O processo do “eu” resulta da ignorância, e essa ignorância, à semelhança da chama alimentada pelo óleo, sustenta-se a si mesma por meio das próprias atividades. Isto é, o processo do “eu”, a energia do “eu”, a consciência do “eu”, é resultado da ignorância, e a ignorância sustenta-se a si própria por meio das atividades por ela mesma criadas; (…) por meio das próprias ações, ânsias e desejos. (…) (Palavras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 39)

Portanto, trata-se não de saber o que é a realidade, o que é Deus, a imortalidade, e se o indivíduo deve ou não acreditar nisso, porém, sim, de saber que coisa é essa que luta, que carece, que teme e anseia? (…) Qual é o centro em que esse querer tem sua existência? O que é a consciência, a concepção da qual partimos e na qual temos o nosso ser? A partir daí é que devemos iniciar a nossa investigação. (…) (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 58)

(…) O processo do “eu” é, assim, auto-ativo. Isto é, não somente ele próprio se expande mediante seus voluntários desejos e ações, como se mantém por sua ignorância, tendências, carências e anseios. A chama sustenta-se pelo seu próprio calor, sendo que esse mesmo calor é a chama. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 59-60)

Agora, exatamente do mesmo modo, o “eu” sustenta-se a si mesmo por meio da carência, das tendências e da ignorância. E, apesar disso, o próprio “eu” é a carência. O material para produzir uma chama tanto pode ser uma vela como um pedaço de madeira; e o material para o processo do “eu” é sensação, consciência. Esse processo não teve princípio e é único para cada indivíduo. (…) (Idem, pág. 60)

Pela carência criamos confusão, ignorância e sofrimento, e depois em movimento o processo da evasão. A essa evasão chamamos busca da realidade. Vós dizeis: quero encontrar Deus, quero atingir a verdade, a libertação; procuro a imortalidade. Jamais perguntais a vós mesmos o que é esse “eu” que procura. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 61)

(…) O compreender esse processo do “eu”, em conjunto, exige de vossa parte verdadeira reflexão e profunda penetração, por meio do discernimento. Se compreenderdes o surgimento, o vir-a-ser da consciência por meio da sensação, da vontade, e perceberdes que da consciência nasce a unidade denominada “eu”, (…) então despertareis para a compreensão da natureza desse círculo vicioso. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 61)

Quando se der o entendimento do seu significado, então terá lugar uma nova compreensão, algo de novo que não está embaraçado pela carência, pela ânsia, pela ignorância. Então podereis viver neste mundo inteligentemente, de maneira sã, em plenitude profunda, e, apesar disso, não serdes do mundo. (…) (Idem, pág. 61-62)

Se puderdes compreender profundamente esse processo auto-sustentador de ignorância que dá solidez ao “eu”, e do qual surge toda confusão e todo sofrimento, então a vida poderá ser vivida plenamente sem as várias e sutis evasões e persecuções que, sem o saber, vós próprios haveis criado.

Então virá à existência esse algo extraordinário, uma plenitude, uma bem-aventurança. Antes, porém, (…) é preciso que haja entendimento profundo do processo do “eu”. A não ser que haja essa compreensão, o processo do “eu” estará sempre criando a qualidade em si próprio, por meio do desejo. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 62)

O processo do “eu”, que busca perpetuar-se, nada mais é que acúmulo de anseios. Esse acúmulo e suas lembranças constituem a individualidade (entidade individualizada) a que nos aferramos e que ansiamos por imortalizar. As múltiplas camadas de lembranças, tendências e carências acumuladas constituem o processo do “eu”; e nós desejamos saber se esse “eu” pode viver para sempre, se pode ser tornado imortal.

Será possível que essas lembranças autoprotetoras se tornem ou sejam tornadas permanentes? (…) Ou existirá o eterno para além desse atrito e limitação, que é o processo do “eu”? Desejamos tornar permanentes as limitações acumuladas, ou imaginamos que, através de camadas de lembranças, de consciência, exista algo de perdurável. Ou imaginamos que, para além dessas limitações da individualidade (ente individualizada), deva existir o eterno. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 91)

Qual a causa do conflito? O conflito surge quando a reação não é adequada ao desafio; esse desafio é a focalização da consciência do “eu”. O “eu”, a consciência, enfocado pelo conflito, é experiência. Experiência é reação a um estímulo ou desafio; se não verbalizamos ou damos nome, não há experiência.(…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 171)

Novamente vos pergunto: podem as lembranças da ignorância acumulada, das carências e das tendências, de onde surgem o atrito e a tristeza, ser tornadas perduráveis? Essa é a questão. Não nos é possível aceitar profundamente a asserção de que através da individualidade (ente individualizado) corre algo de eterno, ou que para além dessa limitação exista algo de permanente, pois essa concepção só pode basear-se na crença, na fé, ou naquilo que denominamos intuição, e que é quase sempre preenchimento de desejo. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 91-92)

Portanto, a questão importante é esta: pode o processo do “eu” ser tornado permanente? Pode a consciência das tendências, das carências e lembranças acumuladas, de onde surge a individualidade (ente individualizado) ser tornada permanente? Por outras palavras, podem essas limitações tornarem-se o eterno? A vida, a energia acha-se em perpétuo estado de ação, de movimento, no qual não pode haver continuidade individual. Como indivíduos, porém, anelamos perpetuar-nos (…) (Idem, pág. 92)

Ora, se o indivíduo puder discernir profundamente o surgimento do processo do “eu” e se tornar intensamente apercebido do construir das limitações e de sua transitoriedade, então esse mesmo apercebimento produz a sua dissolução; e nisso está o permanente. A qualidade dessa permanência não pode ser descrita, nem tampouco pode o indivíduo procurá-la. Ela vem à existência com o discernir o processo transitório do “eu”. A realidade do permanente só pode vir como um acontecimento, dá-se por si mesma, não pode ser cultivada. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 93)

O indivíduo deve conhecer-se a si próprio e, conhecendo-se, será então capaz de discernir se existe ou não permanência. Nossa busca do eterno tem de levar-nos à ilusão; se, porém, mediante um vigoroso esforço e experiência, pudermos compreender-nos profundamente a nós próprios, e discernir o que somos, somente então poderá surgir o permanente – não a permanência de algo fora de nós, porém essa realidade que vem à existência quando o transitório processo do “eu” não mais se perpetuar. (Idem, pág. 94)

(…) O “eu” nada mais é que o resultado das lembranças acumuladas, que ocasiona atrito entre ele próprio e o movimento da vida, entre os valores definidos e os indefinidos. Esse mesmo atrito é o processo do “eu”, e este não pode ser tornado o eterno. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 94)

Há duas espécies de vontade – a vontade que nasce do desejo, da carência, do anseio – e a vontade do discernimento, da compreensão. A vontade resultante do desejo baseia-se no esforço consciente de aquisição, seja ela resultante da carência ou da não-carência. Esse esforço consciente ou inconsciente de querer, de ansiar, cria a totalidade do processo do “eu”, e daí surgem o atrito, a tristeza e a cogitação do além. (Idem, pág. 94-95)

Desse processo surge também o conflito entre os opostos e, portanto, a luta constante entre o essencial e o não essencial, entre a seleção e a não seleção. E desse processo surgem várias paredes autoprotetoras de limitação, que impedem a verdadeira compreensão dos valores indefinidos. Ora, se nos apercebermos desse processo, e de que havemos desenvolvido uma vontade em virtude do desejo de adquirir, de possuir, e que essa vontade está criando conflito, sofrimento e dor contínuas, então dar-se-á, sem esforço consciente, a compreensão da realidade, que pode ser chamada permanente. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 95)

Discernir que a carência está presente onde existir ignorância, e, portanto, produz sofrimento, e apesar disso não permitir à mente adestrar-se a não querer, é tarefa ingente e difícil. Podemos discernir que o possuir, o adquirir, cria sofrimento e perpetua a ignorância, que o movimento do anseio impede o discernimento nítido. Se refletirdes a respeito, percebereis que é assim. Quando não mais existir carência nem não-carência, dar-se-á a compreensão daquilo que é permanente. É um estado sutil e dificílimo de compreender; não ser aprisionado entre os opostos, entre o renunciar e o aceitar, exige um esforço vigoroso e reto. (Idem, pág. 95)

Se formos capazes de discernir que os opostos são errôneos, que levam necessariamente ao conflito, então esse mesmo discernimento, esse aperfeiçoamento produz a iluminação. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 95-96)

(…) A mente procura uma definição para com ela fazer um molde para si mesma, a fim de escapar àquelas reações da vida que determinam atrito e dor. Nisso não há compreensão. (…) Internamente, o processo do “eu”, com suas solicitações, seus anelos, suas vaidades e crueldade, persiste e continua. Na compreensão desse processo reside a verdadeira e esclarecida ação. (Idem, pág. 99)

Agora, a fim de discernir a verdade, o pensamento deve ser livre de tendências, a mente deve ser sem carência e sem escolha. Se vos observardes a vós próprios na ação, vereis que a vossa carência do fundo da tradição, dos falsos valores e das memórias autoprotetoras, renova a cada momento o processo do “eu”, que impede o verdadeiro discernimento. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 14)

A compreensão da causa do sofrimento produz na plenitude do nosso ser uma mudança de vontade isenta de escolha. Então a experiência, sem suas memórias de acumulação, que impedem o entendimento e a ação, terá significação profunda. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 14-15)

A maioria de nós busca escapar ao sofrimento por meio de ilusões, de definições e conclusões lógicas, e assim, gradualmente, a mente se toma obtusa, incapaz de se perceber a si mesma. Só quando a mente se percebe tal qual é, como vontade de si própria, com suas múltiplas camadas de ignorância, de temor, de carência, de ilusão, quando ela discerne como, por meio de suas atividades volitivas, o processo do “eu” se vai perpetuando, só então há possibilidade de esse processo pôr fim a si próprio. (…) A terminação do processo do “eu” é o começo da sabedoria, da beatitude. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 41)

Qual é a causa do medo? Como é engendrado o temor? (…) Haverá medo enquanto existir o processo do “eu”, a consciência da carência, que limita a ação. Toda ação nascida da limitação da carência, cria apenas mais limitações. Essa contínua de carência, com suas múltiplas atividades, não liberta a mente do temor; dá apenas ao processo do “eu” identidade e continuidade. A ação nascida da carência tem sempre de criar temor e assim embaraçar a inteligência e dificultar o ajustamento espontâneo à vida. (Palestras em Ommen, Holanda, l936, pág. 64-65)

(…) Se discernirdes que o processo do “eu” se sustenta a si mesmo pelas próprias atividades volitivas nascidas da ignorância, da carência, do temor, então a experiência de outrem muito pouco significado pode ter. Grandes instrutores religiosos declararam o que é moral e verdadeiro. Seus seguidores apenas os imitaram e por isso não realizaram o preenchimento. (…) Os ideais criam dualidade na consciência e, assim, apenas continuam o processo do conflito. Se perceberdes que o despertar da inteligência é o fim do processo do “eu”, então haverá espontâneo ajustamento à vida, relações harmoniosas com o ambiente (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 73-74)

A ignorância não tem começo, mas pode-se-lhe pôr termo. A própria compreensão de que a ignorância se sustenta a si própria, acaba com esse processo. Isto é, vós mesmos observais como, por meio de vossas atividades, estais sustentando a ignorância; como, por meio do anseio, que gera o medo, a ignorância é mantida; e como isso dá continuidade ao processo do “eu”, à consciência. Essa ignorância, esse processo do “eu”, mantém-se pelas próprias atividades volitivas nascidas da carência, do anseio. Com a cessação da autonutrição, o processo do “eu” termina. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 16)

O processo do “eu” é automantenedor, auto-ativo, por sua própria ignorância, tendência, suas ansiedades. Ele tem de se destruir por meio da cessação dos próprios desejos volitivos. Se compreenderdes profundamente o significado dessa integral concepção do “eu”, então vereis que não sois mero ambiente, opinião ou acaso, porém o criador, aquele que dá origem à ação. Vós criais vossa própria prisão de tristeza e conflito. Por meio da cessação de vossas atividades volitivas, encontrareis a realidade, a felicidade. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 56-57)

Deveis transcender o padrão da dualidade para resolverdes permanentemente o problema dos opostos. Dentro do padrão, não se encontra verdade alguma (…); se procurarmos a verdade dentro de seus limites, iremos ao encontro de desilusões. Cumpre transcendermos o padrão dualista do “eu” e do “não eu”, do possuidor e da coisa possuída. Para além e acima (…) da dualidade, encontra-se a verdade. Para além e acima do interminável problema dos opostos, causador de conflitos e dores, encontra-se a compreensão criadora. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 13)

Assim, direis agora: “se eliminardes esta concepção do “eu”, qual será o ponto focal da vida?” (…) Dizeis: “eliminai, libertai a mente dessa consciência de si mesma, como um “eu”, e, então, o que permanece?” O que resta quando sois supremamente felizes, criativos? O que permanece é esta felicidade. Existe este admirável sentimento de amor ou este êxtase. Digo que isto é real. Tudo o mais é falso. (Palestras em Auckland, 1934, pág.116)

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