só o experimentar dela. (…) Essa solidão é o cessar de todas as relações; as idéias já não têm importância; o pensamento perdeu toda a valia. (…) (O Passo Decisivo, pág. 75)

Onde não existe medo, está a beleza – não a beleza de que falam os poetas, (…) os artistas que pintam, etc., porém coisa bem diferente. E, para descobrir a beleza, o homem terá de conhecer esse isolamento completo – ou, melhor (…) ele já existe. Vós fugistes dele, mas ele continua existente e vos segue sempre. Ele lá está em vosso coração e em vossa mente, nos mais profundos recessos de vosso ser. (…)

E a mente tem de passar por ele, como quem se submete à purificação pelo fogo. Ora, pode a mente passar por ele sem reação (…)? No momento em que há reação, torna-se existente o conflito, (…) A mente, pois, tem de passar por ele (…) A mente é então aquela solidão (…) No momento em que dizeis: “De que maneira (…) devo olhá-la?” – nesse momento já vos achais de novo em conflito. (Idem, pág. 75)

Há uma diferença entre solidão e isolamento. Isolamento conduz à neurose, a várias formas dela, porque no isolamento há exclusão, separação; mas a mente que está de todo atenta, completamente só, é, por conseqüência, capaz de ver o que é a verdade. Até aí se pode verbalizar, colocar em palavras, mas, depois disso, nada pode ser dito. O homem que diz “eu sei”, não sabe. Ele não conhece aquilo que está além, que não foi acumulado pelo pensamento, (…) condicionamento. (…) Meditação é simplesmente abrir a porta. O que está além não pode nunca ser expresso em palavras, e aquele que o faça não está atento, não sabe. A mente religiosa tem compaixão, amor, não tem medo, é capaz de permanecer completamente sozinha. Conseqüentemente, ela encontrará a realidade que não é mensurável. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 77)

Pergunta: Além do temor superficial, existe uma angústia profunda, que me foge à compreensão. Parece ser o próprio temor à vida – ou, talvez, à morte. Ou é o imenso vazio da vida? (Viver sem Confusão, pág. 73)

Krishnamurti: Parece que a maioria de nós sente isso; tem um forte sentimento do vazio, (…) da solidão. Tentamos evitá-lo, (…) fugir, procuramos segurança, permanência, longe dessa angústia. Ou tentamos ficar livres analisando os vários sonhos, (…) reações. (…) (Idem, pág. 73)

Para a maioria de nós, a dificuldade consiste em não ter consciência de nossas fugas. (…) Tomando consciência daquele vazio, estamos constantemente a encobri-lo com várias atividades – artísticas, sociais, religiosas ou políticas. (Viver sem Confusão, pág. 76-77)

Mas o vazio nunca pode ser definitivamente encoberto: tem de ser compreendido. Para o compreendermos, precisamos ficar cônscios dessas fugas; e, quando compreendermos as fugas, estaremos então capacitados a enfrentar o nosso vazio. (Viver sem Confusão, pág. 77)

Veremos, então, que o vazio não é diferente de nós mesmos, que o observador é o objeto observado. Nessa experiência, (…) integração do pensador e do pensamento, desaparece esse vazio, essa angústia. (Idem, pág. 77)

O “eu”, pois, é o criador daquele vazio. O “eu” é o vazio; o “eu” é um processo egocêntrico, no qual estamos cônscios daquela extraordinária solidão. Assim, estando cônscios dela, tentamos a fuga por meio de várias formas de identificação. A essas identificações chamamos preenchimento. Na realidade não existe preenchimento, porque a mente, o “eu”, nunca pode preencher-se; pela sua própria natureza, o “eu” é egocêntrico. (Quando o Pensamento Cessa, pág. 178)

Nossa dificuldade, por conseguinte, consiste em estarmos cônscios desse vazio, desse isolamento. Nunca nos vemos frente a frente com ele. Não sabemos como ele é, quais são as suas qualidades; porque vivemos continuamente a fugir dele, retraindo-nos, isolando-nos, identificando-nos. Nunca estamos em presença dele, diretamente, em comunhão com ele. Por isso, somos “observador” e “coisa observada”. Isto é, a mente, o “eu”, observa o vazio; e, então, o “eu”, o pensador, trata de livrar-se desse vazio, ou de fugir. (Quando o Pensamento Cessa, pág. 179)

Podemos, pois, encarar (…) nosso vazio psicológico, nossa solidão, causador e tantos outros problemas? Parece-me que aí é que reside a dificuldade – em nossa incapacidade para observarmos a nós mesmos sem julgamento, sem condenação, sem comparação; (…) só ao perceber a futilidade, o absurdo de tudo isso, a mente se torna capaz de observar-se. (Verdade Libertadora, pág. 125)

Então, aquilo que temíamos, por ser solidão, vazio, já não é vazio. Já não há, então, dependência psicológica de coisa alguma; então, o amor já não é apego, porém coisa totalmente diferente, e as relações têm outra significação. (Idem, pág. 125)

(…) Essa solidão é a essência mesma da consciência do “eu”. E, quando a transcendemos, apresenta-se o estado de atenção em que há solidão completa, que não é isolamento, nem separação, não é retirada. Porque é só nessa solidão que a mente já não é um joguete do pensamento, pois o pensamento foi compreendido totalmente, originando-se então o estado de solidão. Esse é o estado de inocência, essa inocência não sujeita à mortalidade. Só essa inocência pode descobrir o novo, aquilo que é sempre novo, atemporal. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 106)

(…) Nesse percebimento passivo, descobre-se aquele extraordinário sentimento de solidão. Estou certo de que a maioria de vós já o experimentou – esse sentimento de um vazio absoluto, impossível de preencher-se. (Nós Somos o Problema, pág. 65)

É só quando permanecemos nesse estado em que todos os valores deixaram completamente de existir; apenas quando somos capazes de estar sós e de enfrentar essa solidão sem nenhuma tendência para a fuga – só então a realidade surge. Porque os valores são mero resultado de nosso condicionamento; (…) (Idem, pág. 65)

Eu vos asseguro que, quando houver completa nudez; completa falta de esperança, então, num momento assim de vital insegurança, nascerá a chama da suprema inteligência, a beatitude da verdade. (Palestras em New York City, 1935, pág. 24)

Agora, se puderdes enfrentar o vazio, esse estado de isolamento de todas as relações, (…) sem fugir, (…) sem medo, sem fazer esforço algum para preenchê-lo ou alterá-lo, estareis então só, num estado de completo abandono da sociedade, e esse “estar só” não é fuga à sociedade, mas não necessita de reconhecimento por parte da sociedade. (…)

Tornando-se independente de tudo isso, a mente fica completamente só – não solitária, porém só. Não está mais sendo influenciado pela sociedade – está (…) dissociada (…) de reconhecimento, e é capaz (…) de “estar só”. Só a mente que está só, não corrompida, que é pura, (…) só essa mente é capaz de perceber o que é Deus, a Verdade. (…) (Visão da Realidade, pág. 182-183)

Quando, percebendo a futilidade de tudo isso, a mente se deixa ficar em presença desse processo (…) egocêntrico, limitante, vazio, então, esse próprio vazio lhe dá a oportunidade de “estar só”. A mente é então nova, única, pura, só nesse estado a mente é capaz de receber o “eterno”. (Idem, pág. 183)

Nunca estamos sós; estamos rodeados de pessoas e de nossos próprios pensamentos (…) Não há momento, ou o há muito raramente, de ausência de pensamento. Não sabemos o que é “estar só”, livre de toda associação, toda continuidade, toda palavra e imagem. Somos solitários, mas não sabemos o que significa “estar só”. A dor da solidão enche-nos o coração, e a mente é abafada com o medo. A solidão, esse profundo isolamento, é a sombra que nos entenebrece a vida. (Reflexões sobre a Vida, pág. 98-99)

Fazemos todo o possível para evitá-la, precipitando-nos em todas as vias de fuga que conhecemos, porém ela nos persegue incansavelmente. O isolamento é a norma de nossa vida; raramente nos unimos intimamente uns com os outros, porque, interiormente, estamos dilacerados, feridos. Interiormente, não somos inteiros, completos, e a fusão com outros só é possível quando há integração interior.

Temos medo à solidão, porque nos mostra a nossa insuficiência, a pobreza do nosso próprio ser, mas é quando estamos completamente sós que se cura a ferida voraz da solidão. “Estar a sós”, livre do pensamento e do cortejo dos desejos, é ultrapassar as raias da mente. É a mente que isola, que separa e impede toda comunicação. A mente não pode ser “inteirada”; não pode fazer-se completa, porque esse próprio esforço é um processo de isolamento (…) A mente é produto da multiplicidade (…) “O só” não é resultado do pensamento. Só quando o pensamento se imobiliza de todo, se realiza o vôo do “só” para o “só”. (Idem, pág. 99)

Esclarecerei em resumo o que tenho dito (…) Cada um de vós sois consciente de um grande vazio, uma vacuidade interna, e, sendo consciente dessa vacuidade, tentais preenchê-la ou escapar-lhe; ambas as ações significam a mesma coisa. Escolheis com o que preencher essa vacuidade, e a essa escolha chamais progresso ou experiência. (…) (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 90)

(…) Mas o experimentar desse estado de solidão, até o fim, sem procurar fugir nem verbalizar – e isso significa “ficar com ele” completamente – isso requer grande soma de energia (…) Essa energia não contaminada é a solidão que deveis alcançar; e, dessa negação, desse vazio total, surge a criação. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 55)

Por outras palavras: em momentos verdadeiramente criadores do pensamento ou da expressão, não há consciência do “eu”. É só em momentos de conflito, de sofrimento, que a mente se torna consciente de sua própria limitação a que chama de “eu”; (…) (Palestras no Uruguai e na Argentina, 1935, pág. 38)

Não podeis (…) ver se a mente é capaz de ser livre, vazia? Ela só pode estar vazia ao compreender todas as projeções de si própria, momento a momento. Então, infalivelmente, tereis a resposta, vereis como a transformação vem, sem ser pedida, e que o estado de “vazio interior” não é coisa cultivável; ele se manifesta, chega imperceptivelmente, sem ser chamado. Só nesse estado há possibilidade de renovação, revolução. (Claridade na Ação, pág. 157-158)

Pois bem, se não fazemos esforço para fugir, que acontece? Ficamos com essa solidão, com esse vazio; e, com a aceitação desse vazio, veremos surgir um estado criador completamente isento de luta e de esforço. O esforço só existe enquanto desejamos evitar o vazio interior; mas, se o olharmos bem (…) sem nenhum desejo de evitá-lo, veremos surgir um “estado de ser” no qual cessou toda a luta. Esse estado de ser é o estado criador (…) (A Arte da Libertação, pág. 109)

É só quando somos criadores que há felicidade completa, generosa. Mas a criação não provém de esforço, visto que o esforço é uma fuga do que é. Mas quando há compreensão do que é, que é nosso vazio, nossa insuficiência interior, quando nos deixamos ficar com essa insuficiência e a compreendemos plenamente, surge a realidade criadora, a inteligência criadora, a única coisa que traz felicidade. (Idem, pág. 109)

Porque, nesse silêncio, há renovação, aquela renovação não compreensível à mente que está ligada ao tempo. (…) Nesse silêncio, nesse estado, há criação, a criação que vem de Deus, da Verdade. (…) (Poder e Realização, pág. 84)

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