Vivemos em fragmentos. Há o fragmento chamado “vida espiritual”, o fragmento que é o intelecto, o fragmento que são as emoções, o fragmento que são os sentidos físicos. Acha-se, pois, a mente fracionada em vários fragmentos, cada um deles encerrado num compartimento estanque e muito escassamente em relação com os outros. Por isso, existe entre eles um perene conflito, o qual procuramos evitar mediante fuga. (…) (O Descobrimento do Amor, pág. 12)

(…) No escritório somos uma coisa, em casa somos outra coisa; falais de democracia e, no íntimo, sois autocrata; falais em amor ao próximo e, ao mesmo tempo, o estais matando na competição; uma parte de vós está ativa, a olhar independentemente da outra. Estais cônscios dessa existência fragmentária em vós mesmos? E será possível ao cérebro (…) tomar-se cônscio do campo inteiro? É possível olharmos o todo da consciência, completa e totalmente, o que significa sermos entes humanos totais? (Liberte-se do Passado, pág. 27)

A palavra “indivíduo” significa “indivisível”, não fragmentado. “Individualidade” significa uma totalidade, o todo, e a palavra “todo” significa “são”, “puro”. Mas, vós não sois um indivíduo, porque não estais são, porque estais dividido, fragmentado, interiormente; estais em contradição com vós mesmo, partido, e, por conseguinte, não sois de modo algum um indivíduo. Assim, em vista dessa fragmentação, como se pode exigir que um fragmento assuma a autoridade sobre os demais fragmentos? (Fora da Violência, pág. 11)

O homem é um ser fragmentário. Por que é que há tal divisão? Um fragmento se acha tremendamente ativo, o outro não funciona em absoluto. Um fragmento é vulgar, burguês, mesquinho. Quando se une esses dois fragmentos para se tornarem uma energia harmônica, (…) não dividida? (Tradición y Revolución, pág. 53)

Quando cessa o fragmento de ser um fragmento? (…) O movimento de definir, do chegar a ser, é sempre (…) fragmentado. Existe um movimento que não pertença a essas categorias? Veja o que ocorre se não houver movimento algum. (Idem, pág. 54)

A principal dificuldade é esta, que o homem vive fragmentado, não só em seu interior, mas também exteriormente: ele é cientista, médico, soldado, sacerdote, teólogo, especialista desta ou daquela matéria. Interiormente, sua vida está fragmentada, fracionada; sua mente, seu intelecto, é sutil e sagaz; por vezes, ele é brutal, agressivo, enquanto outras vezes pode mostrar-se bondoso, manso, afetuoso; esforça-se por ser um ente moral, embora a moralidade social seja de todo imoral, e seus inúmeros desejos antagônicos são a causa dessa fragmentação existente por dentro e por fora, dessa contradição interior e exterior. (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 77)

A maioria das pessoas funciona apenas com um fragmento, uma parte muito pequena do cérebro. Por isso, sua visão de vida é fragmentária. Somente uma parte do seu cérebro está operando ativamente em suas vidas, de forma que o cérebro não está funcionando totalmente. Portanto, você pode descobrir se o cérebro pode operar de uma forma total, completa. (…) (The World of Peace, pág. 50)

(…) O conteúdo da consciência é a consciência. Quando não há conteúdo não há consciência. Nesse conteúdo existem tremendos fatores de conflito, de fragmentação. Um fragmento assume a autoridade, um fragmento não se identifica a si mesmo com os outros fragmentos. Ele se sente inseguro; há tão vastos conflitos, aí! Ele não se identifica com nenhum fragmento; só o faz quando diz: “isto me agrada, isto não me agrada”. (Tradición y Revolución, pág. 149-150)

É onde quero chegar, vejo que estou fragmentado: digo uma coisa e faço outra, penso uma coisa e contradigo o que penso. E vejo claramente que não devo fazer disso um problema. (The Future is Now, pág. 113)

(…) Se eu faço disso um problema, dizendo a mim mesmo que não devo ser fragmentado, essa declaração surge da fragmentação. Alguma coisa surgida da fragmentação é outra forma de fragmentação. Mas o meu cérebro é treinado para criar problemas. Portanto, tenho de estar atento ao ciclo completo. Então o que devo fazer? (Idem, pág. 113-114)

(…) Não se ponha nessa posição; você chegou a uma conclusão; portanto, conclusão é outra fragmentação. Eu faço esta pergunta: Há uma maneira de viver não fragmentária, na qual esteja envolvida a qualidade da mente religiosa, profunda bondade, sem nenhuma dualidade? (Idem, pág. 114)

Como pode a mente, que inclui o cérebro, ver uma coisa totalmente? (…) Nós vemos as coisas fragmentariamente, não é verdade? Trabalho, família, comunidade, indivíduos, minha opinião, vossa opinião, meu Deus, vosso Deus – tudo vemos em fragmentos. (…) Se vejo a vida em fragmentos, porque minha mente está condicionada, é claro que não posso ver a totalidade (…) Se me separo, por causa de minha ambição, de meus preconceitos pessoais, não posso ver o todo. (…) (A Questão do Impossível, pág. 122)

Apresenta-se, assim, a questão: Como pode a mente, tão enredada que está nesse hábito de ver e agir fragmentariamente, ver o todo? Claro que não pode. Se estou todo interessado em meu próprio preenchimento, na realização de minha ambição, no competir e no meu desejo de sucesso, não posso ver a humanidade no seu todo. (…) Enquanto a mente continuar a operar nesse campo da fragmentação, é óbvio, não poderá ver o todo. (…) (Idem, pág. 122)

Assim, para observar realmente o que é, ver o seu inteiro significado, a mente deve estar nova, clara, não dividida. E isso leva-nos a outro problema: Como olhar sem a divisão em “eu” e “não eu”, “nós” e “eles”. (Fora da Violência, pág. 93)

Como dissemos, (…) Como é que escutais e observais outra pessoa, (…) a vós mesmo? A chave dessa observação se encontra em ver as coisas sem divisão. (…) Nossa existência está toda fragmentada. Em nós mesmos estamos divididos, em contradição. Vivemos fragmentariamente.(…) (Idem, pág. 93)

Um fragmento, dentre os múltiplos fragmentos, julga-se capacitado para observar. Embora tenha assumido a autoridade, ele continua sendo um fragmento entre os demais fragmentos. E esse fragmento olha e diz: “Eu compreendo; sei qual é a ação correta”. (Fora da Violência, pág. 93)

Senhor, (…) Agora prosseguiremos: como posso eu, que vivo em fragmentos, muitos fragmentos (…) “isto é bom, aquilo é mal”, “isto é sagrado, aquilo não é”, “a tecnologia”, tudo isso carece realmente de importância, porém ir a um templo é infinitamente importante; como se pode viver sem fragmentação? (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 81)

(…) O interlocutor diz “Mediante a integração”, (…) integrando todos os fragmentos? (…) E quem é a entidade que vai reunir todos os pedaços? O Atman superior, o Cosmos, (…) Jesus Cristo, Krishna? Tudo isso é fragmentação (…) (Idem, pág. 82)

Pergunta: Você vê, sinto-me de todo sem saída nesta situação. O fato é que há conflito, e a atuação do “eu” leva a maior conflito. Vendo a natureza disso, pode a mente compreender que está totalmente em conflito? (Exploration into Insight, pág. 61)

Krishnamurti: Pode a mente estar consciente de um estado no qual não há conflito? É isso o que você está tentando dizer? Ou só a mente pode conhecer o conflito? Certo? Está a sua mente de todo consciente do conflito, ou isso é apenas uma palavra? Ou há uma parte da mente que diz “estou consciente de que me acho totalmente em conflito, e há uma parte de mim observando o conflito.” Ou há uma parte da mente desejando estar livre do conflito, de que forma, e há um fragmento que diz “não estou em conflito” e que se separa da totalidade do conflito?

Se há um fragmento separado, então esse fragmento diz: “Devo fazer, suprimir, ir além. Então esta é uma pergunta legítima. Está a sua mente de todo consciente de que nada há senão conflito ou há um fragmento que se sobressai e diz: “Estou consciente de que me acho em conflito, mas não total?”Portanto, o conflito é de um fragmento ou é total”? Há escuridão total ou uma leve luz em algum lugar? (Idem, pág. 61)

Se se divide em fragmentos a consciência, um dos fragmentos indaga: “Que são os outros fragmentos?”. Mas, se só há um movimento total, não existe fragmentação e, por conseguinte, não se faz tal pergunta. (…) Percebeis a consciência como um todo, ou a vedes como um fragmento a examinar os outros fragmentos? Vós a vedes parcialmente, ou a vedes em sua inteireza, como um movimento total (…)? Que é então esse movimento? Como observá-lo? (A Questão do Impossível, pág. 152)

No presente não somos sensíveis; há imagens neste campo que são sensíveis quando nossa particular personalidade, (…) idiossincrasias, (…) prazeres são negados e então há uma luta. Somos sensíveis em fragmentos, em marcas, mas não somos sensíveis completamente. Portanto, a pergunta é: Como pode o fragmento, que é parte do todo, que está se tomando estúpido cada dia repetidamente, como pode essa parte tornar-se também sensível da mesma forma que é o todo? (…) (The Awakening of Intelligence, pág. 190-191)

Como dissemos, o pensamento criou o “eu”, e então, por ser o pensamento fragmentário em si mesmo, converte o “eu” em um fragmento. Quando se diz “eu”, “meu”, eu quero, eu não quero, eu sou isto, eu não sou aquilo, isso é o resultado do pensamento. E como o pensamento mesmo é fragmentário – nunca é a totalidade – o que ele cria também se torna fragmentário. “Meu mundo”, “minha religião”, “minha crença”, “meu país” (…) esse é o modo como isso se torna fragmentário. (La Verdad y la Realidad, pág. 73)

Compreendo. Olho, posso ver parte de meu condicionamento; ver que estou condicionado como comunista ou muçulmano, mas há outras partes. Posso investigar conscientemente os vários fragmentos que compõem o “eu”, o conteúdo de minha consciência? Posso conscientemente olhá-lo? (The Future is Now, pág. 390)

Se a consciência se constitui de meus desesperos, minhas ansiedades, temores, prazeres, (…) esperanças, “sentimentos de culpa”, e da vasta experiência do passado, então, nenhuma ação dela emanada poderá, em tempo algum, libertar a consciência de suas limitações. (A Questão do Impossível, pág. 165)

(…) Se se quer investigar profundamente a estrutura e natureza da consciência, quem fará a investigação? Um fragmento, dentre os muitos fragmentos? Ou existe uma entidade, um agente transcendental capaz de observar a consciência? Pode a mente consciente, aquela que funciona todos os dias, observar o conteúdo das camadas inconscientes ou mais profundas? E quais são as fronteiras, os limites da consciência? (A Questão do Impossível, pág. 149)

Pergunta: Você diz que esse centro é tempo-espaço, também parece postular a possibilidade de ir além do campo do tempo-espaço. O espaço é aquilo que opera. Ele não é capaz de ir mais longe. Se pudesse, o tempo-espaço deixaria de ser conteúdo da consciência.

Krishnamurti: Vamos começar de novo. O conteúdo da consciência é consciência. Isso é irrefutável. O centro é o criador de fragmentos. O centro torna-se consciente dos fragmentos quando os fragmentos são notados ou entram em ação; do contrário, o centro não fica consciente dos outros fragmentos. O centro é o observador dos fragmentos. Não se identifica com os fragmentos.

Por isso, há sempre o observador e o observado, o pensador e a experiência. O centro é o criador de fragmentos e tenta reuni-los e ir além. Um dos fragmentos diz “dorme” e o outro fragmento diz “fique atento”. No estado de manter-se atento, há desordem. As células do cérebro, durante o sono, tentam estabelecer ordem, porque não podem funcionar efetivamente em desordem. (Exploration into Insight, pág. 122)

Uma insatisfação de tal natureza não nos torna neuróticos nem produz desequilíbrio. Existe desequilíbrio somente quando a insatisfação se transfere a algo, ou fica presa em perturbação de uma ou outra classe; então há distorção, há todo gênero de lutas internas. (La Totalidade de la Vida, pág. 178)

Eu me pergunto (…) como há de cessar o pensamento sem que esse processo de terminar se perverta, dispare para algum estado imaginativo, tendendo para desequilibrado, indefinido e neurótico? Como pode esse pensamento, que deve funcionar com grande energia e vitalidade, estar ao mesmo tempo completamente quieto? (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 172)

Estamo-nos perguntando – vós e eu – se existe alguma maneira inteiramente nova de proceder, sem conflito, nem contradição. Onde há contradição, há esforço, e onde há esforço há conflito – que é resistência ou aceitação. Resistência é abrigar-nos atrás de idéias; aceitação é imitação.

Estamos sempre contra a corrente; (…) Podemos mover-nos, viver, ser, funcionar de maneira tal que não tenhamos de lutar contra nenhuma corrente? Quanto mais conflito existe, tanto mais tensão. Da tensão resultam neuroses e psicoses de toda espécie. (Encontro com o Eterno, pág. 74)

(…) Somos, assim, levados a perguntar: Temos possibilidade de libertar-nos desse medo, não apenas do medo e da dependência superficiais, existentes nas relações, mas do medo profundamente radicado em nós? (…) Porque, se um homem teme, faz as coisas mais irracionais que se podem imaginar. Com medo, um homem está como que desequilibrado, num estado de neurose e, portanto, incapacitado de pensar com clareza, de observar com exatidão. (O Novo Ente Humano, pág. 157)

Vós não sabeis quando sois neurótico? Alguém precisa dizer-vos que sois? (…) Sempre que há “exageração” de qualquer fragmento, há neurose. Se sois superiormente intelectual, isso é uma forma de neurose, embora os indivíduos intelectuais sejam tidos em elevada conta. Estar apegado a certa crença (…) é uma forma de neurose. (…) Qualquer espécie de medo é uma forma de neurose, todo ajustamento é uma forma de neurose e qualquer comparação de vós mesmo com outra pessoa é de fundo neurótico. (A Questão do Impossível, pág. 153-154)

Logo, sois neurótico! (…) Deste nosso exame alguma coisa já aprendemos: toda “exageração” de qualquer fragmento da consciência (pois a vemos toda fragmentada), todo empenho em realçar um dado fragmento, é uma forma de neurose. (…) (Idem, pág. 154)

Nós, como agora somos, dividimos a consciência, e nessa divisão há muitas fragmentações, muitas subdivisões – de ordem intelectual, emocional, etc; e atribuir importância a dado fragmento é neurose. Isso significa que, exagerando a importância de dado fragmento, a mente se torna incapaz de ver com clareza. (A Questão do Impossível, pág. 154)

(…) Essa fragmentação – se nela se dá realce a um fragmento, a seus interesses, seus problemas, desprezando-se os demais fragmentos – leva não só ao conflito, mas também a grande confusão, porque cada fragmento quer manifestar-se, salientar-se, e, se damos importância a um só, os outros começam a protestar, a clamar. Esse clamor é confusão; e, dessa confusão, provêm impulsos neuróticos, desejos de preenchimento, de “vir-a-ser’ , “realizar-se”. (Idem, pág. 154)

Sim. A neurose é apenas um sintoma, a causa pode achar-se no inconsciente. É claro que assim pode ser, e provavelmente é. (A Questão do Impossível, pág. 154)

O que devemos fazer? Como saber, num mundo que é de certa forma neurótico, no qual os amigos e parentes são ligeiramente desequilibrados (…)? Não se pode recorrer a ninguém; portanto, o que acontece na mente de uma pessoa, agora que ela não depende mais de outras pessoas, de livros, de psicólogos, de autoridades? (Perguntas e Respostas, pág. 33)

(…) A neurose é resultado da dependência. A gente depende da esposa, do médico; (…) de Deus ou dos psicólogos. Estabelecemos uma série de dependências (…), esperando que nessas dependências estaremos seguros. E quando descobrimos que não podemos depender de ninguém, o que acontece? Produz-se em nós uma tremenda revolução psicológica, que, geralmente, não queremos enfrentar. (…) (Perguntas e Respostas, pág. 33)

Pergunta: Que é loucura?

Krishnamurti: (…) A maioria de nós somos neuróticos, não? Em geral, somos ligeiramente desequilibrados, temos idéias (…), crenças peculiares. Certa vez, conversávamos com um católico fervoroso, e ele disse: “Vocês, hindus, são o povo mais supersticioso, fanático, neurótico; crêem em tantas coisas anormais”! (…) (Fora da Violência, pág. 126)

(…) Esse homem estava completamente inconsciente de sua própria anormalidade, suas próprias crenças, suas estúpidas idéias. Assim, quem é equilibrado? É, fora de dúvida, o homem sem medo, (…) íntegro. O que é inteiro está são, e é sagrado; mas nós não o somos, somos entes humanos fragmentados e, por conseguinte, desequilibrados. (…) (Idem, pág. 125-126)

Mas veja que o próprio estado de dependência de outrem pode ser a causa de uma neurose psicológica profunda. Quando se quebra esse padrão, o que acontece? A pessoa sara! Precisamos estar sãos para descobrir o que é a verdade. A dependência veio da infância (…) Não depender de nada, significa que estamos sozinhos, inteiros, íntegros – isso é saúde, (…) que produz racionalidade, clareza, integridade. (Perguntas e Respostas, pág. 33-34)

(…) Significa uma mente em que não há divisão de espécie alguma; uma mente total, portanto, sã. Só o indivíduo neurótico é obrigado a controlar-se; e, quando chega ao ponto de estabelecer o controle total de si próprio, está completamente neurótico, impossibilitado de mover-se livremente. (Fora da Violência, pág. 96)

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