O pensamento é necessário em certas áreas, mas o pensamento psicológico sempre traz desordem. Quando o pensamento psicológico está ausente, a mente por si mesma está em ordem. (The World of Peace, pág. 90)

O pensamento criou a desordem através do conflito entre o que “é” e “o que deveria ser”, o real e o teórico. O pensamento olha para a forma real, de um limitado ponto de vista e, portanto, sua ação deve inevitavelmente criar desordem. Você encara isso como uma verdade, uma lei – ou apenas como uma idéia? Entende? Sou ambicioso, ávido – isso é “o que é”. Mas o oposto – “o que deveria ser” – tem sido criado pelo ser humano na tentativa de entender “o que é”, e também como um meio de escapar ao “que é”. Mas só há “o que é”. E quando você percebe “o que é” sem o seu oposto, então essa percepção traz a ordem. (Idem, pág. 90)

Pergunta: O cérebro tenta criar ordem. É isso um processo dualístico ou não-dualístico?

Krishnamurti: Vou explicar-lhe. As células do cérebro exigem ordem. Do contrário, não podem funcionar. Não há dualidade nisso. Durante o dia, há desordem porque o centro está alerta, o centro é a causa da fragmentação; a fragmentação é conhecida somente por meio de fragmentos; não é consciente da totalidade dos fragmentos e, por isso, não há ordem; conseqüentemente vive em desordem. É a desordem. (…) (Exploration into Insight, pág. 123)

Krishnamurti: As células do cérebro precisam de ordem; sem isso, se tornam neuróticas, destrutivas. Isso é um fato. As células do cérebro estão sempre exigindo ordem, e o centro está sempre criando fragmentação. Essa ordem é negada quando há um centro, porque o centro está sempre produzindo destruição, conflito e tudo o mais, que é a negação da segurança, (…) da ordem. Não há dualidade. Esse processo continua. O cérebro dizer: “devo ter ordem”, não é dualidade. (Idem, pág. 123)

Pergunta: Espere, você não está respondendo à minha pergunta. (…) Estou perguntando, como é que você fica consciente dessa desordem. Se é o centro que está consciente da desordem, então é ainda desordem. (Exploration Into Insight, pág. 124)

Krishnamurti: Você percebe que, quando o centro está consciente de que isso é desordem, então ele cria a dualidade de ordem e desordem. Desse modo, como você observa a desordem, sem ou com o centro? Se é uma observação com o centro, há divisão. Se não há observação do centro, então há somente desordem. (Idem, pág. 124)

(…) Onde há o centro, há desordem. A desordem é o centro. Como fica você consciente? Está o centro consciente da desordem ou há somente desordem? Se não há centro para estar consciente da desordem, há completa ordem. Então os fragmentos chegam a um fim, obviamente, porque não há centro que esteja produzindo os fragmentos. (Exploration into Insight, pág. 125)

Alguém vem e diz: Olhe, através de milênios o homem tem evoluído pelo conhecimento e hoje você certamente é diferente dos grandes macacos. E diz: Olhe, enquanto você está registrando, está vivendo uma vida fragmentária, porque o conhecimento é fragmentário e o que quer que você faça a partir desse estado fragmentário do cérebro, é incompleto. Portanto há dor, sofrimento. (Idéia, pág. 153)

Quando isso está claro, qual é, então, a causa da desordem? Esta tem muitas causas: o desejo de realização pessoal, a ansiedade de não realizar-se, a vida contraditória que se vive, dizendo uma coisa e fazendo algo por completo diferente (…) Porém, poderia o indivíduo inquirir dentro de si mesmo e descobrir se existe uma causa fundamental. (…) A raiz, a causa original, é o “eu”, o “meu”, o “ego”, a personalidade gerada pelo pensamento, pela memória, pelas múltiplas experiências, (…) palavras, (…) sentimento de separação e isolamento; essa é a causa original da desordem. O “eu” é produzido pelo pensamento (…) (La Llama de la Atención, pág. 129)

Interlocutor: O fato de ver essa desordem, já implica que o observador, o indivíduo, se tenha afastado da desordem.

Krishnamurti: Há três coisas abrangidas nisto: a ordem, o afastar-se e a observação da desordem. Afastar-se da desordem, o mesmo ato de afastar-se dela, é ordem. (…) Como se observa a desordem em si mesmo? Se olha a desordem (…) como a um estranho, como algo separado da ordem e, por conseguinte, há uma divisão: você e a coisa que está observando? (La Verdad y la Realidad, pág. 82)

Krishnamurti: De modo que o afastar-se disso é estar totalmente envolvido no que se observa. E quando eu observo essa desordem, quando a observo sem todas as reações, recordações, as coisas que afloram à mente, então, nessa observação total, há ordem, essa mesma observação total é ordem. (…) (Idem, pág. 85)

Que é o espaço? Pode haver espaço sem ordem? Quando há desordem em uma habitação, há espaço? Quando um indivíduo arroja suas roupas em qualquer lugar e tudo se acha em desordem, há espaço? O espaço só existe quando tudo está no lugar que lhe corresponde. Isso externamente. Vejamos agora internamente. Nossas mentes se acham tão confusas, toda nossa vida é contradição, desordem, estamos aprisionados em diversos hábitos: drogas, fumo, bebida, sexo, etc. Obviamente, os hábitos são mecânicos, e onde há hábitos há desordem. Internamente, que é a ordem? É algo ditado pelo pensamento? O pensamento mesmo é um movimento de desordem. (La Totalidad de la Vida, pág. 196)

Assim, (…) nossa vida é toda de desordem, tanto exterior como interiormente. Vemo-nos em conflito, em contradição, exterior e interiormente. E a ordem não é possível quando há conflito, ódio, inveja, avidez, competição, idéias brutais a respeito dos “outros”. E nós necessitamos de ordem, numa escala infinita. (…) (A Suprema Realização, pág. 176)

Só se pode criar a ordem negativamente. Isto é, a ordem não pode ser criada pela imitação ou pelo ajustamento. Vivendo, como estais, à beira do abismo, tendes de achar a solução correta. (…) (Idem, pág. 176)

(…) A ordem deve começar dentro de nós mesmos, para depois manifestar-se exteriormente. Não se pode promover a ordem exteriormente, como o fazem os políticos e os reformadores do mundo inteiro. Só pode haver ordem quando interiormente impera a ordem. Então, toda ação, todo movimento da vida é conforme a ordem, correta, racional. Assim, para encontrarmos a ordem, devemos proceder negativamente. (…) (Idem, pág. 177)

A verdadeira ordem traz consigo um espaço imenso; espaço significa silêncio; desse silêncio surge este extraordinário sentido do vazio. Não se assustem com essa palavra “vazio”; quando existe esse vazio, então certas coisas podem ocorrer. (La Totalidad de la Vida, pág. 197)

(…) A menos que a ordem seja estabelecida no mundo da realidade, não existem bases para uma ulterior investigação. É possível conduzir-se ordenadamente no mundo da realidade, não de acordo com um padrão estabelecido pelo pensamento – o qual continua em desordem? (…) A ordem implica grande virtude; a virtude é a essência da ordem, não o seguir um esquema de ordem, o qual se torna mecânico. (…) (La Verdad y la Realidad, pág. 202)

(…) Quem é, então, que vai produzir ordem neste mundo da realidade? O homem tem dito: “Deus trará a ordem. Crê em Deus.” Porém essa ordem se converte em algo mecânico, porque nosso desejo é o de estar seguros, encontrar a forma mais fácil de viver. (…) (Idem, pág. 202)

Agora investigaremos (…) Pode o indivíduo observar esta desordem em que vive – que é conflito, contradição, desejos opostos, dor, sofrimento, medo, prazer, etc. – pode observar toda essa estrutura da desordem sem o pensamento? (…) Porque se houver qualquer movimento do pensar (…) este vai criar mais desordem (…) (Idem, pág. 203)

Vamos ver se o pensamento, como tempo, pode cessar. (…) Esta é a essência mesma da meditação. Compreendem? (…) Só então há ordem e, portanto, virtude. Não a virtude cultivada, que requer tempo e, por conseguinte, não é virtude (…) Isto significa que devemos inquirir (…) o que é a liberdade. (…) Se o tempo cessa, isso significa que o homem é profundamente livre. (…) Quando a liberdade não está atada ao pensamento, então é absoluta. (…) (Idem, pág. 203-204)

Quando negamos – não a sociedade, mas interiormente em nós mesmos – quando negamos o medo, a ambição, a avidez, a inveja, a busca de prazer e de prestígio – tudo isso gera desordem interior – então, na negação total dessa desordem, surge uma ordem, que é beleza, e não a que resulta de pressões ou comportamentos ambientais. Essa ordem é absolutamente necessária e vereis que ela é retidão. (O Mundo Somos Nós, pág. 90)

(…) A ordem não pode ser criada pelo pensamento, através do tempo, num processo gradual. A virtude não é uma coisa cultivável, não é um hábito. Tal virtude é produto do tempo, (…) do pensamento e, por conseguinte, não é virtude. (…) Mas, quando se compreende a natureza do pensamento e do tempo, surge daí a virtude com sua disciplina própria. Porque disciplina é ordem, mas não a disciplina de imitação, de ajustamento, de obediência. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 94)

Há uma espécie de disciplina quando fazemos uma coisa pelo gosto de fazê-la. Mas a disciplina que é mero ajustamento a um padrão, nobre ou ignóbil, não é a verdadeira disciplina, pois só gera desordem, caos. Mas, para compreender a ordem, que é virtude, precisa-se compreender a natureza do pensar. E a compreensão do pensar exige disciplina. Observar qualquer coisa bem de perto, observar, prestar atenção (…) – esse observar, que só dura um instante, exige enorme disciplina, porque, do contrário, sois incapaz de olhar. (Idem, pág. 94)

Estamos vendo, pois, que a ordem interior, a ordem na mente, em nosso ser, nunca pode ser produto do pensamento. O pensamento pode criar hábitos, ajustamento, obediência, e isso, é bem de ver, só leva a uma desordem maior (…) É necessário compreender todo esse processo do pensamento: como pensamos, por que pensamos, observando-o simplesmente. Se a ele dispensais atenção, não apenas intelectual ou emocionalmente, porém totalmente, nessa atenção total há imediata compreensão e, por conseguinte, ação imediata. E quando se compreende a natureza do pensamento, começa-se a descobrir o que é o amor. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 94-95)

Já considerastes alguma vez (…) por que razão quase todos nós somos um tanto negligentes (…) no vestir, nas maneiras, no pensar, no modo de fazermos as coisas? Por que somos impontuais e (…) desatenciosos para com os outros? E que é que põe ordem em todas as coisas, ordem no vestir, no pensar, no falar, na maneira de andar, (…) de tratarmos os que são menos afortunados do que nós? Que é que produz essa ordem singular, que não resulta de compulsão, de plano nenhum, de nenhuma atividade mental deliberada? Já considerastes isso? (A Cultura e o Problema Humano, pág. 60)

Sabeis o que entendo por “ordem”? É estar sentado e quieto, sem constrangimento, comer com elegância, sem sofreguidão, ser calmo, descansado, mas ao mesmo tempo exato, claro no pensar e, ainda, sem limitações. Que é que produz essa ordem na vida? (Idem, pág. 60)

A ordem, por certo, só desponta com a virtude; porque, se não sois virtuoso, não apenas nas pequenas, mas em todas as coisas, vossa vida se torna caótica (…) Ser virtuoso, por si só, tem muito pouca significação; mas, quando sois virtuoso, há precisão no vosso pensamento, ordem em todo o vosso viver, e essa é a função da virtude. (Idem, pág. 60)

Mas, que acontece quando um homem se esforça para se tornar virtuoso, (…) bondoso, eficiente, atencioso, (…) consome suas energias tentando estabelecer a ordem (…)? (…) Seus esforços só o levam à respeitabilidade, causadora da mediocridade mental; esse homem, por conseguinte, não é virtuoso. Já olhastes atentamente para uma flor? Como é admiravelmente simétrica (…); há nela, também, singular delicadeza, perfume, encanto. (…) Nosso problema, pois, é sermos precisos, claros e sem limitações. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 60-61)

Vede, o esforço para ser ordeiro, cuidadoso, tem forte influência limitante. (…) Torno-me “insuportável” para mim próprio e para os outros. (…) Essa pessoa poderá ser muito ordeira, muito clara, poderá empregar as palavras com precisão, ser muito atenta e atenciosa, mas perdeu a criadora alegria de viver. (Idem, pág. 61)

Ordem, apuro, clareza no pensar, não são em si muito importantes, mas tornam-se importantes para o homem que é sensível, que sente profundamente, que se acha num estado de perpétua revolução interior. Se sentis intensamente a sorte do infeliz, do mendigo (…), se sois altamente receptivo, sensível a todas as coisas, então essa própria sensibilidade traz ordem, virtude; (…) (Idem, pág. 62)

A ordem não é hábito; o hábito torna-se automático e perde toda a sua vitalidade, quando (…) em estado mecânico. (…) Tem-se observado as pessoas que são muito ordenadas; elas possuem certa rigidez, não são flexíveis, carecem de vitalidade; têm-se tornado mais duras, excêntricas, porque seguem um padrão particular que, na opinião delas, é ordem. E isso se converte gradualmente em um estado neurótico (…) (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 103)

De maneira que controle não é ordem. Nunca se pode ter ordem por meio de controle, porque ordem significa funcionar claramente, ver de modo total, sem distorção alguma; porém onde há conflito deve haver distorção. O controle também implica repressão, conformidade, ajuste e divisão entre o observador e o observado. (…) (Idem, pág. 106)

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