O apercebimento não é a ocupação com nossos próprios pensamentos e sentimentos. Tal ocupação, que é introspecção, torna a ação objetiva e calcula os resultados de um ato. Nisso não pode haver simpatia nem plenitude de ser. Cada qual fica tão ocupado consigo mesmo, com suas próprias necessidades psicológicas, com sua própria segurança, que se torna incapaz de simpatia. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 37-38)

(…) Buscais abrigo por detrás da parede protetora da fé, e essa parede vos impede o amor, a simpatia e a bondade; isso porque a vossa ocupação se refere a vós próprios, à vossa salvação, ao vosso bem-estar, neste mundo e no além. (Idem, pág. 38)

(…) No compreender o atual, com seus sofrimentos, espírito de aquisição, crueldade, e no eliminá-los, está a verdadeira simpatia e o verdadeiro afeto. Esse apercebimento não é ocupação com os nossos próprios pensamentos e sentimentos, porém um constante discernimento do que é verdadeiro, livre de escolha. (… ) (Idem, pág. 39)

Aqueles que desejem compreender a vida que os cerca, perceber a meta e assim estabelecer o Bem-Amado em seus corações, devem desenvolver grande amor e, no entanto, estar desapegados do cativeiro desse amor. Devem ter grande simpatia e, contudo, não estar presos a essa simpatia. Devem ter grandes desejos e, todavia, não serem escravos desses desejos. (Vida em Liberdade, em “Carta de Notícias” da ICK nº 1 a 6, de 1945, II, pág. 15-16)

(…) Mas, se não damos nome ao “que é”, opera-se a sua transformação; e com essa transformação vem o contentamento – não o contentamento resultante de uma aquisição, (…) possuir alguma coisa, (…) alcançar um resultado, mas o contentamento que vem quando não há mais conflito; porque é o conflito que cria o descontentamento. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 84)

O contentamento não é uma coisa que possa ser alcançada (…) Que é que me faz descontente? Certamente é o desejo de um resultado, uma recompensa, uma realização, o desejo de vir a ser alguma coisa. A ânsia de conseguir gera o medo de perder, e o próprio desejo de alcançar o contentamento traz o descontentamento. (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 28)

Existe, por certo, um processo de compreender o descontentamento; e, ao compreendê-lo , vereis que o descontentamento é a natureza mesma do “eu”. O “eu” é o centro do descontentamento (…) A mente que está presa a um resultado, nunca poderá ser livre, e é só na liberdade que pode existir o contentamento. (Idem, pág. 29)

(…) O contentamento, que não é o oposto do descontentamento, é aquele estado no qual existe a compreensão do que é; e a compreensão do que é independe do tempo, não está no movimento do passado para o futuro. A mente só pode ser livre quando é simples, pura, e só a mente nesse estado pode estar contente. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 131)

Você pensa que ficará contente quando tiver adquirido tudo o que quer. Você talvez queira ser um governador, ou um grande santo (…) Em poucas palavras, por meio da inveja você espera chegar ao contentamento. (…) Contentamento não é satisfação. Contentamento é algo muito vital; é de um estado de criatividade em que há a compreensão daquilo que realmente é. Se você começar, descobrirá que dessa compreensão advém uma extraordinária sensação de vastidão, de compreensão ilimitada. (…) (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 108)

Contentamento não é prazer. Você não pode pensar sobre o contentamento; pode pensar sobre ele e reduzi-lo a prazer, mas a coisa que é chamada contentamento, êxtase, não é produto do pensamento. Você não percebeu que, quando há uma explosão de contentamento, não pode pensar sobre ele no dia seguinte; e, se o faz, isso já se tornou prazer? Dessa forma, medo e prazer são alimentados pelo pensamento, e pelo mesmo continuado. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 41)

Quando o “eu” já não está lutando, consciente ou inconscientemente, para tornar-se algo, quando o “eu” está de todo inconsciente de si mesmo, nesse momento se verifica aquele estado de devoção (…), de Realidade. Nesse momento, a mente é o Real, é Deus. (…) (Poder e Realização, pág. 71)

(…) A maioria de nós tem inclinação para viver uma vida de devoção, de alguma espécie; mas infelizmente esses exercícios de repetição a destroem. Muito importa compreender que o caminho da devoção e o caminho da sabedoria não são separados. (…) Seguir um caminho, desprezando outro, significa desfiguração das coisas, um estado de contradição interior. (A Arte da Libertação, pág. 37)

As manifestações que nos transmitem alegria inexprimível, ou devoção intensa, ou compreensão profunda, só podemos prová-las no estado em que não existe esforço algum. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 233)

Devoção é amor? (…) É um ato de sacrifício o consagrar-se a um objeto, ao saber, ao trabalho social ou à ação? É sacrifício de si mesmo, estar absorvido na devoção? Quando estais completamente identificado com o objeto de vossa devoção, isso significa renúncia ao “eu”? (…) Devoção é a adoração de uma imagem, uma pessoa, um símbolo? (Reflexões sobre a Vida, pág. 47)

Verifiquemos o que entendemos por devoção. Passais muitas horas por dia embebido nisso que chamais amor, contemplação de Deus. Isso é devoção? O homem que dedica a sua vida à melhoria das condições sociais, é devotado ao seu trabalho; e o general, cuja função é planejar destruição, é também devotado ao seu trabalho. É devoção isso? (…) A devoção precisa de objeto? (Idem, pág. 47-48)

A compreensão da fuga é libertação do que é. O que é só pode ser compreendido quando a mente já não busca resposta alguma. A busca de resposta é fuga ao que é. Essa busca recebe nomes vários, um dos quais é “devoção”; mas, para compreender o que é, a mente deve estar em silêncio. (Idem, pág. 49)

Embora possais não ter grandes aptidões, nem grande inteligência, nem estar cheios, nem ter imensa energia, podeis pelo menos oferecer um caráter formado, (…) definido, uma flor que tenhais cultivado em vosso próprio jardim (…) (O Reino da Felicidade, pág. 76)

(…) Dizemo-nos felizes quando temos dinheiro, posição, meios de proporcionar-nos sensações; mas isso, positivamente, não é felicidade. A felicidade é um “estado de ser” no qual não existe dependência; porque sempre que há dependência há temor, e o homem que tem medo nunca pode ser feliz. Só há felicidade na liberdade (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 163)

(…) No momento em que (…) dependemos de bens materiais, de pessoas ou de idéias, essas coisas se tornam muito importantes e a felicidade nos foge. As mesmas coisas de que dependemos para nossa felicidade, se tornam mais importantes do que a própria felicidade. (…) (Viver sem Confusão, pág. 33)

Mas a felicidade não pode ser buscada; ela é um resultado, (…) secundário. (…) A felicidade vem sem ser chamada; e, no momento em que vos tornais cônscio de ser feliz, já não sois feliz. (…) Quando sentis subitamente muita alegria por causa de nada em particular, estais fruindo a liberdade de sorrir e ser feliz. (…) Só há felicidade quando o “eu” e suas exigências foram postos à margem. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 65)

Antes (…) devíeis saber quais são as causas do sofrimento. Porque sofreis, dizeis que procurais a felicidade; a busca da felicidade, portanto, é uma fuga ao sofrimento. Só pode haver felicidade quando cessa a causa do sofrimento; a felicidade é, pois, um elemento acessório, e não um fim em si. A causa do sofrimento é o “ego”, com o seu desejo de expansão, de vir a ser, de ser diferente do que é; (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 205)

(…) A felicidade é aquele estado que está fora do tempo. Esse estado atemporal só pode manifestar-se quando há extraordinária insatisfação – (…) que não tem possibilidade de fuga,(…) não busca preenchimento. Só então, (…) pode despontar a Realidade. Ela tem de ser achada momento por momento, no sorriso, na lágrima, (…) nos pensamentos erradios, na plenitude do amor. (O que te Fará Feliz?, pág. 130-131)

A felicidade não vem quando estais lutando para alcançá-la. (…) Coisa estranha, a felicidade: ela só vem quando a não buscais. Quando nenhum esforço estais fazendo para serdes feliz, então, inesperadamente, misteriosamente, surge a felicidade, nascida da pureza, da beleza do viver pleno. (…) (A Cultura e o Problema Humano, pág. 34)

Só um homem feliz pode criar nova ordem social; mas não é feliz aquele que está identificado com uma ideologia ou crença, ou que está todo absorvido em qualquer atividade social ou individual. A felicidade não é um fim em si mesma. Ela vem com a compreensão do que é. Só quando a mente está livre de suas próprias projeções, é possível a felicidade. A felicidade (…) é o estado que se torna existente com a Verdade, sempre nova, nunca contínua. (Reflexões sobre a Vida, pág. 83)

(…)O “homem de paz” é aquele que repele toda autoridade, que compreende, em todos os seus aspectos, a ambição, a inveja, que se desprende totalmente da estrutura desta sociedade aquisitiva e de todas as coisas envolvidas na tradição. Só então a mente é nova. E é necessária uma mente nova para encontrar Deus, a Verdade (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 83)

Pode a mente, porventura, encontrar a paz? A mente não é, ela própria, uma fonte de perturbação? A mente só é capaz de juntar, acumular, negar, afirmar, lembrar e seguir. Será a paz (…) algo realizável por meio de lutas, (…) por parte da mente? (Novos Roteiros em Educação, 1ª ed., pág. 170)

(…) Mas a mente não pode achar a paz, porque a mente só é capaz de pensar dentro dos limites do tempo (…) – sempre condenando, e julgando, (…) alimentando suas próprias vaidades, hábitos e crenças. A mente nunca pode estar em paz, ainda que possa refugiar-se às vezes numa paz ilusória. Mas isso não é paz (…) (Idem, pág. 171)

A paz nasce no coração e não na mente. (…) É muito importante a maneira como falais; porque as palavras que empregais, os gestos que fazeis, revelam o grau de excelência do vosso coração. Porque a beleza é algo que se não pode definir (…) explicar por palavras. (…) (Novos Roteiros em Educação, 1ª ed., pág. 172)

A paz, por conseguinte, só poderá vir quando compreendermos o que é o amor. (…) Mas, quando compreenderdes a paz na qual existe amor e beleza, compreenderdes a sua extraordinária originalidade, tereis então essa paz – a paz que a mente não pode compreender. Esta é que é a paz criadora, a que implanta a ordem dentro de nós, dissipando toda confusão. (…) (Idem, pág. 172-173)

Só a mente que se acha em paz (mas não dormindo), (…) que não se põe hipnoticamente num estado que ela considera ser um estado de paz – a mente que está realmente em paz, só esta pode descobrir o que é a verdade, o que significa viver (…) morrer, e conhecer o amor em toda a sua profundeza e amplidão. (O Novo Ente Humano pág. 71)

Toda esta questão, (…) Existe um método, seja oriental, seja ocidental, de se alcançar a paz? Se a paz se obtém pela prática de um método, a coisa assim obtida (…) não é uma qualidade viva, é uma coisa morta. (…)

A paz, por certo, não é uma coisa que se possa procurar; ela vem por si. Ela é um “subproduto”, e não um fim em si. Surge quando começo a compreender todo o processo de mim mesmo, minhas contradições, meus desejos e ambição, meu orgulho. Mas, se faço da paz um fim em si, fico então vivendo num estado de estagnação. E isso é paz? (Claridade na Ação, pág. 61-62) A paz é a cessação da violência interior – essa violência que se expressa pela ambição, pela competição. E estamos dispostos, vós e eu, a abandonar nossas ambições, a sermos como “nada”? (Transformação Fundamental, pág. 89)

Para se ter paz, necessita-se de profunda compreensão das tendências do “eu”, do “eu” que está competindo, lutando para ser alguma coisa. (…) Na verdade, nós estamos a destruir-nos, pelo tentarmos ser alguma coisa – seja como grupo, (…) indivíduos, nação, classe; (…) Mas, se pudermos compreender todo o processo dessa ânsia (…), talvez então, no sermos “nada”, encontremos uma nova maneira de viver, (…) (Idem, pág. 91)

(…) A paz reside em nosso íntimo e não no exterior; só pode haver paz e felicidade no mundo quando o indivíduo – que é o mundo – resolver definitivamente alterar as causas existentes em seu próprio íntimo, as quais produzem confusão, tristeza, ódio, etc. (…) (Palestras em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 6-7)

Nessas condições, para se implantar a paz no mundo, (…) torna-se necessária uma revolução no indivíduo, em vós e em mim. (…) O que produzirá a paz é a transformação interior, que conduz à ação exterior. A transformação interior não significa isolamento, (…) Pelo contrário, só pode haver ação correta quando há pensar correto, e não há pensar correto sem autoconhecimento. Se não conheceis a vós mesmos, não há paz. (Novo Acesso à Vida, pág. 39-40)

Para pordes fim à guerra exterior, precisais pôr fim à guerra que há dentro de vós. (…) Elas (as guerras) só acabarão quando compreenderdes o perigo, (…) a vossa responsabilidade, quando não passardes a outro esse encargo. Se perceberdes de fato o sofrimento, (…) a importância da ação imediata, (…) então transformareis a vós mesmos; e a paz só virá quando fordes pacíficos, quando viverdes em paz com o vosso próximo. (Idem, pág. 40)

(…) O caminho da paz consiste em compreender a falácia da idéia de que a paz é resultado de luta, o epílogo de um conflito físico ou mental (…) A paz não resulta de luta; a paz é o que permanece, depois de dissolver-se todo o conflito na chama da compreensão; a paz não é o oposto do conflito, nem a síntese dos opostos. (O Caminho da Vida, pág. 18)

A paz não é uma idéia oposta à guerra. A paz é uma maneira de vida; porque só haverá paz quando compreendermos o viver de cada dia. É só essa maneira de vida que pode eficazmente reagir ao desafio da guerra, das classes e do contínuo progresso técnico (…). (A Arte da Libertação, pág. 248)

(…) Tendes de pagar o preço da paz. Tendes de pagá-lo voluntária e alegremente, e esse preço é o libertar-vos da luxúria, da malevolência, da mundanidade, da ignorância, do preconceito e do ódio. Se ocorresse em vós mudança tão radical, poderíeis cooperar para o advento de um mundo pacífico e sensato. Para terdes paz, deveis ser compassivos e condescendentes. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 27)

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