Creio que a maioria de nós percebe a necessidade de uma revolução radical, de que resulte uma nova dimensão do pensamento, isto é, que comecemos a pensar num nível completamente diferente, pois, de modo nenhum podemos continuar como estamos, (…) ou seja, repetindo um padrão e “funcionando” dentro de seus limites. (…) funcionar dentro de um padrão constitui uma continuidade do que foi; (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 90)

Pois bem (…) O mundo se acha numa crise tremenda, sem precedentes, e, se agirdes como coletividade, vossa reação não será nova, e, por conseqüência, não produzirá a ação criadora que o desafio exige. Vossa reação só pode ser nova se estiverdes completamente fora dos limites de vossas tradições, se já não fordes hinduísta, nem cristão, nem budista, nem comunista. (Visão da Realidade, pág. 39)

Examinemos (…) Existe pensar pessoal e pensar coletivo? Ou tudo é pensamento coletivo, mas acontece que o “personalizamos”? Vós sois ingleses: isso é pensamento coletivo. Todos sois cristão: isso é pensamento coletivo. Só há pensar individual quando um homem se liberta do “coletivo”, quando já não está confinado, limitado, condicionado. Assim, por certo, nós só somos indivíduos no sentido de haver um organismo separado de outro organismo (…) Todo o nosso pensar não é coletivo? (…) (O Passo Decisivo, pág. 86)

(…) Mas a questão é: existe pensar individual, separado do coletivo? O que estou tentando dizer é isto: Sou educado como hinduísta, (…) cristão, budista (…), e creio em tudo que a sociedade crê, sendo eu parte dela. Existe pensamento separado desse todo? Todo pensamento separado só pode ser uma reação (…) Posso libertar-me da estrutura do “coletivo” e me declarar separado, mas isso, em verdade, é apenas uma reação dentro daquela estrutura (…) Eu estou falando a respeito da rejeição total da estrutura (…) Se é possível, há então pensamento individual, que não é mera reação ao “coletivo”. (Idem, pág. 86)

Positivamente, a liberdade deve começar no indivíduo, que é um processo total, não antagônico à massa. (…) Mas se o indivíduo, (…) embora resultado da massa, do todo – se o vizinho se transforma a si mesmo, se transforma a sua vida, para ele haverá então liberdade; e, sendo resultado de um processo total, logo que se liberta do nacionalismo, da avidez, da exploração, pode exercer ação direta sobre o todo. A regeneração do indivíduo não é para o futuro, mas para agora; e se adiais para amanhã a vossa regeneração, atraireis a confusão, sereis colhido pela onda de escuridão. (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 139)

Não somos ainda um corpo seleto de pessoas fora deste mundo em conflito. Somos parte dele, com sua confusão, miséria, incerteza, com seus grupos políticos em oposição, com seus ódios raciais e nacionais, com suas guerras e crueldades. Não somos ainda um grupo à parte, nem tampouco indivíduos definidamente ativos que, com profunda compreensão, sejam contra a presente civilização. (…) (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 9)

Observa-se no mundo (…) a deterioração que está invadido todos os níveis de nossa existência. E, observando esse fenômeno (…) somos naturalmente levados a investigar se não existirá um caminho diferente, uma maneira diversa de considerar o problema da existência e das relações humanas, se não haveria a possibilidade de uma revolução que projete todo o processo do pensar numa dimensão inteiramente nova. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 90)

Mas, como, de que maneira e em que nível, irá realizar-se essa revolução? Vede o que está ocorrendo neste país: industrialmente, talvez esteja progredindo muito; cientificamente, um pouco atrasado (…); mas moral, intelectual e religiosamente, acha-se estagnado. (…) E observa-se, também, que a mente, o próprio cérebro, se tornou mecânico e, por conseguinte, repetitivo: ensine-se-lhe certo padrão de comportamento, certas normas de conduta, (…) atitudes, desejos, ambições, etc., e ele ficará funcionando dentro desse canal, (…) padrão.(Idem, pág. 90-91)

Ora, observando-se tudo isso, percebe-se a necessidade de radical transformação da própria natureza do cérebro. O cérebro (…) existe há dois milhões de anos. E podemos continuar por outros dois milhões de anos a repetir o mesmo padrão: sofrimento, dor, mulher, família, filhos, marido, disputas, nacionalidades, (…) a asserção de (…) Deus, de que devemos ser virtuosos (…) (Idem, pág. 91)

Pode-se ver, por conseguinte, que a própria natureza do cérebro deve passar por uma tremenda revolução – revolução que vos interessa, não na qualidade do indivíduo unicamente interessado em seu pequenino cérebro, porém na qualidade do ente humano. Não sei se se pode diferenciar entre o indivíduo e o ente humano – eu pelo menos quero diferenciar. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 91)

Sempre que falamos a respeito de mudança, referimo-nos à mudança individual. Isto é, vós mudais e eu mudo, promovendo uma diferente atividade, estabelecendo um diferente padrão em nosso insignificante cérebro – cada um de nós, como indivíduo, vive a lutar e a lutar por tornar-se um pouco melhor, possuir um pouco mais de caráter, (…) de inteligência, ser um pouco mais bondoso (…) etc; como indivíduo, a funcionar na estreita esfera de sua própria consciência. (Idem. pág. 91)

É isso que em geral se chama de “indivíduo”; e, se nessa existência insignificante e condicionada, a pessoa se torna um pouco atenta, vigilante, então trata de fazer algo que resulte em transformação (…) dentro da limitada esfera de sua própria consciência. É isso que chamamos e ” indivíduo”, em oposição a “coletivo”, sendo este a multidão, a sociedade, a nação, a raça, etc. (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 91-92)

Pelo exame de fato, pode-se ir ao encontro de algo completamente diferente, algo que não é nem o “indivíduo” nem o “coletivo”, porém que se acha além, muito além de um e outro. E (…) só o descobrimento dessa coisa produzirá aquela extraordinária mutação no próprio cérebro. (Idem, pág. 92)

A verdadeira questão, por conseguinte, é esta: É possível, a vós e a mim, promovermos essa mutação no uso do próprio cérebro, uma revolução que não seja processo gradativo, no tempo, porém revolução, mutação imediata, resultante da compreensão imediata? Ela implica, por conseguinte, a inexistência do amanhã. Buscar a compreensão por meio das idéias supõe o tempo, (…) (Idem, pág. 93)

Percebe-se a necessidade dessa revolução; (…) que, para realizá-la, requer-se ardor, madureza e energia. (…) O indivíduo está amadurecido – não em relação ao tempo, à idade, etc. – amadurecido, rico, completo, quando é capaz de olhar, de observar, de viver sem amargor, sem medo, sem desejo de preenchimento, pois tudo isso denota falta de madureza. (…) Porque só depois de lançardes fora todos esses absurdos, estará amadurecida a vossa mente. Tereis então, infalivelmente, energia – a energia de que necessitais para promover aquela extraordinária mutação. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 95)

Penso que há necessidade de uma revolução total; não mera reforma, porque as reformas geram sempre novas reformas, e esse é um processo interminável. Mas eu sinto quanto é importante, quando agora, (…) em presença de uma crise formidável, que haja uma revolução total na nossa mente, no nosso coração, na nossa atitude perante a vida. (…) (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 109)

Uma revolução dessa ordem só pode ser realizada religiosamente. Isto é, só quando uma pessoa é verdadeiramente religiosa, é possível haver tal revolução. A verdadeira religião não pode ser coletiva. Ela tem de ser produto do esforço individual, da investigação individual, da libertação individual. Não se pode achar a Deus coletivamente. Qualquer forma de coletivismo na investigação, só pode ser uma reação condicionada. (… ) (Idem, pág. 110)

Acho importante compreender isso, porque estamos sempre preocupados com a reação das “massas”. (…) Se vós e eu nos pudermos separar do pensar coletivo, do pensar como holandeses, cristãos, budistas ou hindus, ficaremos habilitados a resolver o problema da revolução total em nós mesmos. Porque é essa total revolução interior do indivíduo que pode revelar a Realidade Suprema. (Idem, pág. 110-111)

É extraordinariamente difícil separar-nos do coletivo, uma vez que temos medo de estar sós. Temos medo de que nos julguem diferentes dos outros, medo do público, medo do que os outros possam dizer (…) (Idem, pág. 111)

Vemos, pois, que vossa mente resulta do “coletivo”. Ela reage, não como “indivíduo” (…) porém como expressão do “coletivo”, o que significa que está agrilhoada pela tradição, pelo inteiro processo de condicionamento. Vossa mente está sob o peso de certos dogmas, crenças, rituais, a que chamais religião, e com esse fundo tenta reagir a algo essencialmente novo e vital. Mas só a mente que está livre de seu fundo pode corresponder ao desafio, e só essa mente é capaz de criar um novo mundo, uma nova civilização, uma maneira de viver inteiramente nova. (O Homem Livre, pág. 93)

Ora, pode-se libertar a mente de seu fundo, que é o “coletivo”, não em reação, oposição, mas por se perceber a imperiosa necessidade de uma mente que não seja mero mecanismo de repetição? (…) Atualmente, somos resultado do que nos foi ensinado (…) Desde a infância ensinaram-nos a crer ou a não crer em algo, e nós repetimos tal ensino; (…) Quer viva no mundo comunista, (…) socialista, (…) hinduísta, esse centro que chamamos “eu”, “ego”, é o processo de repetição e acumulação própria do “coletivo”. (Idem, pág. 93)

Não se necessita, pois, de nenhum treinamento especial. O necessário é que presteis atenção (…) à vossa própria mente; (…) Como não se pode observar o funcionamento da mente a todas as horas, podeis “pegá-la”, observá-la e “soltá-la” de novo. Se observardes a vós mesmos dessa maneira, vereis que a atenção terá significado todo diferente e que é possível libertar a mente do “coletivo”.

Enquanto a mente for simples “registro” do coletivo, não tem mais valor do que uma máquina. Os novos computadores são em extremo eficientes em certos sentidos, mas os entes humanos são algo mais do que isso. Eles têm a possibilidade daquela extraordinária potência criadora que não é apenas escrever poemas ou livros, mas que é a ação fecunda da mente desprovida de centro. (O Homem Livre, pág. 98)

(…) Quando a mente, tornada cônscia de si mesma e do seu movimento coletivo, se acha numa revolução total contra o coletivo e está, por conseguinte, descobrindo a sua própria incorruptibilidade – só então é ela capaz de descobrir o que é verdade (…) (Visão da Realidade, pág. 33)

(…) Por outro lado, a pessoa que se liberta do coletivo, que é a prisão do condicionamento, é verdadeiramente individual, criadora, e só essa pessoa pode ajudar a criar uma civilização de espécie diferente, uma nova cultura (…) (Idem, pág. 64)

Pergunta: Percebo que estais pregando a exaltação do indivíduo e que sois contra a massa. Como pode o individualismo ser conducente à cooperação e à fraternidade?

Krishnamurti: Não estou fazendo nada disso. Não estou, em absoluto, pregando o individualismo. Estou dizendo que só pode haver verdadeira cooperação quando houver inteligência; mas, para despertar essa inteligência, cada indivíduo tem de ser responsável pelo seu próprio esforço e ação. (Palestras no Chile e no México, 1935, pág. 81)

Não pode haver um verdadeiro movimento em massa, enquanto cada um de vós estiver encerrado na prisão das defesas egoístas. Como pode haver ação coletiva para o bem-estar de todos, se cada um de vós alimenta (…) o desejo de aquisição (…)? Como pode haver cooperação inteligente, quando tendes esses preconceitos e desejos secretos? (Idem, pág. 81)

Para trazer à existência a ação inteligente, ela tem de começar por vós, individualmente. (…) Quando vós, como indivíduos, verificardes a estupidez e a crueldade do ambiente social e religioso inter-relacionados, então, por meio de vossa inteligência, será possível uma ação coletiva sem exploração. (Palestras no Chile e no México, 1935, pág. 82)

Assim, pois, o que é importante, não é a exaltação do indivíduo ou da massa, porém o despertar daquela inteligência que é a única que pode trazer à existência o verdadeiro bem-estar do homem. (Idem, pág. 82)

Muito importa, por conseguinte, compreenda cada um o inteiro processo de si mesmo, tome conhecimento do “eu”, do “ego”, do pensador; porque, quando um homem é capaz de observar todo o processo de seu viver, poderá libertar a sua mente do coletivo, do grupo, e tornar-se assim um verdadeiro indivíduo. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 113)

Tal indivíduo não está em oposição ao coletivo; porque oposição é só reação. E quando a mente compreender o processo consciente e inconsciente de si própria, ver-se-á que existe um estado de todo diferente – um estado que não diz respeito nem à coletividade, nem à entidade separada, o indivíduo. (…) (Idem, pág. 113)

E eu acho que ser verdadeiro revolucionário é a coisa essencial. Tais indivíduos são criadores, capazes de fazer surgir um mundo diferente. (…) (Idem, pág. 113)

Afinal, a morte é libertação do “coletivo”. A morte é um libertar-se da estrutura em que existe pensar coletivo e reação a esse pensar coletivo, a qual chamamos “pensar individual”, mas que continua a fazer parte do “coletivo”. Morrer para tudo isso, pode e deve ser algo completamente diferente (…), algo incognoscível, desconhecido (…) O incognoscível só se torna possível quando morremos para o conhecido. (O Passo Decisivo, pág. 87)

Não parecemos compreender o pleno significado da libertação individual do “coletivo”. (…) É possível o indivíduo emergir do coletivo? Afinal, embora tenhamos nomes diferentes, depósitos particulares no banco, residências particulares, características pessoais, etc., não somos realmente indivíduos, mas, sim, resultado do “coletivo”. (…) É no instante em que nos libertamos do “coletivo” que surge o indivíduo criador; (…) só então pode-se descobrir se existe uma realidade atemporal, um estado a que se possa chamar de “Deus”. (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 154-155)

(…) Afinal, vós e eu somos resultado do “coletivo”, não? E há necessidade de entes humanos completamente libertos do “coletivo”, da sociedade, livres de condicionamentos, não em certas camadas ou em certos pontos, porém totalmente livres, porque só esses indivíduos podem descobrir o que é Deus ou o que é a Verdade. (…) (O Homem Livre, pág. 72)

Eis o verdadeiro estado de coisas no mundo. Vossa mente é moldada como hinduísta, budista ou socialista; estais condicionados para crer ou para não crer, e mudar simplesmente (…) de crença (…) Apenas passamos de um palavreado para outro palavreado (…) (O Homem Livre, pág. 72)

Agora, que deve ser o homem que percebe exatamente o que se está passando no mundo e realmente deseja descobrir se Deus, a Verdade, é uma realidade? (…) Afinal, vós e eu somos resultado do “coletivo”, não? E há necessidade de entes humanos completamente libertos do “coletivo”, da sociedade, livres de condicionamento, não em certas camadas ou em certos pontos, porém totalmente livres, porque só esses indivíduos podem descobrir o que é Deus ou o que é a Verdade – e não o homem que segue a tradição (…) (Idem, pág. 72)

Existe uma ação capaz de tocar o “não-pensante coletivo” de modo que ele comece a pensar de maneira completamente nova? (…) Isto é, pode o estudante ser ajudado a compreender toda a variedade de influências existentes a seu redor, de maneira que não se submeta a nenhuma influência e possa, assim, fazer surgir uma nova geração com uma compreensão da vida totalmente diferente? Porque os da velha geração já estão “de saída” e evidentemente não podem transformar-se. (…) (O Homem Livre, pág. 116)

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