É a palavra ou é o fato que desperta o temor? Se observardes todo esse processo, vereis que, quando não há desejo de fuga ao que é, não existe temor; e há então uma transformação do que é, porque a mente já não tem medo de ser o que é. Nesse estado não existe o sentimento de estar só, de ser insuficiente: é o que é. (…) Mas, para chegar a esse ponto, precisais compreender todo o processo da insuficiência interior, da fuga e da dependência. (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 60-61)

Por outras palavras, a maioria de nós está consciente de que sentimos solidão; e, para escapar a essa solidão, ligamos o rádio, lemos um livro, apegamo-nos a uma pessoa. (…) Essa fuga do “que é” proporciona várias experiências; (…) Então a propriedade, o nome, a posição, o prestígio, passam a ter grande importância. (…) Assim também, a instrução, como meio de fugirmos a nós mesmos, torna-se extraordinariamente importante. (Nós Somos o Problema, pág. 64)

Assim, seguir um pensamento de princípio a fim, é ver como o pensamento se está enganando a si mesmo, fugindo do que é. Só podeis seguir um pensamento de maneira completa, fechando todas as vias de escape e depois olhando-o (…) O descobrimento de como o pensamento se está enganando a si mesmo é que é importante; e ao descobrirmos que ele é enganador, podeis então enfrentar o que é. Só então o que é revela a sua inteira significação. (A Arte da Libertação, pág. 144-145)

É possível ficarmos contente? Que é contentamento, de fato? O contentamento, sem dúvida, só aparece quando compreendemos o que é. O que produz o descontentamento é a maneira complexa por que encaramos o que é. Por causa do meu desejo de transformar o que é em coisa diferente, existe a luta do “vir-a-ser” (…) Por certo, para compreender o que é, requer-se vigilância passiva, sem o desejo de transformá-la em coisa diferente; significa isso que devemos estar passivamente cônscios do que é. Então é possível transcendermos o mero aspecto exterior do que é. (Que Estamos Buscando?, pág. 73)

A dificuldade, pois, reside em compreender o que é, e não pode compreendê-lo uma mente que esteja distraída, uma mente que esteja à procura de algo diferente do que é, que esteja tentando transformar o que é em outra coisa qualquer. (…) Sois ávidos e precisais tornar-vos não ávidos, e por isso lutais (…) Mas, se compreendêsseis o que é, não haveria luta. (…)(Uma Nova Maneira de Viver, pág. 193)

Ora, por que criamos o padrão? Criamos o padrão porque desejamos evitar o fato (…) Como estamos insatisfeitos e não compreendemos o fato – o que somos – criamos as idéias do que deveríamos ser, e por isso há uma divisão, uma contradição. No mundo inteiro se verifica esse processo, essa fuga ao que é, mediante a busca inspirada pela idéia do que deveria ser. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 142)

Viver sem idéia é coisa muito diferente daquilo com que em geral estamos acostumados. Vivemos habitualmente com idéias, vivemos com os nossos pensamentos, nossos conceitos, nossas formulações; (…) essa não é a verdadeira maneira de viver, porquanto cria conflito, sofrimento, confusão. Para viver totalmente, completamente, deve a mente estar livre de toda ideação, a fim de ser capaz de enfrentar o fato – o que é – momento a momento, sem interpretar esse fato. Mas nós estamos pesada e profundamente condicionados (…) Vivemos no mundo ideologicamente, (…) com idéias, com heróis, com exemplos, com padrões; buscamos o que deveríamos ser. (Idem, pág. 143)

E que é tempo? Afora o tempo cronológico (…) existe o tempo, interiormente, psicologicamente? Ou o pensamento inventou o tempo como meio de alcançar, de ganhar, a fim de preencher o intervalo entre o que é e o que deveria ser? (…) O real, o fato, é o que é. Quando estamos frente a frente com o que é, não há medo.(…) O pensamento, o pensar acerca do que é, eis o que gera o medo. E o pensamento é processo mecânico, (…) reação da memória (…) Pode uma pessoa morrer para todas as lembranças, experiências, valores, juízos que acumulou? (O Passo Decisivo, pág. 253)

Temos, pois, a questão de como observar “o que é”. Como sabeis, “o que deveria ser” cria a autoridade. A mente que se libertou do que “deveria ser”, não depende de nenhuma autoridade; está, portanto, livre de qualquer suposição que possa gerar a autoridade, livre para observar realmente “o que é” (…) (O Novo Ente Humano, pág. 16)

Investigar e aprender em comum, significa que não existe autoridade alguma. Ao perceberdes o que realmente é, o que existe, (…) podeis fazer alguma coisa a seu respeito; mas, se observais “o que é” com uma série de conclusões, opiniões, juízos, fórmulas, jamais compreendereis “o que é” (…) (O Novo Ente Humano, pág. 62)

A compreensão de o que é, só se torna possível quando o ideal, o que deveria ser, foi apagado da mente; isto é, quando o falso foi percebido como falso (…) O que deveria ser é também o que não deveria ser. (…) Para se compreender o real, é preciso estar em comunhão direta com ele; não pode existir relação com ele através da cortina do ideal ou (…) do passado, da tradição, da experiência. (…) Isto significa, com efeito, que se precisa compreender o condicionamento, que é a mente. O problema é a própria mente, e não os problemas que ela cria (…) (Reflexões sobre a Vida, 1ª ed., pág. 96-97)

Simplicidade é compreensão do que é. E só há compreensão do que é, quando a mente desistiu de lutar contra o que é, e desistiu de moldá-lo de acordo com suas fantasias. Na compreensão do que é, revelam-se-nos os movimentos do “eu”, do “ego”; e isso, certamente, é o começo do autoconhecimento, não só no nível verbal, mas também naqueles níveis em que o “eu” se acha profundamente oculto, e de onde sai espontaneamente nas ocasiões em que relaxamos a vigilância. (Percepção Criadora, pág. 105-106)

Aquela realidade jamais surgirá – acredito-o – sem o autoconhecimento; o autoconhecimento que se descobre a cada momento no espelho das relações, (…) com o qual nos despimos de toda ilusão e a nossa mente não inventa mais fantasias e meios de fuga. Quando a mente já não está na sujeição das crenças, começa a compreender o que é – o que é nas relações. Assim, pois, pelo constante percebimento do “eu”, do “ego”, em ação, podem-se descobrir as tendências da mente. (…) (Poder e Realização, pág. 11)

(…) Os mais de nós nos servimos da vida de relação como meio de fuga de nós mesmos, de nossa solidão, (…) incerteza e pobreza interior (…) Mas se, em vez de fugirmos através da vida de relação, procurarmos considerá-la como um espelho e (…) perceber com toda clareza e sem preconceito (…) “o que é”, então, esse próprio percebimento torna possível uma transformação do que é, sem o mínimo de esforço. (…) (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 78)

Assim sendo, a capacidade de compreender a vida só se realiza ao compreendermos a vida de relação. A vida de relação é um espelho. Ela deve refletir, não aquilo que desejamos ser, ideal ou romanticamente, mas, sim, o que na realidade somos (…) É difícil perceber, observar em silêncio “o que é”, porque estamos afeitos a condenar, a justificar, a comparar e a identificar. E nesse processo de justificação, condenação, aquilo “que é” não pode ser compreendido. Só na compreensão do que é, podemos ficar livres do que é. (O que te Fará Feliz?, pág. 104)

Por que estais lutando contra o que é? (…) De nada serve rebelar-se contra o que é, contra o real. (…) Quando me submeto ao que é, vem-me não só a sua compreensão, mas também certa tranqüilidade da superfície da minha mente. Se a mente superficial não está tranqüila, começa a entregar-se a obsessões, reais ou imaginárias; deixa-se empolgar por certas idéias (…) É só quando está quieta a mente superficial, que o oculto pode revelar-se. O oculto tem de ser trazido à luz (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 112-113)

(…) A espontaneidade é a única chave que abre a porta do que é. A reação espontânea revela a mente tal como é; mas o que se revela é imediatamente adornado ou destruído, e, com isso, se põe fim à espontaneidade. A destruição da espontaneidade é própria da mente vulgar (…) Só na espontaneidade, na liberdade, pode haver descobrimento. A mente disciplinada não pode descobrir; poderá funcionar com muita eficiência (…); não pode, porém, desvendar o insondável. (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 132)

Vede como é importante estarmos cônscios do que é, sem nos deixarmos dominar por aquilo que gostaríamos que fosse. É fácil criar uma ilusão e nela viver. (…) O viver no passado, por mais agradável e (…) edificante que tenha sido, impede o experimentar de o que é. O que é, é sempre novo (…) (Reflexões sobre Vida, pág. 145)

Pode-se ver muito claramente quanto é contraditória e confusa a nossa vida diária (…) Podem-se inventar significados para ela; os intelectuais inventam uma significação e nós outros nos pomos a segui-la (…) Mas, se só nos interessa “o que é”, e não (…) teorias e ideologias; se estamos sobremodo vigilantes – nossa mente é então capaz de enfrentar “o que é” (…) (Fora da Violência, pág. 32-33)

Estamos descontentes por causa da comparação (…) porque desejamos alterar o que é; (…) não sabemos o que fazer com o que é. E, em virtude desse desconhecimento, criamos a idéia do que deveria ser, o ideal, a utopia, os deuses. (…) Estou descontente com o que é, e desejo ser uma coisa diferente do que é. Essa coisa diferente é uma idéia, racional ou irracional (…) (A Importância da Transformação, pág. 155)

Dá-se o conflito entre o que é e o que deveria ser. E, quanto maior a tensão entre o que é e o que deveria ser, maior a neurose; e (…) se tenho a necessária capacidade, tanto mais forte o impulso a expressar verbalmente esse conflito: no teatro, na música, na arte, na literatura (…) É dessa maneira que fugimos do que é. (Idem, pág. 155)

Mas pode-se transformar radicalmente o que é? Eis a busca real (…) Para investigar essa questão de promover uma total revolução em o que é, necessitamos de extraordinária capacidade de percebimento. (…) Entretanto, quando estamos cônscios do que é, desejamos alterá-lo, mantendo-nos em incessante atividade em torno dele. (A Importância da Transformação, pág. 155-156)

Aí é que começa o sofrimento. Ora, no findar do sofrimento está o começo da sabedoria; e o fim do sofrimento é a compreensão de o que é. Mas, a compreensão de o que é só vem quando o observamos, dele estamos cônscios e a mente é incapaz de alterá-lo (o que não significa estar satisfeita com o que é). (Idem, pág. 156)

Reconhecer “o que é”, é compreender “o que é”. Mas é difícil reconhecer “o que é”, porquanto a mente se recusa a ver, a observar, a aceitar “o que é”. O ver “o que é”, o observar “o que é”, exige ação; e qualquer ideal ou processo de vir-a-ser é uma fuga à ação (…) Quanto mais penetrais em “o que é”, tanto melhor podeis ver a camada mais profunda da consciência, ou seja, a vida, em diferentes níveis. Nisso existe a liberdade (…) que a verdade, como virtude, nos traz (…) (O que te Fará Feliz?, pág. 105)

Pois bem; como somos interiormente pobres, procuramos fugir dessa pobreza, recorrendo ao trabalho, ao conhecimento, ao amor (…) Escutamos o rádio, lemos o livro (…), cultivamos uma idéia ou uma virtude, adotamos uma crença – tudo fazemos para fugir de nós mesmos. Nosso pensar é um processo de fuga ao que é (…) A verdade a esse respeito só pode ser conhecida se não fugirmos (…) (Por que não te Satisfazer a Vida?, pág. 59)

(…) Todas as fugas, desde a fuga pela embriaguez até à fuga para Deus, são iguais, porque estamos fugindo do que é (…) É só quando realmente deixamos de fugir, só quando ficamos frente a frente com o problema da solidão, da insuficiência interior (…) só então temos a possibilidade de compreendê-lo, e, portanto, de dissolvê-lo. (Idem, pág. 59-60)

Viver sem comparação é tirar uma carga tremenda. Se vocês se desfazem da carga constituída pela comparação, pela imitação, pela conformidade, pelo ajustamento, pela modificação, então hão ficado com “o que é”. O conflito surge unicamente quando tratam de fazer algo com “o que é”, (…) tentam transformá-lo, modificá-lo, mudá-lo, reprimi-lo ou (…) escapar dele. Porém, se têm discernimento sobre “o que é”, o conflito cessa e permanecem com “o que é”. (La Totalidad de la Vida, pág. 180)

E que ocorre com “o que é”? Qual é o estado da mente quando se está olhando “o que é”? Qual é o estado (…) quando não se foge (…) não se trata de transformar ou deformar “o que é”? Qual é o estado da mente que está olhando e tem discernimento? A mente que tem discernimento se acha totalmente vazia. Está livre de fugas, (…) de repressões, análises, etc. Quando todas essas cargas são eliminadas – porque se percebe o absurdo que implicam, (…) há liberdade. Liberdade significa vazio para observar. Esse vazio dá ao indivíduo discernimento da violência, não das diversas formas de violência, mas da total natureza e estrutura da violência. Portanto, há uma ação imediata com relação à violência, a qual consiste em estar livre por completo de toda violência. (La Totalidad de la Vida, pág. 180)

Que é o conflito? Quando não aceitamos os fatos, o que realmente é, quando fugimos para algo que chamamos de ideal – o oposto de “o que é” – então o conflito é inevitável. Quando se é incapaz de olhar e observar o que realmente se está fazendo e pensando, então se foge do que é, e se projeta um ideal; em conseqüência, há conflito entre “o que é” e “o que deveria ser”. (La Llama de la Atención, pág. 54)

Porque se nega “o que é” e se cria o ideal de “o que deveria ser”, há conflito. Porém, observar o que realmente é significa que não se tem opostos, só “o que é”. Se vocês observam a violência e usam a palavra violência, sempre há conflito, a palavra mesma já está deformada (…) existe a violência e existe o oposto, a não-violência. O oposto existe porque vocês conhecem a violência; o oposto tem sua raiz na violência. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 206)

Como vemos, a transformação não é resultado do tempo: é resultado de uma mente tranqüila, (…) calma, serena, quieta, passiva. A mente não está passiva quando busca um resultado (…) Mas se a mente tem, simplesmente, a intenção de compreender o que é, e está assim tranqüila, vereis que nessa tranqüilidade há compreensão do que é, portanto, transformação. (…) (Novo Acesso à Vida, pág. 125)

Nossa moral atual está baseada no passado ou no futuro, no tradicional ou no que deveria ser. O que deveria ser é o ideal, em oposição ao que foi; é o futuro em conflito com o passado. A não violência é o ideal, o que deveria ser; e o que foi é a violência. O que foi “projeta” o que deveria ser; o ideal é de “fabricação doméstica”, sendo “projetado” pelo próprio oposto – o real. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 95)

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