Mas já estamos tão acostumados com o conflito! Conflito com o mundo, com o nosso semelhante, com os filhos, a mulher, conflito no emprego, (…) entre grupos, (…) famílias, sociedades, comunidades, nações; e o conflito entre desejos divergentes, contraditórios, entre as compulsões, os impulsos(…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 100)

Ao perceberdes esse conflito, desejais sair dele; não desejais compreendê-lo, não vos deixais ficar com ele, não cuidais (…) da compreensão do conflito; (…) não olhais o conflito com afeição, em lugar do impulso para vos livrardes dele. (Idem, pág. 100)

Apresenta-se o conflito quando há contradição, quando há dois desejos a “puxar” em diferentes direções. (…) E, assim, tendes conflito, não só o conflito consciente, mas também o conflito inconsciente (…), inerente à sociedade, (…) às ocupações que exerceis (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 100)

Existe, pois, conflito quando há autocontradição, quando, dentro de vós, existe a inclinação para fazerdes certa coisa e também, ao mesmo tempo, a inclinação para fazerdes outra coisa – como, por exemplo, (…) para fumar, e ao mesmo tempo o medo de fazê-lo, porque os médicos anunciaram (…) que o fumo produz câncer. Desejais deixar de fumar e, ao mesmo tempo, conservar o hábito. (…)(O Despertar da Sensibilidade, pág. 101)

Agora, uma coisa é necessário perceber (…), que o conflito da vida deve ser compreendido instantaneamente, e não a cada conflito. Porque não há tempo para analisardes prontamente cada conflito que surja, penetrá-lo, descobrir-lhe a causa. (…) Entender todos os conflitos, um a um, significa mera fragmentação, e não se pode juntar vários fragmentos de contradição para constituírem um todo. (…) (Idem, pág. 101)

Assim, o conflito só se torna existente quando há desatenção. (…) Vós não podeis exercitar-vos para estar atento. Mas podeis ficar cônscio de estar desatento. E quando estais cônscio de estar desatento, estais atento. Assim, o que nos interessa é promover a mudança sem conflito nenhum – conflito na mente consciente ou nos níveis inferiores da consciência (…)(Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 105)

Antes de podermos compreender, necessitamos tornar-nos conscientes da espécie de esforço que fazemos “agora”. Não consiste, de fato, (…) na tentativa constante de nos tornarmos alguma coisa, em fugirmos de um oposto para outro? Vivemos em uma série de conflitos de ação e reação, de querer e não querer. Consumimos esforço nesse intento simultâneo de vir e de não vir-a-ser. Permanecemos, assim, num estado dual. Como surge a dualidade? (…)

Como surge em nós esse doloroso conflito entre o bem e o mal, a esperança e o medo, o amor e o ódio, o “eu” e o “não-eu”? Não é ele criado pelo desejo de chegar a ser isto ou aquilo? Esse desejo se expressa na sensualidade ou na busca de fama pessoal ou na imortalidade. Procurando tornar-nos algo, não criamos o oposto? (…) Cumpre, portanto, usar meios próprios para transcender esse conflito. (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 19-20)

Não achais importante compreender e, assim, transcender o conflito? Vivemos, em regra, num estado de conflito interior que produz tumulto e confusão exteriores. Muitos se refugiam desse conflito na ilusão, em atividade várias, na aquisição de saber e de idéias; outros se tornam indiferentes e deprimidos. Alguns há que, compreendendo o conflito, ultrapassam as suas limitações. Sem a compreensão da natureza íntima do conflito (…) não é possível a paz, nem a alegria. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 40)

Os mais de nós achamo-nos colhidos numa série infinita de conflitos interiores, sem a solução dos quais é inútil e vazia a nossa existência. Temos percepção de dois pólos opostos do desejo: o desejo positivo e o desejo negativo – o querer e o não querer. O conflito entre a compreensão e a ignorância (…) O conflito não nos leva à compreensão. Leva-nos (…) à apatia, à ilusão. (O Egoísmo e o Problema da Paz, 1ª ed., pág. 40-41)

O conflito, a luta pelo vir-a-ser e pelo não-vir-a-ser, não leva ao egotismo? Pois não gera ele o sentimento da personalidade, do “eu”? E a própria natureza do “eu” não é de conflito e dor? Quando tendes consciência de vosso “eu”? Quando existe antagonismo. No momento da alegria, a consciência do “eu” é inexistente; (…) (Idem, pág. 41)

A escolha entre desejos opostos faz somente prosseguir o conflito; escolha implica dualidade; na escolha não há liberdade, porquanto a vontade continua a produzir conflitos. Como poderá, então, o pensamento transcender o padrão da dualidade? É só compreendendo o mecanismo do ansiar, do desejo de satisfação, do interminável conflito dos opostos. Estamos sempre a produzir o prazer e a evitar o sofrimento; o desejo constante de vir-a-ser endurece a mente-coração, produzindo luta e dor. (…) Aí, renunciar significa adquirir, e a aquisição é a semente do conflito. Esse processo de renunciar e adquirir, de vir-a-ser e não-vir-a-ser, é uma cadeia contínua de sofrimentos. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 42)

(…) Para transcender o conflito, o desejo de vir-a-ser deve ser conhecido intimamente e compreendido. O desejo de vir-a-ser é complexo e sutil (…) Ficai intensamente cônscios do desejo de vir-a-ser. Ficai cônscios do sentimento de vir-a-ser; com o sentimento vem a sensibilidade, a qual começa a revelar tudo quanto se contém no vir-a-ser. O sentimento é endurecido pelo intelecto e pelas suas numerosas e sutis racionalizações (…) Podeis compreender tudo isso, verbalmente exposto, mas de pouca importância será; somente o conhecimento e o sentimento podem produzir a centelha criadora da compreensão. (Idem, pág. 43)

Não condeneis o vir-a-ser, mas observai a sua causa e efeitos em vós. A reprovação, o julgamento e a comparação não trazem a compreensão; ao contrário, suprimem-na. (…) Observai, em silêncio e quietude, o vir-a-ser; experimentai essa percepção tranqüila. “Estar tranqüilo” e “pôr-se tranqüilo” são dois estados diferentes. (…) É só no estado de quietude que se transcende o conflito. (Idem, pág. 43-44)

Parece-me assaz evidente que, para compreender um problema complexo, e principalmente um problema psicológico, é necessária uma mente muito quieta, (…) tranqüila, mas não (…) forçada; uma mente serena, silenciosa, capaz de compreender diretamente o problema complexo e sua solução. (Nós Somos o Problema, pág. 44)

O que impede essa tranqüilidade da mente é, sem dúvida, o conflito. Quase todos vivemos cheios de agitação (…) E é essencial (…) para a perfeita compreensão de um problema, que se tenha uma mente silenciosa, (…) sem preconceito, (…) capaz de libertação tranqüila e que permita ao problema revelar-se, descobrir-se. E uma mente assim quieta é uma coisa impossível, quando há conflito. (Idem, pág. 44)

Pois bem, qual é a causa do conflito? Por que vivemos nesse conflito, cada um de nós, e por isso também a sociedade (…)? Por que? De onde surge o conflito? Cessando o conflito, é possível, evidentemente, haver uma mente serena; (…) E, no desejo de tranqüilidade, de uma certa sensação de paz, procuramos fugir do conflito por todas as maneiras concebíveis (…) Mas é uma coisa evidente que toda fuga conduz à ilusão e a novo conflito.

As fugas só nos levam ao isolamento e, por isso, a maior resistência. Mas, se o indivíduo não procurasse fugir, ou estivesse bem consciente de suas fugas e fosse, portanto, capaz de compreender diretamente o processo do conflito, haveria, então, talvez, tranqüilidade mental. (Nós Somos o Problema, pág. 44-45)

Nessas condições, se pudéssemos compreender o processo do conflito e a maneira como surge, haveria, então, talvez, uma possibilidade de a mente ficar livre, tranqüila. Mas a dificuldade da compreensão do conflito consiste em que, em geral, estamos ansiosos por fugir dele, por transcendê-lo, por encontrar uma saída, por descobrir-lhe a causa; e eu não creio que (…) resolve o conflito. Já se o indivíduo é capaz de compreender, na íntegra, o processo do conflito, de observá-lo de todos os pontos de vista, assim os psicológicos como os fisiológicos; se tem paciência para investigar em silêncio, sem condenação nem justificação – então, talvez, lhe seja possível compreender o conflito. (Idem, pág. 45-46)

Afinal, o conflito surge (…) do desejo de sermos alguma coisa, de sermos diferentes do “que é”. Esse desejo constante (…) é um dos fatores de conflito: o que não significa que devamos estar satisfeitos com “o que é” – pois nunca o estamos. Mas, para compreendermos “o que é”, precisamos compreender esse desejo de sermos diferentes do que é. Eu sou uma coisa – feio, ganancioso, invejoso – e desejo ser outra coisa, o oposto daquilo que sou. Tal é, por certo, uma das causas de conflito – esses desejos opostos e contraditórios, de que somos constituídos. (Nós Somos o Problema, pág. 46)

Penso que o simples fato de encarar o conflito, de tomar consciência de seu processo, já é, em si, libertação. Isto é, se estamos conscientes, sem atrito algum, sem escolha, (…) simplesmente conscientes do “que é”; e se estamos igualmente conscientes do desejo de fugir do “que é” (…); se estamos simplesmente conscientes de tudo isso, então essa própria consciência produzirá a tranqüilidade da mente. Podeis, aí, dar atenção ao que é; tendes a possibilidade de compreender “o que é” (Idem, pág. 46)

Por certo, o conflito é muito mais significativo do que o mero atrito dos opostos. Surge o conflito (…) quando queremos aproximar a ação de uma idéia. Estamos sempre procurando ligar nossos atos a uma crença, um ideal, uma idéia. Tenho uma idéia sobre como eu deveria ser, ou como o Estado deveria ser (…) É a idéia mais verdadeira que a ação? E, contudo, (…) as nossas ações estão baseadas em idéias. Temos primeiro a idéia, depois vem a ação. Só raramente surge uma ação espontânea, livre, não circunscrita por uma idéia. (Idem, pág. 46-47)

É, possível agir sem idéia? Deveria haver só ação, e não idéia; assim, o indivíduo estaria vivendo ativamente no presente. Isso exige vigilância, ação não fragmentária e, por conseguinte, ausência de contradição. Onde há contradição tem de haver esforço; (…) Assim, toda a nossa vida gravita em torno dessas três coisas: idéia, ação e contradição. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 28)

“Que entendeis por conflito?”

O conflito em todas as suas formas; entre marido e mulher, grupos de indivíduos com idéias opostas, entre o que é e a tradição, entre o que é e o ideal, o que deveria ser, o futuro. O conflito é luta interior e luta exterior. (…) A compreensão exige certo estado de paz. A criação só pode ocorrer quando há paz e felicidade, e não por meio de conflito, de luta. Nossa luta constante é travada entre o que é e o que devia ser, entre a tese e a antítese. (Reflexões sobre a Vida, pág. 59)

Aceitamos esse conflito como inevitável, embora possa ser falso. Pode o que é, ser transformado pelo conflito com seu oposto? Eu sou isto e luto para ser aquilo – o oposto; (…) O oposto, a antítese, não é uma “projeção modificada” de o que é? O oposto não contém sempre os elementos do respectivo oposto? Pela comparação, pode haver compreensão de o que é? (…) Se desejais compreender uma coisa, não deveis observá-la, estudá-la? Podeis estudá-la, se tendes algum preconceito contra ela ou a favor dela? (…) Por certo, se estais em conflito com vosso filho, não há compreensão dele. (Idem, pág. 59-60)

O conflito, em qualquer esfera que seja, produz a compreensão? Não há uma cadeia contínua de conflito, no esforço, na vontade de ser, de vir-a-ser, positiva ou negativamente? A causa do conflito não se torna efeito, e este por sua vez não se torna causa? Não há libertação do conflito, sem compreensão de o que é. O que é não pode ser compreendido através da cortina da idéia; tem de ser apreciado de maneira nova. (…) Pela sua própria natureza, conflito é fator de separação, como o é toda oposição; e a exclusão, a separação, não é fator de desintegração? (Reflexões sobre a Vida, pág. 60)

Ora, por certo, quando o falso é percebido como falso, o verdadeiro existe. Quando se está cônscio dos fatores de degeneração, (…) não há integração? (…) A integração não é alvo, um fim, mas “estado de ser”; é uma coisa viva (…) A integração é um estado de completa atenção. Não pode haver atenção completa quando há esforço, conflito, resistência, concentração. A concentração é uma fixação; (…) (Idem, pág. 61)

Para discernir a realidade, a mente deve ser infinitamente plástica. (…) Para compreender a realidade, a mente deve compreender suas próprias criações, (…) limitações. Para discernir o processo da consciência (…) tem de haver pensamento integral. O pensamento integral não é resultado de treinamento, de controle ou de imitação. A mente que não é dividida em opostos, que é capaz de perceber diretamente, não pode ser resultante de treinamento. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 67)

Não é resultado de uma vontade dominando outra vontade, de uma carência vencendo outra carência. (…) Treinamento e controle indicam um processo de dualidade na carência, que produz conflito na consciência. Onde há conflito, subjugação, vencimento, combate de antíteses, não pode haver plasticidade, a mente não pode ser sutil, penetrante, discernente. Pelo conflito dos opostos, a mente torna-se condicionada; e o pensamento condicionado cria outras limitações e, assim, o processo do condicionamento é continuado. (…) (Idem, pág. 68-69)

Nessas condições, para se compreender o conflito, muito importa (…) que se conheça, na íntegra, o nosso processo de pensar, e que estejamos cônscios de que, na vida diária, estamos sempre querendo ligar a ação à idéia. Ora, pode-se viver sem idéia? Pode-se viver sem o “eu”? (…) Creio que a isso podemos responder praticamente, não teoricamente, quando compreendemos o processo do “eu”, aquilo que forma o “eu”. (…) Desse modo, quando nos conhecemos totalmente (…) quando estamos conscientes disso, dá-se a libertação do “eu”; e só então é possível à mente ficar silenciosa. (Nós Somos o Problema, pág. 49-50)

Devemo-nos tornar apercebidos do conflito dos opostos que ocorre em cada um de nós, sem nos identificarmos com um dos opostos e sem intervirmos no conflito. O conflito revolve a mente e, como a mente não gosta de ser agitada, busca um caminho artificial (…) Semelhante caminho só pode ser uma fuga ou um oposto, e apenas cria para a mente outra limitação. (…) Estar em estado de conflito e, ao mesmo tempo, não buscar remédio ou fuga, produz pensamento integral. Isso é esforço correto. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936 pág. 68)

Pode-se compreender, pode-se realmente criar alguma coisa em estado de conflito? Podeis escrever um livro, pintar um quadro, apreciar outro ser humano, sentir com ele, amá-lo, se existe conflito? Sem dúvida, o conflito é a antítese da compreensão (…) Já admitimos (…) que o conflito é inevitável, e talvez estejamos completamente enganados ao aceitar tal tese (…) Pode o conflito produzir uma síntese? (…) (Nosso Único Problema, pág. 64)

Por conseguinte, a primeira necessidade é de descobrirmos se é possível a cada um de nós, nas suas relações – no lar, no trabalho, em todos os setores da vida – acabar com o conflito. Isso não significa isolar-se, tornar-se monge, refugiar-se num certo recesso da imaginação, da fantasia; significa, sim, viver neste mundo com compreensão do conflito. (…) E só há clareza quando a mente, que é o todo – o organismo físico, as células cerebrais – quando essa totalidade que se chama “mente” se encontra num estado de “não conflito”, funcionando sem atrito algum; só então pode haver paz. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 24)

(…) O conflito dissolve-se pela percepção de cada movimento do pensamento e do sentimento, e pela percepção da verdade relativa a tais movimentos. A verdade só é perceptível, ou só pode vir à existência, quando já não existe condenação, justificação e comparação; só então está a mente tranqüila, só então se acaba a memória. (O que te fará Feliz?, pág. 96-97)

O fim do conflito e do sofrimento é alcançado quando compreendemos e transcendemos as tendências do “ego”, e quando descobrimos aquela Realidade imorredoura, que não é criação da mente. É difícil o autoconhecimento, mas sem ele continua a existir ignorância e dor; (…) não pode findar a luta. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 165

Pergunta: Se não devemos ter ideais, se devemos nos libertar do desejo de nos melhorarmos, qual é então o propósito de viver? (…)

Krishnamurti: Os ideais, porém, atuam como simples padrões de medida; e como a vida desafia a mensurabilidade, deve a mente libertar-se dos ideais, a fim de estar apta a compreender o movimento da vida. Os ideais são empecilhos, são embaraços. (…) Quando a mente se liberta de preconceitos, explicações e definições, é que se torna capaz de fazer frente à causa do seu próprio sofrimento, de sua ignorância e de sua existência limitada. (…) A mera persecução de ideais, a ânsia da felicidade, a busca da Verdade ou de Deus, é uma indicação de fuga ao movimento da vida. (Palestras em Ojai, Califórnia, 1936, pág. 100-101)

Senhores (…) Se minha mente está atada à estaca da crença, da experiência ou do conhecimento, ela não pode ir muito longe; e a investigação implica que se esteja livre da estaca (…) Se realmente estou a buscar, (…) amarrado a uma estaca, (…) preciso romper as amarras, cortar a corda. (…) (Da solidão à Plenitude Humana, pág. 28)

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