Quer-me parecer que muito raramente fazemos a nós mesmos uma pergunta fundamental; e, quando a fazemos, em geral a ela respondemos em conformidade com nosso gosto particular, nossa fantasia ou crença, e, conseqüentemente, a pergunta original – a pergunta essencial, fundamental – fica sem resposta. (…) E eu penso que não só devemos fazer perguntas fundamentais, mas também procurar descobrir as respostas verdadeiras, originais. (O Descobrimento do Amor, pág. 139)

Nesta manhã desejo falar sobre o processo de ajustamento; isto é, desejo averiguar se existe alguma coisa de original, (…) completamente isenta de ajustamento e que não seja mera abstração, uma simples idéia, porém fato tão real como qualquer fato da vida diária. Assim sendo, a pergunta fundamental que fazemos a nós mesmos é esta: até onde é possível eliminar o ajustamento? É possível eliminar inteiramente o ajustamento e, desse modo, permitir a existência do original? (…) (Idem, pág. 139)

Por certo, só livres do ajustamento poderemos descobrir por nós mesmos o que é original, essencial, verdadeiro; e, a menos que nós próprios o descubramos, viveremos sempre uma vida “falsificada”, (…) de “segunda mão”, de imitação. (…) (Idem, pág. 140)

Por “ajustamento” entendo o processo no qual o “pensamento” e o “pensador” estão sempre a moldar-se por um padrão, sempre a imitar, a repetir, a sujeitar-se a um determinado padrão ou ideal, em suas relações. Esse ajustar-se é a norma de nossa vida, o padrão diário de nossa existência; e estamos agora a interrogar-nos se esse ajustamento pode terminar. (Idem, pág. 140)

E devemos também perguntar-nos se a terminação do ajustamento causa desordem e por essa razão somos obrigados a ajustar-nos; ou se, terminando o ajustamento, ocorre o descobrimento de algo totalmente original, não “falsificado” ou de “segunda mão”. (Idem, pág. 140)

Em geral, nossa vida é sem originalidade. Não sabemos, por nós mesmos, o que é original, nem mesmo se existe algo que se possa chamar “original”. A meu ver, a palavra “original” é de ordinário mal empregada. Falamos, muitas vezes, sobre literatura “original”, um quadro “original”, uma maneira “original” de pensar ou de expressar-nos; (…). Não me parece adequado o emprego da palavra “original” em tais casos. Há certa coisa original que as religiões de todo o mundo (…) sempre andaram buscando. (…) (Idem, pág. 140)

Agora, antes de tudo mais, estamos totalmente cônscios desse processo de ajustamento que se verifica em cada um de nós. (…) É bem evidente que, quanto mais esforços fazemos, tanto maiores se tornam o conflito e a confusão e, por conseguinte, (…) nossa aflição e dor. Cabe-nos, pois, averiguar se é possível vivermos sem esforços, isto é, vivermos originalmente e, por conseguinte, livres de todo ajustamento. (Idem, pág. 141)

Ora, para se alcançar esse ponto, devemos primeiramente estar cônscios (…) da natureza da mente que se ajusta. (…) Todo ajustamento implica esforço, não? E quando há esforço (…) não há verdadeiras relações. Se me esforço para ser bondoso, afetuoso ou cortês para convosco, isso nada significa. A bondade, a delicadeza, a afeição emanam de um estado mental em que não existe esforço algum; (…) (Idem, pág. 141 142)

Em relação a certas coisas externas, superficiais, há uma natural necessidade de ajustamento, (…). Aqui, eu me “ajusto” vestindo esta espécie de traje; na índia, me “ajusto” de outra maneira, vestindo trajes diferentes. (…) (Idem, pág. 142)

Mas, tenho necessidade de “ajustar-me” ao veneno do nacionalismo? (…) a um dado padrão de existência, uma certa maneira de pensar que a sociedade procura impor-me e, em virtude da qual, minha mente é moldada pela religião organizada, pelas influências econômicas e sociais? (…) (Idem, pág. 142)

Superficialmente, o ajustamento, a adaptabilidade, são necessários; porém, interiormente, profundamente, o ajustamento acarreta esforço e, por conseguinte, imitação. Enquanto está a imitar, a esforçar-se por ajustar-se, a mente está a isolar-se; por conseguinte, não há para ela relações, e o que faz é apenas aumentar o medo. (Idem, pág. 147)

Assim, para a mente que leva essa carga constituída pelo medo, o ajustamento, o pensador, não é possível a compreensão daquilo que se pode chamar o original. (…) Quando a mente humana está livre de todo temor, não está então – em seu desejo de saber o que é original – em busca de prazer para si própria, nem de nenhuma via de fuga e, por conseguinte, em sua investigação já não existe autoridade alguma. (…) (Idem, pág. 148)

É possível a mente achar-se sempre em ação, diretamente, espontânea e livremente, de modo que nunca tenha um momento de tempo? Porque o tempo é pensamento periférico. (…) O pensamento jamais pode ser original. Podeis usar palavras, que pertencem ao passado, expressar o original, mas o original não pertence ao tempo. Por conseguinte, para descobrir o original deve a mente estar inteiramente livre do tempo do tempo – do tempo psicológico; (…). (O Despertar da Sensibilidade, pág. 150)

(…) Só então a mente tem a possibilidade de descobrir, por si própria, o que é original – descobri-lo não como mente individual, porém como ente humano. Não existe mente “individual”, absolutamente. Somos totalmente relacionados. Compreendei isso, (…). A mente não é uma coisa separada; é uma totalidade. Todos vivemos a ajustar-nos, todos temos medo, todos estamos a fugir. E, para compreendermos, cada um de nós – não como indivíduo, porém como ente humano total – o que é o original, precisamos compreender a totalidade do sofrimento humano. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 148)

(…) Do contrário, somos entes humanos “de segunda mão”; e porque somos imitações, entes humanos falsificados, o sofrimento nunca tem fim. Assim, pois, o findar do sofrimento é, em essência, o começo do original. (…) (Idem, pág. 148)

Estamos, pois, aprendendo, e esse aprender nunca é ajustamento a nenhum padrão; (…) Quer se trate de padrão estabelecido por Buda, por Cristo, por Sankara, quer do padrão de vosso guru favorito, o aprender nenhuma relação tem com ele. Por que no ajustamento cessa todo aprender e, por conseguinte, nunca há originalidade. E nós estamos descobrindo por meio do aprender, com originalidade. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 34)

Conforme o dicionário, a palavra “autoridade” deriva de “autor”: “aquele que lança uma idéia original, que cria alguma coisa inteiramente nova”. Esse homem estabelece um padrão, um sistema baseado em suas idéias; (…). O seguidor aceita a “autoridade”, a fim de alcançar o que promete o seu sistema de filosofia ou de idéias; a esse sistema se apega, dele fica dependente (…). O seguidor, pois, é um ente humano sem originalidade; assim é a maioria das pessoas. (…) (A Questão do Impossível, pág. 22)

Poderão pensar que têm idéias originais, na pintura, na literatura, etc., mas, essencialmente, já que estão condicionados para seguir, imitar, ajustar-se, tornaram-se entes humanos de “segunda mão, (…). Esse é um dos aspectos da natureza destrutiva da autoridade. (Idem, pág. 22)

(…) Afinal de contas, por individualidade entendemos a qualidade que encerra originalidade, força criadora, a qualidade de singularidade criadora. (…) Se examinarmos a nossa conduta de cada dia, nossa cotidiana maneira de pensar, veremos que o processo de nossa ação é imitação contínua, mero copiar. (…) E porque vivemos imitando, copiando, não somos, absolutamente, indivíduos.

Citamos o que disse fulano de tal, o que disse Sankaracharia, Buda ou Cristo, porque se tornou nosso padrão de existência; nunca procuramos descobrir, achar a verdade por nós mesmos, mas repetir o que outras pessoas descobriram, (…). Quando tomamos a experiência alheia, (…) para padrão de nossa ação, ela (…) é uma mentira. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 140)

Ao compreendermos a total estrutura do sofrimento, pondo, portanto, fim ao sofrimento, teremos então a possibilidade de encontrar (…) aquela coisa extraordinária que é a origem de toda a vida, aquela fantástica energia, que está sempre a “explodir”. Essa energia não é um movimento em direção alguma e, por conseguinte, “explode”. (O Descobrimento do Amor, pág. 149)

Senhores, (…). Já experimentastes alguma vez reunir toda a vossa energia – física, emocional, mental, visual, (…) e “com ela ficar”, completamente, tranqüilamente? (…) Se a energia tem algum movimento em qualquer direção (…) está sendo dissipada. Mas, quando toda a nossa energia fica completamente imóvel, inicia-se um movimento que é original e, por conseqüência, “explosivo”. (…) (Idem, pág. 149)

Experimentai o, uma ocasião, e vede se sois capaz disso. Mas, para tanto, requer-se uma grande soma de inteligência, extraordinária vigilância; (…). Se puderdes reunir toda a vossa energia, sem esforço, vossa mente estará então transbordante de energia, sem atrito de espécie alguma. Verifica se, então, uma “explosão” – e, dessa explosão, surge o original. (Idem, pág. 149)

Vós não estais habituados a investigar, (…) a observar-vos; costumais ler o que outras pessoas dizem, a citar Sankara, Buda (…). Bom seria que nunca dissésseis uma palavra que não represente um descobrimento feito por vós mesmos, (…) que vós mesmos não conheçais. Isso significa lançar para o lado todos os gurus, todos os livros sagrados ou religiosos, todas as teorias, tudo o que disseram os filósofos – embora tenhais de conservar os vossos livros técnicos e científicos. (O Novo Ente Humano, pág. 63)

Nunca digais nada que não compreendais, que vós mesmos não tenhais descoberto. Vereis, então, como a atividade da mente sofrerá uma extraordinária transformação. Ora, nós, entes humanos “de segunda mão”, queremos descobrir uma maneira de viver realmente livre do tempo, porque o pensamento é tempo, e o tempo forma as coisas gradualmente. Gradualidade implica tempo. (Idem, pág. 63-64)

(…) O pensamento funciona no tempo; penso na vida como movimento de um ponto para outro e, agora, estamos inquirindo se existe uma maneira de viver em que o tempo não exista absolutamente. O que nos interessa é a mudança, a revolução, a total mutação da estrutura mesma das células cerebrais; de outro modo, não será possível criar-se uma nova cultura, uma nova maneira de viver – um viver numa dimensão inteiramente diferente. (…) (Idem, pág. 64)

(…) Sois capazes de citar uma dúzia de livros, mas não conheceis a vós mesmos. Sois entes humanos “de segunda mão”, e os problemas exigem uma mente de “primeira mão”, que esteja diretamente em contacto com o problema, não uma mente (…) embotada. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 24)

Para esse homem que total e completamente rejeita a palavra, o símbolo e sua influência condicionadora, a Verdade não é uma coisa de segunda mão. Se o tivésseis escutado realmente, senhor, saberíeis (…) que a aceitação da autoridade é a negação mesma da Verdade, (…) que devemos ficar fora de toda cultura, tradição e moralidade social. (…) Ele rejeita totalmente o passado, seus instrutores, seus intérpretes, suas teorias e fórmulas. (A Outra Margem do Caminho, pág. 12)

Vede, senhor, (…). Cada um tem de descobrir a Verdade por si próprio. A Verdade não é uma coisa “de segunda mão”. Não podeis adquiri-la por intermédio de um guru, de um livro. Para conhecê-la, tendes de aprender; (…). E a beleza do aprender é o “não saber”. (…) A Verdade não é uma coisa “de segunda mão”; para descobrirdes, precisais de paixão, de “intensidade”. Inteligente, pois, é a mente que está aprendendo, e não aquela que repete o que aprendeu. (…) (O Novo Ente Humano, pág. 160)

(…) Compreendemos a vida, se temos a mente cheia de coisas ditas por outras pessoas, se seguimos a experiência, o saber alheio? Ou só vem a compreensão quando a mente está quieta? – mas não quando foi aquietada, (…). Com o indagar, procurar, perscrutar, a mente se torna, inevitavelmente, tranqüila, e então o problema revela todo o seu significado; (…). (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 190)

(…) Positivamente, senhor, o homem de saber, o letrado, nunca pode conhecer a verdade; pelo contrário, o saber e a erudição devem cessar. A mente precisa ser simples, para compreender a verdade, e não estar cheia do saber de outras pessoas (…). (Idem, pág. 190)

Temos vivido em conflito por milhares e milhares de anos, submetendo-nos, obedecendo, imitando, repetindo (…); temo nos convertido em pessoas de segunda mão, sempre citando a algum outro, o que o outro disse (…). Temos perdido a capacidade, a energia para aprender de nossas próprias ações. Somos os responsáveis por nossas próprias ações (…) – não a sociedade ou o meio, (…). Em um semelhante aprender descobrimos muitíssimo (…). Se vocês sabem como ler esse livro, então não têm de ler nenhum outro livro – exceto, por exemplo, livros técnicos. (…) (La Llama de la Atención, pág. 24)

(…) Em outras palavras, percebe a mente o problema do controle, da disciplina, da autoridade e das correspondentes reações -estão vocês (…) alertas a toda essa estrutura? (…). Se vocês percebem todo esse problema (…) – que implica ajuste a um modelo – porque o hão observado, (…) vivido, (…) vigiado atentamente, então isso é original e próprio de vocês; o outro é de segunda mão. (…) (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 109)

Para a maioria de nós, isso é de segunda mão, porque somos gente de segunda mão (…). Todo nosso conhecimento é de segunda mão, como o são nossas tradições, (…). Vemos então que se trata de nossa própria percepção direta e não um conhecimento de segunda mão, aprendido de outro? Se foi aprendido de outro, então deve ser descartado em sua totalidade, (…). Se desprezaram o que outros – incluindo o que lhes fala – hão dito, então realmente estão aprendendo, não é verdade? (Idem, pág. 109-110)

Que é para vocês o pensar? (…) Quase todos nós temos nos tornado pessoas de segunda mão; lemos muitíssimo, vamos a uma universidade e acumulamos uma grande quantidade de conhecimentos, de informação que se deriva do que outras pessoas pensam ou do que outros têm feito. E nós citamos esse conhecimento que temos adquirido e o comparamos com o que se está dizendo. Não há nada original, só repetimos, repetimos, repetimos. (…) (La Llama de la Atención, pág. 14)

(…) Quando tendes esse desejo, essa capacidade de vos encher com o Seu gênio, com a Sua força, com a Sua nobreza, então vós próprios vos enobreceis e aprendeis a refletir a Sua divina originalidade, todas as fontes de beleza, todas as fontes de criação; e as tentativas de ser original, belo, criador, são de pouco proveito se não tivermos a compreensão e a capacidade de alcançar a fonte das coisas. (…) (O Reino da Felicidade, pág. 28)

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