Todos vós, provavelmente, sabeis algo a respeito da ioga. Sobre ela se tem escrito livros e mais livros, e qualquer um que passe alguns meses na Índia toma lições de ioga e se torna iogue. A palavra “ioga” tem vários significados: ela designa uma maneira de vida e não apenas a prática de certo exercícios para manter jovem o corpo. Implica uma maneira de vida em que não há divisão e, por conseguinte, não há conflito – e essa é a maneira de ver deste orador acerca da ioga. (Fora da Violência, pág. 47)

Naturalmente, exercícios adequados, praticados com regularidade, são benéficos e conservam o corpo flexível. Eu próprio os pratiquei durante anos, não com o fim de atingir certo estado maravilhoso por meio do ritmo da respiração, etc., porém a fim de manter flexível o corpo. É necessário o exercício adequado, a adequada alimentação, que não consiste em nos fartarmos de carne – e, em conseqüência, nos tornarmos brutais e insensíveis. Cada um deve descobrir o regime que lhe convém, e experimentá-lo, pô-lo à prova. (Idem, pág. 47)

Outro artifício que vos foi inculcado é isso que se chama “mantra ioga”. Por quinze ou trinta dólares ensina-se alguma coisa de mantra – uma repetição de palavras, principalmente em sânscrito. Os católicos têm o rosário e repetem ave-marias e outras coisas mais. Sabeis o que sucede quando se repete constantemente uma série de palavras? A pessoa hipnotiza a si própria para se pôr num estado de tranqüilidade. (Fora da Violência, pág. 47-48)

Ou é “levada” pelo som da palavra. Quando se fica repetindo certa palavra, ela produz um som interiormente. Esse som interior – se lhe prestais atenção – continua a vibrar, torna-se sobremodo vivo, e pensais ser isso uma coisa maravilhosa. Mas não é tal, pois se trata apenas de uma forma de auto-sugestão. Isso, também, deve ser rejeitado completamente. (Idem, pág. 48)

A repetição de uma palavra, por melhor que ela soe, é evidentemente um processo mecânico. (…) Quando tomais a palavra “Aum” e ficais a repeti-la, que acontece à vossa mente? Se ficais repetindo essa palavra todos os dias, vem-vos um certo estímulo, (…) sensação, (…) É um processo mecânico; e pensais que uma mente que fica a repetir uma palavra é capaz de penetração ou de pensar com presteza? Costumais repetir mantras, e é vossa mente penetrante, flexível, ágil? (A Arte da Libertação, pág. 48-49)

Vós o fazeis porque alguém vos disse que a repetição dessas palavras, desses mantras, vos será útil. Para se achar a verdade, não se necessita de guru (…); para termos a mente lúcida, devemos examinar a fundo cada questão, (…) pensamento, sentimento. Visto que não desejais achar a verdade, tendes esse providencial entorpecente, que é o mantra, a palavra. (…) (Idem, pág. 49)

Você tem sido hipnotizado por muitas gerações, e agora também está sendo hipnotizado por esta palavra “mantra ioga”, a repetição de uma palavra. Senhor, por que se pratica tanto isso? Repetir a palavra “pepsi cola” ou “coca cola” satisfaz igualmente, e você não tem de pagar trinta ou cem dólares. Pegue qualquer palavra, “ave maria” ou outra e a repita, e o senhor verá o que acontece à sua mente. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 81)

Mas, a coisa que buscamos – por mais interessada que seja a nossa busca, traz-nos a tranqüilidade? (…) O eremita, o monge, o homem que busca o prazer de diferentes maneiras, cada um deles está muito interessado. Mas esse interesse é realmente sério?

Existe sério interesse quando empreendemos uma busca com o fim de adquirir alguma coisa? (…) Ou só pode haver um interesse sério quando não se está visando a um fim? (Realização sem Esforço, pág. 34-35)

Se pudermos compreender o processo da busca, (…) por que buscamos e o que buscamos – e essa compreensão só é possível pelo autoconhecimento, (…) percepção do movimento do nosso próprio pensar, (…) reações, (…) diferentes impulsos – talvez possamos, então, descobrir o que é “ser virtuoso” sem nos disciplinarmos para sermos virtuosos. (…) (Realização sem Esforço, pág. 35)

Leva algum tempo obter tal realização; e, para compreenderdes a Verdade, cumpre-vos exercitar a vontade, empregar a vossa inteligência, porque a inteligência é que guia. (…) Se tiverdes discernimento, se vossas experiências e vossos sacrifícios vos houverem ensinado a distinguir o real e o irreal, o permanente e o transitório, então podeis ser guiados por essa única Lei, (…) marchar por essa única senda solitária. Então cessais de fazer experimentos inúteis, porque tereis aprendido a sacrificar tudo pela única Felicidade. Aprendei a sacrificar-vos a vós mesmos, a vossas predileções, (…) preconceitos, (…) afeições egoísticas e estreitas (…) vínculos mundanos, para marchardes por esse caminho que conduz à Felicidade. (O Reino da Felicidade, pág. 66)

Não trilhareis esta senda em virtude do que eu vos asseguro, (…) das descrições que eu vos possa oferecer, nem por vos abrigardes à autoridade de outrem. Vós a trilhais por ser isso o vosso próprio desejo (…) anseio (…) vontade de investigar a Verdade. Vós cresceis como cresce a flor, com naturalidade e beleza, porque é de sua própria natureza desdobrar-se e ser bela e feliz (…) (Idem, pág. 66-67)

Que se entende por “misticismo”? Algo oculto, misterioso? Algo que provém da Índia? Algo que sentis quando não está funcionando a vossa mente racional? Algo vago, impreciso, de que têm falado os profetas e os instrutores? Ou é a experiência de algo real, algo que é a soma da razão e ao mesmo tempo transcende a razão, algo que não é verbal, uma experiência que não é simples projeção da mente? (…) (Claridade na Ação, pág. 77)

Para acharmos a realidade, Deus, não devemos transcender os símbolos do cristianismo, do hinduísmo, do budismo? Não devemos libertar a mente de todos os hábitos, tradições, todas as ambições pessoais e coletivas? Podeis, se quiserdes, chamar isso “misticismo” e dizer que parece irracional; mas só quando a mente está reduzida a nada é capaz de receber o que é novo. (…) Ao reconhecer tudo isso, não é possível a mente passar além e descobrir o que é novo, atemporal? (Idem, pág. 78)

Pergunta: Não concordais que o homem alcançará o reino do céu por meio de uma vida igual à de Jesus, inteiramente dedicada ao serviço?

Krishnamurti: Espero que não fiqueis escandalizados quando eu vos disser que o homem não alcançará o reino do céu desse modo. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 145)

Ora, vejamos o que dizeis: “Por meio do serviço obterei algo que quero”. A vossa declaração significa que não servis completamente; esperais uma recompensa pelo serviço. Dizeis: “Por meio de uma conduta justa, podereis conhecer a Deus”. Isto é, estais realmente interessado, não na conduta justa, mas em conhecer a Deus (Idem, pág. 145-146)

(…) Mas nem por meio do serviço, nem do amor, nem da adoração, nem da prece, mas unicamente na própria ação destes, há a verdade, Deus, compreendeis? Quando perguntais (…) o vosso serviço não tem significado, porque estais interessado principalmente no reino do céu, (…) em obter algo em troca; (…) (Idem, pág. 146)

(…) E, quando oferecerdes um sacrifício – se puder ser chamado sacrifício, pois estais seguindo vossa própria delícia, (…) felicidade, e nisso não há sacrifício – quando vierdes com essas flores para o templo, então o Sumo Sacerdote desse templo, que é a vossa própria Voz interior, o vosso próprio Governador, as receberá, em regará, nutrirá e tornará mais belas, e respirará sobre elas e lhes dará divindade. (O Reino da Felicidade, pág. 77)

Embora não possais ter grandes aptidões, nem grande inteligência, nem estar cheios de devoção, nem ter imensa energia, podeis pelo menos oferecer um caráter formado, um fato definido, uma flor que tenhais cultivado em vosso próprio jardim, conservada viva em horas tormentosas. (…) (Idem, pág. 76)

Pergunta: Dizem que as iniciações ocultas, tais como as descritas pela Teosofia e outros antigos ritos e mistérios, formam os vários estágios da jornada da vida espiritual. Isso é verdade? Tendes lembrança de qualquer súbita mutação da consciência ocorrida em vós próprio?

Krishnamurti: A consciência sofre constante mutação dentro de suas restrições e limitações. Dentro do seu próprio círculo, ela vai flutuando, expandindo-se, contraindo-se, e essa expansão é chamada, por algumas pessoas, de avanço espiritual. Mas ela está ainda dentro dos confins da sua própria limitação, e essa expansão não é uma mutação da consciência, mas apenas uma mutação na consciência.

Essa mutação da consciência não é resultado de ritos misteriosos ou de iniciações. Somente aquele que discerne a futilidade da mutação na consciência, pode produzir a mutação da consciência. Para discernir e mudar fundamentalmente, é preciso constante apercebimento. (…) Portanto, não nos preocupemos com a mutação imediata, mas somente com a mutação fundamental da consciência, e para isso é preciso que o processo do “eu”, com sua ignorância, tendências, carências e temores, se finde a si próprio. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 37)

(…) Aqueles que são pessoas importantes no mundo, que têm posição, prestígio, não desejarão, naturalmente, fazer nenhuma experiência nesse sentido, porque é muito perigoso. Só as pessoas comuns, aquelas que não têm nem poderio nem posição, e que lutam e se esforçam por compreender, são essas, talvez, as que começarão a experimentar e a descobrir por si mesmas. (Viver sem Temor, pág. 23)

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