A superior influência em Krishnamurti (também abreviado como K.), oriunda de planos acima do nível de sua consciência, foi muitas vezes exteriorizada por sinais de uma Presença extraordinária e inexplicável, testemunhada por pessoas íntimas, que conviviam com ele e ajudavam em sua obra. Mary Lutyens, em “Krishnamurti – Los Anõs de Plenitud”, relata certos fatos, sendo significativos os trechos abaixo:

“Estávamos conversando (…). Subitamente K. experimentou um desfalecimento. O que sucedeu depois é impossível descrever, (…) algo demasiado (…) extraordinário (…). No rosto de K. houve uma mudança. Os seus olhos se engrandeceram, se tornaram mais amplos e profundos, e tinham um aspecto tremendo, (…). Era como se houvesse uma presença poderosa, que pertencesse a outra dimensão.(…)” (pág. 121)

“Depois da reunião, K. permaneceu (…). Por exemplo, (…) No exato momento de sentar-se, seus olhos adquiriram um aspecto diferente por alguns segundos. Era um olhar de estranha imensidade, e de uma força tão arrebatadora que deixava a pessoa sem alento.” E outro dia o seguinte:

“Estávamos falando e de repente esse olhar se expandiu novamente. Era tremendo e continha em si o fogo (…) e um fulgor de algo incrivelmente poderoso, como se a essência do poder e de todos os poderes se encontrasse nele.” (pág. 125)

Em 1º de agosto (…) “Esta manhã aquilo estava aí, invadindo e penetrando profundamente cada parte de nosso ser. Estava aí com doçura e vigor, com imensa generosidade e desprendimento. Ainda que muito poderoso, também era suave e fácil de receber, como a graça (…).” (pág. 126)

“(…) de repente, essa incognoscível imensidade estava aí, não só na habitação e fora dela, senão também no profundo, em lugares mais recônditos (…) essa imensidade não deixava pegada, estava aí pura, impenetrável e inacessível, e sua intensidade era fogo que não deixava cinza. Com ela a bem-aventurança (…).” (pág. 128)

“Que é esta coisa? – perguntei – Este poder? Que é o que há por trás de você? Eu sei que você sempre se tem sentido protegido, porém que ou quem o protege?” (pág. 201)

“Está aí, como se estivesse detrás de uma cortina – replicou (…).” (pág. 201)

“K. – Não temos descoberto por que esta criança foi mantida vazia desde então até agora. (…) Porém, como se produziu esse vazio com sua ausência de eu? Resultaria simples se disséssemos que o Senhor Maitreya preparou este corpo e o manteve vazio. Essa seria a explicação mais simples, porém o mais simples é suspeitoso.” (pág. 245)

Outra explicação seria que o ego de K. poderia ter estado em contato com o Senhor Maitreya e o Buddha e disse: “Eu me retiro(…). Porém também disso suspeito; (…)” (pág. 245)

“O Senhor Maitreya viu este corpo com um mínimo de ego, quis manifestar-se através dele, e então o corpo se manteve incontaminado. Amma dizia que o rosto de K. era importante porque representava aquilo. Foi preparado para aquilo. (…) Qual é então, a verdade? Não sei (…).” (pág. 245)

“Outra coisa peculiar em tudo isto é que K. sempre se tem sentido atraído para o Buddha. É esta uma influência? Não o creio. É esta fonte o Buddha, o Senhor Maitreya? Qual é a verdade? É algo que jamais descobriremos?” (pág. 245)

“Mary Zimbalist: Alguma vez se sente utilizado, sente que algo penetra em você?

K.: Eu não diria isso. Penetra na habitação quando falamos seriamente.” (pág. 245) (parece que habitação representa o corpo de K. e também o ambiente).

A presença da divindade, acima referida, é descrita por Krishnamurti no livro que ele próprio escreveu, resultado do registro diário de ocorrências, o qual foi por isso intitulado “Diário de Krishnamurti”. Nessa obra, relata ele eventos que costumavam verificar-se em sua vida; talvez para dar uma idéia, se limitou ao período de junho de 1961 a janeiro de 1962. Faz aí também alusões ao “processo” de mudanças físicas, com padecimentos, a que sempre esteve sujeito, acontecidos no período, entremeado tudo isso com variados e expressivos ensinamentos.

No Prefácio, diz Mary Lutyens: “Uma palavra se torna necessária para explicar um dos termos nele empregados: “o processo”. Em 1922, aos 28 anos de idade, Krishnamurti passou por uma experiência espiritual que mudou a sua vida, e a que se seguiram anos de aguda e quase contínua dor de cabeça e na espinha. Revela o manuscrito que “o processo” (…) ainda prosseguira quase 40 anos depois, embora de forma bem atenuada.”

Segue: “O “processo” era um fenômeno físico, que não se deve confundir com o estado de consciência a que Krishnamurti alude de várias maneiras nos cadernos, como “bênção”, a “outra coisa”, “outra presença”, “a imensidão”, “aquela coisa singular”, “o incognoscível”, etc. (…)” E ainda: “Neste singular “diário”, temos o que se poderia denominar o manancial do ensino de Krishnamurti. Toda a sua essência aqui está brotando de sua fonte nativa. Assim como consta destas páginas, que “cada vez existe nesta bênção algo de novo”, uma qualidade “nova”, um “novo” perfume, (…).” (pág. 5 e 6)

Como exemplos, reproduzem-se abaixo alguns excertos do mencionado “Diário”:

“E durante a noite, ao acordarmos, o sentimento continuava. A cabeça doía quando estávamos a caminho para tomar o avião, e em vôo para Los Angeles. (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 9)

No carro, a caminho de Ojai, começou de novo a pressão e o sentimento de imensa vastidão. Não é que experimentássemos aquela vastidão; ela estava simplesmente ali; não havia centro em que a experiência ocorresse, ou do qual surgisse. (…) A “coisa” durou mais de uma hora, e a cabeça continuava a doer muito. (idem, pág. 9-10)

Ao acordarmos, às duas horas, (…) sentíamos uma estranha pressão; era uma dor mais aguda, mais no centro da cabeça. Durou cerca de uma hora (…). E a cada vez o êxtase aumentava; era uma alegria constante. (…) (idem, pág. 10)

Exatamente na hora em que nos deitamos, percebemos a presença do absoluto (…). Era uma bênção que não invadia apenas o quarto, mas parecia espalhar-se por toda a terra, de ponta a ponta. (idem, pág. 12)

Sentados no interior do avião (…) inesperadamente, sentimos aquela mesma imensidão, a extraordinária bênção (…), trazendo consigo o sentimento do sagrado. Apesar do (…) ambiente agitado, a “coisa” se manifestava. (…) (idem, pág. 20)

O processo prolongou-se por quase toda a noite; foi bastante intenso. É espantosa a resistência do corpo! (…) (idem, pág. 23)

A singular presença inundava o quarto esta manhã. Cada recanto do nosso ser foi invadido por aquela força poderosa que a tudo purificava com sua ação sagrada. (idem, pág. 23)

O aposento foi tomado por aquela bênção. Impossível descrever o que se seguiu; as palavras são coisas mortas (…); mas, este acontecimento transcendia qualquer palavra ou descrição. Era o centro de toda a criação; uma seriedade purificadora que esvaziava o cérebro de todo pensamento e sentimento, e que tinha a força de um raio destruidor; de incalculável profundidade, mantinha-se imóvel, impenetrável, de uma solidez tão delicada quanto os céus. (…) (idem, pág. 26)

Caminhávamos, (…). Ali, enquanto andávamos, surgiu aquela bênção sagrada, algo que quase podíamos tocar, e, interiormente, passávamos por transformações. (…) O imensurável sobreveio, proporcionando um clima de paz. (idem, pág. 31)

Passeando ao longo do caminho (…), em meio a grande número de pessoas, sobreveio-nos aquela bênção, delicada como a folhagem, que continha enorme alegria. Mas, transcendiam-na a imensidão da inabalável força e do inacessível poder. Nela se pressentia uma imensurável e insondável profundeza. (…) (idem, pág. 33)

Mas, a cada momento, havia destruição; não a destruição que visa a uma nova mudança – a mudança nunca é nova – porém a destruição total do que foi para que jamais volte a ser. Não havia violência nessa destruição, (…). Eis a destruição criadora. (idem, pág. 33)

Esta manhã, (…). Ao sentarmos, sobreveio-nos aquela grande bênção e, imediatamente, sentimos a integral presença da impenetrável força; no âmago daquela imensidão, reinava o silêncio. Era uma quietude inconcebível; (…) A imobilidade de todo movimento, a essência de qualquer ação, o próprio explodir da criação, que só ocorre neste silêncio. (idem, pág. 34)

Ao acordarmos cedo, ocorreu-nos uma fulminante percepção, uma visão que parecia não ter fim. Não tinha origem nem direção, mas abrangia todas as visões e todas as coisas. Ultrapassava os rios, as colinas, as montanhas, a terra, o horizonte e as criaturas. Nessa “visão” havia penetrante luz e incrível velocidade. O cérebro não podia acompanhar o que acontecia, nem tampouco a mente era capaz de abarcá-la. Era pura luz dotada de irresistível celeridade. (idem, pág. 36)

Ao despertarmos houve uma explosão, um extravasamento deste poder, desta força. Era como uma torrente brotando das rochas, do fundo da terra. Havia nisto um estranho e inconcebível êxtase, que nada tinha com o pensamento e o sentimento. (idem, pág. 37)

Durante a palestra, esta manhã, a bênção sagrada estava lá. Interpretá-la, individualmente, é destruir a sua indescritível natureza. Interpretar é distorcer. (idem, pág. 38)

Ao acordarmos de manhã, novamente deparamos com aquela força impenetrável e de abençoado poder. Despertou-nos a sensibilidade, e o cérebro estava dela consciente sem reagir. (…) (idem, pág. 42)

Durante a palestra, lá estava aquela energia, intocável e pura; à tarde, no quarto, veio com a velocidade do relâmpago e desapareceu. Porém, de certo modo, sua presença é constante, com estranha inocência e olhar imaculado. (idem, pág. 42)

Cada vez existe algo de “novo” naquela bênção, uma qualidade “nova”, perfume; no entanto, é ela imutável. É o próprio incognoscível. (idem, pág. 43)

Ontem, ao entardecer, a “coisa” singular veio de repente numa sala que dava para uma rua de tráfego intenso; a pujante beleza daquele estado desconhecido extravasava os limites do aposento, (…). Grandiosa e impenetrável, sua presença permaneceu viva a tarde toda e, mesmo à hora de nos deitarmos, se tornou insistente a bênção da imensa plenitude. (idem, pág. 112)

(…) Diferente a cada aparição, exibindo sempre algo de novo, uma qualidade inédita, uma nuança sutil, ou um detalhe original antes não observado, aquele estado era inacessível ao pensamento, à formulação de hábitos, ao processo acumulativo de memorização e análise. Provinha da ausência do tempo necessário ao ato de experimentar e da imobilidade do cérebro em que cessava toda forma de pensar. (idem, pág. 112)

Após o leve jantar, falávamos de diversos assuntos (…). Enquanto a conversa prosseguia, a imensidão daquela bênção surgiu inesperadamente à nossa frente; imobilizados por sua força devastadora, nossos olhos eram incapazes de vê-la, o corpo de senti-la e o cérebro de percebê-la sem a interferência do pensamento. (…) (idem, pág. 125)

(…) Em meio àquele ambiente descontraído, algo de extraordinário acontecia, que se prolongaria por toda a noite. (…) Bênção arrasadora, aquele raro fenômeno simplesmente existia, indiferente a qualquer crítica ou avaliação. Fato inédito, sem conexão, no passado ou no futuro, era inacessível ao pensamento (…). Mas, por ser gratuita, dela jorrava a imensidão do amor e da beleza. (…) (idem, pág. 125)

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