Acho necessário compreender todo o mecanismo do pensamento porque, se não o compreendermos, haverá inevitavelmente irracionalidade, pensar desequilibrado, e isso, naturalmente, não é uma maneira saudável de pensar. Precisamos de uma razão clara, de pensamento lógico, preciso. (…) (A Mutação Interior, pág. 72)

Porque a mente, o cérebro é incapaz de – verdadeira, desapaixonada e objetivamente – olhar, observar, sentir, perceber, com perfeito equilíbrio, de maneira sã, não pode evidentemente ir muito longe. Assim, cumpre-nos descobrir o que é pensar e, ao mesmo tempo, descobrir a contradição existente entre o pensador e o pensamento. Enquanto existir essa contradição, é inevitável o esforço e, por conseguinte, o conflito. (Idem, pág. 72-73)

O pensamento é sempre particular, limitado, dividido; em si mesmo, ele é incompleto e não pode jamais tornar-se completo. (…) O que (…) o pensamento crie, filosófica ou religiosamente, é ainda parcial, limitado, fragmentário, e é parte da ignorância. (…) (Perguntas e Respostas, pág. 66)

A experiência que se acumula no cérebro como memória é o conhecimento, e a reação a essa memória é o pensar. O pensamento é um processo material – nada há de sagrado nele. A imagem que adoramos como algo sagrado continua sendo parte do pensamento. O pensamento é sempre dividido, separativo, fragmentário, (…) jamais é completo acerca de nada. (…) (La Llama de la Atención, pág. 85)

Todas as nossas ações se baseiam no pensamento; portanto, toda essa ação é limitada, fragmentária, dividida, incompleta – jamais pode ser holística. O pensamento, quer seja do maior dos gênios – pintores, músicos, cientistas – ou o insignificante pensamento de nossa atividade cotidiana, é sempre limitado, fragmentário, dividido. Qualquer ação que nasça desse pensamento tem de originar conflito. (…) (Idem, pág. 85)

O intelecto tem o poder de raciocinar, de reunir dados, qual um computador, para funcionar de forma objetiva e sã. (…) Ele examina, explora. Mas, se o intelecto está condicionado por exigências e preconceitos pessoais, (…) por seu meio cultural, ele é incapaz de explorar, (…) de compreender. O intelecto jamais descobrirá a solução desses problemas. (O Novo Ente Humano, pág. 94)

O intelecto, a mente, como tal, só é capaz de repetir, de recordar-se, e está sempre fabricando palavras novas e reajustando palavras velhas; (…) vivemos apenas de palavras e repetições mecânicas. Isso, evidentemente, não é criação (…). (A Educação e o Significado da Vida, pág. 146)

(…) Porque a intelectualidade, sem aquela força criadora da realidade, não tem significação alguma; só leva à guerra, a mais misérias e sofrimentos. É possível, pois, a existência daquele estado criador, ao mesmo tempo em que está funcionando a mente mecânica, a mente técnica? Uma coisa exclui a outra? (Poder e Realização, pág. 86)

Só há exclusão do Real, sem dúvida, quando o intelecto, que é a parte mecânica, assume a máxima importância; quando as idéias, as crenças, os dogmas, as teorias, as invenções do intelecto se tornam sumamente importantes. Mas, quando a mente se acha em silêncio e a realidade criadora se manifesta, então a mente ordinária tem significação de todo diferente. (…) (Idem, pág. 86)

(…) A mente ordinária, então, estará também numa revolta contínua contra a técnica, o “como”. Conseqüentemente, ela não mais pedirá o “como” e não mais se preocupará com a virtude. A mente silenciosa, (…) que se acha num estado de completa tranqüilidade, (…) que é o desconhecido, a força criadora do real, essa mente não necessita de virtude. Porque, nesse estado, nunca há luta. Só a mente que luta para “vir a ser” necessita de virtude. (Idem, pág. 86)

Assim, pois, enquanto atribuirmos exagerada importância ao intelecto, à mente que adquire saber, ilustração, experiência e lembranças, não existirá a “outra coisa”. Pode-se, em certas ocasiões, ter rápidas visões da “outra coisa”; mas essas visões são reduzidas imediatamente às medidas do tempo, resultando daí o desejo da repetição das experiências e o fortalecimento da memória. (…) (Idem, pág. 86-87)

(…) Ser apenas prendado ou talentoso em alguma área, isso, evidentemente, não indica capacidade de criar. Acho que a ação criadora nasce da capacidade de ver a vida como uma totalidade e não fragmentariamente, de pensar e sentir como um ente humano completamente integrado. (…) (Visão da Realidade, pág. 74)

A paz não é uma idéia oposta à guerra. A paz é um modo de vida; (…) porque só haverá paz quando compreendermos o viver de cada dia. (…) O culto do intelecto, em oposição à vida, conduziu-nos à atual frustração, com suas inumeráveis vias de fuga. Essas vias de fuga se tornaram muito mais importantes do que a compreensão do próprio problema. (A Arte da Libertação, pág. 248)

A presente crise nasceu do culto do intelecto, e foi o intelecto que dividiu a vida numa série de ações opostas e contraditórias; foi o intelecto que negou o fator de unificação que é o amor. (Idem, pág. 248)

O intelecto encheu o nosso coração, que estava vazio, com as coisas da mente; e só quando a mente está cônscia do seu próprio raciocinar, é capaz de se transcender a si mesma; só então haverá o enriquecimento do coração. Só o incorruptível enriquecimento do coração pode trazer paz a este mundo louco e cheio de lutas. (Idem, pág. 248)

Pergunta: É verdade que não podemos servir-nos da razão para descobrir o que é verdadeiro?

Krishnamurti: Senhor, que se entende por razão? A razão é pensamento organizado, como a lógica são idéias organizadas (…). E o pensamento, por mais inteligente, (…) vasto, (…) erudito que seja, é limitado. (…) O pensamento nunca pode ser livre. O pensamento é reação, reação da memória; é “processo” mecânico. Ele poderá ser razoável, (…) ser são, (…) ser lógico, mas é limitado. (O Passo Decisivo, pág. 197)

É como os computadores. E o planejamento nunca pode descobrir o que é novo. O intelecto adquiriu, acumulou (…) experiências, reações, lembranças; e quando essa coisa pensa, está condicionada e, portanto, não pode descobrir o novo. Quando, porém, esse intelecto compreendeu todo o processo da razão, da lógica, do investigar, do pensar – não rejeitou, mas compreendeu – então ele se torna quieto. (…) E então esse estado de quietude pode descobrir o que é verdadeiro. (Idem, pág. 197)

A compreensão provém do saber? Ou o saber impede a compreensão criadora? Parecemos pensar que, se acumulamos fatos e conhecimentos, se possuímos um saber enciclopédico, ficaremos livres dos grilhões que nos prendem. Isso simplesmente não é verdadeiro. O antagonismo, o ódio e a guerra não deixaram de existir (…). O saber não é necessariamente um preventivo contra essas coisas; pelo contrário, pode estimulá-las e favorecê-las. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 226-227)

Embora haja atualmente tanto saber, em tão variados campos, isso não fez cessar a brutalidade do homem para com o homem, mesmo entre membros do mesmo grupo, nação ou religião. É possível que o saber nos esteja tornando cegos para um outro fator, que bem pode representar a solução real de toda esta confusão e miséria. (Idem, pág. 227)

A paixão pelo saber é como outra paixão qualquer; oferece uma fuga aos terrores do vazio, da solidão, da frustração, do ser nada. A luz do saber é um manto suntuoso, debaixo do qual está a escuridão (…). A mente tem pavor a esse desconhecido e, por essa razão, foge para o saber, (…) as teorias, as esperanças, a imaginação; e justamente esse saber constitui obstáculo à compreensão do desconhecido. (…) A compreensão do “eu” é a libertação das prisões do saber. (Comentários sobre o Viver, pág. 24)

Sempre nos aplicamos a uma coisa armados de saber, (…) de conclusões já formadas, e com esses padrões de pensamento atravessamos a existência; o saber, por conseguinte, se torna um obstáculo ao descobrimento da Verdade. Se desejo conhecer a verdade a respeito de mim mesmo, tenho de descobrir a mim mesmo, a cada minuto, exatamente como sou, e não como fui ou como desejo ser. (Viver sem Temor, pág. 15)

Assim, pois, a mente que quer descobrir o que é verdadeiro, tem de estar livre do saber. Se observardes, porém, vereis que vossa mente está sempre a acumular conhecimentos, a armazenar conhecimentos (…) Nossas mentes nunca estão livres para serem tranqüilas, porque estão repletas de conhecimentos, de saber. Sabemos demais, mas na verdade nada sabemos sobre coisa alguma, e com essa imensa carga às costas queremos ser livres. (Idem, pág. 15-16)

Mas o fato é que não estamos cônscios disso; e (…) resistimos, por acharmos que o saber é essencial à libertação. Ora, por certo, o saber é um empecilho, um obstáculo ao descobrimento do que é verdadeiro. A Verdade tem de ser uma coisa viva, totalmente nova a cada segundo; e como pode a mente que acumula saber, conhecimento, compreender o que é desconhecido? Chamai-o Deus, (…) Verdade (…). (Idem, pág. 16)

(…) Também, para fugir de nós mesmos, a instrução se torna extraordinariamente importante; mas o saber, evidentemente, não é o caminho da realidade. A mente precisa estar de todo vazia e tranqüila, para que a realidade possa despontar. Mas uma mente que vive alardeando o seu saber, uma mente afeiçoada a idéias e crenças, e sempre a tagarelar, essa mente é incapaz de receber “o que é”. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 66-67)

É bem claro que a erudição e o saber representam um empecilho à compreensão do que é novo, do infinito, do eterno. Positivamente, a aquisição de uma técnica perfeita não nos faz criadores. Podeis saber pintar maravilhosamente, dominar a técnica, mas talvez não sejais um pintor criador. Podeis saber escrever poemas, com a máxima perfeição técnica, mas é possível que não sejais poeta. (Solução para os nossos Conflitos, pág. 25)

Ser poeta implica a capacidade de receber coisas novas, ter sensibilidade para o que é novo, original. Mas, para a maioria de nós, o saber, a erudição, se tornou devoção, e julgamos que com o saber seremos criadores. Uma mente abarrotada de fatos e saber é capaz de receber o que é novo, súbito, espontâneo? Se vossa mente está repleta do conhecido, haverá nela espaço para receber o que vem do desconhecido? Certo, o saber vem-nos sempre do conhecido; e com o conhecido queremos compreender o desconhecido, o imensurável. (Idem, pág. 25)

Positivamente (…) é preciso que haja a eliminação, pelo entendimento, do processo do conhecido. (…) A sua natureza mesma está fixada no conhecido, no tempo; e como pode uma mente em tais condições, cujos alicerces se assentam no passado, no tempo, ter a experiência do atemporal? (…) Só pode vir à existência o desconhecido quando o conhecido é compreendido, dissolvido, posto de parte. (…) (Idem, pág. 26)

Quando dizemos que a erudição ou o saber é um empecilho, não nos referimos ao conhecimento técnico – saber dirigir um automóvel, manejar uma máquina – ou à eficiência proporcionada por tal conhecimento. Temos em mente coisa muito diversa: aquele sentimento de felicidade criadora que nenhuma soma de saber ou erudição nos pode dar. (…) (Idem, pág. 27)

Era um homem instruído, versado em literatura clássica, e que costumava fazer citações dos antigos em abono dos seus próprios pensamentos. Seria mesmo de admirar que ele tivesse pensamentos independentes dos livros. Naturalmente, não há pensamento independente; todo pensamento é dependente, condicionado. (…) Pensar é ser dependente; o pensamento não pode, nunca, ser livre. (…) (Comentários sobre o Viver, pág. 166)

(…) Mas aquele homem dava muita importância à erudição; estava carregado de saber, e o erguia bem alto. Começou logo falando em sânscrito e ficou muito surpreso e até um pouco chocado, ao ver que o sânscrito não era entendido. (…) (Idem, pág. 166)

É singular a importância que damos à palavra impressa, aos chamados livros sagrados. Os letrados, assim como os leigos, são gramofones; repetem sempre as mesmas coisas, embora se mudem os discos; importa-lhes o saber, e não o viver, o experimentar. O saber é um empecilho ao experimentar. (…) O saber é um apego, como a bebida; o saber não traz compreensão. O saber pode ser ensinado, a sabedoria não; precisa-se estar livre do saber, para que venha a sabedoria. (…) (Idem, pág. 167)

Aquele homem se considerava vastamente erudito e, para ele, o saber era a própria essência da vida. A vida sem o saber era pior do que a morte. Seu saber não se cingia a uma ou duas matérias, mas abarcava muitos aspectos da vida; (…). Tinha um orgulho extraordinário de seu saber e, como bom exibicionista, usava-o para impressionar; diante dele, os outros se calavam, respeitosos. Como nos espanta o saber, e que reverente respeito tributamos ao homem que sabe! (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 203-204).

O saber condiciona. O saber não dá liberdade. (…) O saber não é fator criador, pois o saber é contínuo, e o que tem continuidade nunca pode levar ao implícito, ao imponderável, ao desconhecido. O saber é um empecilho ao manifesto, ao desconhecido. O desconhecido não pode ser vestido com o conhecido. (…) (Idem, pág. 204)

Há descobrimento, não quando a mente está repleta de saber, mas quando o saber está ausente; só então há quietude e espaço, e nesse estado é que se realiza a compreensão, o descobrimento. Não há dúvida de que o saber é útil, no seu nível próprio; noutro nível, porém, ele é positivamente nocivo. Quando o saber é utilizado como meio de autoglorificação, para nos encher de vento, ele é então danoso, gerando divisão e inimizade. A expansão do “eu” (…) é desintegração. (…) (Idem, pág. 204)

Pergunta: Por que será que quase todos os seres humanos, salvo seus talentos e capacidades, são medíocres? Eu sei que sou medíocre (…)

Krishnamurti: Você está cônscio de que é medíocre? (…) Os grandes pintores, (…) músicos, (…) arquitetos, têm capacidade e talentos extraordinários, mas em sua vida quotidiana são como você e eu, como qualquer outra pessoa. (…) (Perguntas e Respostas, pág. 118)

(…) Se você está cônscio de que é medíocre, o que isso significa? Você pode ter grande talento como escritor, escultor, músico, professor, mas isso tudo é um adorno exterior, uma aparência exterior, que esconde uma pobreza interior. Sendo pobres interiormente, estamos sempre nos esforçando por ser algo mais nobre. (Idem, pág. 118)

(…) As tentativas de preencher essa insuficiência (…), tudo isso é um ato de mediocridade. A sensação de mediocridade aparece como respeitabilidade exterior. E existe outro tipo de revolta contra a mediocridade: os hippies, os cabeludos, os barbudos, os últimos marginais. O mecanismo é o mesmo. (…) (Perguntas e Respostas, pág. 118)

(…) Ou você se integra numa comunidade, pois interiormente não há nada em você; integrando-se, você se torna importante, e há ação. Quando você está cônscio dessa mediocridade, dessa total sensação de insuficiência, dessa sensação de frustrante solidão profunda, você percebe que ela está oculta em todo tipo de atividades. (…) (Idem, pág. 118-119)

Essa mediocridade, que todos nós parecemos ter, pode ser rompida quando não há sensação de comparação, de mensuração. Isso lhe dá uma liberdade imensa. Quando há liberdade psicológica completa, não há sensação de mediocridade. Você está inteiramente fora dessa classe – existe então um estado mental totalmente diferente. (Perguntas e respostas, pág. 119)

Em geral, vivemos num ambiente de agressão, violência, brutalidade e, como os que nos rodeiam, somos impelidos pela ambição, pelo impulso de preencher-nos. Qualquer talento que tenhamos – qualquer insignificante capacidade para pintar quadros, escrever poemas, etc. – exige “expressão”, e disso fazemos uma coisa de enorme importância, por meio da qual esperamos conquistar glória ou renome. Em graus diferentes, tal é a vida de todos nós, com todas as suas satisfações, frustrações e desesperos. (Experimente um Novo Caminho, pág. 51)

O talento pode tornar-se uma maldição. O “eu” pode servir-se de nossas capacidades para sua proteção própria, e o talento se torna então o meio de glorificação do “eu”. O homem bem dotado poderá oferecer os seus dotes a Deus, conhecendo o perigo que eles representam; mas esse homem está cônscio dos seus dotes, pois do contrário não iria oferecê-los, e é essa consciência de ser ou de ter alguma coisa que precisa ser compreendida. A oferenda do que uma pessoa é ou tem, com o propósito de ser humilde, é vaidade. (Reflexões sobre a Vida, pág. 224)

Pergunta: Sou inventor, e acontece que inventei várias coisas que foram utilizadas nesta guerra. Considero-me infenso ao assassínio, mas que fazer de minha capacidade? (…) O espírito inventivo me impulsiona.

Krishnamurti: Qual dos dois problemas – segundo o vosso pensar-sentir – é mais importante (…): o poder de matar ou a capacidade inventiva? (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 88-89)

(…) Se só vos interessa o inventar, a mera expressão do vosso talento, deveis então descobrir por que lhe atribuís tanta importância. A vossa capacidade não vos proporciona uma via de fuga da vida, da realidade? Não é então o vosso talento uma barreira às relações com os semelhantes? (Idem, pág. 89)

Ser é estar em relação, e nada pode existir no isolamento. Assim, pois, sem autoconhecimento, a vossa capacidade inventiva torna-se perigosa para o próximo e para vós mesmo. (Idem, pág. 89)

Vossa profissão contribui para o extermínio de vosso semelhante? (…) Se o resultado final da presente civilização é o assassínio em massa, que significação tem o vosso talento? (…) (Idem, pág. 89)

Precatai-vos do mero talento. Com autoconhecimento, o anseio de preenchimento pessoal se transforma. O anseio de preenchimento traz a sua própria frustração e desilusão, porquanto o desejo de preenchimento pessoal resulta da ignorância. (Idem, pág. 89-90)

O fato é que existe essa complexidade, e pretendemos alterar o fato em termos de tempo, e não em termos de existência. Isto é o que se chama mediocridade. Não estou empregando essa palavra comparativamente, isto é, entendendo que um homem deve ser inteligente, mais brilhante, mais genial, mais apto para criar. (…) Entretanto, se a traduzis em termos de mais e de menos (…) ficareis extraviados (…). (O Problema da Revolução Total, pág. 39)

(…) A mente medíocre é incompleta. Não falo agora da mente que quer ser mais; mais inteligente(…); da mente que não é criadora e por isso luta para ser criadora: escrever poemas (…). Estou falando da mente que é medíocre. Agora, vereis (…) que a mente pede logo uma definição: “que é medíocre”? De posse da definição, refletireis de acordo com ela e a aceitais ou rejeitais. (…) (Idem, pág. 39-40)

Cumpre-nos, por conseguinte, investigar o que é “mediocridade” – não a definição, não “como tornar a mente que é medíocre (…) diferente do que é”. Temos realmente de descobrir por nós mesmos o que é mediocridade, e não como nos tornarmos menos ou mais medíocres; (…). E a mente que não está procurando tornar-se algo seria essa mente medíocre, estacionária? (…) (Idem, pág. 40)

Da investigação sobre o que é mediocridade, resulta a pergunta: “Que é criação?” Se um homem pinta um quadro, escreve poemas, profere uma conferência, ou utiliza seus poderes como meio de compelir outros, a fim de tornar mais importante a sua pessoa – isso é criação? Ou criação é coisa totalmente diversa? (…) (O Problema da Revolução Total, pág. 41)

Quando a mente compara – porque, em razão do seu temor ou seu desejo de certeza, ou de mais segurança econômica, ela deseja “vir a ser” – não está aí a mente medíocre, vale dizer, a mente medrosa? Enquanto houver temor, tem de haver comparação, (…) o processo de “vir a ser”, da imitação, do ajustamento. Não é, pois, a mediocridade o estado próprio da mente que (…) encontra aí um modo fácil de apaziguar o seu descontentamento? (Idem, pág. 42-43)

Não é, pois, medíocre a mente que sempre se está esforçando por “vir a ser”, não só neste mundo aquisitivo, mas também no chamado mundo espiritual, que subentende o princípio hierárquico? – “Vós sabeis e eu não sei; vós sois o guru que me guia (…)”. Todo esse processo mental denota um espírito medíocre. O “vir a ser”, fora do que é – “Sou pequeno; sou ignorante; sou isto e quero tornar-me aquilo, (…) o mais excelente” (…); esse perene vir-a-ser, no desejo de mais, (…) não é a causa de todo descontentamento? (…) (Idem, pág. 43)

(…) Vosso próprio desejo de transformar a vossa mente medíocre numa coisa superior, vos está impedindo de ser criador – não a criação que consiste em escrever poemas, por mais geniais e mais maravilhosos que sejam. Aquela criação que é atemporal, não ligada a nenhum (…) grupo, (…) religião; que é a Verdade, (…) Deus, (…) aquela criação não pode ser alcançada pela mente medíocre. A criação, porém, só vem quando a mente está frente a frente com o fato, e quieta. (Idem, pág. 44)

O fato da mediocridade, e a mente em presença desse fato, sem ter o desejo de alterá-lo, constitui o “estado de ser” em que se dissolve a mediocridade. Mas isso requer grande vigilância por parte da mente, e não se pode estar vigilante quando há medo (…). O medo nos torna embotados, priva-nos da inteligência. (…) (Idem, pág. 44-45)

Pergunta: Como posso deixar de ser medíocre?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, precisais saber o que é mediocridade (…). Os homens medíocres podem possuir carros luxuosos, residências suntuosas, ou podem viver num cortiço. Podem ter certa pujança mental, e em geral a têm. (…) (Visão da Realidade, pág. 223)

(…) Se reconheço que sou medíocre, estúpido, obtuso, e quero tornar-me menos medíocre, mais inteligente, mais instruído, essa própria exigência de mais, esse esforço para tornar-me mais, não denota um estado mental medíocre? (..) (Idem, pág. 223)

A mente que tem um motivo, que persegue o ideal, a coisa que ela acha deveria ser, a mente que se está disciplinando, controlando, moldando, que está lutando para ser diferente do que é – essa mente não é medíocre? (…) Reconhecendo-se medíocre, estúpida, obtusa, ávida, invejosa, ambiciosa, cruel, etc., a mente diz: “Preciso tornar-me não medíocre”; e esse esforço (…) não é a essência mesma da mediocridade? (Idem, p. 223)

(…) No esforço para se tornar alguma coisa, a mente foge do fato real para o ideal (…). Estais a perseguir, a adorar o ideal que “projetastes”. Por essa razão, nunca há (…) riqueza criadora, (…) vossa energia está sendo dissipada constantemente na luta para vos preencherdes, chegardes a ser alguma coisa. (Idem, pág. 223-224)

(…) Mas se, ao contrário, puderdes viver com isso que percebeis que é estúpido, e compreendê-lo, penetrá-lo completamente, sem o julgardes nem condenardes, vereis, então, que há de surgir um estado completamente diferente; isso, porém, exige atenção total, e não a distração que é o esforço de “vir a ser alguma coisa”. (Idem, pág. 225)

Quando a mente está livre do “conhecido”, ela é uma mente nova, uma mente “inocente”. Acha-se num estado de criação, imensurável, inominável, fora do tempo. (…) Ele não pode ser “chamado”, porque uma mente medíocre não pode chamar a si a imensidade. Toda mediocridade deve acabar, e existirá então “outro estado”. A mente não pode imaginar aquele estado de imensidade. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 229-230)

(…) Para mim o gênio é a pessoa que distingue a sua meta, cujo entusiasmo está sempre vivo, que marcha firmemente para o seu alvo, que luta incessantemente para conservar clara a Visão, que nunca se deixa abater pelas coisas insignificantes da vida, por perturbações mundanas ou familiares, mas que durante todo o tempo está empurrando essas coisas para o lado e tentando conservar a Visão sempre diante de si clara e pura. Ao passo que o homem ordinário, burguês, é asfixiado pelo mundo; ele não vê a Visão, mas, ao contrário, sucumbe à influência do meio (…). (O Reino da Felicidade, pág. 15)

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