Não só olhamos a natureza com olhos que acumularam conhecimentos a seu respeito (…), com uma imagem, mas também olhamos os outros entes humanos com nossas diferentes conclusões, opiniões, juízos e valores. Assim, quando olhais ou observais a vós mesmos, a vossa vida, estais observando através da imagem e das conclusões que já formastes. Dizeis que isto é bom, aquilo é mau, ou que isto é certo e aquilo, errado. (…) (O Novo Ente Humano, pág. 119)

Assim agindo, não estais em relação direta com o que vedes. Olhais com o conhecimento trazido do passado, (…) vossas imagens, com a tradição, (…) as experiências humanas acumuladas; tudo isso vos impede de ver. Este é um fato que precisa ser compreendido, ou seja, que, para observardes realmente a vida, deveis olhá-la com olhos novos, isto é, (…) sem condenação, (…) ideal, (…) desejo de dominar ou alterar o que vedes, em suma, observar. (…) (Idem, pág. 119)

Todos nos colocamos em níveis diversos e estamos constantemente a cair dessas alturas. Dessas quedas nos envergonhamos. A auto-apreciação é a causa de nossa vergonha, (…) queda. Essa autoapreciação é que precisa ser compreendida, não a queda. Se não existe um pedestal, sobre o qual colocastes a vós mesmos, como pode haver queda? (…) (Comentários sobre o Viver, pág. 143-144)

(…) Sem o dito pedestal, sereis o que sois. Se não mais existe o pedestal, do alto do qual olhais para baixo ou para cima, então sois aquilo de que sempre estivestes fugindo. É essa fuga ao que é, ao que sois, que dá origem à confusão e ao antagonismo, à vergonha e ao ressentimento. (Idem, pág. 144)

Tanto a pobreza como a riqueza são escravidão. O desejo de prestígio, posição e poder – o poder que se conquista por arrogância, a humildade, o ascetismo, o saber, a exploração e abnegação – esse desejo é sutilmente persuasivo e quase instintivo. O sucesso (…) é poder, e o insucesso (…) a negação do sucesso. (Comentários sobre o Viver, pág. 75)

(…) O sucesso neste mundo e o poder que trazem o controle e a negação de si mesmo, são coisas que devem ser evitadas, pois ambos deformam a compreensão. (…) O homem de sucesso é um homem endurecido, egocêntrico; está cheio de sua própria importância, suas responsabilidades, realizações, lembranças. (…) (Idem, pág. 75)

O cérebro está sempre ativo, sonhando acordado, ocupando-se com uma ou outra coisa, ou criando quadros e idéias por meio da imaginação. Desde a infância, nós construímos gradualmente a estrutura de imagem que é “eu”. Cada um de nós está fazendo isso constantemente; é essa imagem, que é o “eu”, que se fere. Quando o “eu” é ferido, existe a resistência, a construção de um muro em volta de nós mesmos (…); e isso cria mais medo e isolamento (…) (A Rede do Pensamento, pág. 65)

(…) Cada um de nós tem uma imagem daquilo que “deveríamos ser”, uma idéia de que somos grandes ou muito insignificantes, estúpidos, medíocres, ou temos o sentimento de sermos extraordinariamente afetuosos, superiores, cheios de sabedoria, de conhecimentos. Essas imagens que temos de nós mesmos negam totalmente o percebimento do imediato, do que é. (Como Viver neste Mundo, pág. 70)

Existe um conflito entre a imagem e o que é, e, a meu ver, a madureza é um estado mental em que nenhuma imagem existe e só há o que é; nela não há conflito de espécie alguma. A mente que se acha em conflito não está amadurecida – conflito com a família, com nós mesmos, com nossos desejos, ambições, preenchimentos. Em qualquer nível que seja, o conflito denuncia sempre uma mente não amadurecida, não esclarecida. (…) (Idem, pág. 70)

A mente está cheia de imagens, palavras, símbolos. Ela pensa,e, através de tudo isso, vê. (Tradición y Revolución, pág. 49)

Não. Eu tenho uma imagem de você, e olho através dessa imagem. Isso é distorção. A imagem é meu condicionamento. (…) (Idem, pág. 49)

Seria produção psicológica de imagens o mecanismo do pensamento? Sabemos que o pensamento não está envolvido, talvez num alto grau, na reação física de autoproteção. Mas a produção psicológica de imagens é resultado da constante desatenção, que é a própria essência do pensamento. (…) A atenção não tem centro, (…) Quando há atenção total, não há movimento do pensamento. Só na mente desatenta é que surge o pensamento. (Perguntas e Respostas, pág. 52)

O fato, não minha reação ao fato. Não teorias românticas e irreais (…) É um fato que, enquanto houver imagens, não haverá paz no mundo, nem (…) amor no mundo – veja a imagem de Cristo, (…) de Buda, ou a imagem dos muçulmanos – entendem? (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 94)

Pergunta: Eu tenho uma imagem de mim, e a tenho de você no sentido de como deveria ser sua relação comigo. E então essa imagem se vê frustrada e lastimada, e assim sucessivamente. (Idem, pág. 97)

Krishnamurti: Porém como hei de mudar essa imagem? Como hei de demoli-la? Vejo muito bem que tenho uma imagem e que esta há sido formada, construída através de gerações. Sou bastante inteligente, (…) consciente de mim mesmo e vejo que tenho essa imagem; como hei de demoli-la? (La Totalidad de la Vida, pág. 97)

Devo, pois, como ser humano comum, dar-me conta de que o mais importante é ter relação correta com tudo.

Interpelante: Seria conveniente se pudéssemos dizer o que ocorre quando não a temos.

Krishnamurti: Não só se desmorona tudo, senão que causo estragos a meu derredor. Posso, então, desprezar o fumar, o beber, a conversa interminável (…) – posso reunir essa energia? Concentrarei essa energia que me ajudará a enfrentar a imagem, a representação mental que tenho? (Idem, pág. 98)

A relação com minha esposa, com meu vizinho, no escritório (…) – e também com a natureza – não creio que estejamos compreendendo a importância de uma relação simples, tranqüila, plena, rica, feliz – a beleza disso, sua harmonia. Podemos então explicá-lo ao espectador comum (…) a grande importância que isso tem. (Idem, pág. 99)

Sim, senhor. (…) Sei que estou formando imagens todo o tempo. Sou bem consciente disso, porque o tenho discutido com você, tenho-o investigado. Desde o começo mesmo, me tenho dado conta (…) de que a relação é o mais importante que há na vida. Sem essa relação a vida é um caos. (La Totalidad de la Vida, pág. 104)

Isso há sido impulsionado dentro de mim. Vejo que cada lisonja e cada insulto se registram no cérebro, e que então o pensamento se apodera disso como uma recordação e cria uma imagem e a imagem fica ferida. (Idem, pág. 104)

Interpelante: A imagem é, portanto, ferida (…)

Krishnamurti: Por conseguinte, Dr. Bohm, que se há de fazer? Há duas coisas implicadas nisso – uma é evitar feridas ulteriores, e a outra é estar livre de todas as feridas que tenho tido. (Idem, pág. 104)

Senhor, sejamos agora bem simples. Dissemos que temos imagens; sei que tenho imagens e você me diz que as olhe, que esteja atento a elas, que perceba as imagens. É o que percebe diferente do percebido? (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 110)

Porque, se o que percebe é diferente, então todo o processo continuará indefinidamente – correto? Porém, se não há divisão, se o observador é o observado, então muda todo o problema.

De acordo? É, então, o observador diferente do observado? Obviamente, não o é. Posso, pois, olhar a imagem sem o observador? Porque o observador produz a imagem, ele é o movimento do pensar. (Idem, pág. 110)

Exatamente. Se não há um experimentador, há experiência? De modo que você me há pedido que olhe minhas imagens, o que é uma exigência mui séria e mui penetrante. Você diz: “Olhe-as sem o observador, porque o observador é o que fabrica as imagens, e, se não há um observador, (…) um pensador, não há pensamento, correto? Por conseguinte, não há imagem.” (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 110-111)

Digo, pois, que minha consciência é a consciência do mundo porque, essencialmente, está repleta das coisa do pensamento – pensar, medo, prazer, desespero, ansiedade, apego, esperança – é um torvelinho de confusão. Tudo isso produz um sentimento de profunda agonia. E nesse estado não posso ter relação alguma com nenhum ser humano. (La Totalidad de la Vida, pág. 111)

Então você me diz: “Ter a máxima e mais responsável das relações é não ter imagem alguma”. Você me há assinalado que, para estar livre de imagens, o fazedor das imagens deve achar-se ausente. O fazedor de imagem é o passado, é o observador que diz: “Gosto disto”, “Não gosto disto”; e também: “Minha mulher”, “meu marido”, “minha casa” – o “meu”, o “eu” é que é a essência da imagem. (…) (Idem, pág. 111)

Agora, a pergunta seguinte é: Estão as imagens tão ocultas que eu não possa abordá-las, (…) pôr-me em contato com elas? Todos vocês, os especialistas, me hão dito que há dezenas de imagens ocultas, enterradas; e eu digo: “Por Deus! eles devem sabê-lo. (…) Porém, como hei de desenterrar essas imagens, como hei de expô-las? (…) (Idem, pág. 111)

Assim é. Portanto, a consciência que eu conheço – na qual tenho vivido – tem experimentado uma tremenda transformação. Têm-na experimentado vocês? É assim com vocês? E se posso perguntar também ao Dr. Bohm – (…) a todos nós: ao dar-nos conta de que o observador é o observado e que, portanto, já não existe o fazedor de imagens e, por conseguinte, o conteúdo da consciência – que constitui a consciência – não é como o conhecemos, que se passa então? (La Totalidad de la Vida, pág. 112)

Formulo esta pergunta porque nela está incluída a meditação. Faço esta pergunta porque todas as pessoas religiosas, as pessoas realmente sérias que hão investigado esta questão, vêem que, enquanto continuamos vivendo nossas vidas diárias dentro da área desta consciência – com todas as imagens e com o fazedor das imagens, – qualquer coisa que façamos estará ainda nessa área. Correto? Um ano posso tornar-me um budista zen, e no outro ano posso seguir algum guru, e assim sucessivamente, porém isso se encontra sempre dentro dessa área. (Idem, pág. 112)

Que se passa, pois, quando não há movimento do pensar, o qual fabrica as imagens (…)? (…) Quando o tempo, que é o movimento do pensar, cessa, que é que há? Porque vocês me hão levado a este ponto. Eu o compreendo (…) Hei tentado a meditação zen, a meditação hindu, (…) toda sorte de outras práticas infelizes, e então ouço vocês e digo: “Por Deus! – é algo extraordinário o que essas pessoa estão dizendo.” Dizem que, no momento em que não existe o fazedor de imagem, o conteúdo da consciência experimenta uma transformação radical e cessa o pensamento (…) Chega ao fim o pensamento, o tempo se detém. Então, quê? É isso a morte? (Idem, pág. 112)

Interpelante: É a morte do “eu”

Krishnamurti: Não (…) Quando o pensamento se detém, quando não existe o fazedor de imagens, há uma completa transformação da consciência, porque não há medo, (…) ansiedade, (…) persecução do prazer, (…) nenhuma das coisas que criam divisão e conflito. Que é, então, o que surge? (…) Cabe averiguá-lo (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 113)

Isso tem sido minha vida. Tenho-me aferrado ao conhecido e, portanto, a morte é o desconhecido, de modo que dele tenho medo. E vêm vocês e dizem: “Olhe, a morte é em parte o fim da imagem e do fazedor de imagem, porém a morte tem uma significação muito maior (…)

Porque é o fim de tudo. A cessação da realidade e de todos os meus conceitos, minhas imagens – a cessação de todas as recordações. (Idem, pág. 118)

Não, não. (…) Escute a pergunta: “Pode cessar a produção de imagens?” Agora examinamos, analisamos todo esse processo que constitui a fabricação de imagens – o resultado disso é a infelicidade, a confusão, as coisas aterradoras que estão sucedendo. O árabe tem sua imagem, o mesmo que o judeu, o hindu, o muçulmano, o cristão, o comunista. Existe essa tremenda divisão das imagens, dos símbolos. Se isso não se detiver, vocês terão um mundo caótico (…) Entendem? Eu vejo isso, não como abstração, mas como realidade (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 93)

Pois bem. Solidão e isolamento são dois estados diferentes. O isolamento resulta das atividades diárias, nas quais toda ação emana do centro ou imagem. A imagem é, essencialmente, em centro que se formou pela rejeição da dor e a não rejeição do prazer. Nossos valores estão baseados no que nos dá prazer, e não no fato, “no que é”. (O Descobrimento do Amor, pág. 129)

Assim, enquanto existir essa imagem, cujos valores se baseiam no prazer, haverá necessariamente isolamento do centro, pois este cria seu espaço próprio. O centro cria espaço ao redor de si em suas relações com pessoas, coisas, idéias, e esse centro (…) é o isolamento – um estado de que podemos estar conscientes ou não. (…) (Idem, pág. 130)

A imagem é, essencialmente, um centro que se formou pela rejeição da dor e não rejeição do prazer. Nossos valores estão baseados no que nos dará prazer, e não no fato, no que é. (…) A mente (…) atingiu seu atual estado de desenvolvimento, tal como os animais, pelo cultivo dos valores baseados no prazer. (…) Deseja ela viver continuamente num estado de prazer e, por conseguinte, o próprio espaço que cria em torno de si constitui sua própria limitação. (O Descobrimento do Amor, 1ª ed., pág. 130)

Pode-se viver a vida no mundo moderno sem uma só imagem? Quem lhes fala pode dizer que isso é possível. Porém requer muita energia para descobrir (…) e, além disso, se é possível viver uma vida na qual não haja nem uma só crença; porque são as crenças que dividem os seres humanos. Pode-se, pois, viver sem uma só crença e não ter jamais uma imagem de si mesmo? Essa é a verdadeira liberdade. (La Llama de la Atención, pág. 110-111)

Se um indivíduo tem uma imagem de si mesmo e o chamam de néscio (…) a reação se produz instantaneamente. (…) Ou seja (…) quando ele escuta com atenção completa, não há reação. É a falta de um escutar agudo e sensível que faz surgir a imagem e, portanto, a reação. (…) Quando há atenção total, não se forma um centro. É só a desatenção que cria o centro. (…) Quando há atenção total, a afirmação de que o indivíduo é néscio perde completamente toda significação. Porque, quando há atenção, não existe um centro que esteja reagindo. (Idem, pág. 111)

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