Os ensinamentos da Teosofia e de Krishnamurti completam-se.

Os primeiros, repetimos, apresentam os aspectos da cosmogênese, antropogênese, estudos comparados de religiões, filosofias e ciências, mostrando o relacionamento, a unidade. Além disso, a genealogia do homem, seus princípios (que integram a alma e o espírito); os mundos invisíveis, seus habitantes; a vida após a morte; as leis da evolução; os temperamentos verificados no homem e também na natureza; o Governo interno do mundo; etc. etc. e muitos dos ensinamentos de Krishnamurti sob outras formas de apresentação, clássicas e não clássicas (novas). Universaliza a consciência, dá uma visão mais ampla, profunda, do mundo, da cultura, da vida. O condicionar-se ou não com esses conhecimentos depende da atitude meramente intelectual ou atemporal, criadora; a intuição favorece o entendimento.

É a mensagem de Krishnamurti muito objetiva, simples e universal, destinando-se a todos, sem distinção de classe social, grau de instrução formal, religião, etc. (nisso também a Teosofia). Exclui os dados culturais da Manifestação, da Verdade, quer dizer, os apresentados por revelação, limitando-se aos observáveis ou percebidos. Trata principalmente da psicologia da evolução (elevação) espiritual, voltada para a educação, a mudança, a transformação do homem, agora, no sentido do atingimento de uma nova espiritualidade, do presente-futuro, sob forma de apresentação que supera as anteriores. Krishnamurti não é contra a cultura, dando a entender que se deve dela tomar conhecimento, mas sob a forma de um aprender que não acumula, não condiciona, não faz da mente computador, banco de dados. O simples conhecimento intelectual dos ensinamentos de Krishnamurti, sem a prática constante do autoconhecimento, se por um lado, ilumina, por outro também condiciona.

Sobre o relacionamento dos Ensinamentos de Krishnamurti com a Teosofia, cabe expor a seguinte ocorrência. Em 1979, havia muitos anos que a Sra. Radha Burnier (atual Presidente da Theosophical Society, mundial, no segundo mandato) era Presidente da Krishnamurti Foundation India, com sede em Madrasta. No livro “Krishnamurti – Biografia”, relata a autora, Pupul Jayakar:

“Em 28 de novembro de 1979, estávamos no Valle de Rishi. Radha Burnier tinha vindo de Madrasta (…). Uma manhã, antes do desjejum, Krishnamurti perguntou a Radha Burnier se postularia à presidência da Sociedade Teosófica. Ela respondeu que não sabia. Ele disse: Que quer dizer com que não sabe? (pág. 425)

Subitamente a atmosfera se encheu de uma energia nova (…). Quando disse que esta era uma nova mística, ele não o negou. Depois falou novamente da Sociedade Teosófica e de Radha Burnier convertida em Presidente.

Perguntei-lhe: Em um ponto você disse que Radha se encontra profundamente comprometida com a Krishnamurti Foundation, e em outro ponto disse que ela deve postular a presidência da Sociedade Teosófica. Como concilia você ambas as declarações? (pág. 425-426)

Ele respondeu: Eu posso dizê-lo, outros não.” E repetiu “Eu posso dizer qualquer coisa”. (…)” (pág. 246)

A verdade abrange um aspecto exterior, mais ligado à consciência, às expressões objetivas, à cultura, e outra interior, mais relacionada com a vida, a religiosidade, tendente à unidade subjetiva. Ambos se completam. Krishnamurti, como se verá, diz que a extroversão (movimento exterior da vida) e a introversão (movimento interior da vida) coexistem nos indivíduos, não cabendo separação. Inobstante, a sua Mensagem focaliza mais o aspecto interior, do qual pouco cuida a grande maioria da humanidade.

Como intelectualidade não representa espiritualidade, pode uma pessoa ter alcançado, na instrução vulgar, o nível de terceiro grau, e, não obstante, na área religiosa, espiritual, encontrar-se no primeiro ou no segundo grau. O contrário é também válido; tem-se conhecimento de que numerosos seres, no cristianismo e noutras religiões, que, na instrução formal, não passaram do primeiro grau, e atingiram santidade-sabedoria. Por isso, esta Seleta não se destina às pessoas “cultas”, mas a todos, revelando-se o amadurecimento na capacidade de assimilação dos ensinamentos adiante apresentados. Sem uma base teológica mínima, eclética, incluindo a distinção entre alma e espírito, surgem as interpretações pessoais, errôneas, que desvirtuam a compreensão dos textos.

No final do livro “Krishnamurti: Os Anos do Despertar”, diz Mary Lutyens: “É claro que os ensinamentos de Krishnamurti mudaram de maneira considerável em todos esses anos e continuam a mudar, à medida que ele procura novas palavras para exprimir uma verdade tão evidente para ele quanto a própria mão, mas tão difícil de explicar aos outros. (…)” (pág. 287)

Torna-se oportuno esclarecer que, como se verá, a mudança não ocorreu nas idéias, mas apenas na forma de apresentá-las. A psicologia, a psicanálise, as ciências sociais e outros ramos da cultura evoluíram geometricamente depois que ele começou a falar em 1920. No sentido de transcender, renovar, teve ele, deduz-se, de continuamente adequar seu vocabulário, visando também a superar o tradicional, a terminologia cristalizada.

Rio de Janeiro, 20 de dezembro de 1991.

Carlos de Souza Neves

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