Que é meditação e que é pensar? Se vamos investigar o que é meditação, temos também de saber o que é pensar. Senão, meditar sem conhecer o processo de pensar é criar uma fantasia, uma ilusão, sem (…) realidade. Assim, para compreender ou saber o que é meditação, não bastam simples explicações, que pouco significam (…) (Ensinar e Aprender, pág. 125)

O pensar é uma resposta da memória. Os pensamentos se tornam escravos de palavras, (…) de símbolos, de idéias, e a mente é a palavra, e ela passa a depender de nomes como deus, comunista, (…) aldeão, cozinheiro, etc. (…) Se se pronuncia o termo sannyasi, ele de pronto desperta (…) uma atitude respeitosa. (…) Vivemos e pensamos dentro de uma estrutura condicionada (…) (Idem, pág. 125)

Porém, haverá pensamento sem palavra? Existe um pensar sem a palavra e, portanto, fora do tempo? A palavra é tempo. Mas, se a mente for capaz de separar de si própria a palavra e o símbolo, haverá, então, um perquirir sem objetivo, e essa pesquisa será de ordem atemporal. (Idem, pág. 125)

Primeiro, olhemos o quadro todo. A mente que não tem espaço de onde observar, não possui a qualidade de percepção. Havendo o pensar, não há observação. A maioria de nós vê através das palavras, porém será que isso é ver? (Ensinar e Aprender, pág. 125

Ao contemplar uma flor e dizer: “é uma rosa”, vejo mesmo a rosa ou ocorre-me a idéia que a palavra evoca? Então, poderá a mente, que pertence ao tempo e ao espaço, investigar em um estado isento de espaço e de tempo, por ser esse o único estado em que é possível haver criação? (…) A mente que não dispõe de espaço, de vazio de onde ver, é sem dúvida incapaz de viver em um estado não-espacial, atemporal. (…) (Idem, pág. 125)

A meditação é uma das coisas mais importantes na vida; não como meditar, não a meditação conforme um sistema, não a prática da meditação, senão principalmente o que a meditação é na verdade. Se um indivíduo pode descobrir, mui profundamente, a significação, a necessidade e a importância que tem a meditação para si mesmo, então descartará todos os sistemas, métodos, gurus, junto com todas as coisas peculiares que se acham envolvidas nesse tipo oriental de meditação. (La Totalidad de la Vida, pág. 137)

Pensamos ser incapazes de compreender a extraordinária importância que é ver o que somos, ver-nos de fato, como se nos estivéssemos olhando psicologicamente em um espelho, o que produz uma transformação na própria estrutura interna. Quando se realiza fundamentalmente, profundamente, uma transformação ou mutação semelhante, então essa mutação afeta toda a consciência do homem. (Idem, pág. 137)

Para ver o que o indivíduo realmente é, torna-se vital que haja liberdade, liberdade com relação a todo o conteúdo da própria consciência – sendo o conteúdo da consciência todas as coisas acumuladas pelo pensamento. Libertar-se do conteúdo da própria consciência, das cóleras e brutalidades, das vaidades e da arrogância, libertar-se de todas as coisas em que a pessoa se acha enredada, é meditação. (Idem, pág. 137-138)

Ora, senhores, (…) Isto é um processo de meditação, e sem meditação não há sabedoria. A sabedoria nasce com o autoconhecimento. (…) Meditação é estar cônscio de todos os conflitos, no espelho das minhas atividades, relações, estados. (As Ilusões da Mente, pág. 114)

Os que desejam compreender o profundo significado da meditação, devem partir de si próprios, porquanto o autoconhecimento é a base do verdadeiro pensar. (…) Deveis partir de vós mesmos, para chegardes longe. É difícil a auto-observação; é difícil penetrarmos até o fundo de cada pensamento-sentimento, mas essa percepção de cada pensamento-sentimento porá fim às divagações da mente. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 119)

A meditação só tem significado quando a mente-coração está vigilante, descendo até o fundo de cada pensamento-sentimento que surge, sem comparar nem identificar. Porque o identificar e comparar sustenta o conflito da dualidade. (…) Na tentativa de concentrar-nos, são os pensamentos-sentimentos antagônicos reprimidos, ou afastados, ou superados, e não é possível a compreensão. (Idem, pág. 120-121)

(…) Que é meditação? Não é ela a compreensão das atividades de nosso “ego”, não é ela autoconhecimento? Sem autoconhecimento, sem a percepção do processo do “eu”, em sua inteireza, carece de realidade a base sobre que formais o vosso caráter, (…) o objetivo pelo qual lutais. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 158-159)

(…) A meditação não é um processo de vir a ser pessoal; uma vez que se inicia com o autoconhecimento, traz-nos a tranqüilidade e a suprema sabedoria, abrindo-nos a porta para o Eterno. Tem a meditação por fim fazer-nos conhecer o “ego” no seu todo. O “ego” é resultado do passado e não existe no isolamento. (…) As muitas causas que lhe deram existência precisam ser compreendidas e transcendidas. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 160)

Destrua o pequeno estímulo egocêntrico, ele não existe! A partir daí você pode se mover infinitamente. E isto é meditação. Não simplesmente sentar-se de pernas cruzadas, ou em posição sobre a cabeça, ou fazer o quer que seja, mas tendo o sentimento de completa totalidade e unidade da vida. E isso só pode vir quando há amor e compaixão. (The Word of Peace, pág. 96) ` Meditação é estar cônscio de cada pensamento e de cada sentimento, nunca dizer que ele é certo ou errado, porém simplesmente observar e acompanhar seu movimento. Nessa vigilância, compreendeis o movimento total do pensamento e do sentimento. E dessa vigilância vem o silêncio. O silêncio criado pelo pensamento é estagnação, coisa morta, porém o silêncio que vem quando o pensamento compreendeu a sua própria origem, (…) natureza, (…) esse silêncio é meditação na qual o meditador está de todo ausente, porque a mente esvaziou-se do passado. (Liberte-se do Passado, pág. 103)

Ora, compreender a si próprio é absolutamente necessário. Meditar é esvaziar a mente, e, nesse estado de vazio, ocorre a “explosão” que nos lança no desconhecido. (…) A mente que está repleta, (…) carregada de problemas, (…) em conflito, que não explorou as profundezas de si própria, não tem possibilidade de esvaziar-se. E a meditação é o esvaziar da mente, não no final, porém imediatamente, fora do tempo. (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 73-74)

Meditação é o apercebimento de cada pensamento, de cada sentimento, de cada ato, e esse percebimento só é possível quando não há condenação, nem julgamento, nem comparação. Vedes, simplesmente, cada coisa como é, e isso significa que estais cônscio de vosso condicionamento – tanto do consciente como do inconsciente – sem desfigurá-lo ou alterá-lo. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 98)

Conhecer o processo integral da mente – todas as suas inclinações, “motivos”, propósitos, seus talentos, suas exigências, seus temores, frustrações e êxitos felizes – conhecer todas essas coisas significa estar tranqüilo e não permitir que elas atuem. Só então pode manifestar-se o que se acha além da mente. E essa coisa só pode manifestar-se quando não é chamada; (…) quando não é procurada. (…) Só a mente que compreende o processo total, pode receber as bênçãos do Real. (As Ilusões da Mente, pág. 116)

E quando livres do medo, da amargura, da ambição, da avidez, da inveja, do desejo de êxito, da existência de poder, posição, prestígio (…) o cérebro se torna então tranqüilo. Mas só podeis compreender e livrar-vos de toda essa agitação, se dela vos conscientizardes sem nenhum esforço. (…) Está agora bem claro que, para a mente poder achar-se no estado de meditação, é imprescindível a eliminação do conflito. (…) Enquanto não se compreender a estrutura e a anatomia desse centro, haverá sempre conflito; (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 2ª ed., pág. 166)

A meditação é a purificação da mente de todas as suas acumulações; é expurgá-la da capacidade de adquirir, de identificar-se, de vir a ser; expurgá-la da expansão do “eu”, do preenchimento do “eu”. A meditação é o libertar a mente da memória, do tempo. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág.269)

Quando procurais meditar, não notais que vossa mente divaga e “tagarela” incessantemente? De pouca valia é o afastardes todos os pensamentos, com exceção de um só, procurando concentrar-vos nesse único pensamento por vós escolhido. Em vez de procurardes submeter à vossa vontade esses pensamentos errantes, tornai-vos cônscios deles, aprofundai cada um deles, pensando e sentindo, apanhai o seu significado, quer agradável, quer desagradável; (…) (Idem, pág. 119)

Cada pensamento-sentimento que for estudado dessa maneira, vos confiará o seu significado e, assim, compreendendo os próprios pensamentos repetidos e erráticos, esvazia-se a mente de suas próprias formulações. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 119)

No estado de meditação, a mente está vendo – observando, escutando sem a palavra, sem comentário, sem opinião – atenta ao movimento da vida em todas as suas relações, do começo ao fim do dia. E à noite, quando o organismo descansa, a mente modificadora não tem sonhos, porque esteve desperta todo o dia. Só os indolentes têm sonhos; só os que andam semi-adormecidos precisam ser advertidos de seu estado. Mas a mente que está vigilante, escutando o movimento da vida – o externo e o interno – a essa mente vem um silêncio não fabricado pelo pensamento. (A Outra Margem do Caminho, pág. 19)

Só quando ausente o “eu”, existe a possibilidade de a mente estar quieta, e, portanto, apta a compreender, (…) a receber aquilo que é eterno. Mas formar uma representação da eternidade, conceber uma idéia a seu respeito, (…) é, verdadeiramente, autoprojeção, (…) ilusão (…) Mas, para que o eterno seja, torna-se necessário, evidentemente, que as atividades, as fabricações, as projeções do “eu” cessem inteiramente. E o cessar dessa projeção é o começo da meditação (…) (Nós Somos o Problema, pág. 50)

Quando estamos cônscios de nós mesmos, não é todo o movimento do viver uma forma de revelar o “eu”, o “ego”? (…) Tudo isso revela o estado condicionado do nosso próprio pensar; (…) Só pela percepção do que é verdadeiro, momento a momento, se dá o descobrimento do atemporal, do eterno. Sem autoconhecimento não pode existir o eterno. (…) (Percepção Criadora, pág. 106)

A meditação exige uma mente sobremodo vigilante; a meditação é a compreensão da totalidade da vida, na qual não existe mais nenhuma espécie de fragmentação. Meditação não é controle do pensamento (…); mas, quando se compreende a estrutura e a origem do pensamento, (…) o pensamento então não mais interfere. Essa compreensão da estrutura do pensar é sua própria disciplina, que é meditação. (Liberte-se do Passado, pág. 103)

A mente, pois, percebe que, sem espaço, sem espaço infinito, não há liberdade, e que só há espaço infinito quando não há nenhum criador de espaço. (…) O espaço é infinito, desde que não haja objeto; por conseguinte, a liberdade é infinita. (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 141)

É, pois, esse o começo da meditação; isto é, a mente, depois de desejar e procurar espaço no exterior, e (…) de compreender esse espaço exterior, volta-se (…) para o seu próprio interior e observa. E, rejeitando o falso (…) alcança a mente um estado de verdadeira serenidade. Porque compreendeu tudo aquilo, já nada busca, nada pede, nada exige. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 144)

Deve, pois, a mente compreender cada um dos valores por ela acumulados, e nesse processo as numerosas camadas da consciência, tanto as claras como as ocultas, são descobertas e compreendidas. Quanto mais nítida for a percepção das camadas conscientes, tanto mais facilmente virão à superfície as camadas ocultas. Se as camadas conscientes estiverem confusas e turvas, não poderão as camadas mais profundas da consciência penetrar no consciente, senão pelos sonhos. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 121-122)

A meditação é o viver, momento a momento, dia a dia. Não significa isolar-nos num a aposento ou numa caverna, pois, dessa maneira, nunca podemos conhecer a Realidade. A realidade encontra-se na vida de relação (…) nas relações de nossa vida cotidiana. (…) E a verdade encontra-se nas nossas relações, que representam ação, (…) um espelho em que nos miramos. (O que te Fará Feliz?, pág. 97)

A meditação é a inocência do presente e, em conseqüência, é sempre só. A mente totalmente só, ilesa do pensamento, cessa de acumular. Portanto, o esvaziar da mente está sempre no presente. Para a mente que está só, o futuro – que pertence ao passado – deixa de existir. (…) (A Outra Margem do Caminho, pág. 85)

(…) Porque o findar do pensamento é o começo da meditação real; e só então há uma revolução, uma maneira fundamentalmente nova de considerar a existência. A nova maneira de tratar o problema é fazer findar o tempo; e eu digo que isso pode fazer-se instantaneamente, quando há verdadeiro interesse. Podeis sair do rio para a margem, em qualquer ponto. O rio do “vir-a-ser” se acaba quando compreendeis o processo do tempo; (…) (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 71)

Não penseis que a meditação seja prolongamento e expansão da experiência. Na experiência existe sempre a testemunha, (…) ligada ao passado. A meditação, ao contrário, é a completa inação que põe fim a toda experiência. A ação da experiência tem suas raízes no passado (…), envolve o tempo; leva à ação que é inação e produz desordem. Meditação é a total inação da mente que percebe o que é, não entrelaçado com o passado. Essa ação não é reação a nenhum desafio, mas, sim, é a ação do próprio desafio, na qual não existe dualidade. A meditação é a eliminação da experiência e funciona a todas as horas, consciente ou inconscientemente; (…) não é uma ação restrita a certo período do dia. É uma ação contínua, da manhã à noite – observação sem observador. (A Outra Margem do Caminho, pág. 46)

A meditação, pois, não consiste meramente em ficardes sentado, imóvel, controlando a vossa mente. (…) Sem autoconhecimento, conhecimento do “eu”, não há meditação, sendo “eu” a maneira como a mente opera (…) O “eu” é a vossa mente, e tendes de compreender como ela opera, (…) funciona. (…) Mas, por meio do autoconhecimento (… ) sabe-se como opera o “eu”, e então se está no começo da meditação. (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 127)

(…) Assim, a vossa meditação não se limita a umas poucas horas ou a uns poucos momentos durante o dia; será, antes, uma contínua vigilância da mente e do coração, durante o dia inteiro; e isso, para mim, é a verdadeira meditação. Nisso há paz. Nisso existe alegria. (…) (Palestras em Auckland, 1934, pág. 133)

Assim, a meditação tem um significado. Deve-se ter essa qualidade meditativa da mente, não de maneira ocasional, senão durante todo o dia. E isso que é sagrado afeta nossas vidas, não só durante as horas de vigília, mas durante o sono. E, nesse processo de meditação, aparece toda classe de poderes; um se torna clarividente, o corpo (…) extraordinariamente sensível. (…) (La Verdad y la Realidad, pág. 213)

(…) Nessas circunstâncias, a clarividência, o poder de curar, a transferência de pensamento, etc., resultam por completo insignificantes; todos os poderes ocultos se tornam tão carentes de importância (…) E quando vocês perseguem esses poderes, estão perseguindo algo que finalmente haverá de conduzir à ilusão. (…) (Idem, pág. 213-214)

(…) Para meditar, precisa-se compreender o meditador; este é o primeiro requisito, e não o como meditar. Porque o “como meditar” implica concentração, que é exclusão. (…) Meditação é processo de autoconhecimento, isto é, conhecimento do meditador – não do “meditador superior” que está meditando, do “eu superior” que está buscando. (…) (As Ilusões da Mente, pág. 75-76)

Meditação é estar cônscio das atividades da mente – da mente do meditador, de como a mente se divide em meditador e meditação, (…) em pensador e pensamento, o pensador dominando, (…) controlando (…), moldando o pensamento. Existe, pois, em todos nós, o pensador separado do pensamento; o pensador se tornou o “eu superior”, o “eu mais nobre”, mas isso é ainda a mente dividida em pensador e pensamento. (…) (Idem, pág. 76)

(…) A meditação, portanto, é o “processo de descondicionamento” da mente; significa estar cônscio sem condenação, sem justificação ou resistência, de cada pensamento, cada sentimento, cada fantasia que surge, conforme as nossas idiossincrasias e tendências pessoais. É a memória do passado que condiciona a nossa reação, e meditação é o processo de libertar a mente do passado. (A Arte da Libertação, pág. 33)

A meditação sem padrão estabelecido, sem causa ou motivo, sem direção ou propósito é um fenômeno extraordinário. Não é somente uma tremenda e purificadora explosão, mas é também a morte sem retorno. Trata-se de uma ação devastadora que penetra por todos os cantos mais distantes e secretos do pensamento. Sua pureza é extremamente vulnerável (…) Como o amor, ela é pura porque desconhece a resistência. Assim como a morte, é inevitável; não existe, na meditação, o amanhã. (…) Eis o que é meditação, e não a (…) atividade do cérebro em sua busca de segurança. A meditação destrói a segurança. Nela existe grande beleza. (…) Todas as coisas surgem e fluem do vazio desse silêncio. (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 70)

Os limites da consciência são anulados pela meditação; ela destrói o processo do pensar e sentir, urdido pelo pensamento. (…) Abundante energia é liberada pela meditação, mas ela é deformada e destruída pelo controle, pela disciplina e pela repressão. Meditação é a chama que arde sem formar cinzas. As palavras, o sentimento, o pensamento, sempre deixam resíduos, e o mundo vive das cinzas do passado. Meditar é viver em perigo, pois nada escapa àquela destruição (…); e é da amplidão insondável desse vazio que surgem o amor e a criação. (Diário de Krishnamurti, pág. 91)

Pensamos ser incapazes de compreender o extraordinariamente importante que é ver o que somos, ver-nos de fato, como se nos estivéssemos olhando psicologicamente em um espelho que produz uma transformação na própria estrutura interna. Quando se realiza fundamentalmente, profundamente, uma transformação ou mutação semelhante, então essa mutação afeta toda a consciência do homem. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 137)

Parte da meditação é eliminar completamente todo conflito no interno e, portanto, no externo. Para eliminar o conflito, deve-se compreender este princípio básico: O observador não é, no psicológico, diferente do observado. Quando há ira, não há o “eu”, porém, um segundo depois, o pensamento cria o “eu” e diz:

“Tenho estado irado”, e assim introduz a idéia de que não deveria estar irado. (…) Quando não há divisão entre o observador e o observado e, portanto, só existe a coisa que é, ou seja, a ira, que ocorre? Continua a ira, então? Ou a ira cessa totalmente? (…) Quando o observador é o observado, a ira floresce, se desenvolve e morre naturalmente (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 138)

Um indivíduo vive na ação; ação conforme um motivo, um ideal, (…) um padrão, ação por hábito ou (…) tradicional, sem investigação alguma. Uma mente que medita, deve descobrir o que é a ação. Um dos problemas principais na própria vida é o conflito, e do conflito se origina toda sorte de atividades neuróticas. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 138-139)

(…) Porém, ao dar-se conta dos próprios pensamentos, não há concentração; a percepção alerta não consiste em escolher o pensamento de agrado do indivíduo; ele fica simplesmente alerta. Dessa percepção alerta surge a atenção. Na atenção não existe um centro a partir do qual se esteja atuando. Isso (…) é a essência da meditação. Na concentração, há um centro a partir do qual se está concentrando (…) ou uma representação mental, ou alguma imagem, etc.; (Idem, pág. 140)

(…) Para eliminar totalmente o conflito, deve o indivíduo dar-se conta, sem opção alguma, de seus pensamentos; então não há contradição nem resistência com relação a nenhum pensamento. Daí surge a percepção alerta; percepção de todo movimento do pensar. A causa dessa percepção alerta advém do estado de atenção. Quando se está atento a algo, de verdade, profundamente, não existe um centro, não há um “eu”. (La Totalidad de la Vida, pág. 140)

A meditação é atenção na qual não existe um registrar. Normalmente, o cérebro está registrando quase tudo, o ruído, as palavras (…) – registra como um gravador magnetofônico. Pois bem, é possível ao cérebro nada registrar senão o que for absolutamente necessário? Por que devo registrar um insulto? (…) Por que devo registrar uma lisonja? (…) Por que devo registrar qualquer tipo de feridas psicológicas? É desnecessário. (…) Na meditação não há registro psicológico, exceto o registro dos fatos práticos do viver (…) (Idem, pág. 140-141)

A meditação não consiste em buscar uma finalidade (…) Da meditação surge um imenso silêncio; não um silêncio cultivado, (…) entre dois pensamentos, (…) dois ruídos, senão um silêncio que é inimaginável. O cérebro chega a estar extraordinariamente quieto quando se acha nesse processo de investigação interior; quando há silêncio, existe grande percepção. Nesse silêncio há vazio, um vazio que é a soma de toda energia. (La Totalidad de la Vida, pág. 193)

Quanto mais vigilante for a nossa meditação, nas chamadas horas de vigília, tanto menos sonharemos e tanto menor o temor e a ânsia relativamente à interpretação de nossos sonhos. Porque, na autovigilância das horas de vigília, as diferentes camadas da consciência vão sendo descobertas e compreendidas, e, no sono, há continuação da vigilância. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 161)

A meditação não é para determinado período somente; ela deve ser praticada tanto nas horas de vigília como nas de sono. Quando dormimos, em virtude da adequada vigilância meditativa das horas de vigília, pode o pensamento descer a profundidades deveras significativas. A meditação continua mesmo durante o sono. (Idem, pág. 161)

Observar o movimento do pensar, faz parte da meditação. A meditação não é mera e absurda repetição de palavras; não consiste em dedicar a isso uns cinco minutos pela manhã, à tarde e à noite. A meditação faz parte da vida. Meditar é descobrir a relação entre pensamento e silêncio – a relação entre pensamento e aquilo que é atemporal. A meditação faz parte de nossa vida cotidiana, tal como a morte e o amor fazem parte de nossa vida. (La Llama de la Atención, pág. 84)

(…) A meditação, portanto, é o “processo de descondicionamento” da mente; significa estar cônscio sem condenação, sem justificação ou resistência, de cada pensamento, cada sentimento, cada fantasia que surge, conforme as nossas idiossincrasias e tendências pessoais. A meditação, pois, significa libertação do passado. (…) (A Arte da Libertação, pág. 33)

Efetuar uma mutação total, uma total revolução na vida diária – eis a função da meditação. Não consiste ela em sentarmo-nos a meditar, para depois agirmos, porém em viver, em compreender, em estar o indivíduo cônscio de todos os seus atos e palavras e gestos, de sua maneira de falar, enfim, de toda a sua existência de cada dia. Isso é que é meditação. (…) (A Suprema Realização, pág. 72)

É extraordinariamente importante conhecer e compreender a profundidade e a beleza da meditação. (…) Existe algo imutável, sagrado, absolutamente puro, não contaminado por nenhum pensamento, por nenhuma experiência? (…) Para descobrir isso, para dar com isso, é imprescindível a meditação. Não a meditação repetitiva; isso carece por completo de sentido. Quando a mente se acha livre de todo conflito, de qualquer afã do pensamento, existe então uma energia criadora que é autenticamente religiosa. Dar com essa energia que não tem princípio nem fim, é a verdadeira profundidade e beleza da meditação. Isso requer libertação de todo condicionamento. (La Llama de la Atención, pág. 34-35)

De modo que existe uma fonte, uma causa original da qual surgem todas as coisas, e essa causa original não é a palavra. A palavra nunca é coisa. E a meditação consiste em dar com essa causa que é a fonte original de todas as coisas e que está totalmente livre do tempo. Esse é o caminho da meditação. E bem-aventurado é quem o descobre. (Idem, pág. 35)

O imensurável só pode surgir por si, pois não pode ser chamado; e só surgirá se a mente não estiver exigindo mais nada, não estiver mais rezando, pedindo, suplicando; quando estiver livre, livre do pensamento. O cessar do pensamento é a peculiar função da meditação. Precisamos estar livres do conhecido, para que possa existir o desconhecido. (…) (As Ilusões da Mente, pág. 78-79)

Mas, se quem pratica a meditação começa por compreender a si próprio, tem então grande importância a sua meditação. Pela autovigilância e o autoconhecimento vem o reto pensar; é somente então que o pensamento é capaz de transcender as camadas condicionadas da consciência. A meditação é então o “ser”, o qual tem seu próprio movimento eterno; é a própria criação, porquanto o meditador deixou de existir. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 184)

(…) A meditação não é coisa que exista separadamente: é a compreensão da totalidade da vida, compreensão em que cessou todo tipo de fragmentação da vida. E é também contemplação – contemplar a vida, não de um centro, (…) porém, sim, contemplar o movimento total da vida: a aflição, o conflito, a confusão, as (…) tribulações do homem; observar a vida como um movimento total. (…) Tal contemplação é meditação. Mas não se pode contemplar, nem meditar, se não há silêncio. (A Essência da Maturidade, pág. 118-119)

PRÁTICA DE MEDITAÇÃO

Na obra “Ensinar e Aprender”, ensina Krishnamurti a meditação a sós:

“Vocês nada sabem sobre meditação. Os que já “sabem”, terão de desaprendê-la, para, então, aprender. (…) Para aprenderem a meditar, devem observar a atividade de sua mente. Têm de observá-la, tal como observam uma lagartixa a andar pela parede. (…) Do mesmo modo, observem o movimento do seu pensar. Não tentem corrigi-lo nem controlá-lo. Apenas observem – agora, não amanhã.

Em primeiro lugar, fiquem bem quietos. Sentem-se comodamente, cruzem as pernas, mantenham-se imóveis e fechem os olhos, procurando evitar que se movam. (…) Os globos oculares tendem (…) a mover-se: conservem-nos quietos. (…) Então, nesse estado de quietude, reparem o que faz seu pensamento. Observem-no, da mesma maneira como observaram a lagartixa. Atentem para os pensamentos, seu curso, um atrás do outro. Assim se começa a aprender a observar.

Estão observando seus pensamentos, vendo como um sucede ao outro, enquanto o próprio pensar vai dizendo: “Este pensamento é bom, este é mau.” À noite, ao se deitarem, ou quando passeiam, observem o seu pensamento. Apenas o observem, não o corrijam; desse modo, começarão a aprender a meditar. O aprender, uma vez iniciado, não tem fim. (Idem, pág. 15)

Adiante, no mesmo livro (Ensinar e Aprender), volta Krishnamurti ao assunto, com outros dados:

(…) A meditação, se bem realizada, é algo maravilhoso. Falemos um pouco sobre ela.

Em primeiro lugar, sentem-se tranqüilamente; (…) A seguir, observem seu pensamento. Atentem em que estão pensando: se em seus sapatos, seus saris (…) Acompanhem tais pensamentos e averígüem por que surgiram. Não procurem mudá-los. Verifiquem a razão por que certos pensamentos surgem na mente; o significado de cada pensamento e de cada sentimento. Mas não o condenem, não o considerem certo ou errado, bom ou mau. Limitem-se a observar. (…)

Conhecerão os pensamentos recônditos, os velados motivos, todo e qualquer sentimento, sem distorção, sem classificá-los de um ou de outro modo. Quando observam (…) penetram fundo (…), torna-se a mente mais sutil e viva. Nenhuma parte adormecida, mas (…) desperta.

Isso é apenas o fundamento. Então, com a quietude mental, todo o ser se tranqüiliza. A seguir, observem profundamente essa serenidade: isso constitui o processo da meditação. Meditação não é sentar-se a um canto, repetindo (…) palavras, não é olhar figura, (…) êxtase imaginário.

Compreender o inteiro curso do próprio pensar e sentir é libertar-se de todo pensamento, (…) sentimento, e, desse modo, a criatura se aquieta. (…) E, com essa quietude, você verá melhor a árvore, as pessoas, (…) o céu e as estrelas. Eis a beleza da vida. (Ensinar e Aprender, pág. 40-41)

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