A menos que ponhamos ordem no mundo da realidade, não podemos ir mais além. Vivemos uma vida desordenada em nossas atividades cotidianas. (…) E é possível produzir ordem no mundo da realidade, (…) do pensamento, socialmente, moralmente, eticamente, etc.? E quem é que vai produzir ordem no mundo da realidade? Se eu vivo uma existência desordenada, posso produzir ordem em todas as atividades da vida cotidiana? Nossa vida diária baseia-se no pensamento, (…) na imagem de você (…), na imagem de mim, e a relação é entre ambas as imagens. (…) (La Verdad y la Realidad, pág. 201)

(…) Na relação que existe entre dois seres humanos casados ou não – alguma vez há um verdadeiro contato psicológico? (…) Eles dizem que estão relacionados, porém isso não é verdadeiro (…) porque cada um tem uma imagem de si mesmo. E, agregada a essa imagem, está a imagem que cada um tem da pessoa com quem vive. Na realidade, tem duas imagens – ou múltiplas imagens. Ele há criado uma imagem dela e ela há criado uma imagem dele. (La Llama de la Atención, pág. 87)

(…) Como operam o pensamento e a memória? Sejamos simples. Você me diz: que maravilhosa pessoa eu sou. Eu gosto. Construí uma imagem e você se torna meu amigo. Você diz algo que eu não gosto, formei outra imagem. Portanto, a imagem padrão é construída através do prazer e da dor. Por gostar, você me transmite uma coisa agradável; e por não gostar você não se torna amável comigo. Observe isso em você mesmo. Construí uma imagem por que você disse algo agradável ou não agradável. Carrego tal imagem. (…) Sou essa imagem. Da próxima vez que eu o encontrar, você é meu amigo e assim por diante. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970 pág. 120)

(…) Essas imagens se produzem por causa das reações que se recordam, as quais se convertem na imagem – a imagem que ele tem a respeito dela e a que ela tem a respeito dele. A relação estabelece-se entre essas duas imagens, que são os símbolos das recordações, dos padecimentos. Portanto, de fato não existe relação alguma. (La Llama de la Atención, pág. 87)

Assim é que o indivíduo se pergunta: é possível não ter nenhuma imagem do outro? Enquanto ele tiver uma imagem dela, e ela tiver uma imagem dele, tem de haver conflito, porque o cultivo das imagens destrói a relação. Por meio da observação, podemos descobrir se é possível não ter imagem alguma de si mesmo ou de outrem – estar por completo livre de imagens? (La Llama de la Atención, pág. 87)

(…) Se você investigar realmente, profundamente, descobrirá que há criado uma imagem de sua esposa, e ela, também, uma de você. Cada um criou uma imagem do outro, um quadro acerca do outro. Esses dois retratos, imagens, palavras, ficam em mútua relação. Onde há imagens, uma estampa do outro, deve haver conflito. Tenho a certeza de que vocês têm uma imagem do orador. (…) Por quê? Não o conhecem. Nunca podem conhecer o orador, mas criaram uma imagem dele; que é religioso, não religioso, estúpido, muito esperto, bonito, é isto e aquilo. (…) (Mind Without Measure, pág. 40)

(…) E com essa imagem você olha para a pessoa. A imagem não é a pessoa. Ela é a reputação, e conceitos são facilmente criados; a reputação pode ser boa ou má. Mas o cérebro humano, o pensamento, cria a imagem. Torna-se esta última a conclusão, e vivemos por meio de imagens e imaginações. (…) (Mind Without Measure, pág. 40)

Quando você observa uma árvore, entre você e a árvore há tempo e espaço, não há? E também há o conhecimento botânico dela, a distância entre você e ela – que é tempo – e a separação que surge – através do conhecimento sobre a árvore. Para olhar a árvore sem conhecimento, sem a qualidade do tempo, não quero dizer identificar-me com a árvore, mas observá-la tão atentamente que os limites do tempo de nenhuma forma venham à tona; o surgimento do tempo ocorre somente quando você tem conhecimento sobre a árvore. (…) (The Awakening of Intelligence, pág. 88)

(…) Você pode olhar para sua esposa ou seu amigo, ou o que queira, sem imagem? A imagem é o passado, que foi reunido pelo pensamento como resmungos, brigas, dominação, prazer, companheirismo e tudo o mais. É a imagem que separa; é a imagem que cria a distância e o tempo. Olhe para aquela árvore ou flor, nuvem, esposa ou esposo, sem imagem! (Idem, pág.88-89)

Bem, como posso olhar sem imagem? Porque, se você olha com uma imagem, isso implica, evidentemente, uma distorção. Você se desentendeu comigo ontem, e então eu criei uma imagem de você, que por isso deixou de ser meu amigo. (…) Se olho você com essa imagem na próxima vez que o encontro, ela deformará minha percepção. Essa imagem é do passado, como o são todas as imagens. (…) Pode, pois, a mente observar sem imagem alguma (…)? (El Despertar de la Inteligencia, pág. 123)

É a imagem que produz conflito na relação. (…) Pode a mente olhar, observar sem nenhuma imagem acumulada pelo tempo? (…) Pode ela observar sem o observador – que é o passado, o “eu”? Posso olhá-lo sem a interferência dessa entidade condicionada, que é o “eu”? (Idem, pág. 123)

Na observação há relacionamento direto, mas, quando você tem uma imagem sobre ela ou ele, você não está se relacionando. Certamente, o amor é aquele relacionamento no qual não há imagem. Portanto, a pergunta é: é possível observar a si mesmo e ao mundo sem distorção, (…) símbolo,(…) fórmula? Se posso observar nesse sentido, então a ação é imediata, porque não há separação entre o observador e o observado – o relacionamento é então direto. (…) E isso, afinal, é amor. (…) (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 11-12)

Pode-se observar sem o observador, que é a essência de todas as recordações, experiências, reações, etc., tudo o que pertence ao passado? Se olhamos algo sem a palavra e as recordações do passado, estamos olhando sem o observador. Quando fazemos isso, só existe o observado e psicologicamente não há divisão nem conflito. Pode-se olhar a esposa ou o mais íntimo amigo sem o nome, a palavra e todas as experiências que se hão acumulado nessa relação? Quando se olha assim, está-se olhando para ela ou para ele pela primeira vez. (La Totalidad de la Vida, pág. 205)

Quando se tem essa imagem própria, cria-se uma divisão entre um indivíduo e outro. É importante compreender muito profundamente o que é a relação. (…) A relação que temos com nossa esposa é meramente sensorial, é uma relação sexual? É uma associação romântica, conveniente? (…). Se nossa relação se baseia na ferida psicológica, então estamos utilizando o outro para escapar desse estigma. A relação que temos baseia-se em imagens mútuas? Cada um criou uma imagem do outro; a relação se estabelece, então, entre duas imagens formadas pelo pensamento. (La Llama de la Atención, pág. 16-17)

Podem vocês olhar (…) sem as palavras “minha esposa”, “meu marido, meu sobrinho” ou “meu filho”, sem a recordação de todas as ofensas acumuladas, sem toda a memória das coisas que pertencem ao passado? Façam isso agora, enquanto estão sentados aí, observem. E quando se é capaz de observar sem o passado, vale dizer, (…) sem todas as imagens formadas de si mesmo e do outro, então há uma verdadeira relação com a esposa ou o marido. (La Llama de la Atención, pág. 58-59)

E agora, podem olhar a esposa, o marido, sem a palavra, (…) sem as recordações da relação que têm com eles, por íntima que haja sido, sem toda memória acumulada do passado, seja de dez dias ou de cinqüenta anos? (…) (La Llama de la Atención, pág. 58)

(…) De modo que (…) vamos aprender juntos como observar uma flor. Se o indivíduo sabe como olhar uma flor, esse olhar contém a eternidade. (…) Se sabem como olhar uma estrela, um espesso bosque, então vêem que nessa observação há espaço, eternidade atemporal. Porém, para observar a esposa ou o marido sem a imagem que deles têm criado, é preciso começar de perto. (…) (Idem, pág. 58)

(…) Que é que realmente ocorre em nossa vida diária? Você está casado ou vive com uma pessoa: há sexo, prazer, dor, insultos, aborrecimentos, fastio, indiferença, zanga , provocações, domínio, obediência, etc. Tudo isso tem fabricado em você uma imagem da outra pessoa, e é através dessas imagens que vocês se olham mutuamente. (…) (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 15)

(…) É tudo parte dessa imagem, senhor, somar e subtrair. (…) Você tem uma imagem dele, e essa imagem está baseada na reputação dele, no (…) que ele disse anteriormente, no que ele condena ou aprova, etc. Você criou uma imagem. E por meio dessa imagem você escuta ou olha. (…) Essa imagem aumenta ou diminui de acordo com seu prazer ou sua dor. E é óbvio que tal imagem está interpretando o que se diz. (Idem, pág. 16)

(…) É o que intentamos descobrir, senhor. Não só desse modo olhamos a gente ou as árvores, senão que também o fazemos de acordo com conceitos, (…) a ideologia comunista, (…) socialista, etc. (…) Conceitos, crenças, idéias, experiência, ou o que seja que nos atraia. (…) Tem alguma significação na vida diária? Vida significa viver, viver significa relação; relação significa contato; contato significa cooperação. Têm os conceitos (…) algum significado, nesse sentido, no da relação? Não obstante, a única relação que temos é conceitual. Correto? (Idem, pág. 16)

(…) Há um viver conceitual e há um viver espontâneo (…); porém, quando estou tão condicionado, quando tenho herdado tantas tradições, permite isso alguma espontaneidade? (…) (Idem, pág. 17)

Do mesmo modo, para vermos as coisas, não deve haver interferência de nenhuma imagem (…) Cada um de nós tem uma imagem de si próprio e imagens do “outro”. Não estais a olhar-me realmente. Estais olhando para a imagem que tendes de mim. (…) Nossas relações – assim chamadas – são entre essas imagens. Quando queremos escutar ou olhar, as imagens interferem. Imagens de ofensas, de coisas ditas, lembranças, experiências acumuladas, tudo isso interfere e, por conseguinte, não se pode olhar, nem pode haver verdadeiras relações entre duas pessoas. Só pode estabelecer-se um estado de relação entre pessoas quando não existe imagem alguma. (Encontro com o Eterno, pág. 15)

Então, em nosso relacionamento, cada um criou, através dos anos, uma imagem do outro. Essas imagens que ela e ele criaram um do outro é a atual relação. Podem estar dormindo juntos, mas o fato é que ele e ela têm uma imagem um do outro, e, nessa relação de imagens, como pode haver uma real, efetiva relação com o outro? Todos nós, desde a infância, criamos imagens de nós mesmos e dos outros. Estamos indagando sobre mui séria questão – podemos viver sem nenhuma imagem em nosso relacionamento? Certamente vocês têm uma imagem a respeito do orador, não têm? Obviamente que sim. Por quê? Vocês não o conhecem. (Mind Without Measure, pág. 80)

Se tenho uma relação com outra pessoa – e a relação, evidentemente, é ação – ao longo de dias, semanas ou anos, dessa relação criei uma imagem dela e atuo de acordo com essa imagem, enquanto a pessoa atua segundo a imagem que tem de mim. Por conseguinte, a relação não é entre nós, porém entre essas duas imagens. (…) (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 133)

Por muitos anos construí imagens acerca de mim próprio e acerca de outrem, isolei-me mediante minhas atividades, (…) crenças, etc. Assim, minha primeira pergunta é: como posso ficar livre dessas imagens? As imagens de meu Deus, de meu condicionamento, (…) de que devo alcançar a fama ou a iluminação (…), de que devo lograr êxito – pelo que temo o fracasso. (…) (Idem, pág. 133)

Como posso evitar a formação de imagens? Evidentemente, não criando uma super-imagem. Tenho muitas imagens, e ao não poder livrar-se delas, por infortúnio a mente inventa uma super-imagem, o “eu” superior, o atman. (…) Vejo que, se tenho uma só imagem, não há possibilidade de relação alguma, porque as imagens separam, e onde existe separação deve haver conflito entre os seres humanos, isso é claro. (…) (Idem, pág. 134)

Assim é que devo averiguar se posso romper com o mecanismo mental que constrói imagens e, ao mesmo tempo, investigar a questão do que é estar alerta; porque isso pode resolver meu problema, que consiste em terminar com todas as imagens. Isso dá liberdade, e, só quando há liberdade, é possível ter uma relação verdadeira, na qual cesse toda forma de conflito. (El Despertar de la Inteligencia, pág. 135)

As imagens, pois, se formam quando a mente não está atenta; e na maioria as mentes estão desatentas. (…) Quando vocês estão perceptivamente atentos a uma imagem, e também ao mecanismo que constrói as imagens e ao modo em que este opera, então nessa atenção todo o mecanismo das imagens chega ao fim. (Idem, pág. 136)

(…) Não ser magoado implica não criar resistência. Não fazer resistência significa não haver imagem. Não ser ferido representa vitalidade, energia, e essa energia é dissipada quando tenho imagens. Essa energia é desperdiçada quando me comparo com você, comparo minha imagem com a sua imagem. Essa energia é dissipada em conflito, na tentativa de me tornar a sua imagem, que eu projetei em mim. Essa energia é perdida quando estou imitando a imagem que projetei de você. Portanto, o desgaste de energia prende-se a esse fator. E quando estou energizado, o que só acontece quando há atenção, não sou atingido. (The Awakening of Intelligence, pág. 439)

Vós me ofendeis, e isso é uma experiência; guardo a ofensa, e isso se torna minha “tradição”. Dessa “tradição” é que olho para vós; (…) é que reajo. Tal é o processo ordinário da minha mente e da vossa mente. Ora, é possível que, embora me ofendais, deixe de verificar-se o processo acumulativo? (…) (Debates sobre Educação, pág. 113)

Se me dirigis palavras insultuosas, isso me ofende; mas se não dou importância à ofensa, ela deixa de tornar-se o “fundo” de onde parte minha ação; dessarte, posso encontrar-me convosco de maneira nova. Isso é educação real. (…) Porque (…) a minha mente não fica condicionada. (Idem, pág. 113)

(…) Pode esse mecanismo parar? Isto é, quando você me insulta, permanecer eu de todo atento nesse momento, no sentido de que o escuto totalmente sem reação nenhuma, nem aceitando nem rejeitando o seu insulto, apenas escutando completamente; significa ficar em completa atenção. E, da mesma forma, quando você me elogia, escutar tão integralmente que nada deixe marca na mente, de maneira que o mecanismo que cria imagem não tenha vitalidade, nenhum julgamento. A mente escutando o insulto e o elogio não deixa registro, imagem, e portanto é uma mente muito sensível, alerta, observadora, na qual “mim” não existe, porque “mim” é a imagem. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 120)

Existe essa consciência. (…) Todo esse fundo vos impede de olhar um fato. Cumpre-nos, portanto, examinar esse fundo e dissolvê-lo. (…) Tive ontem uma experiência, fui insultado ou elogiado, e essa experiência condiciona-me o pensar de agora; e quando amanhã eu me encontrar convosco, ela estará moldando o meu conceito sobre vós. Dessarte, como estamos vendo, o passado se serve do presente para se tornar futuro. (A Mutação Interior, pág. 63)

Quanto mais nos defendemos, tanto mais somos atacados; quanto mais buscamos segurança, tanto menos a temos; quanto mais desejamos paz, tanto maior o nosso conflito; quanto mais pedimos, menos temos. Tendes-vos esforçado para vos fazerdes invulnerável, à prova de choque. Interiormente, vos fizestes inacessível, exceto para uns poucos, e fechastes todas as portas à vida. Isso é lento suicídio. (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 102)

De modo que (…) pode haver relação sem conflito algum, o que significa amor. O amor não é algo que possa ser cultivado, não depende da memória. Pode viver a vida de todos os dias sem nenhum tipo de preocupação egocêntrica, já que essa preocupação em relação a mim mesmo é minha maior imagem? Posso viver sem essa imagem? É então que a ação não gera solidão, isolamento e dor. (El Despertar de la Inteligência, pág. 138)

(…) Essa é a coisa mais prática. (…) A coisa prática é observar claramente o que somos, e atuar a partir daí. Dá-se conta uma pessoa de que tem uma imagem do outro? E se dá conta de que tem uma imagem de si mesmo? (…) Isso é algo simples: eu o ofendo. (…) Eu lhe proporciono prazer. (…) E, conforme essa ofensa ou prazer, você reage: e essa reação, por ser fragmentária, deve ser inexata, não total. (…) (La Verdad y la Realidad, pág. 151-152)

(…) Que faz você, então, com a imagem que construiu do outro? Dou-me conta de que tenho uma imagem de mim mesmo e de que tenho uma imagem de você; tenho, pois, duas imagens. (…) Pois bem, (…) por que se há formado essa imagem? E quem é o que formou essa imagem? (…) (Idem, pág. 152)

(…) O pensamento criou, pois, essa imagem através do tempo. (…) E vejo que, em minha relação com outrem, essa imagem tem um papel extraordinário. (…) É possível estar livre da imagem? Tenho uma imagem de mim como comunista (…) ou como católico (…) Todo esse fundo cultural, social e econômico também construiu essa imagem, e eu reajo conforme ela. (…) (Idem, pág. 154)

(…) É bastante simples. Somos muito sensíveis, por uma dúzia de razões. Tenho uma imagem de mim mesmo, e não quero magoar essa imagem. Penso que sou um grande homem, você vem e me dá uma espetada e isso me fere. Ou me sinto terrivelmente inferior, e o encontro com você, que se sente extraordinariamente superior, me deixa zangado. Você é esperto, eu não. Eu fico magoado. O conhecimento de ser ferido, não apenas fisicamente mas psicologicamente, internamente, deixa uma marca no cérebro como memória. (…) (The Awakening of Intelligence, pág. 434)

Memória é conhecimento. Por que deveria eu livrar-me desse conhecimento? Se eu ficar livre, você vai me magoar de novo. Então esse conhecimento age como resistência, muralha. E o que acontece no relacionamento entre seres humanos quando há essa barreira entre você e eu? (Idem, pág. 434)

(…) Não, senhor. Olhe, eu me aproximo de você inocentemente. O significado-raiz da palavra inocente é de que você não pode ser ferido. Portanto, venho a você aberto, amigavelmente, e você me diz algo que me magoa. Não é isso o que ocorre com cada um de nós? E o que acontece? Isso deixa uma marca, que é conhecimento. O que está errado com esse conhecimento? Esse conhecimento age como uma muralha entre você e mim. É claro! Senão, o que posso dizer? (Idem, pág. 435)

Percebeis a necessidade de ser acessível e vulnerável? Só pela compreensão do falso como falso, podemos libertar-nos dele. Mantende-vos passivamente vigilante de vossas reações habituais; ficai cônscio delas, simplesmente, sem resistência; observai-as passivamente. (…) A própria vigilância passiva é um estado que nos livra de nos defendermos, de fecharmos as portas. Ser vulnerável é viver, retrair-se é morrer. (Reflexões sobre a Vida, pág. 103)

Quando a mente está de fato muito quieta, de modo natural, sem esforço, deixa de existir o observador, o pensador. Tornam-se então completamente diferentes as relações entre um homem e outro. Já não são uma lembrança que se guardou; já não é uma imagem que se encontra com outra, uma lembrança que com outra se encontra: é o verdadeiro estado de relação. (…) (Encontro com o Eterno, pág. 51)

É possível observar sem o pensador? Olho cada coisa com uma imagem, um símbolo, com a memória, o conhecimento. Olho meu amigo, minha esposa, meu vizinho, meu patrão, com as imagens que o pensamento formou. Olho minha mulher com a imagem que dela tenho, e ela, por sua vez, me olha com a imagem que tem de mim. A relação existente é entre as duas imagens. (…) O pensamento formou esses símbolos, imagens, idéias. (…) (Encontro com o Eterno, pág. 87)

Mas, posso olhar sem nenhuma imagem para um ente humano com quem vivo intimamente, a quem chamo minha esposa, meu marido, meu filho? Se não posso, não há então o verdadeiro estado de relação. A única relação existente é entre as imagens que ambos temos um do outro. (…) Ainda que me tenhais insultado, magoado, que me tenhais dito coisas ofensivas ou elogiosas, posso olhar-vos sem a imagem ou a lembrança do que me fizestes e dissestes? (Idem, pág. 87)

Vede a importância que isso tem; porque só a mente que conservou a lembrança de mágoas e insultos, só essa mente está pronta a perdoar, se a tal se sentir inclinada. A mente que não está conservando os insultos ou lisonjas que recebeu, nada tem para perdoar ou não perdoar; por conseguinte, nela não existe conflito. (…) Podem as “imagens” desaparecer e o pensamento “olhar” para todas as coisas da vida de maneira nova? Se fordes capaz disso, vereis que, sem nenhum esforço (…), a mudança se operará, a mudança radical! (…) (Encontro com o Eterno, pág. 87-88)

É necessário examinar e descobrir como a imagem se torna existente e se é possível deter o mecanismo que a cria. Só então se tornará possível a correta relação entre os entes humanos; tal relação não pode existir entre duas imagens, duas entidades mortas. (…) Vós me lisonjeais, me respeitais; e eu tenho de vós uma imagem, criada pela lisonja ou pelo insulto. (…) Mas a imagem e eu não somos diferentes: o eu é a imagem, o “pensador” é a imagem. É o pensador que cria a imagem. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 96)

Começamos, pois, a perceber que, com efeito, as nossas reações se baseiam, pela maior parte, nessa formação de imagens; tendo formado a imagem, a pessoa estabelece ou espera estabelecer relações entre duas imagens. E, naturalmente, entre duas imagens não pode haver relações. Se vós tendes uma opinião de mim, e eu tenho uma opinião de vós, que relação pode haver entre nós? As relações só podem existir quando estamos livres dessa atividade formadora de imagens. (…) Só quando quebrada a imagem e cessada a formação de imagens, teremos o fim do conflito, sua total extinção. (…) (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 97)

(…) Olhar sem conhecimento vossa esposa, vossos filhos, os fatos correntes nas relações, é vê-los sem as mágoas, inimizades, crueldades, insultos, imposições, anteriormente experimentados. Tudo isso, que faz parte do conhecimento, desapareceu e vós olhais diretamente o que “é”. Esse mesmo olhar, em que não há experiência nova, é a mais elevada forma de sensibilidade. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 136)

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