Vamos primeiramente investigar (…) Não sei se estais cônscio, se vedes que interiormente estais fragmentado, dividido. Sois (…) artista e, ao mesmo tempo, ávido e invejoso, buscais poder, prestígio, fama. Sois cientista e também um ente humano como os outros, insignificante e vulgar. Como entes humanos, estamos fragmentados, interiormente divididos; e a menos que vos torneis cônscios de estardes realmente fragmentados, (…) que compreendais totalmente esse fato, vossa mente será incapaz de percepção. (O Novo Ente Humano, pág.71)

Tampouco é fácil negardes que sois francês, hindu, russo ou americano; (…) Mas se rejeitais todas as prisões, e não sabeis aonde a rejeição vos levará, então vos vedes só. E parece-me absolutamente essencial que nos vejamos completamente sós, livres de influências; porque só então seremos capazes de descobrir por nós mesmos o que é verdadeiro (…) Só então saberemos se existe uma realidade transcendente ao espaço e ao tempo; e esse descobrimento é criação. (O Passo Decisivo, pág. 20<2)

Como antes dissemos, nossa vida está fragmentada; sois artista e nada mais sois; sois especialista num determinado campo, que conheceis a fundo, e nada mais sabeis; (…) no escritório, tendes inúmeros problemas (…) Nossas culturas diferem, como diferem nossos temperamentos e tendências; nosso condicionamento (…) varia conforme somos católicos, protestantes, comunistas, capitalistas, (…) empresários, cientistas, professores, etc. (…) Podemos observar esses fatos óbvios – vivemos em fragmentos, em distintos campos de atividade, todos em contradição entre si – embora possam tocar-se ocasionalmente. (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 121)

A principal dificuldade é esta, que o homem vive fragmentado, não só em seu interior, mas também exteriormente: ele é cientista, médico, soldado, sacerdote, teólogo, especialista desta ou daquela matéria. Interiormente, sua vida está fragmentada, fracionada; sua mente, seu intelecto, é sutil e sagaz; por vezes, ele é brutal, agressivo, enquanto outras vezes pode mostrar-se bondoso, manso, afetuoso; esforça-se por ser um ente moral, embora a moralidade social seja (…) imoral, e seus inúmeros desejos antagônicos são a causa dessa fragmentação existente por dentro e por fora, dessa contradição interior e exterior. (…) (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 77)

Não agir antes de compreender, antes de ter visto. Assim, precisais primeiro ver, observar, perceber. Se olhais o mundo como hinduísta, não estais então olhando os fatos, estais olhando com os vossos preconceitos de hinduísta e, portanto, não o vedes. Se olho o mundo como comunista, estou apenas a olhá-lo de certo ponto de vista, através de uma conclusão. Por conseguinte, sou incapaz de olhar este imenso problema do viver. (…) Vendo a casa em chamas, todo mundo em chamas, quereis apagar o incêndio como hinduísta, muçulmano, parse (…) (O Novo Ente Humano, pág. 136)

O problema é este: Qual a ação ou inação que realizará a mutação radical? Pelo que respeita à maioria de nós, a ação é sempre fragmentária: atuamos como cientistas, comerciantes, escritores, (…) políticos, (…) Atuamos conforme nosso condicionamento; se estamos condicionados como hinduístas, cristãos, muçulmanos, comunistas, etc., nossa maneira de ver as coisas (…), embora modificadas pelas tendências e temperamento de cada um, serão sempre pautadas pelo nosso fundo original de condicionamento. (Encontro com o Eterno, pág. 93)

Assim, pela palavra “sério” entendemos coisa muito diferente. (…) Por “mente séria” entendo aquela que percebe o que é verdadeiro, mas não de acordo com certo padrão de crença (…) As condições mundiais, essa glorificação do “tribalismo” que se chama nacionalismo, as várias divisões na religião – catolicismo, hinduísmo, budismo, ele – os partidos políticos – comunistas, socialistas, capitalistas, etc. – e as divisões econômicas, científicas, tecnológicas, e as diferentes fragmentações da vida – tudo isso está a exigir uma solução completamente diferente para esses problemas. (A Suprema Realização, pág. 11-12)

Veja o que está acontecendo no mundo – estamos sendo condicionados pela sociedade, pela autoridade, pela cultura em que vivemos, e essa cultura é produto do homem – nada há de total, divino ou eterno na cultura. Cultura, sociedade, livros, rádios, tudo que escutamos ou vemos, as várias influências, conscientes ou inconscientes, tudo nos encoraja a viver dentro de um fragmento muito pequeno, pertencente ao vasto campo da mente. (The Awakening of Intelligence, pág. 189)

(…) Você vai à escola, à faculdade e aprende uma técnica para ganhar a vida; pelos seguintes quarenta ou cinqüenta anos você gasta sua vida, seu tempo, sua energia, seu pensamento, naquele pequeno campo de especialização. Não obstante, há o vasto campo da mente. A menos que realizemos uma mudança radical nessa fragmentação, não pode haver revolução em absoluto; haverá modificações econômicas, sociais e na chamada cultura, mas o homem continuará sofrendo, em conflito, guerra, miséria, lamentações e aflições. (Idem, pág. 189)

Ao abandonarmos a idéia (…) Mas, foi de certo o pensamento que criou todas essas contradições. O pensamento, que é reação da memória, (…) do conhecimento acumulado, esse próprio pensamento é um fragmento. E é sempre um fragmento porque ele resulta do passado (…) Assim, o pensamento (…) é necessariamente fragmentário e produzirá sempre divisão. Sem dúvida, é ele o “observador” (…) Por conseguinte, o próprio observador é a causa da fragmentação. (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 122)

É evidente que nossas mentes estão condicionadas pelas crenças – cristãs, hindus, budistas, etc. A não ser que se esteja completamente liberto de crenças, não é possível observar, descobrir por si mesmo, se há uma Realidade que não pode ser corrompida pelo pensamento. E é preciso também estar liberto de toda a moralidade social, porque a moralidade da sociedade não é moral. A mente que não é profundamente moral, que não está enraizada na retidão, não é capaz de ser livre. (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 87)

Obviamente, (…) Observa-se a divisão, fragmentação que ocorre, não apenas no nível físico, mas também no nível religioso. Fisicamente, geograficamente, há divisão entre nacionalidades, governos poderosos com seus exércitos, defesa, etc.; há a divisão econômica, (…) entre brancos e negros, e entre as próprias pessoas de cor. Há também divisão entre as pessoas religiosas. Católicos contra protestantes, hindus contra muçulmanos e assim por diante. Por todo o mundo há fragmentação entre o homem de negócio e o artista, (…) o leigo e o cientista e, ainda, entre o homem comum e o de especialização técnica. (…) (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 3-4)

Antes de tudo, temos de descobrir o que é a ação, uma ação total, completa e não-fragmentária, pois nossa vida, como se apresenta hoje, é fragmentada. Há a ação do homem de negócios desassociada do artista, e a do artista isolada do cientista, e a do cientista afastada do homem religioso e o homem religioso separado do trabalhador, etc. Há várias fragmentações da religião, o hinduísta, o budista, o cristão, etc. Há fragmentações na política, divisão nacional, econômica, moral. (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 66)

Estamos indagando (…) A pessoa que em geral consideramos séria é um ente humano parcialmente sério, isto é, sério em relação a certa coisa. Sua mente funciona fragmentariamente. É muito “sério”, por exemplo, em relação à pintura; (…) mas da outra parte da mente não está cônscio, não a leva sequer em consideração. (…) (O Encontro com o Eterno, pág. 20)

(…) Suas atividades sociais, (…) reações diárias, etc., são sem importância, porque ele se consagrou de corpo e alma a certo fragmento da existência. Poderá ser artista, cientista, poeta, escritor, porém, enquanto, política ou religiosamente, sua mente funcionar fragmentariamente e se mantiver ligada a esse fragmento, tal atividade fragmentária, de certo, não indica seriedade, porquanto contradiz a outra parte da existência. (Idem, pág. 20)

Seria possível ficarmos totalmente atentos ao todo da vida, não apenas aos fragmentos, às partes, porém à sua totalidade? Se uma pessoa é verdadeiramente séria, não existe contradição. (…) Examinai o que se está dizendo e, por vós mesmos, senti, tomai conhecimento dessa ação fragmentária, para não considerardes sério aquilo que não o é, descobrirdes o que é uma mente realmente séria, que não funciona por fragmentos, porém considera o todo. Esta, de certo, é a mente séria: a mente que está cônscia do processo total da vida. (Encontro com o Eterno, pág. 20-21)

Um dos mais importantes problemas, ainda por resolver, é o de estabelecer uma unidade completa, algo que esteja além do fragmentário e egocêntrico interesse no “eu”, em qualquer nível que seja – social, econômico ou religioso. O “eu” e o “não-eu”, o “nós” e “eles” são os fatores da divisão. (Fora da Violência, pág. 139)

Há possibilidade de alguma vez ultrapassar-se a atividade do interesse egocêntrico? Se uma coisa é “possível”, temos grande abundância de energia; o que desperdiça energia é o sentimento de não ser ela possível e (…) ficarmos vagando ao sabor da corrente (…) (Idem, pág. 139)

Como é possível ultrapassar a atividade do interesse egocêntrico – reconhecendo-se que há no ente humano uma grande porção da agressividade e da violência do animal, (…) de sua atividade irracional e daninha; e reconhecendo o quanto o ente humano está emaranhado em crenças, dogmas e teorias “separativas” (…)? (Idem, pág. 139)

Assim, ante essa vasta fragmentação, existente tanto interior como exteriormente, a única solução é o ente humano produzir em si próprio uma revolução radical, profunda. Este é um problema muito sério, uma questão concernente a toda a nossa vida; ela implica a meditação, a verdade, a beleza e o amor. (Fora da Violência, pág. 150)

(…) Nossa vida, toda ela, é ação em estado de fragmentação. Somos entes humanos fragmentados, tanto exterior como interiormente. Vede o que está acontecendo na Índia (…) É uma fragmentação contínua, não só politicamente, mas também na religião – católicos contra protestantes, hinduístas contra muçulmanos – e na vida pública e particular. (…) (O Novo Ente Humano, pág. 12)

Na vida particular sois uma coisa e, em público, sois outra coisa. Viveis num estado de fragmentação. (…) Podeis ver que isso está sucedendo no mundo inteiro e também dentro de vós, essa fragmentação – observador e coisa observada, analista e coisa analisada. (Idem, pág. 12)

Cada um tem sua própria profissão particular, (…) crença, (…) convicção e experiências, às quais se apega; portanto, cada um está se isolando a si mesmo. Essa atividade egocêntrica se expressa exteriormente como nacionalismo, como intolerância religiosa (…) E, ao mesmo tempo, cada um de nós se isola a si mesmo dos demais. (La Llama de la Atención, pág. 98)

Portanto, se somos conscientes de tudo isto, qual é nossa resposta (…) a todo fenômeno que sucede no mundo? Deve o indivíduo considerar somente sua própria vida pessoal, como viver em algum rincão uma vida tranqüila, serena, sem perturbações? Ou se interessa ele pela existência humana total, pela humanidade total? Se ele se interessa somente pela própria vida particular, (…) então não compreende que a parte pertence ao todo. Deve-se olhar a vida, não a vida americana ou a asiática, senão a vida como totalidade. (…). (Idem, pág. 99)

(…) Já expliquei (…) Dividimos nossas vidas em muitos fragmentos, não é? – o cientista, o homem de negócios, o artista, a dona-de-casa, etc. Qual é a base, a raiz dessa fragmentação? A raiz dessa fragmentação é o observador separado da coisa observada. Ele fragmenta a vida: sou hindu e você católico, sou comunista e você, burguês. Então essa divisão, no decorrer do tempo, sempre ocorre. E eu indago: “por que há essa divisão, e qual a causa?” – não apenas no externo, econômico, na estrutura social, mas muito mais profundamente. Essa divisão é realizada pelo “eu” e pelo “não-eu” – o “eu” que quer ser superior, famoso, maior – que considera você como diferente. (The Awakening of Intelligence, pág. 71-72)

Ao observarmos as diversas atividades dos diferentes campos de nossa vida, somos inevitavelmente levados a perguntar se existe alguma possibilidade de juntá-los, uni-los, produzir uma integração, de modo que o que fizermos em casa ou no escritório – qualquer coisa que façamos – revele coerência, não seja contraditório e, por conseguinte, não crie dor. Isto é: existe uma ação verdadeira e plena em todos os campos? Não sei se já refletistes nesse problema, ou seja, se existe possibilidade de integrar, unir, harmonizar as ações, desejos, propósitos e impulsos contraditórios de nossa vida. Afinal, (…) onde há contradição há dor, há luta, sofrimento e aflição. (Palestras com Estudantes Americanos, pág. 121-122)

E deveis ver, também, que necessitais energia, não? Ora, a energia que temos está dividida, é também fragmentária. (…) Em cada fragmento há energia (…) Dividimos, pois, a energia em fragmentos, ao passo que a energia humana, a energia cósmica, toda e qualquer espécie de energia é um movimento unitário. Como dissemos, necessitamos de energia para compreendermos a estrutura e a natureza do conflito e fazermo-lo cessar. Necessitamos de intensa energia, e não de energia fragmentária (…) quando dizemos: “Preciso libertar-me do conflito”. (O Novo Ente Humano, pág. 73)

Quem é o “eu” que diz “devo livrar-me do conflito” ou “devo reprimi-lo”? É uma fração de energia a falar de outra fração de energia. São, portanto, energias em conflito. Estamos indagando qual é a causa desse conflito. É bem fácil achá-la: a causa é o observador separado da coisa observada. (…) (Idem, pág. 73)

Para pordes fim a essa batalha, deveis olhar todo o campo da existência; não apenas uma parte dele: sua totalidade. Em nosso estado atual, somos incapazes de observar o campo inteiro – o todo – porque dividimos a vida em vida de negócios, (…) de família, vida religiosa; e como cada uma dessas frações tem sua própria energia ativa, cada fragmento está oposto aos outros fragmentos e, assim, essas energias fragmentárias estão dissipando nossa energia total. (O Novo Ente Humano, pág. 75)

Vemos o quadro inteiro, ou apenas uma parte dele, um detalhe? Essa é uma pergunta muito importante (…), porque nós vemos as coisas em fragmentos e pensamos em fragmentos. (…) Temos, pois, de investigar o que significa ver totalmente. Perguntamos se nossa mente pode ver o todo, apesar de ter sempre funcionado fragmentariamente, como nacionalista, (…) coletividade, (…) católico, alemão, russo, francês ou (…) numa sociedade tecnológica, funcionando numa especialidade, etc. – tudo dividido em fragmentos, com o bem oposto ao mal, o ódio ao amor (…) (Como Viver neste Mundo, pág. 21)

Assim, para se ver alguma coisa totalmente, (…) a mente deve estar livre de toda fragmentação, porquanto a origem da fragmentação é justamente aquele centro de onde estamos olhando. O fundo, a cultura, na qual o indivíduo é (…) protestante, comunista, socialista (…), é o centro de onde se está olhando. Assim, enquanto estamos a olhar a vida de certo ponto de vista, ou de dada experiência (…) que constitui nosso fundo, nosso “eu”, não podemos ver a totalidade. (…) (Idem, pág. 21)

(…) Só se pode ver a totalidade de uma coisa quando o pensamento não interfere, porque então não se vê verbalmente nem intelectualmente, porém realmente (…) Vemos então a realidade, i.e., que somos dependentes (…) Observamos, e fazemo-lo sem termos um centro, (…) estrutura do pensamento. Quando há observação dessa espécie, vê-se o quadro inteiro e não um simples fragmento dele; e quando a mente vê o quadro inteiro, há liberdade. (Como Viver neste Mundo, pág. 22)

Acabamos de descobrir duas coisas. A primeira, que há dissipação de energia quando há fragmentação. (…) A segunda (…) foi que esse descobrimento dá-nos energia para enfrentar todos os fragmentos que forem surgindo e, conseqüentemente, observando-os à medida que surgem, eles vão sendo dissolvidos. (Idem, pág. 22)

Descobriu-se a própria origem da dissipação de energia e que toda fragmentação, divisão, conflito (…) é desperdício de energia. Todavia, pode-se pensar que não há desperdício de energia no imitar e aceitar a autoridade, no depender do sacerdote, (…) do dogma, do partido, (…) da ideologia – porque então a pessoa aceita e segue. Mas o seguir e o aceitar uma ideologia (…) representa uma atividade fragmentária e, por conseguinte, causa conflito. (Idem, pág. 22)

Quanto melhor percebemos (…) Para compreender e libertar-se do problema das relações, necessita-se de abundante energia, não só energia física e intelectual, mas também uma energia não “motivada” nem dependente de estímulos psicológicos ou de drogas (…) Para se ter essa energia, é necessário compreender primeiramente a maneira como dissipamos energia. (…) (Como Viver neste Mundo, pág. 18)

Fechar Menu