Para compreender (…) ou experimentar a realidade, tem de haver discernimento. Discernimento é esse estado de pensamento-sentimento integrado, no qual cessam toda ansiedade e escolha. (…) O desejo condiciona o pensamento-sentimento que, assim, torna-se incapaz de discernimento direto. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 53)

Portanto, o indivíduo tem de considerar, em primeiro lugar, quais as tendências e ansiedades que continuam e perpetuam o processo do “eu”. (…) Porque todo desejo age como empecilho ao discernimento; toda ansiedade deturpa a percepção. (Idem, pág. 53)

Toda ansiedade e qualquer experiência que dela nasça, constituem o processo automantenedor do “eu”. Esse processo do “eu”, com seus desejos e tendências, cria o medo e daí surge a aceitação do conforto e da segurança que a autoridade oferece. (…) Existe a autoridade do exterior, a autoridade de um ideal e a autoridade da experiência ou da memória. (Idem, pág. 53-54)

Expondo isto por palavras diferentes, direi que existe a vontade de desejo, que é esforço, e a vontade de compreensão, que é discernimento. (…) A vontade de desejo está sempre em busca de recompensa, de lucros, e assim cria os seus próprios temores. A moral social baseia-se nisso (…) (Palavras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 55-56)

O indivíduo é a expressão da vontade de desejo, e, no processo de sua atividade, o desejo cria o seu próprio conflito e sua tristeza. Daí o indivíduo tenta escapar indo para o idealismo, para as ilusões, para as explicações e, desse modo, mantém ainda o processo do “eu”. Começa a existir a vontade de compreensão quando o desejo e suas experiências, sempre recorrentes, deixam de existir. (Idem, pág. 56)

Se houver correta compreensão do fato de que não pode existir verdadeiro discernimento enquanto persistir a vontade de desejo, essa mesma compreensão faz com que o processo do “eu” seja destruído. (…) Porém, a própria percepção do processo do “eu”, o discernimento de sua insensatez, de sua natureza transitória é que o destrói. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 56)

Vejamos, pois, o que se entende por “vontade”. A vontade (…) é o prolongamento do desejo. (…) Desejo uma coisa e trato de obtê-la. Se é coisa agradável, trato de consegui-la muito mais vigorosamente. (…) Ou, se é dolorosa, opondo-lhe resistência. Tanto-a resistência como o esforço de obtenção, tanto a busca do prazer como a fuga à dor, tanto o desejo de alcançar uma coisa como o de repeli-la, implicam ação da vontade. (A Suprema Realização, pág. 109)

(…) A vontade é inteligência a serviço da expansão do “ego”, e a atividade da vontade para ser ou não ser, para adquirir ou renunciar, é sempre atividade do “ego”. Estar cônscio do processo do ansiar, com a sua memória acumulativa, é estar em contacto com a Verdade, a única que liberta. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 271)

A vontade se manifesta também como arrogância, prepotência, ambição, desejo de poder, posição, prestígio. (…) Vede bem isto (…) que, enquanto a mente estiver agindo dentro de uma área limitada, fechada, haverá necessariamente conflito. (O Novo Ente Humano, pág. 35)

Que significa esforço? Para a maioria de nós, esforço implica ação da vontade. (…) A revolução total tem de ser completamente inconsciente, não voluntária, não produzida por nenhuma ação da vontade. A vontade de ação é ainda o desejo e, por conseguinte, ainda é o “eu”; e quando me reprimo com o fim de ser bom, com o fim de alcançar uma coisa, (…) de ser mais nobre, isso ainda é desejo, ação da vontade, que procura modificar-se, vestir uma roupagem diferente. (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 83-84)

Por exemplo, sou invejoso e atuo sobre a inveja com o fim de modificá-la, de modificar “o que é”. Mas, se houver compreensão da inveja, cessa a “vontade de ação” e então há só o fato: sou invejoso. Se não há mais obstrução, resistência, julgamento, condenação – sendo tudo isso processo da vontade – então aquele fato já não tem significação, já não influi no “processo” do vosso pensar. Corta-se assim, pela raiz, o problema da “aquisitividade”. (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 88)

Assim, como poderá um ente humano operar tal transformação? Em geral, pensamos que o meio de operá-la é a vontade; isto é, o exercício da vontade, como meio de alcançar um resultado. E a vontade se expressa de diferentes maneiras: pela resistência, pelo controle, o ajustamento, a repressão, a sublimação, a negação. (…) (A Suprema Realização, pág. l08)

Com a cessação do processo do “eu”, dá-se uma mudança de vontade, a única que pode acabar com o sofrimento. Nenhum sistema, nem disciplina pode produzir mudança de vontade. Tornai-vos apercebidos do processo do “eu”. No apercebimento sem escolha, cessa a dualidade, que só existe na ação da carência, do temor e da ignorância. (…) (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 80)

O mero controle ou a compulsão, uma carência vencendo outra carência, a simples substituição, é apenas uma mutação na vontade, que jamais poderá pôr termo ao sofrimento. A mudança na carência é uma mudança em limitação, condicionamento ulterior do pensamento, que resulta numa reforma superficial. (…) (Idem, pág. 80)

(…) Se houver mudança de vontade pela compreensão do processo do “eu”, então haverá inteligência, intuição criadora, da qual unicamente pode provir relação harmoniosa com os indivíduos, com o ambiente. (…) Quando há plena compreensão e, portanto, a cessação do processo do “eu”, advém uma vida isenta de escolha, uma vida de plenitude, (…) de felicidade. (Idem, pág. 80)

Nenhuma busca dirigida pela “vontade de ação” pode tornar a mente tranqüila; só está tranqüila a mente quando compreendeu o processo integral da vontade, a ação da “vontade de ser”. (…) Compreendida ela, sobrevém uma extraordinária transformação, uma revolução verdadeiramente transcendental, não produzida pela mente. Só essa revolução pode construir um novo edifício. (…) Por conseguinte, muito importa compreendermos integralmente, vós e eu, esse problema do esforço. (Idem, pág. 88-89)

Assim, não havendo compreensão da vontade, do intelecto e das criações da mente – que não constituem processos separados, porém um processo total – há inevitavelmente conflito, e a compreensão da mente é autoconhecimento. (…) (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 210)

Se, quando escutais tudo isso, fazeis algum esforço, isso é ainda resultado do conhecido. (…) A vontade de vir-a-ser, de ser, é ação do conhecido. (…) Por conseguinte, a ação da vontade não pode encontrar nunca o que é real. Notai que todo conhecimento, toda experiência fortalece a vontade, o conhecido, o “eu”, o “ego”, e que essa vontade, esse “eu” nunca pode perceber claramente o que é verdadeiro, jamais achará Deus. (…) (Viver sem Temor, pág. 17)

(…) A vontade nada tem que ver com o real, com “o que é”, senão que ela constitui a expressão do desejo do “eu”. Pensamos que, de algum modo, por meio da vontade, chegaremos ao outro. Assim é que dizemos: “devo controlar o pensamento, devo discipliná-lo”. Quando o “eu” diz “devo controlar e disciplinar o pensamento”, é o pensamento que se há separado a si mesmo como “eu” e assim controla o pensamento como algo separado dele. (El Despertar de la Inteligencia, pág. 171)

“Que entendeis por conflito?” O conflito em todas as suas formas; entre marido e mulher, entre (…) indivíduos com idéias opostas, entre o que é e a tradição, entre o que é e o ideal, o que deveria ser, o futuro. O conflito é luta interior e luta exterior. Presentemente, há conflito em todos os níveis da nossa existência, tanto conscientes como inconscientes. (…) A compreensão exige certo estado de paz. A criação só pode ocorrer quando há paz e felicidade, e não por meio de conflito, de luta. (Reflexões sobre a Vida, pág. 59)

O conflito, em qualquer esfera que seja, produz compreensão? Não há uma cadeia contínua de conflito no esforço, na vontade de ser, de vir-a-ser, positiva ou negativamente? A causa do conflito não se torna efeito, e este, por sua vez, não se torna causa? Não há libertação do conflito, sem compreensão de o que é. O que é não pode ser compreendido por meio da cortina da idéia; tem de ser apreciado de maneira nova. (…) Pela própria natureza, conflito é fator de separação, como o é toda oposição. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 60)

Temos, pois, conflito exterior e conflito interior; e o exterior não difere essencialmente do interior. São ambos parte do mesmo movimento, semelhante ao vaivém da maré. (…) Deveis atender ao problema como um todo, e não dividi-lo em “interior” e “exterior”; do contrário, nunca sereis capaz de compreendê-lo. (…) (Experimente um Novo Caminho, pág. 27)

(…) Tentai ficar cônscio de vosso condicionamento. Não podeis conhecê-lo senão indiretamente, em relação com alguma coisa. (…) Nós só conhecemos o conflito. O conflito existe quando não há integração entre o desafio e a reação. Esse conflito é resultado de nosso condicionamento. Condicionamento é apego: ao emprego, à tradição, à propriedade, a pessoas, idéias, etc. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 11)

O conflito da aquisição manifesta-se nas atividades culturais, na vida de relação, na acumulação de bens materiais. A tendência aquisitiva, sob qualquer forma que seja, gera desigualdade e brutalidade. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 167)

Mas, já estamos tão acostumados com o conflito! Conflito com o mundo, com o nosso semelhante, com os filhos, a mulher; conflito no emprego; entre grupos, famílias, sociedades, comunidades, nações; e o conflito entre desejos divergentes, contraditórios, entre compulsões, impulsos. (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 100)

Apresenta-se o conflito quando há contradição, quando há dois desejos a “puxar” em diferentes direções. (…) E, assim, tendes conflito, não só o conflito consciente, mas também o conflito inconsciente (…), inerente à sociedade, às ocupações que exerceis. (Idem, pág. 100)

(…) O conflito surge porque nós nos servimos do presente como de uma passagem para o futuro ou para o passado. (…) Sem o acervo do passado, sem o condicionamento, não existe pensamento. Mas o pensamento, que é resultado do passado, não pode compreender o presente, uma vez que se serve apenas do presente como passagem para o futuro. (…) (O que te fará Feliz?, pág. 103)

Enquanto há vir-a-ser” há conflito. E o vir-a-ser é sempre o passado a servir-se do presente, para ser, para alcançar seus fins. No processo desse “vir-a-ser” fica o pensamento aprisionado na rede do tempo. E o tempo não é solução para os nossos problemas. (…) (Idem, pág. 103)

Que acontece quando vos achais em conflito? Pelo conflito, fatiga-se, embota-se, insensibiliza-se a mente-coração. O conflito fortalece os recursos da autoproteção; o conflito é a substância em que se nutre e prospera o “ego”. Pela sua natureza intrínseca, o “ego” é a causa de todo conflito, e, onde existe “ego”, não existe criação. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 63)

Não achais importante compreender e, assim, transcender o conflito? Vivemos, em regra, num estado de conflito interior que produz tumulto e confusão exteriores. Muitos se refugiam desse conflito na ilusão, em atividades várias, na aquisição de saber e de idéias; outros se tornam indiferentes e deprimidos. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 40)

Afirmo existir um modo de vida em que cessa de todo o conflito, uma maneira de viver espontaneamente, naturalmente, estaticamente. Isso para mim é um fato, não é teoria. E eu desejo ajudar os que estão em aflição, (…) os que procuram descobrir a causa desse conflito, os que estão à procura de solução (…) – desejo ajudá-los a despertar em si próprios aquela inteligência que dissipa, pela compreensão, a causa do conflito. (…) (A Luta do Homem, pág. 112)

Mas, que é esse conflito? Conflito (…) só pode existir entre duas coisas falsas; não pode existir conflito entre o entendimento e a ignorância, entre o verdadeiro e o falso. Nessas condições, o conflito do homem, suas dores e sofrimentos, jaz entre duas coisas falsas, entre o que ele considera essencial e não essencial. (Idem, pág. 112)

Enquanto não compreendermos o exato valor do ambiente, criador do indivíduo, que contra ele se bate, haverá luta, conflito, (…) restrição e limitação crescentes. (…) E a mente e o coração, que são para mim a mesma coisa, (…) se debilitam e obscurecem pela memória, é o resultado da busca de segurança, do ajustamento ao ambiente. (…) (A Luta do Homem, pág. 113)

(…) Mas, se fordes ao encontro do ambiente sempre renovados, sem a carga dessa memória do passado, (…) se sois essa inteligência, essa mente que de contínuo se recria, sem se ajustar (…), então, nessa novidade, nessa vivacidade, vereis surgir a compreensão de todas as coisas. Cessa aí todo conflito, porque inteligência e conflito não podem coexistir. Cessa de todo a desarmonia, porque a inteligência funciona, então, em toda a sua plenitude. (Idem, pág. 113-114)

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