Meditação é uma palavra que tem sido usada recentemente no Ocidente, e que de forma infeliz entrou em moda. Há vários expositores do que seja meditação, e cada um oferece um sistema que conduz à iluminação. Deve-se descobrir o significado de sistema – não de um sistema ou método particular, mas de sistema simplesmente. Dizem que, pela prática diária de certo sistema, você chegará ao estado da mente que receberá tudo quanto possa assimilar. Sistema implica repetição, repetir sempre e sempre aquilo que alguém disse constituir o sistema, e você o segue na esperança de obter algo.

Isso significa que a mente se torna repetitiva, mecânica. Como pode uma mente mecânica ver alguma coisa não mecânica, que está extraordinariamente viva, em constante movimento? Se você Se você vê a verdade do fato, qualquer sistema, seja ele de natureza científica ou tecnológica ou da área da meditação, torna a mente estupidificada (…) insensível. Portanto, se posso usar a palavra “estúpido” (só a mente obtusa aceita sistemas) – se você vê a verdade disso, então a sua mente não mais está seguindo a prática, mas se torna constantemente atenta, viva, não mecânica. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 71-72)

Há os sistemas Zen – vocês os conhecem? Que desperdício de tempo, não é? Porque todos oferecem sistemas e, uma vez que você tenha visto a verdade de um sistema, não mais se servirá dele – não importa quem o ofereça. Há agora novamente uma recente moda, da chamada meditação transcendental, que é um absoluto contra-senso, porque – necessito eu falar acerca disso? Como se sabe, uma mente estúpida, repetindo certa palavra para chegar a um estado extraordinário, permanecerá uma mente estúpida. Não? (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 72)

Há na Índia esse sistema, e asseguro que, sempre que vou lá, tenho combatido todas essas práticas estúpidas. Existe no país (Índia) o chamado Mantra Yoga, que prescreve a repetição de uma palavra secreta fornecida ao discípulo, e ele repete dita palavra dez mil vezes por dia, ou coisa assim. Pela repetição da palavra, espera ele atingir uma formidável experiência. Agora essa prática foi trazida para este país (Austrália) (…), e você paga para isso. A palavra mais secreta é a mais cara. E nós gostamos de ser explorados. (Idem, pág. 72)

Pergunta: A veneração das imagens, o puja e a meditação são coisas naturais e (…) úteis ao homem. Por que as repudiais (…)?

Krishnamurti: Que entendemos por meditação? Na meditação estão implicadas muitas coisas: prece, concentração, busca da verdade (…), desejo de consolação, etc. (A prece é uma forma de súplica. Uma pessoa se vê em dificuldades e pede socorro a outra. (…) Obtém, evidentemente, uma resposta, pois do contrário não rezaria. Obtém certa consolação. (A Arte da Libertação, pág. 28-29)

Quando se ora, a resposta vem de Deus, de uma entidade superior, ou vem de outra parte? (…) Pela repetição de palavras (…) produzis um estado de quietude na mente. Se repetimos uma coisa sem cessar, é claro que a mente há de ficar embotada, quieta; e, estando quieta, recebe uma resposta. (…) Orais, evidentemente, porque vos achais em alguma dificuldade, em algum estado que vos causa dor e sofrimento, e por isso desejais uma solução. (Idem, pág. 29)

Quando fazeis isso, que acontece realmente? A mente superficial acha-se em estado de tranqüilidade, de inatividade – então o inconsciente nela se projeta, e tendes a resposta. Ou, (…) tendes um problema que vos atormenta e perturba (…) e não achais solução. Ides então dormir. (…) Ao despertardes, na manhã seguinte, tendes a solução do problema. Que aconteceu? A mente consciente (…) põe-no de parte, dizendo: “Não quero mais preocupar-me com isso”. (A Arte de Libertação, pág. 29-30)

E quando a mente consciente está quieta em relação ao problema, o inconsciente pode projetar-se no consciente e levar-lhe a solução. Essa resposta, podeis chamá-la “a voz tranqüila e suave”, a voz de Deus. (…) É o inconsciente que transmite a mensagem, é ele que envia a solução do problema; e a oração é um simples expediente para aquietar a mente consciente, a fim de que possa receber a resposta. Mas a mente consciente obtém uma resposta de acordo com o seu desejo consciente. Se a mente é condicionada, a resposta será condicionada. (Idem, pág. 30)

Vem a seguir o problema da concentração. (…) Concentrar-se num objeto, numa idéia, significa repelir e excluir todos os outros pensamentos que se insinuam na mente. Escolheis uma idéia e procurais focar a mente nessa idéia, resistindo a todos os outros pensamentos. (…) Quando fazeis isso, que acontece realmente? A concentração se torna um constante conflito de resistência. (A Arte da Libertação, pág. 30-31)

Mas se seguis e compreendeis cada pensamento que surge, importante ou não (…) não há então necessidade de focardes o pensamento em uma única idéia. A concentração não é então limitante, mas (…) criadora. (…) Mas se examinardes cada pensamento, cada sentimento que se manifesta, sem condenação, nem justificação, nem resistência, então (…) a mente se torna muito quieta, (…) serena, livre. Meditação, como vemos, não é concentração, (…) não é prece. (A Arte da Libertação, pág. 31)

Ora, há enorme diferença entre concentração e atenção. A mente então nenhuma fronteira tem, (…) ela pode concentrar-se sem exclusão de nada; mas quem aprendeu a concentrar-se não pode estar atento. Esse estado de atenção sem resistência, sem conflito, sem forçar a mente num canal predeterminado, é absolutamente necessário. E, quando tiverdes atingido esse ponto, vereis por vós mesmos com que facilidade e suavidade se torna existente o silêncio da mente. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 2ª ed., pág. 175-176)

Atenção e concentração são duas coisas diferentes. Concentração é exclusão, é estreitar a mente ou o intelecto, para focá-la na coisa que se deseja estudar, observar. (…) Toda concentração implica distração, conflito e esforço. E só há esforço quando se deseja ganhar, alcançar, evitar, buscar ou rejeitar. (O Passo Decisivo, pág. 262)

(…) A atenção é “inclusiva”. Só se pode estar atento quando não há barreiras para a mente. (…) Na atenção não há distração. Na atenção pode haver concentração, mas essa concentração é sem exclusão. (…) Isso talvez seja algo novo para vós; mas, se o experimentardes vós mesmos, vereis que existe uma qualidade de atenção capaz de escutar, de ver, de observar sem nenhum senso de identificação; nela há visão completa. (…) (Idem, pág. 262)

(…) Quando desejais concentrar-vos naquilo que pensais ser correto e justo, em vossa especial imagem, Deus, idéia, frase, tentais focar a mente nesse objeto. Mas a mente foge, e a fazeis voltar; de novo foge, de novo a fazeis voltar. E nesse jogo ficais empenhado o resto da vida. É isso que chamais “meditação”. (…) E, se percebêsseis isso, (…) a verdade aí contida, ou a falsidade desse processo, nunca pensaríeis em concentrar-vos. (…) Não vos concentreis, pois isso implica exclusão, cria resistência, um foco que dá mais força ao centro e, por conseguinte, limita o espaço. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 142)

Tampouco devoção é meditação. Sois devoto enquanto aquilo a que vos devotais vos traz satisfação; logo que cessa a satisfação, passais adiante. Mudais de guru, (…) de idéia. O instrutor, o guru, a imagem, é a própria “projeção” do devoto. (…) (O que te fará Feliz?, pág. 93-94)

A meditação não é disciplina. O mero disciplinar a mente é limitar a mente, é levantar uma muralha em torno dela. (…) Essa a razão por que uma mente que foi disciplinada, (…) moldada, controlada, reprimida, que encontrou substitutos, (…) sublimação, é sempre uma mente incapaz de libertar-se. (O que te Fará Feliz?, pág. 94)

Existe algum método, (…) sistema, (…) caminho a percorrer, para chegarmos à compreensão do que é meditação, do que é a percepção da realidade? Infelizmente, há certas pessoas vindas do Oriente, com seus sistemas e métodos, e que nos dizem: “Fazei isto”, “Não façais aquilo”, “Praticai o Zen e alcançareis a iluminação”. Algum de vós talvez já tenham ido à Índia ou ao Japão, ou lá passado anos a estudar, a disciplinar-se, concentrando a atenção no dedo grande do pé ou no nariz, a exercitar-se interminavelmente, a repetir palavras que têm a virtude de quietar a mente, (…) terem a percepção de algo transcendente ao pensamento. Tais artifícios podem ser praticados por uma mente que se tornou muito estúpida e embotada. Emprego a palavra “estúpido” com o sentido de “entorpecido” – uma mente entorpecida. (…) (A Questão do Impossível, pág. 71)

Por meio de um expediente, podemos tornar a mente tranqüila; tomamos uma droga ou um copo de vinho, praticamos ritos, adoramos, rezamos. Mas estará a mente tranqüila (…)? (…) Alguns de vós orais, Repetis o Gayatri, rezais em coro, para aquietar a mente, ou juntais as mãos (…), até cairdes num estado a que chamais de paz. (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 156)

O auto-hipnotismo pela repetição de palavras é muito simples. Quando ficamos a repetir certas palavras, nossa mente se torna muito tranqüila, (…) quieta; com o assumir certas posturas, respirar de determinada maneira, forçar a mente, podemos (…) reduzir a atividade da mente. Isto é (…) quando fazemos a mente ficar tranqüila, está ela de fato tranqüila? (…) (Idem, pág. 156)

Acha-se em estado de hipnose. Quando orais, repetis certas frases; isso serve para aquietar a mente; e nessa quietude dão-se certas reações, ouvis vozes, as quais atribuís ao Supremo. Esse “Supremo” atende sempre ao vosso pedido (…) e a sua resposta vos proporciona satisfação. (…) E a maioria gosta desse estado hipnótico, porque nele a pessoa (…) está (…) fechada, isolada e insensibilizada. Nesse estado, a pessoa está inconsciente. (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 156-157)

Quando a mente é posta tranqüila artificialmente, a camada superficial da mente pode receber mensagens, não apenas do seu próprio inconsciente, mas também do inconsciente coletivo; e essas mensagens são traduzidas segundo o condicionamento da mente. Por essa razão, pode um Hitler afirmar que é guiado por Deus. (…) (Idem, pág. 157)

Por conseguinte, quando a mente é forçada à tranqüilidade por meio de concentração, de conformismo, (…) qualquer espécie de disciplina ou auto-hipnose, fica ela (…) incapaz de descobrir a realidade. Ela pode projetar a si mesma e ouvir a sua própria voz, (…) que chamamos a voz de Deus – mas isso (…) é coisa de todo diversa do estado de uma mente que está de fato tranqüila (Idem, pág. 157)

Se observardes o “processo” dessa chamada “meditação”, vereis que ela é uma forma de fuga da realidade. E a realidade é o viver e cada dia, e não a fuga para certo estado de misticismo que esperais alcançar pelo forçar, pelo controlar, pela repetição de palavras, pela concentração num quadro, numa imagem ou símbolo. (A Suprema Realização, pág. 70)

Afinal de contas, um método só serve para exercitar a mente a funcionar em certa direção. Tal prática gera a auto-hipnose: o indivíduo tem visões, sensações de toda ordem – por conseguinte, gradualmente, ela o habilita a fugir da vida. Assim, existe uma distância entre o viver e a busca da meditação. (…) (Idem, pág. 70-71)

(…) Assumir uma postura estudada ou executar certos atos para meditar, deliberada e conscientemente, implica apenas que estais em atividade no campo de vossos próprios desejos e de vosso condicionamento; isso, por conseguinte, não é meditação. (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 73)

Observando-se devidamente, pode-se ver muito bem que aqueles que costumam meditar, têm imagens de toda espécie; vêem Krishna, Cristo, Buda, e pensam ter ganho alguma coisa (…); trata-se de um fenômeno muito simples e claro: “projeção” do condicionamento da pessoa, de seus temores, suas esperanças. (Idem, pág. 73)

Nada há de extraordinário em tais visões. São produto do inconsciente, condicionado. Se uma pessoa se torna relativamente quieta, lá desponta ele (o inconsciente), com suas imagens, símbolos, idéias. Assim, pois, visões, “êxtases”, imagens, idéias não têm o mínimo valor. (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 73)

(…) É o mesmo que um homem recitar certo mantra ou certa frase dúzias de vezes. Quando repetis um nome seguidamente, o resultado é bem óbvio: embotais e embruteceis a mente; e, nesse embrutecimento, ela se torna quieta. O mesmo resultado se obtém tomando uma droga e, nesse estado de quietação, de narcose, podem-se ter visões. (…) (Idem, pág. 73)

Agora, a palavra “meditação” significa, em geral, pensar a respeito de uma coisa, investigá-la, refletir profundamente nela, ou pode significar um estado mental contemplativo, independente do processo do pensamento. (…) (A Mente sem Medo, 1ª ed., pág. 102)

A meditação, para mim, não é nenhuma dessas coisas. Meditação é o total “esvaziamento” da mente – e não se pode esvaziar a mente à força, de acordo com algum método. (…) (Idem, pág. 102)

Toda busca de visões, todo intento de aumentar a sensibilidade por meios artificiais – drogas, disciplinas, adoração, oração – constitui atividade egocêntrica. (Idem, pág. 102)

(…) Sem compreendermos a nós mesmos, torna-se a meditação um processo de auto-hipnose, em que atraímos o nosso estado de alma de acordo com o nosso condicionamento, com a nossa crença. Quem sonha deve compreender a si próprio, e não os seus sonhos: deve despertar e pôr termo a eles. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 182)

Assim, rezas, visões, o sentar-se a um canto, de dorso erecto, respirando corretamente, fazendo exercícios com a mente são coisas imaturas, meras infantilidades; nada significam para o homem que deseja realmente compreender o pleno significado da meditação. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 74)

(…) Mas a meditação a que se associa postura, respiração, repetição de palavras, concentração, várias maneiras de provocar visões, sensibilidade exaltada, não é meditação: é apenas auto-hipnose. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 138)

As várias posturas que uma pessoa assume na chamada meditação – respirar corretamente, sentar-se corretamente, e demais exterioridades superficiais – têm certo afeito de quietar o corpo. Naturalmente, (…) o organismo físico se torna quieto; mas sua mente continua superficial. Não se pode tornar a mente ampla, profunda, sã, vigorosa, lúcida, por meio da respiração. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 71)

E há também as novas drogas que se estão experimentando (…) Mescalina, L.S.D., etc. Muitas pessoas as tomam para terem uma experiência extraordinária do real; pensam que (…) se transportarão ao nirvana. O efeito dessas drogas (…) é este: tornam, temporariamente, o sistema nervoso supersensível, superaguçado. (…) (Idem. pág. 71)

A meditação, como geralmente a compreendemos e praticamos, é uma atividade de expansão do “ego”. Ela é, freqüentemente, uma forma de auto-hipnose. Na chamada meditação, o esforço é dirigido, muitas vezes, no sentido de nos igualarmos a um mestre, o que é imitação. Toda meditação dessa espécie leva-nos à ilusão. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 270-271)

Meditação não é repetição de palavra, nem o experimentar de uma visão, nem cultivo do silêncio. A conta do rosário e a palavra podem de fato quietar a mente tagarela, mas isso é uma forma de auto-hipnose. O mesmo efeito se obteria com uma pílula. (A Outra Margem do Caminho, pág. 18)

Qual o problema compreendido na meditação? Nela só existe o ente que “vem a ser”; na meditação, temos o pensador e o pensamento. O problema da meditação é o “meditador”. O meditador, porém, tem muitos pensamentos. Os pensamentos e o “meditador” buscam “vir a ser”. (…) É só o que conhecemos: o pensador que procura modificar seus pensamentos, (…) elevar os seus pensamentos, subir, subir. Quem faz o esforço é o pensador, o “eu” – moldando, controlando, guiando, aspirando, freando o pensamento. É isso que chamais de meditação. (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 125)

(…) Pois bem; compreendereis a vós mesmos a sós, ou em companhia de muitos? Esses muitos podem ser um empecilho à meditação, como também o pode ser o estar só. O próprio peso da ignorância de muitos que não compreendem a si próprios, pode subjugar o indivíduo que esteja empenhado em compreender-se pela meditação. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 159)

O grupo poderá estimular o indivíduo, mas estímulo é meditação? A dependência de um grupo gera conformidade; a adoração ou prece em conjunto nos torna acessíveis a sugestões e influências, privando-nos do pensar. (Idem, pág. 159)

A meditação no isolamento pode, também, criar empecilhos e fortalecer os preconceitos do indivíduo e o seu apego aos padrões a que se submeteu. Não havendo flexibilidade, (…) ardorosa vigilância, o mero “viver só” fortalece as tendências e idiossincrasias da pessoa, solidifica os hábitos e aprofunda as rotinas do pensamento-sentimento. Sem compreender o significado da meditação, o meditar solitário pode redundar em egocentrismo, no estreitar da mente-coração. (…) (Idem, pág. 159-160)

Pergunta: Credes que a repetição de palavras, por mais sagradas, seja meditação?

Krishnamurti: A meditação não pode produzir-se mediante repetição de palavras nenhumas, por meio daquilo que os hinduístas chamam mantras e vós chamais “oração”. Orações e mantras só servem para entorpecer a mente. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 97)

Pelo engrolar (murmurar incompreensivelmente) repetidamente uma série de palavras, podeis pôr-vos a dormir muito agradavelmente. (…) Nessas condições soporíferas, sentimo-nos num estado extraordinário; mas isso não é meditação. Significa, apenas, narcotizar-se com palavras. Um homem pode também narcotizar-se tomando certos preparados químicos ou bebidas alcoólicas. (…) (Idem, pág. 97-98)

Pergunta: Tenho procurado meditar da maneira por vós sugerida. (…) Penetrei, com esse meditar, a certa profundidade. Parece-me haver alguma relação entre a meditação e os sonhos. Que achais?

Krishnamurti: Para os que praticam a meditação, é ela um processo de vir a ser, (…) de construção, de rejeição ou limitação, de concentração. Adotam (…) técnicas variadas para não se deixarem prender (…); mas o meio lhes molda a mente-coração, e acabam (…) escravos dele. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 116-117)

Se desejais alcançar determinado fim, procurais e encontrais (…), mas esse fim não é o Real. O Real surge espontaneamente, não podemos procurá-lo; ele deve vir por si, não o podemos atrair. (…)(Idem, pág. 117)

Mas a meditação, como geralmente se pratica, é anseio de vir a ser ou de não vir a ser, uma forma sutil de expansão e afirmação do “eu”, dentro do padrão da dualidade. O esforço por vir a ser, positiva ou negativamente, não põe termo ao conflito; só com a extinção do anseio se obtém a tranqüilidade. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 117-118)

Quando você medita, tem esperança de alcançar um resultado, de se tornar alguma outra coisa, além do que você é. Essa é a qualidade da medida, que é comparação. E comparação é desordem. Quando estou comparando a mim mesmo com o que eu deveria ser, estou tentando ser melhor do que realmente sou. Isso cria um constante conflito, não é? Por isso, é possível viver sem comparação alguma, não apenas biologicamente, fisiologicamente, mas, como é mais importante, psicologicamente, interiormente – nunca comparando a si próprio com outra coisa, outra pessoa, porque assim a mente, o cérebro, se torna livre do conflito dos opostos? (…) (The World of Peace, pág. 90-92)

Pergunta: Pode a mente religiosa ser adquirida pela meditação?

Krishnamurti: A primeira coisa que se deve compreender é que ninguém pode adquiri-la, (…) obtê-la, e que ela não pode ser produzida pela meditação. (…) O senso de alcançar, realizar, adquirir, comprar, deve cessar totalmente, para que ela seja. (…) Descobrir a cada momento da vida diária o que é verdadeiro e o que é falso, isso é meditação. A meditação não é certa coisa para a qual fugimos, (…) em que se nos dão visões e toda sorte de sensações; isso é auto-hipnose, infantilidade. Mas observar cada momento do dia, ver como o vosso pensamento está funcionando, (…) o mecanismo de defesa em ação, ver os temores, ambições, a avidez, a inveja – observar tudo isso, investigá-lo a todas as horas, isso é meditação, ou faz parte dela. (…) (O Passo Decisivo, pág. 196)

Perg.: Qual, é o melhor método de tranqüilizar a mente? A meditação e a repetição do nome de Deus são o único método reconhecido. Por que as condenais? (…)

Krishnamurti: Qual é a finalidade da meditação? É a de aquietar a mente? O processo de exclusão é meditação? Entremos na questão negativamente, visto que não sabemos o que é meditação correta. (…) É por meio de uma série de negações do pensamento, ou por meio de resistência, que se alcança a quietude mental? (O que te fará Feliz?, pág. 88-89)

Isto é, a mente é errática, ela divaga incessantemente; e vós tratais de seguir uma direção, resistindo a todas as outras, o que representa um processo de exclusão, de rejeição. Levantais uma muralha de resistência, pela concentração num pensamento que haveis escolhido, e procurais repelir todos os demais. É o que fazeis. (…) (Idem, pág. 89)

Pergunta: Qual a diferença entre meditação e contemplação?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, que entendeis por contemplação? Se a contemplação supõe uma entidade que está tentando contemplar, (…) focar a própria mente, então a contemplação é a mesma coisa que a chamada meditação em que há um “meditador” a tentar obter um certo resultado. (…) Enquanto há observador, pensador, “experimentador”, não há possibilidade de meditação. Meditação não é coisa que se possa aprender de um livro e depois praticar. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 101)

Krishnamurti: Sim. Existe uma meditação que não é criada, determinada, que não constitui prática, prática, prática, que não tem nada a ver com tudo isso? Porque dessa forma eu a pratico para me tornar um homem rico, eu tenho um propósito deliberado. Portanto, não pode ser meditação como a fazem agora. Talvez exista uma meditação que não tenha nada a ver com tudo isso, e eu digo que existe. (The Future is Now – Last Talks in India, pág. 35)

Portanto, (…) examinemos o que é meditação – não “como” meditar. (…) Quando se pergunta “como”, o que se deseja é um sistema, um método, um esquema. (…) Quando alguém nos diz como meditar, essa pessoa não sabe o que é meditação. O que diz: “Eu sei”, não sabe. (…) Porque se o observarmos, vemos que, quando se pratica algo repetidamente, uma e outra vez, a mente se torna mecânica. Já é mecânica, (…) assim, pouco a pouco, nossa mente se atrofia. (…) (La Llama de la Atención, pág. 29)

A mente tem de ser livre, totalmente silenciosa e não sujeita a controle algum. Quando a mente é por completo religiosa, não só é livre, senão que é capaz de investigar a natureza da verdade, para a qual não existe guia nem caminho algum. É só a mente religiosa, (…) livre, a que pode dar com aquilo que está mais além do tempo. (Idem, pág. 32)

(…) A meditação não é coisa separada da vida cotidiana, nem consiste em aprender certo artifício num mosteiro, seja do Zen, seja de outra religião; a meditação é uma maneira de vida e faz parte daquele imenso silêncio a que nos estamos referindo. (…) (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 82)

(…) Todo homem deseja mais e mais experiência, porque está farto da “experiência” que lhe oferece a rotina diária. (…) Desejando mais experiência, recorre a drogas e estimulantes de toda espécie, para ter uma nova experiência, novas visões, novos estados de exaltada sensibilidade. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 138)

Assim, a mente que está em busca de mais experiência está apenas perpetuando o centro criador de espaço e, por conseguinte, nunca é livre. A experiência só vem (…) de um “desafio” e uma “resposta”. E o inadequado da “resposta” faz desejar mais experiência. (…) Por conseguinte, a mente que busca, deseja ou precisa de experiência, é aquela que não compreendeu a experiência; e isso escraviza mais ainda a mente. (…) (Idem, pág. 138-139)

Deveis, por conseguinte, livrar-vos dessa ânsia de experiência, pois, conforme expliquei, no momento em que desejais experiência, estais fortalecendo o centro, o observador, e criando um limitado espaço ao redor dele, espaço em que ficais vivendo. Nesse espaço tendes as vossas relações, a vossa família, o padrão de moralidade, etc; mas (…) esse espaço nunca vos proporcionará a liberdade. (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 139)

Vede (…) que estamos investigando a questão da liberdade, do espaço e do amor, e esta investigação é um processo de meditação. Por conseguinte, estou eliminando tudo o que não é meditação: experiência, oração, repetição de palavras, de mantras, (…) recitação de um rosário. O repetir palavras e revolver contas acalma o espírito. (Idem, pág. 140)

Se ficais a repetir seguidamente a mesma coisa, qual uma máquina, vossa mente de certo se torna quieta – isto é, se entorpece. (…) Mas isso não é meditação. Ficar sentado na posição adequada, com o tronco ereto, respirando regularmente – isso proporciona certa quietude ao corpo, mas não é meditação. (…) A mente vulgar, (…) superficial (…) estreita, (…) sufocada pelo ciúme, pelo furor, pela cólera, amargura, agonia, (…) que não tem nenhum senso da beleza (…) essa mente não está meditando: está (…) a morrer. (…) Nada disso é meditação, porque a meditação é algo que ocorre naturalmente, não é preciso provocá-la (Idem, pág. 140)

A ânsia de experiência é o começo da ilusão. Como agora percebeis, vossas visões eram, tão só, uma projeção de vosso próprio fundo, (…) condicionamento, e eram essas projeções que estáveis experimentando. Isso, por certo, não é meditação. O começo da meditação é a compreensão do fundo, do “eu”, e, sem essa compreensão, o que se costuma chamar meditação, por mais aprazível ou dolorosa que seja, é simples forma de auto-hipnose. Praticastes autodomínio, controle do pensamento, e vos concentrastes em fomentar a experiência. Isso é ocupação egocêntrica, e não meditação. O percebimento da verdade nos liberta a mente do falso. (…) (Diálogos sobre a Vida, pág. 14)

O meditador é o censor, o observador, o produtor do esforço “correto” e do esforço “errado”. Ele é o centro, e desse centro tece a rede do pensamento; mas o próprio pensamento o criou; o pensamento criou a separação entre pensador e pensamento. A menos que desapareça essa divisão, a chamada meditação só robustece o centro, o experimentador que se considera separado da experiência. O experimentador está sempre ansiando por mais experiência. (…) Dessarte, a mente está sempre condicionando a si mesma.(…) (Diálogos sobre a Vida, pág. 151)

As experiências extraordinárias são totalmente sem importância e perigosas. A mente saciada de experiências quer uma experiência mais ampla, maior, mais transcendente. O mais é inimigo do bom. O bom só floresce na compreensão do “que é”, não no desejo de mais experiências. (…) Em meditação há coisas que acontecem, para as quais não há palavras; e, se falardes sobre elas, deixarão de ser o real. (Diálogos sobre a Vida, pág. 205)

Todas essas formas de meditação estão baseadas no cultivo do silêncio do pensamento, na quietação do pensamento. Ou seja, há um controlador que vai controlar o pensamento através de um sistema, de uma prática, de um certo tempo diariamente dedicado à quietação, etc. Há sempre o atento controlador. Mas ele é por si mesmo atividade do pensamento. Então você anda ao redor e ao redor em círculo, como um cão perseguindo a própria cauda. E isso é chamado de meditação! (The World of Peace, pág. 88)

Ora, meditação é algo inteiramente diferente. Você tem de ter estabelecido os fundamentos da ordem em sua vida – ordem, entende? Não pode haver ordem se há medo, (…) se há algum tipo de conflito. Sua casa, não a externa, mas a interna, deve estar em completa ordem, de tal forma que haja grande vigor, estabilidade, (…) ordem. Só então você pode perguntar o que é a verdadeira meditação. {Idem, pág. 88)

(…) Você pode sentar-se às margens do Ganges ou em outro lugar e realizar todo tipo de artifícios com você mesmo. Mas isso não é meditação. A meditação é algo que se vincula à vida diária. É seu movimento de vida, e então há nele liberdade, ordem e o despertar de grande silêncio. Só quando se chega a esse ponto, descobre-se que há alguma coisa absolutamente sagrada. (Mind Without Measure, pág. 32)

Estamos preocupados com a compreensão total do homem. E isso é meditação. Meditar não é fugir do “que é”. É compreendê-lo e ir além dele. Sem compreender “o que é”, a meditação torna-se apenas uma forma de auto-hipnose e fuga em visões e vôos imaginativos de fantasia. A meditação é a compreensão de toda a atividade do pensamento que dá origem ao “eu”, ao “ego”, como fato. (…)(O Começo do Aprendizado, pág. 204)

Meditação não é concentração (…) não é prece, não é devoção, (…) não é processo de disciplina. Que é ela então? (…) A compreensão dessas coisas significa o descobrimento do vosso próprio processo pensante, o que representa autoconhecimento. (…) Por conseqüência, a meditação é o processo da compreensão de vós mesmos. Não há meditação sem autoconhecimento; eis o que acabamos de descobrir. (O que te fará Feliz?, pág. 95)

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