Como há de o indivíduo viver de modo que a ação seja preenchimento? Como pode o indivíduo enamorar-se da vida? Para enamorar-se da vida, (…) obter o preenchimento, é preciso ter a mente livre, mediante a compreensão profunda das limitações que a deturpam e frustram (…) (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 58-59)

O que estou dizendo é que, para viver com grandeza, para pensar criativamente, tem o indivíduo de estar por completo aberto à vida, isento de quaisquer reações autoprotetoras, tal como se dá quando vos achais enamorados. Tendes, pois, de estar enamorados da vida. Isso exige grande inteligência, não informações ou conhecimentos, porém sim essa grande inteligência que desperta quando defrontais a vida abertamente, completamente, quando a mente e o coração estiverem por completo vulneráveis em face da vida. (Palestras em New York City, 1935, pág. 60)

A realização da verdade vem somente quando há plenitude de ação sem esforço. E a cessação do esforço vem através do estardes alerta contra os obstáculos, e não por procurardes vencê-los (Coletânea de Palestras, pág. 54)

Pretendo ajudar-vos (…) a atravessar a corrente do sofrimento, da confusão e do conflito, por meio de um profundo e completo preenchimento. Esse preenchimento não se encontra na auto-expressão egoísta, nem na compulsão, nem na imitação. (…) Pelo pensamento claro, pela ação inteligente, eis como atravessaremos a corrente da dor e da tristeza. Existe uma realidade que só pode ser compreendida por meio de um profundo e verdadeiro preenchimento. (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 64)

Antes de podermos compreender a riqueza e a beleza do preenchimento, deve a mente estar livre do fundo de idéias da tradição, do hábito e do preconceito. (…) Esse fundo de idéias tradicionais impede a compreensão completa da vida e, por isso, determina confusão e sofrimento. (Idem, pág. 64)

Pois bem, se não fazemos esforço para fugir, que acontece? Ficamos com essa solidão, com esse vazio; e, com a aceitação desse vazio, veremos surgir um estado criador completamente isento de luta e de esforço. O esforço só existe enquanto desejamos evitar o vazio interior; mas, se o olharmos bem, se o observarmos, se aceitarmos o que é, sem nenhum desejo de evitá-lo, veremos surgir um “estado de ser” no qual cessou toda a luta. Esse estado de ser é o estado criador, que não resulta de luta alguma (A Arte da Libertação, pág. 109)

Mas quando há compreensão do que é, que é nosso vazio, nossa insuficiência interior, quando nos deixamos ficar com essa insuficiência e a compreendemos plenamente, surge a realidade criadora, a inteligência criadora, a única coisa que traz felicidade. (Idem, pág. 109)

(…) Só quando estiverdes cônscios da insuficiência interior, e ficardes com ela, isto é, não fugindo, mas aceitando-a integralmente, só então descobrireis uma tranqüilidade extraordinária, (…) não produzida artificialmente, mas que vem com a compreensão do “que é”. Só nesse estado de tranqüilidade, há vida criadora. (A Arte da Libertação, pág. 110)

Assim, onde há escolha não pode haver discernimento. (…) Somente quando cessa a escolha há libertação, plenitude, pujança de ação, que é a vida mesma. A criação é sem escolha, como a vida é sem escolha, como o entendimento é sem escolha (…) (Palestras na Itália e Noruega, pág. 50)

Preocupamo-nos com a ação a todo instante do dia; mas só conheceremos o êxtase desta ação não impedida quando a mente estiver a si própria se renovando por meio do preenchimento. (…) (Palestras no Brasil, pág. 77)

(…) Agora, será acaso a iluminação (…) uma questão de tempo? (…) Será um processo gradual, isto é, (…) de tempo, (…) de evolução, a transformação gradual? (…) As chamadas pessoas iluminadas não são iluminadas, pois no momento em que dizem: “Estou iluminada”, não estão. Trata-se de uma vaidade delas. É como se alguém dissesse: “Eu sou realmente humilde” (…) A verdadeira humildade não é o oposto de vaidade. (…) Então você pergunta: o que é essa iluminação suprema? Uma mente que não possui nenhum conflito, nenhuma sensação de luta, de atividade, de movimento, de realização. (Perguntas e Respostas, pág. 103)

Desejo diferençar o agir do conseguir ou atingir. Consecução é uma finalidade, ao passo que, para mim, a ação é infinita. (…) Antes (…) compreendamos o que queremos dizer por evolução: um movimento contínuo, por meio de escolha, para o que chamamos de essencial, perseguindo sempre maiores consecuções. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 30)

Agora, que acontece quando afastais isso e escolheis aquilo? Estais buscando o vosso agir simplesmente na atração ou repulsão, e, por esse modo, criais opostos. (…) Enquanto escolherdes, (…) tem de haver dualidade. Podeis pensar ter escolhido o essencial; mas (…) no querer e no temor, ela meramente cria outro não-essencial. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 32)

Enquanto escolherdes entre os opostos não há discernimento, e por isso deve haver esforço, esforço, incessante, continuamente oposto e dualidade. (…) A vossa ação é sempre finita, sempre visando conseguimento, e por isso existirá sempre essa vacuidade que sentis. Mas se a mente estiver livre da escolha, se ela possuir a capacidade de discernir, então a ação é infinita. (Idem, pág. 32-33)

Se vos aperceberdes de que a vossa escolha originada nos opostos somente cria outro oposto, então percebeis o que é verdadeiro. (…) Nesta libertação dos opostos, a ação já não é conseguimento, mas preenchimento; ela nasce do discernimento, que é infinito. Então, a ação brota de vossa própria plenitude e em tal ação não há escolha e, portanto, nenhum esforço. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 33)

Só podeis verificar isso quando realmente estiverdes atravessando uma crise. (…) Podeis conhecer a verdade disso somente quando estiverdes frente a frente com uma insistente necessidade de escolha, quando tiverdes de tomar uma decisão (…) (Idem, pág. 35)

(…) Se nesse momento entenderdes com todo o vosso ser, (…) fordes consciente da futilidade da escolha, então brotará daí a flor da intuição, a flor do discernimento. A ação que daí nasce é infinita; então a ação é a própria vida. (…) (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 35)

Pergunta: Não conduz a experiência à plenitude da vida?

Krishnamurti: Vemos muitas pessoas passarem por experiências repetidas, multiplicando as sensações, vivendo as memórias passadas com antecipações futuras. Vivem esses indivíduos uma vida de plenitude? (…) Ou existe somente plenitude da vida quando a mente está aberta, vulnerável, completamente desnuda de todas as memórias autoprotetoras? (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 60)

Quando há ação integral, sem a divisão de múltiplas carências, há plenitude, inteligência, a profundeza da realidade. O mero acúmulo da experiência, ou viver na sensação da experiência, não é mais que (…) sensação artificial de plenitude por meio de estímulo. O simples enriquecimento da memória não é plenitude de vida; (…) (Idem, pág. 60)

Portanto, devemos compreender o processo da experiência e perceber como a mente está sempre tirando da experiência lições que se tornam seu guia. Essas lições, esses ideais e guias, que são apenas memórias autoprotetoras, constantemente ajudam a mente a fugir da atualidade. (…) (Idem, pág. 61)

A plenitude da vida só é possível quando a mente-coração estiver integralmente vulnerável ao movimento da vida, sem nenhum obstáculo artificial e autocriado. A riqueza da vida advém quando a carência, com suas ilusões e valores, tiver cessado. (Idem, pág. 61)

(…) Enquanto a mente está ativa, formulando, fabricando, inventando, criticando, não pode haver criação; e eu vos asseguro que a criação vem silenciosamente, com extraordinária rapidez, sem compulsão, ao compreenderdes a verdade de que a mente precisa estar vazia, para que se realize a criação. Ao perceberdes a verdade disso, então, instantaneamente, há criação. (A Arte da Libertação, pág. 177)

(…) A criação só se realiza quando a mente, com seus motivos e sua corrupção, deixa de funcionar. (…) Assim, a única coisa necessária é que a mente, que é pensamento, deixe de funcionar; e então, asseguro-vos, conhecereis a criação. Só há criação quando a mente, compreendendo sua própria insuficiência, (…) pobreza, (…) solidão, finda. Estando cônscia de si mesma, ela põe fim a si própria; então, aquilo que é criador (…), imensurável, aparece, sutil e velozmente. (A Arte da Libertação, pág. 178)

Para pôr fim ao processo do pensamento, precisamos estar passivamente cônscios de nossa insuficiência, (…) pobreza, (…) vazio, sem lutar contra isso; (…) e o que não é produto da mente, é criação. (Idem, pág. 178)

Quereis saber (…) O êxtase do entendimento vem somente quando há grande descontentamento, quando em torno de vós todos os falsos valores forem destruídos. (…) Mas, se houver em vós essa revolta divina, então compreendereis quando digo que a vida não é uma escola para se aprender; a vida não é um processo de acúmulo constante (…) (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 135)

(…) O que importa realmente é que essa vacuidade e essa solidão existem em vossa mente e vosso coração, e que há um vazio imenso; e pensais poder sair dele, fugir dele (…) Ao passo que, se libertardes a mente dessa consciência do “eu”, pela descoberta dos retos valores do ambiente, (…) então, por vós próprios, conhecereis esse preenchimento que é a verdade, (…) Deus (…) (Palestras em Auckland, 1934, pág. 119)

Porque somos como mortos, tememos a morte; os que vivem não a temem. Os mortos estão onerados do passado, da memória, do tempo, mas, para os que vivem, o presente é eterno. O tempo não é um meio para se chegar a um fim – o Atemporal – porque o fim está no começo. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 173-174)

O “ego” tece a rede do tempo e o pensamento é colhido por ela. A insuficiência do “ego”, a sua dolorosa vacuidade, causa o temor da morte e da vida. (…) Mortos que estamos, procuramos a vida – mas a vida não está na continuidade do “ego”. O “ego”, o criador do tempo, deve render-se ao Atemporal. (Idem, pág. 174)

A vigilância é de cada momento presente; não é o efeito cumulativo de lembranças autoprotetoras. A vigilância não é determinação, nem ação da vontade. A vigilância representa uma rendição completa e incondicional à realidade, sem racionalização, sem separação entre observador e coisa observada. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 231-232)

(…) Procuramos vencer esse terror, esse vácuo; procuramos algo que cure a pungente agonia de nossa insuficiência interior. (…) Quando para vós despontar a verdade a respeito da fuga, persistireis em procurá-la? É claro que não. Aceitareis, então, infalivelmente “o que é”, o que existe; é essa rendição completa ao “que é”, que nos traz a Verdade libertadora, e não a consecução do objeto de nossa busca. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 240)

Não é a essência criadora da Realidade que é a norma? Apelais para outros, para vos darem esperanças e orientação, porque sois vazios e pobres; apelais para os livros, os quadros, os mestres, os “gurus”, os salvadores, buscando inspiração e força. (…) É só na essência criadora da Realidade que se verifica o término do conflito e da aflição. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 139)

Ao perceberdes como o pensamento-sentimento forja sua própria prisão e dependência, ficando assim insulado; cientificando-vos do cultivo dos valores sensuais, que geram inevitavelmente a pobreza interior, nessa percepção mesma (…) descobrireis a riqueza indestrutível. Da contínua percepção, adequadamente desenvolvida e cada vez mais ampla e penetrante, advirá a serenidade e o contentamento da suprema sabedoria. (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 115-116)

Isto é, depois que a mente se despoja de toda ilusão e ignorância, é capaz de discernir o infinito presente. É uma coisa que se não pode explicar, acerca da qual não se pode raciocinar. Está para além de todos os argumentos. Tem de ser vivida. Exige grande persistência e constante firmeza de propósito. (Palestras em New York City, 1935, pág. 25)

(…) Porque sois, aí, vosso próprio instrutor e vosso próprio discípulo; a vida estará aberta para vós e ireis ao seu encontro todos os dias, com plenitude, riqueza, felicidade. Mas isso não é possível se há qualquer forma de acumulação. O ver o fato simplesmente, sem avaliação, traz liberdade. (…) (Visão da Realidade, pág. 267)

Isto é, sentindo a nossa insuficiência, imperfeição, começamos a acumular, esperando completar-nos com essa colheita de experiências e utilização das idéias e padrões de outras pessoas. Entretanto, para mim, a insuficiência só desaparece quando atua a inteligência, que é, ela mesma, a beleza e a verdade. Não poderemos perceber tal coisa enquanto estiverem separados a mente e o coração. (A Luta do Homem, pág. 84)

(…) Quando fazeis algo, com todo o vosso ser, em que não há sentimento de frustração ou medo, nenhuma limitação, nesse estado de ação sois vós próprio, independente de qualquer condição exterior. Digo, se puderdes chegar a esse estado, quando sois vós próprio na ação, então descobrireis o êxtase da realidade, Deus. (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 76)

(…) O preenchimento não é um processo de racionalização, nem a mera colheita de informações, tampouco se encontra por meio de outrem (…) É a fruição do profundo entendimento da nossa própria existência e das nossas ações. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 27)

Se quiserdes conhecer a beatitude da verdade, deveis tornar-vos plenamente apercebidos dessas barreiras autodefensivas e derrubá-las. Isso exige um esforço contínuo e firme. A maior parte das pessoas não deseja fazer esse esforço. Querem antes que se lhes diga exatamente o que devem fazer, (…) assemelham-se a máquinas (…) Enquanto vós, (…) voluntariamente, vos não libertardes dessas ilusões, não pode haver compreensão da verdade. Ao dissolver essas ilusões de autoproteção, a mente desperta para a realidade e para o êxtase da realidade. (Palestras no Chile e México, 1935, pág. 76-77)

Se, em lugar de buscardes a paz, a felicidade, ou de vos esforçardes por averiguar o que a verdade é, ou o que é a imortalidade, ou, ainda, se existe um Deus, a mente e o coração se puderem libertar do medo, do preconceito, das perversões, das causas limitadoras, na chama desse apercebimento, então, essa consciência se tornará o real, êxtase da vida, da verdade. (Palestras em New York City, 1935, pág. 33)

Para libertar essa nascente que se transformará em torrente e por isso vos levará a atingir a libertação que é a Verdade, que é o preenchimento da vida, deveis descobrir o que é essencial para vossa compreensão e pôr de lado todas as coisas de importância secundária. (Vida em Liberdade, VII, em Carta de Notícias da I.C.K., nº 1 a 6, de 1945, pág. 22)

A consciência limitada é o conflito de inúmeras carências. Apercebei-vos desse conflito, desse incessante combate de divisão; não tenteis, porém, dominar parte da consciência com suas carências, por meio de outra parte. Quando a mente se identifica com a carência ou com seus opostos, há conflito; então a mente tenta fugir por meio da ilusão e dos falsos valores e, assim, apenas intensifica todo o processo da carência. Com o profundo discernimento, advém a cessação da carência, o despertar da inteligência, da intuição criadora. Essa inteligência é a própria realidade. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 33)

(…) Quando rejeitais a autoridade e dela buscais libertar-vos, procurais apenas uma antítese; ao passo que a verdadeira liberdade, o estado inteligente e desperto da mente, está para além dos opostos. E essa tranqüilidade vibrante do pensamento profundo, do apercebimento sem escolha, essa intuição criadora, que é a plenitude da vida. (Palestras em Ommen, Holanda, 1936, pág. 69)

(…) O êxtase da Realidade encontra-se pela inteligência desperta e no mais alto grau de intensidade. Inteligência não significa cultivo da memória ou da razão, mas, sim, uma percepção da qual é banida a identificação e a escolha. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 199)

(…) Só mediante vosso pessoal discernimento sobre a causa do sofrimento, e não pelas explanações de outrem, é que podem ser abertos os portais da máxima beatitude, que conduzem ao êxtase do entendimento. (…) (Palestras no Brasil, pág. 72-73)

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