Krishnamurti nos diz por que fala e para quem fala.

Por que K fala?

É o deleite e glória do ser que atingiu e realizou esta vida, tornar esta vida incondicionada compreensível para aqueles que ainda não a atingiram. Destruir todas as velhas tradições.

Minha função, se é que tenho alguma, é fazê-los compreender que estão criando ilusões e, portanto, estimulá-los a quebrá-las. No momento em que tomarem consciência de suas ilusões, vocês deixarão de criá-las. É este tipo de ajuda que estou tentando dar—lhes e é, afinal de contas, o que todos deveriam fazer. Mas é difícil e são vocês que criam dificuldades. Vocês ainda não sofreram o suficiente para sentir insatisfação. Vocês estão satisfeitos com seus pequenos deuses, com suas vidinhas, com os seus cerimoniais e autoridades. Vocês temem deixar a trilha batida e buscar. Seria melhor que se recolhessem e se certificassem se o que sustentam representa conhecimento. Porque não conhecem o Real, essas ilusões se tornam realidade para vocês.

Tudo que posso fazer é apontar-lhes as ilusões. Vocês devem destrui-las por vocês mesmos. Seria fácil demais se, pela realização de um só, todos pudessem se realizar. Mas, então, a vida com toda a sua beleza estaria perdida. A compreensão e a felicidade de terceiros não nos podem ser transmitidas.

Para quem fala?

Todos nós procuramos viver sem confusão e tristeza e livrar-nos da luta, não apenas com os vizinhos, com a família e com os amigos, mas especialmente com nós próprios, com as concepções de certo/errado, falso/ verdadeiro, bom/mau. Não há conflito apenas em nossas relações com o ambiente, mas também conflito dentro de nós, o qual se reflete inevitavelmente na moralidade social.

É claro que existem aquelas exceções brutais e estúpidas de quem “não está nem aí”; ou dos que, temerosos da própria segurança pessoal, vivem sem pensamento e consideração. Suas mentes encontram-se tão entulhadas e invulneráveis, que se recusam a ser sacudidos pela dúvida e pela investigação. Não se permitem pensar; ou, se o fazem, seus pensamentos seguem as linhas tradicionais. Eles terão sua própria recompensa.

Interessa-nos, entretanto, aqueles que buscam compreender seriamente a vida, com suas infelicidades e conflitos aparentemente infindáveis. Interessa-nos aqueles que, compreendendo profundamente seu meio, buscam o verdadeiro significado e a causa de seu sofrimento e de suas alegrias passageiras. Em sua busca, encontram-se enredados tanto com a explicação mecanicista da vida quanto com as explicações da fé, da crenca.

K não fala nada de novo.

Nada há de novo sob o sol. Tudo já foi pensado, todo o pensamento foi expresso, cada ponto de vista foi exposto. O que foi dito sempre será dito e, portanto, nunca poderá haver nada de novo de um ponto de vista comum – podem-se apenas variar as expressões, usar diferentes palavras, diferentes conotações; e assim por diante.

Mas para um homem que deseja pôr tudo a prova, qualquer ideia, qualquer coisa, torna-se nova para ele. Se há um desejo de ir além das meras ilusões das palavras, das expressões do pensamento, de todas as filosofias e livros sagrados, então, neste experimento tudo se torna novo, claro e vital.

K é difícil de entender.

A questão não é me entender. Por que vocês deveriam me entender? A verdade não é minha para que vocês tenham de me entender. Vocês acham minhas palavras difíceis porque têm a mente atulhada de idéias. O que digo é muito simples. Não é para uns poucos eleitos é para todos que queiram tentar. Eu digo que se vocês se libertarem de idéias, de crenças, de todas as seguranças que as pessoas construíram durante séculos, então entenderão a vida.

Vocês só podem se libertar questionando e só podem questionar se se rebelarem – não enquanto estiverem estagnados com idéias que os satisfaçam. Enquanto suas mentes estiverem entulhadas de crenças, enquanto estiverem pesadas com conhecimentos adquiridos de livros, será impossível entender a vida.

Mas a maioria de nós não quer ser livre, queremos reter o que obtivemos, seja virtude, conhecimento ou posses, queremos reter tudo isto. Assim carregados, tentamos encontrar-nos com a vida e daí a total impossibilidade de entendê-la completamente.

Portanto, a dificuldade está, não em entender-me, mas em entender a própria vida.

Não há de ser o erudito que irá entender… O que digo não se aplica apenas à classe mais abastada, às pessoas que se supõem mais inteligentes, educadas… Mas também às assim chamadas, massas. Quem mantém as massas em sua labuta diária? Os inteligentes, aqueles que se supõem eruditos. Não é assim? Mas se fossem realmente inteligentes, encontrariam um jeito de livrar as massas da luta diária. O que eu digo se aplica, não só ao erudito, mas a todo ser humano. O homem da rua é você…

O que é que estou dizendo de tão difícil ou perigoso para o cidadão comum? Estou dizendo que, para se conhecer o amor, a bondade e a consideração, não pode haver egoísmo; que não deve haver fugas sutis da realidade através do idealismo; que a autoridade é perniciosa, não apenas a autoridade imposta pelos outros, mas também a que é desenvolvida inconscientemente através do acumulo de lembranças autoprotetoras, a autoridade do ego; que não se pode seguir os outros para se compreender a realidade. É claro, tudo isto não representa perigo para o indivíduo, mas sim para o homem comprometido com uma organização e desejoso de conservá-la, para o homem que deseja bajulação, popularidade e poder. O que eu digo é perigoso para quem se beneficia de suas crueldades e degradações.

Compreensão e iluminação são perigosos para quem, de modo sutil ou grosseiro, usufrui dos benefícios da exploração, da autoridade e do medo.

K não é prático na vida real.

O que é que nós chamamos de vida real? Ganhar dinheiro, explorar e ser explorado, casar, ter filhos, procurar amigos, experimentar ciúmes, disputas e o medo da morte, questionar o além, juntar dinheiro para a velhice… Tudo isto chamamos de vida real.

Ora, para mim a verdade ou a eterna beleza da vida não pode ser encontrada separada de tudo isto. No transitório jaz o eterno… Não à parte do transitório.

Quando olhamos para a vida como um meio de adquirir coisas ou idéias, quando olhamos para a vida como uma escola em que se aprende e cresce, então ficamos na dependência desta autoconsciência, desta limitação… Mas, se nos tornamos indivíduos totais, completamente autosuficientes, sós em nossa compreensão, então não fazemos distinção entre a vida real, a verdade ou Deus.

Vocês sabem, é porque achamos a vida difícil, é porque não entendemos toda a complexidade da ação diária e desejamos fugir a esta confusão, que nós nos voltamos para a idéia de um princípio objetivo; a verdade; por isso diferenciamos, distinguimos a verdade como impraticável, como nada tendo a ver com a vida diária. Assim, a verdade ou Deus tornam-se uma fuga para a qual nos voltamos nos dias de conflito e dificuldade. Mas, se, em nossa vida diária, descobrirmos porque agimos, se reconhecermos nos incidentes, nas experiências e nos sofrimentos a totalidade da vida, então não faremos distinção entre vida prática e verdade impraticável.

K não dá instrução positiva.

Agora vocês dirão que eu não lhes dei nenhuma instrução construtiva ou positiva. Cuidado com quem lhes oferece metodos positivos, porque esta lhes dando apenas um padrão, um molde. Se vocês realmente vivem e tentam libertar a mente e o coração de toda a limitação – não pela auto-análise e introspecção, mas pela consciência na ação – então os obstáculos que os mantém afastados da plenitude da vida cairão. Esta consciência é a alegria da meditação – meditação que não é esforço de uma hora, mas ação que é a própria vida.

Comprometam-se com o que digo e não com o porta-voz.

Por favor, tenham em mente, mesmo enquanto lhes falo, que vocês não devem aceitar coisa alguma de que lhes falo como provindo de uma autoridade, mas antes examinem e analisem-na com inteligência e equilíbrio.

Estou lhes falando do todo, do incondicionado e, ao abordar esta totalidade da vida, esta realização da vida, vocês não deveriam se comprometer com o portâ-voz, com o instrumento, mas com o que lhes é dito.

Vocês estão sujeitos à velha tradição do mestre e do discípulo, à idéia segundo a qual o mestre dá e o discípulo deve aceitar. Um mestre de verdade nunca dá; ele explica, aponta o caminho. Se uma pessoa de pouco entendimento pára e adora junto a um santuário ou totem, ela ficará lá por muitas vidas até que o sofrimento a empurre para a frente.

Seguir a outrem é, em última análise, a negação daquilo que vocês tentam realizar.

Venho insistindo repetidamente que não podem aceitar o que lhes digo. Não podem seguir Krishnamurti porque não há Krishnamurti. Vocês têm condição de entender o significado do que lhes digo e  poderão fazê-lo traduzindo-o em sua própria vida prática. Mas não digam “Krishnamurti diz isto” ou “Krishnamurti diz aquilo”. Não vêem     que estão estabelecendo um outro padrão? Vocês se desfizeram de outros padrões, abandonaram outros professores e estão erigindo Krishnamurti como um outro guia e salvador. Gostaria que enxergassem a vital importância disto que seguir a outrem, é em última análise, negar o que vocês estão tentando realizar.

Vocês foram apanhados na rede de suas próprias criações, em suas meias-verdades e deuses. E quem lhes mostra como se libertar, como se apaixonar pelo eterno, é rejeitado porque dizem vocês “Isto é muito difícil…” Eu sustento que, quando se tem devoção por mediadores e intérpretes, fica mais difícil compreender a vida em sua simplicidade.

Não se prendam a estes abrigos, cuja decoracão convida à estagnação e ao conforto fácil. Antes, permaneçam fora, ao ar livre, e apaixonem-se pela Vida.

Se minha personalidade puder influenciar suas emoções…

Se vocês buscam a compreensão baseando-se, não no charme, em frases grandiosas ou no brilho de terceiros, mas em seu próprio anseio, então, a busca durará; caso contrário, murchará… Se vocês estão seguindo realmente sua compreensão da verdade, estarão me seguindo, compreendendo-me.

Se minha autoridade ou personalidade puder influenciar suas emoções e pensamentos, também a autoridade ou o charme de outros poderá perturbar toda a sua compreensão…

Não se deixem levar por minhas palavras, mas pensem profundamente sobre a verdade que coloquei à sua frente… Se vocês compreenderem e realmente vivenciarem essa compreensão na vida diária, então, não haverá corrupção nem limitação da verdade.

Vocês porão tudo a perder se basearem sua compreensão em indivíduos, mesmo em Krishnamurti. Há algo muito maior do que esta forma chamada Krishnamurti, que é a vida e é desta vida que eu lhes falo e é desta vida que eu os concito a se tornarem discípulos, que os concito a se tornarem enamorados.

Não me adorem, mas à verdade. Aqueles que adoram a verdade adorarão todo mundo, respeitarão todo mundo, inclusive a mim. A verdade não pode ser condicionada por um ser, ainda que este ser possa ter realizado completamente a verdade, como eu.

Se vocês adoram apenas a forma que contém a verdade, a verdade, em sua inteireza, magnitude e grandeza, irá se desvanecer e só lhes restará a casca vazia. É porque imaginam a verdade longe, condicionada em um ser, que vocês pisam nos que cruzam o seu caminho, enquanto olham para cima em direção ao que supõem estar longe.

No coração de cada um reside o desejo de felicidade e libertação. Se seguirem este desejo, vocês fortalecerão o coração contra todas as coisas mesquinhas e desnecessárias, alcançarão sua meta…

Se vocês me seguirem, tempo virá em que se verão limitados por mim e terão de se libertar de mim. Portanto,            será muito mais fácil se, desde o princípio, seguirem a si mesmos, porque vocês e eu somos um .

Certifiquem-se.

Vocês não querem ser livres e felizes? Não é minha a missão. É de vocês. Trata-se daquilo que vocês estão buscando… É porque estão querendo fazê-la minha que vocês não compreendem. É porque não estão conscientes do próprio sofrimento, da estreiteza, limitação e corrupcão da sua vida, que vocês dão a outrem autoridade para dirigi-los. E como não aceito tal autoridade, é inútil dizer que se trata de meu ensinamento ou de minha mensagem.

Trata-se da mensagem e do ensinamento da vida, que se encontra em tudo e em todos; e, no momento em que os compreenderem, eles se tornarão seus e não meus. Como são seus, meu propósito é tão somente despertar-lhes este conhecimento, este desejo de descobrir por si mesmos. E como são seus, vocês devem se empenhar em compreender…

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