Contém este livro as palestras e os debates que Krishnamurti realizou na Índia com os alunos e os professores das escolas de Rishi Valley, em Andhra Pradesh, e Rajghat, em Varanase. Esses centros são administrados pela Fundação Krishnamurti da Índia, organizada para criar ambientes em que os ensinamentos de Krishnamurti possam ser transmitidos aos adolescentes. Para ele, a educação é da máxima importância no transmitir o que é fundamental para a transformação da mente humana e a criação de uma nova cultura. Essa transformação ocorre quando a criança, ao estudar as diferentes técnicas e disciplinas, aprende igualmente a conscientizar-se dos processos do próprio pensar, sentir e agir. Tal conscientização a torna auto-observadora, integrando, assim, o ato de perceber, discernir e agir, indispensável ao desenvolvimento interior, propício a um correto relacionamento com o homem, com a natureza e com os instrumentos por ele criados.

Hoje se questionam os postulados básicos da estrutura educacional e de seus diferentes sistemas, tanto na Índia como em todo o mundo. Percebe-se cada vez mais, em todos os níveis, que os modelos existentes falharam, havendo uma total falta de adequação entre o ente humano e a complexa sociedade contemporânea. Tanto a crise ecológica como a pobreza, a fome e a violência, sempre crescentes, forçam o homem a encarar com realismo a presente situação. Em tempos como os atuais, torna-se imprescindível um reexame dos postulados da educação. Krishnamurti contesta as raízes de nossa cultura. Seu desafio dirige-se não apenas à estrutura da educação, mas também à natureza e qualidade da mente humana e de sua vida. Divergindo de outras tentativas de salvaguarda ou sugestão de alternativas para o sistema educacional, rompe as fronteiras das diferentes culturas e estabelece uma nova série de valores, capaz de criar uma outra civilização e uma sociedade inteiramente nova.

Para Krishnamurti, uma mente nova só é possível quando o espírito religioso e a atitude científica formam o mesmo movimento da consciência — um estado em que a ciência e a religião não constituem dois processos ou faculdades mentais paralelos. Não se encontram em compartimentos estanques como dois movimentos separados que devem fundir-se, porém representam um novo ato da inteligência e da mente criadora.

Alude Krishnamurti a dois instrumentos de que o ser humano dispõe – o saber, que o capacita a adquirir mestria nas atividades técnicas, e a inteligência, nascida da observação e do autoconherimento.

Embora dê importância ao cultivo do intelecto, à necessidade de se ter uma mente aguda, clara, analítica e objetiva, ele dá mais valor à percepção altamente crítica do mundo interior e exterior, à não aceitação da autoridade, em qualquer nível, enfim, a um equilíbrio harmônico entre o intelecto e a sensibilidade. Descobrir as áreas em que o saber e as aptidões técnicas são necessárias, e aquelas em que se mostram irrelevantes e até prejudiciais, é, para Krishnamurti, uma das tarefas básicas da educação, pois só quando descobrimos existirem setores em que o saber é insignificante é que alcançamos uma dimensão totalmente nova, na qual se geram outras energias e se ativam as esquecidas potencialidades da mente humana.

Um dos problemas e desafios de difícil solução para os educadores de todo o mundo é o da liberdade e da ordem. Como pode uma criança, um estudante, crescer em liberdade, desenvolvendo ao mesmo tempo um sentido profundo de ordem inte­rior? A ordem é a própria raiz da liberdade. Se­gundo o autor, a liberdade não tem fim pois renova-se de momento a momento no ato de viver. Nestas páginas, tem-se um vislumbre, uma noção desta espécie de liberdade da qual a ordem é parte inerente.

A vida colegial proporciona aos jovens um clima de fragrância e deleite. E isto só acontece se não existe competição, autoridade, e quando o ensinar e o aprender constituem um processo simultâneo e único, em que educador e educando participam juntos do aprendizado.

Diversamente da transmissão do espírito religioso de várias seitas e grupos congêneres, a maneira de Krishnamurti tratar, do assunto tem um sentido verdadeiramente secular e, ainda assim, uma dimensão sobremodo religiosa. Há uma grande diferença entre os ensinamentos de Krishnamurti e a maneira tradicional de relacionamento entre mestre e aluno, entre o guru e o seguidor. No ensino tradicional, baseiam-se as relações tão-só na hierarquia; há o professor que ensina e o discípulo que não sabe e tem de ser ensinado. Para Krishnamurti, o mestre e o aluno atuam no mesmo nível -a comunicação se faz mediante perguntas e debates, até que as profundidades do problema se revelem, surgindo daí, em ambos, uma iluminante compreensão.

A Fundação Krishnamurti da Índia considera imenso privilégio oferecer este livro aos estudantes e educadores do mundo inteiro, obra que a “Instituição Cultural Krishnamurti” tem igual satisfação de apresentar, no idioma pátrio, à coletividade brasileira.

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