Como já sabemos, a maioria de nós traz o passado para o presente, e o presente se torna mecânico. Se observardes vossa própria vida, vereis quanto é mecânica! Funcionais qual uma máquina, como imitação perfeita do cérebro eletrônico. (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 151)

(…) É preciso, pois, examinar a questão da memória. Memória, conhecimento, experiência, todo o acúmulo de dados científicos e técnicos, são da maior importância quando se trata de executar um trabalho material. (Idem, pág. 151)

Nas coisas de que necessitamos para viver, a memória deve funcionar com o máximo de eficiência, qual um cérebro eletrônico. Este é capaz de coisas as mais extraordinárias: pintar, escrever poemas, traduzir, e até dirigir uma orquestra. Mas esse cérebro eletrônico só pode funcionar com os dados que lhe são fornecidos, por associação, etc. (Idem, pág. 151)

E, quando se faz uma pergunta ao cérebro eletrônico, devem-se usar termos precisos; senão, ele não responderá. Por isso mesmo, há hoje todo um conjunto de cientistas empenhados em investigar a questão da ação na linguagem; mas não é este o assunto que nos interessa no momento. (Idem, pág. 152)

Ora, há máquinas que pensam: os cérebros eletrônicos, os computadores. Nosso pensar se processa de maneira semelhante? É ele reação da memória, que são as experiências armazenadas, individuais e coletivas, reação à qual se junta a reação nervosa? (…) O desafio constituído pela pergunta põe em ação o mecanismo do pensamento e vem então a reação. (…) Ora, de que fundo (background) procede a vossa resposta? ( O Passo Decisivo, pág. 19)

Pode-se ver (…) que nossa mente, nosso intelecto, se tornou mecânico. Somos influenciados em todos os sentidos. Tudo o que lemos deixa-nos sua impressão, e toda propaganda, sua marca. O pensamento é sempre convencional e, assim, o intelecto e a mente se tornaram mecânicos, como uma máquina. Exercemos mecanicamente nossas ocupações, mecânicas são nossas mútuas relações, e nossos valores são simplesmente tradicionais. (…) (O Passo Decisivo, pág. 201)

É então muito importante que lancemos uma olhada em nossas relações; não só nas relações íntimas, senão também na relação que estabelecemos com o resto do mundo. (…) Eu posso ser um muçulmano e você (…) um hindu. Minha tradição diz: “Eu sou muçulmano” – tenho sido programado como um computador para repetir “Eu sou muçulmano” – e você repete “Eu sou hindu”. (…) (La Llama de la Atención, pág. 18)

O pensamento inventou o computador. Vocês precisam entender a complexidade e o futuro do computador; ele vai superar o homem em seu pensamento, ele vai mudar a estrutura da sociedade e (…) do governo. (…) O computador possui uma inteligência mecânica; ele pode aprender e inventar. O computador vai tornar o trabalho humano praticamente desnecessário – talvez duas horas de trabalho por dia. Essas são as mudanças que estão chegando. (…) (A Rede do Pensamento, pág. 17-18)

Quando consideramos a capacidade do computador, então temos de nos perguntar: o que deve fazer o ser humano? O computador vai assumir o comando das atividades do cérebro. E o que, então, acontecerá no cérebro? Quando as ocupações de um ser humano forem assumidas pelo computador, pelos robôs, qual será o destino do ser humano? (Idem, pág. 18)

Nós, seres humanos, fomos “programados” biologicamente, intelectualmente, emocionalmente, psicologicamente, durante milhares de anos, e vivemos a repetir o padrão do programa. Nós paramos de aprender e devemos indagar se o cérebro humano (…) será capaz de aprender e transformar-se imediatamente numa dimensão totalmente diferente. (Idem, pág. 18)

Se não formos capazes disso, o computador, que é muito mais capaz, rápido e exato, irá assumir o comando das atividades do cérebro. Isso não é uma coisa casual; este é um assunto por demais sério, desesperadamente sério. O computador pode inventar uma nova religião. Ele poderia ser programado por um douto especialista (…). E nós, se não estivermos cônscios do que está acontecendo, seguiremos essa nova estrutura produzida pelo computador. (…) (Idem, pág. 18)

(…) Os computadores eletrônicos são muito semelhantes à mente humana, só que nós somos um pouco mais engenhosos – pois somos seus criadores; mas eles funcionam exatamente como nós (…), por meio de reação, repetição, memória. (…) Por conseguinte, o problema urgente é este: Como libertar o intelecto e a mente? Porque, se não há liberdade, não pode haver ação criadora. (…) E isso exige capacidade de raciocinar, de sentir, para quebrarmos a tradição e destroçarmos todas as muralhas que erguemos para nossa segurança. (…) (O Passo Decisivo, pág. 201)

Se penetrardes mais na questão do pensar, alcançareis um estado mental em que dizeis: “Não sei”. (…) Aí é que está a diferença entre o computador eletrônico e a mente humana. (…) “Não sei” representa um extraordinário estado mental, quando realmente o compreendemos. (…) E não é necessário dizermos “Não sei”, para que a mente esteja sempre a aprender, (…) fresca, inocente, jovem? Só a mente jovem diz “Não sei”. (…) (A Suprema Realização, pág. 47)

O nosso ego, (…) personalidade (…) é inteiramente formada pela memória (…) Não há nenhum lugar ou espaço onde haja claridade (…). Vocês podem investigar isto: se estiverem indagando seriamente, verão que o “eu”, o ego, é todo memória, lembranças. (…) Nós funcionamos, (…) vivemos da memória. E, para nós, a morte é o fim dessa memória. (A Rede do Pensamento, pág. 104)

Qual a função da memória? (…) Esse aprendizado desenvolve a memória, porque precisais dessa memória para poderdes desempenhar satisfatoriamente uma função qualquer. (…) Mas eu temo a memória psicológica: as coisas que me dissestes, as ofensas, as lisonjas, os insultos que me dirigistes. (…)

Há, por conseguinte, as imagens que eu formei acerca de vós e as imagens que a meu respeito formastes. Essas memórias se conservam e se acrescentam continuamente. Essas memórias é que irão reagir. Por conseguinte, o pensamento, sendo resultado da memória, é sempre velho; nunca é novo e, portanto, nunca é livre. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 176)

A memória, na forma de conhecimento, de acumulação de experiências, de coisas que o homem vem juntando há milhões de anos – a memória é o passado, consciente ou inconsciente; nela estão depositadas todas as tradições. E com tudo isso vindes para o presente, para o agora e, por conseguinte, não estais realmente vivendo. Estais “vivendo” com as lembranças, as cinzas frias de ontem. Observai a vós mesmos (…). (O Despertar da Sensibilidade, pág. 151 -152)

Será bem formada a mente que repete, como um gramofone, tudo o que lhe foi dito? Nisto tem consistido a nossa educação. Conhecer fatos, datas, citá-los uma vez por ano, na ocasião dos exames. Podemos chamar isso de cultivo de uma mentalidade criadora? (…) Mas o simples acúmulo de conhecimentos, sinônimo de desenvolvimento da memória, é apenas um processo aditivo. Ele não forma um espírito lúcido, criterioso (…). (Ensinar e Aprender, pág. 111)

Entretanto, uma boa memória tem o seu valor, não só para a lembrança de certas coisas, mas para o preparo técnico ou especializado. Então, em que ponto a memória interfere com uma mente sã, apta a explanar, investigar, descobrir? Que relação existe entre a memória e a autêntica liberdade? (Idem, pág. 111)

Consideremos o problema de outra maneira. A memória, sem dúvida, é tempo (…). Isto é, (…) cria o ontem, o hoje, o amanhã. A memória de ontem condiciona o hoje e, portanto, molda o amanhã. Isto é, o passado, através do presente, cria o futuro. (…) Assim, através do tempo, esperamos alcançar o atemporal, (…) o eterno. (…) Pode-se captar o eterno na rede do tempo, por meio da memória, que pertence ao tempo? (A Arte da Libertação, pág. 114)

O atemporal só pode ter existência quando cessa a memória, que é o “eu” e o “meu”. Se percebeis a verdade aí contida – isto é, que através do tempo não se pode compreender ou captar o atemporal – podemos então entrar no problema da memória. A memória de coisas técnicas é essencial; mas a memória psicológica, a que mantém o “eu” e o “meu”, a que dá identificação e continuidade pessoal, essa é de todo prejudicial à vida e à realidade. (…) (Idem, pág. 114)

São sutis as atividades de acumulação; a acumulação é a afirmação do “eu”, tal como o é a imitação. Chegar a uma conclusão é erguer uma muralha ao redor de si mesmo, uma proteção segura, que impede a compreensão. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 249)

Quando não há acumulação, não existe o “eu”. Uma mente oprimida pela acumulação é incapaz de acompanhar o célere movimento da vida, (…) de uma vigilância profunda e flexível. (Idem, pág. 249-250)

A função do cérebro é registrar, como o faz um computador. Ele registra o prazer, e o pensamento o provê de energia e de impulso para perseguir o prazer. (…) Então o pensamento diz que tem de haver mais, e persegue esse “mais”. (…) É possível registrar só aquilo que é absolutamente necessário e nenhuma outra coisa? Nós registramos continuamente tantas coisas desnecessárias, e desse modo erigimos a estrutura do “eu”, do “mim” mesmo – “eu” me sinto ofendido; “eu” não sou o que deveria ser (…). A totalidade desse registrar é uma ação que outorga importância ao “eu”. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 201)

A atividade de acumular, adicionar, é obstáculo à compreensão do Real. Onde há acumulação, há vir-a-ser do “ego”, que causa conflito e dor. O desejo acumulador, que busca o prazer e evita o sofrimento, é um vir-a-ser. A vigilância não é atividade de acumulação, porquanto está sempre descobrindo a verdade, e a verdade só pode existir onde não houver acumulação, (…) imitação. Um esforço da parte do “ego” não pode nunca trazer-nos liberdade, uma vez que todo esforço implica resistência, e só é possível dissolver a resistência se houver vigilância imparcial, discernimento livre de esforço. (…) A percepção da verdade é libertadora (…). (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 268-269)

A meditação é a purificação da mente de todas as suas acumulações; é expurgá-la da capacidade de adquirir, de identificar, de vir a ser; expurgá-la da expansão do “eu”, do preenchimento do “eu”. A meditação é o libertar a mente da memória, do tempo. O pensamento é produto do passado (…). O pensamento é a continuidade dessa atividade acumuladora que é o vir-a-ser, e nenhum resultado é capaz de compreender ou sentir aquilo que não tem causa. O que se pode formular não é o Real, e a palavra não é a “experiência”. A memória, a criadora do tempo, é um obstáculo entre nós e o Atemporal. (Idem, pág. 269)

A memória, como processo identificador, empresta continuidade ao ego. A memória, pois, é uma atividade circunscrita e estorvante. Sobre ela está edificada toda a estrutura do ego. Estamos considerando a memória psicológica, não a memória relativa à linguagem, aos fatos, ao desenvolvimento de uma técnica, etc. Toda a atividade do ego é um obstáculo no caminho da verdade; (…). (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 269-270)

O conhecimento condicionado é um empecilho a que conheçamos a Realidade. Vem-nos a compreensão depois de cessarem todas as atividades da mente – quando ela estiver de todo livre, silenciosa, tranqüila. O ansiar é sempre atividade acumuladora e dependente do tempo; o desejo de um objetivo, (…) de saber, de experiência, desenvolvimento, preenchimento, até mesmo o desejo de Deus ou da Verdade, é um empecilho. Deve a mente expurgar-se de todos os empecilhos por ela criados, para que surja a suprema sabedoria. (Idem, pág. 270)

Desse modo, você está cônscio da extensão em que seu cérebro está sendo programado? (…) Se está ciente de que está programado, condicionado, você pergunta: “Foi o conhecimento que me condicionou?” Aparentemente foi. Então por que é que a estrutura da psique é essencialmente baseada no conhecimento? Você entende? A psique, o “mim”, o “eu”, é essencialmente um movimento do conhecimento, (…) que é uma série de memórias. (The World of Peace, pág. 20-22)

O que é necessário registrar e o que não é necessário registrar? O cérebro está ocupado todo tempo registrando e, portanto, não há tranqüilidade, (…) quietude; ao passo que, se há claridade com relação ao que se deve e ao que não se deve registrar, então o cérebro está mais quieto – e isso é parte da meditação. (La Totalidad de la Vida, pág. 201)

Registrar só o que é absolutamente indispensável (…). É algo maravilhoso (…), porque então há verdadeira liberdade – liberdade com relação a todo o conhecimento acumulado, à tradição, à superstição e à experiência, coisas que têm edificado esta enorme estrutura à qual o pensamento se aferra em sua condição de “eu”. Quando o “eu” está ausente, surge a compaixão, e essa compaixão traz consigo claridade. Com essa claridade, há entendimento. (Idem, pág. 202)

Onde há registro desnecessário, não há amor. Se se quer compreender a natureza da compaixão, há de se investigar o problema do que é o amor, e descobrir se existe amor sem nenhuma forma de apego, com todas as complicações, (…) prazeres e temores associados ao apego. (Idem, pág. 202)

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