Todos os problemas humanos emanam desse centro extraordinariamente complexo e vivo que é o “eu”, e o homem que deseja descobrir seus sutis movimentos tem de estar negativamente cônscio, observando sem escolher. Todo esforço para ver, toda (…) compulsão desfigura o que se vê, e, por conseguinte, não há ver. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 82)

Porque, não podemos pôr de lado o nosso saber, nossas experiências e lembranças, pois essas coisas têm existência. Mas podemos observá-las, no seu desfilar, sem nos apegarmos a nenhuma delas, agradável ou desagradável. Isso não requer exercício. Porque, quando nos exercitamos, estamos acumulando; e sempre que há acumulação há fortalecimento do “eu”. (…) (Poder e Realização, pág. 72)

Por trás dessa observação superficial, está a reação de nosso condicionamento. Eu gosto e não gosto. (…) Não podeis estar cônscio totalmente, se estais a escolher. Se dizeis “isto é certo e aquilo é errado”, o “certo” e o “errado” dependem de vosso condicionamento. O que para vós é “certo”, no extremo oriente pode ser “errado”. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 56)

Em tudo isso, o mal é a total falta de autoconhecimento. Conhecer a si próprio é pôr fim ao sofrimento. Temos medo de nos conhecermos porque nos dividimos em fragmentos bons e maus, ignóbeis e nobres, puros e impuros. O “bom” está sempre a julgar o “mau”, e esses fragmentos vivem em guerra uns com os outros. Essa guerra é o sofrimento. Essa fragmentação da vida em “alto” e “baixo”, “nobre” e “ignóbil”, “Deus” e o “demônio”, gera conflito e dor. (A Luz que não se Apaga, pág. 98)

Um dos fatores da consciência é o desejo. Por causa da percepção, o contato e a sensação, o pensamento cria a imagem, e a persecução dessa imagem é o desejo de realizar. Pois bem, pode-se observar a sensação sem que isso termine em desejo? Simplesmente observar. Significa isso que se deve compreender a natureza do pensamento, porque é o pensamento que dá continuidade ao desejo; o pensamento é que cria a imagem a partir da sensação, seguida pela persecução dessa imagem. (La Totalidad de la Vida, pág. 199)

O pensamento pretende conceber o imensurável, o atemporal, algo que está mais além dele mesmo, e assim projeta toda sorte de imagens ilusórias. Pode-se observar todo o movimento do desejo, sem as imagens e a persecução dessas imagens, sem ficar de tal modo envolto na frustração, na esperança de realização, etc.? Simplesmente, observar o movimento do desejo, dar-se conta dele. (Idem, pág. 200)

Pode-se ser livre psicologicamente, porém sem se ficar aprisionado na ilusão de que se é livre? Havendo compreendido a natureza do desejo e seu movimento, suas imagens, seus conflitos, podemos então olhar o temor em nós mesmos. Então se pode investigar todo o problema do temor, não uma forma particular do temor, senão ir até a raiz mesma, o que é muito mais simples e rápido que tomar os numerosos ramos do temor e podá-los. Ao observar a totalidade do temor, se chega então à raiz. E isso só pode fazer-se quando se observam todas as diversas formas de temores. (…) (La Totalidad de la Vida, pág. 200)

Compreender-se a si mesmo é de suma importância. Porque o “eu” é desejo, é uma entidade ativa, sempre em movimento, sem estabilidade. (…) Deveis compreender o desejo logo que surge, momento a momento; mas, como as nossas mentes são incapazes de rápido acompanhamento, pronta adaptação e imediata percepção (…), traduzimos esse desejo de acordo com um padrão a que estamos habituados, e esse padrão se torna uma reação condicionada ao desafio (…). (A Arte da Libertação, pág. 137)

Para compreendermos o desejo, não devemos pensar em modificar esse desejo ou em alcançar um resultado. Olhai cada desejo que se manifeste, sem procurar traduzi-lo; deixai que o conteúdo desse desejo vos comunique a sua significação. (…) Vereis, então, como o desejo vos deixa conhecer todo o seu significado; e só quando compreendeis o conteúdo do desejo, é que tendes liberdade. (A Arte da Libertação pág. 137-138)

E (…) se “vivermos com ele” – sem rejeitá-lo ou dizer: “que farei com este desejo”? ( … ) É então o desejo algo que se deva lançar fora, destruir? Desejamos destruí-lo porque (…) está em antagonismo com outro, criando conflito, sofrimento e contradição. (…) Assim, pode-se estar cônscio da totalidade do desejo? O que entendo por totalidade não é simplesmente um desejo ou muitos desejos, mas a “qualidade total” do próprio desejo.

E só se pode estar cônscio da totalidade do desejo quando não há opinião a seu respeito. (…) Estar cônscio de cada desejo, ao surgir, não se identificar com ele nem condená-lo – nesse estado de vigilância existe desejo ou o que existe é uma chama, uma paixão que nos é necessária? A palavra “paixão” é de ordinário reservada para uma coisa: o sexo. Mas, para mim, paixão não é sexo. Precisamos de paixão, intensidade, para podermos viver realmente com uma coisa; para vivermos plenamente, contemplamos uma montanha, uma árvore (…) Mas essa paixão, essa chama, é negada, quando estamos tolhidos por vários impulsos, exigências, contradições, temores. (…) (O Passo Decisivo, pág. 227-228)

(…) Se desejamos ficar livres de uma qualidade, precisamos compreender integralmente o processo do pensador e do pensamento, ( … ) perceber a verdade de que o pensador não está separado do pensamento e que ambos constituem um processo singular, unitário. Se realmente perceberdes isso, vereis a extraordinária revolução que se realizará em vossa vida. (…) Mas, logo que o pensador percebe que não é diferente do pensamento, vereis então que, radicalmente, profundamente, se opera uma transformação extraordinária; porque então existe apenas o fato do pensamento, e não a interpretação desse fato conforme a agrado do pensador. (Por que não te Satisfaz a Vida, pág. 19)

Pois bem; que há para se compreender num fato? Nada, decerto. Um fato é um fato. (…) Mas, se não existe o pensador, mas somente o fato, então este não precisa ser compreendido – é um fato; e quando estais frente a frente com um fato, que acontece? Quando não há fuga, (…) não há pensador querendo dar ao fato um significado que lhe convenha, ou moldá-lo, que acontece? Quando estais frente a frente com um fato, então, por certo, vós o compreendeis. (…) Por conseguinte, estais liberto dele. (…) (Idem, pág. 19-20)

Assim, (…) enquanto existir uma entidade separada, que observa que seu pensamento está condicionado, nunca haverá possibilidade de libertação do condicionamento, porque tanto o observador como a coisa observada, tanto o pensador como o pensamento, estão condicionados.

Não há um pensador separado, não condicionado, porque o pensador é resultado do pensamento, e o pensamento, resultado de condicionamento – por conseguinte, o pensador não pode descondicionar a mente (…) Quando o pensador percebe que ele próprio é pensamento, que o observador é a coisa observada (…) só então é possível descondicionar-se a mente. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 26)

(…) Enquanto houver observador e coisa observada, o condicionamento tem de continuar. Por mais que o observador, o pensador, o censor lute para livrar-se de seu condicionamento, continuará preso nesse condicionamento, uma vez que a divisão entre “pensador” e “pensamento”, “experimentador” e “experiência” é o próprio fator que perpetua o condicionamento. (…) (Realização sem Esforço, pág. 42)

O importante é romper essa muralha de condicionamento, de hábito. E muitos de nós achamos que podemos rompê-la por meio da análise. (…) A muralha do hábito só pode ser rompida quando a pessoa está completamente cônscia, sem escolha, negativamente vigilante. (O Homem e seus Desejos em Conflito, pág. 164)

(…) Se olhais realmente para uma coisa, a vossa mente se torna muito quieta, porque então já não estais julgando, (…) traduzindo o que vedes em termos de comparação. Estais apenas olhando – e é isso o que eu entendo por observar negativamente. Se puderdes olhar a vós mesmos dessa maneira, vereis que todos os hábitos e condicionamentos inconscientes se terão reduzido a uma só coisa, a qual, pela compreensão direta, tereis despedaçado completamente. (…) (Idem, pág. 165)

Parece-me, pois, que, ao tentarmos encontrar a solução de dado problema, estamos evitando a compreensão do próprio problema. Ora, se em vez de procurar solução para o problema, começo a compreendê-lo, a esclarecê-lo, então, nesse mesmo processo, aparece a solução. Não tenho de procurá-lo fora do problema. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 78)

Assim, para compreendermos a nós mesmos, é preciso percebimento. Esse percebimento implica que não deve haver justificação, nem condenação, nem comparação. Justificação, condenação e comparação estão dentro da esfera do tempo; são ditadas pelo nosso condicionamento. Olhamos as coisas como ingleses, hindus, cristãos ou comunistas. A observação de nosso pensar está condicionada pelas influências culturais e educativas de nosso ambiente, e, se não estamos cônscios desse condicionamento, não podemos ver o que ele é, (…) o fato. (…) (Idem, pág. 79)

Para verdes e compreenderdes a entidade sobremodo complexa que sois, deveis olhar-vos sem esse fundo de condenação, justificação e comparação. E quando olhardes a vós mesmo sem esse fundo, ver-vos-eis totalmente. (Idem, pág. 79)

Ora, que acontece quando vejo o fato de que minto, ou de que sou ambicioso, ou invejoso ou ávido? Quando olho para o fato sem nenhuma opinião, (…) lembrança (…) já não há então nenhum obstáculo à minha percepção do fato. Posso olhá-lo sem desvio nem desfiguração; e, então, esse próprio fato gera a energia de que preciso para tratar dele. (…) (Idem, pág. 80)

Mas é preciso que “experimentemos” isso; não podemos ir mais longe sem “experimentar”. (…) Mas, uma mente que está tranqüila, que não é posta tranqüila, que não é forçada ao silêncio, (…) que está tranqüila porque tem verdadeiro interesse, porque divisou a verdade, porque a verdade veio a ela, é inteligente e está liberta do conflito. O conflito se dissolve pela percepção de cada movimento do pensamento e do sentimento, e pela percepção da verdade relativa a tais experimentos. (…) (O que te fará Feliz?, pág. 96-97)

Isto é, se estiverdes plenamente despertos, apercebidos de uma ação que exija o vosso ser inteiro, então percebereis que todas essas perversões ocultas, inconscientes, virão à tona e vos impedirão de agir plenamente, de modo completo. Será essa a ocasião, então, de lhes fazer frente, e se a chama do apercebimento for intensa, essa chama consumirá as causas limitadoras. (Palestras em New York City, 1935, pág. 32)

O necessário é esse extraordinário estado de atenção, no qual olhais e escutais, sem decisão, sem motivo, sem finalidade – e isso é, realmente, atenção sem escolha. E o conhecer-vos não é um processo de adição. É verdes a vós mesmo como sois: colérico, ciumento, lúbrico, invejoso; é observar simplesmente o fato; e essa observação sem análise revela todo o conteúdo do fato, e não tendes de fazer nenhum esforço para descobri-lo. No momento em que fazeis esforço para analisar, para compreender, estais desfigurando o fato; estais pondo em ação o vosso condicionamento, como analista, como cristão, como isto ou aquilo. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 66)

Nesta manhã desejo falar sobre essa “qualidade” que é a liberdade (…) Por atenção entendo “estar completamente presente, com toda a mente e o coração”. (…) A liberdade vem sem ser buscada, quando há atenção total. A atenção total é a qualidade própria de uma mente que não tem limites, não tem fronteiras. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 154-155)

Para compreender o significado da atenção plena, é necessário compreender, primeiro, o significado da distração; porque, quando um homem não está distraído, há atenção plena. (…) (A Arte da Libertação, pág. 138)

Agora, que significa distração? Significa que escolheis uma idéia entre muitas idéias, (…) um interesse entre muitos interesses, e procurais fixar a mente nesse objeto particular. (…) Nosso problema é compreender cada interesse, indiscriminadamente, e não escolher um interesse e procurar afastar os outros, que chamamos distrações. Se a mente é capaz de compreender cada interesse que surge, e, portanto, de libertar-se de cada interesse, nessa liberdade encontrareis a plena atenção. (…) (Idem, pág. 139)

(…) Desse percebimento sem escolha vem a atenção; não é a “atenção a alguma coisa”, porém atenção pura e simples, um estado de total atenção, sem desejo de experiência. Nessa atenção não há desejo de mudança. E, quando há essa atenção total, vê-se que já não há objeto; por conseguinte, existe espaço e, em virtude desse espaço, silêncio completo. (A Suprema Realização, pág. 76)

Acho importante compreender a diferença entre “atenção” e “concentração”. A concentração implica escolha. (…) Estais procurando concentrar-vos e outros pensamentos estão interferindo. (…) Na atenção não há enfocamento, (…) escolha; há percebimento completo, sem interpretação. E (…) essa mesma atenção produzirá o milagre da transformação, na própria mente. (Realização sem Esforço, pág. 9-10)

A atenção não deve ser forçada, concentrada; a mente não deve ser impelida a prestar atenção a uma coisa. Vede (…): no momento em que tendes um “motivo” para prestar atenção, não há mais atenção, porque é mais importante o motivo do que o prestar atenção. (…) Qualquer forma de atenção com um objetivo em vista, se torna desatenção, gera indolência. (…) Esse é um dos fatores da desatenção; outro fator é a “verbalização” ou qualquer espécie de explicação. (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 226)

Assim sendo, posso prestar atenção, sem ter motivo algum? Pode a minha mente existir sem nenhum incentivo, nenhum “motivo” para me transformar ou não me transformar? Porque todo motivo resulta da reação de determinada cultura, (…) de determinado background. (…) (Transformação Fundamental, pág. 57)

(…) A mim me parece que a única coisa importante é a atenção. (…) A atenção que tem em mira um objetivo já não é atenção. (…) Nesse estado de atenção completa, não há contradição dentro de nós mesmos, não há batalha entre o consciente e o inconsciente – é a atenção total. (Transformação Fundamental, pág. 42)

E é necessário esse espírito de observação, que ao mesmo tempo explora e observa, escuta e percebe. É nesse sentido que estou empregando a palavra “observar”. (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 72)

E desse observar, (…) escutar, ver, vigiar, nasce aquela extraordinária beleza da virtude. Não há outra virtude, senão aquela que vem com o autoconhecimento. (…) (Idem, pág. 72)

Estou aprendendo a respeito de mim mesmo (não de acordo com tal psicólogo ou especialista). Estou a observar-me, e vejo em mim mesmo certa coisa: não a condeno, não a julgo, não a ponho de lado – observo-a, apenas. Vejo que sou uma pessoa orgulhosa (…) Não digo: “que coisa feia o orgulho; preciso afastá-lo” – observo-o, apenas. Observando, estou aprendendo; observar o orgulho significa aprender o que nele está latente, como se originou ele. (…) (A Questão do Impossível, pág. 28)

Se você puder fazê-lo, então poderá observar seu condicionamento de forma total; então você pode olhar para ele com uma mente que não está marcada pelo passado, e assim a própria mente fica livre do condicionamento. Para olhar a mim mesmo – como geralmente o fazemos – olho como um observador olhando para a coisa observada. (…) O observador é o conhecimento, o passado, o tempo, as experiências acumuladas – ele se separa da coisa observada. (The Awakening of Intelligence, pág. 89)

Ao examinar o problema da consciência e seu conteúdo, é muito importante descobrir se é o indivíduo que está observando a consciência ou se, no ato de observar, é a consciência que se dá conta de si mesma. (…) Então o pensamento se dá conta de que se observa a si mesmo, que não há “eu” (…) que esteja observando a consciência.

Só existe a observação; então a consciência começa a revelar seu conteúdo, não só da consciência superficial, senão das camadas profundas, o conteúdo total da consciência. Se o indivíduo vê (…) de uma observação pura, absolutamente quieta, então a coisa floresce; a consciência abre suas portas. (La Totalidad de la Vida, pág. 93)

Aprende-se assim a arte de observar sem nenhuma distorção, nenhum motivo, (…) propósito – simplesmente observar. Nisso há extraordinária beleza, porque então não existe deformação alguma. As coisas apresentam-se claramente, como são. Porém, se se faz delas uma abstração, convertendo-as em idéias e depois se observa através dessas idéias, isso então é uma distorção. (Idem, pág. 193)

Livremente, sem nenhum fator de distorção, se penetra na observação da consciência. Não há nada oculto, e a consciência começa a revelar sua própria totalidade, seu conteúdo; as feridas, a cobiça, a inveja, a felicidade, as crenças, as ideologias, as tradições passadas, (…) presentes (…) Portanto, pode-se observar a consciência, de modo que esta revele seu conteúdo? – não pouco, mas a totalidade de seu movimento. Só então é possível ir mais além. (Idem, pág. 193-194)

(… ) A mente, observando o que faz, o que tem feito – ou seja, fortalecer o centro – mediante a simples observação torna-se extraordinariamente alerta. Correto? Você nada faz para torná-la alerta, senão que, ao vigiar simplesmente o movimento do pensar, passo a passo, ela se torna extraordinariamente clara.

Então a mente formula a pergunta: “Como há de desaparecer o centro?” Já no momento de formular essa pergunta, a mente vê toda a estrutura do centro. Vê, visualiza realmente; tal como vejo aquela árvore, também vejo isso. (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 67)

É possível esvaziar-se de todo a consciência, a totalidade da mente, com todos os seus artifícios e vaidades, (…) embustes, anseios e códigos de moral, etc. – tudo isso com base essencialmente no prazer? Pode uma pessoa libertar-se totalmente, esvaziar a sua mente, de modo que possa olhar, agir, viver de maneira de todo nova, diferente? Digo que isso é possível. (…) Só é possível se se percebe que o observador, o centro, é a coisa observada. (A Importância da Transformação, pág. 11)

Pode a mente olhar o fato não dualisticamente? Ou seja, eu, o observador, ao invés de relacionar esse fato a algo separado de mim, posso olhá-lo sem essa separação? Posso olhar, e também a mente olhar, não como um observador ou uma entidade que deseje mudar ou transformar o que observa, mas olhar sem o observador? Pode a mente olhar somente o fato – não o que o pensamento julga do fato – as opiniões, as conclusões, os preconceitos, o gosto e a aversão, o sentimento de frustração e desapontamento.

Apenas observar, sem que o pensamento reaja ao que está sendo observado. Penso que isso seja a atenção total; observar com tal sensibilidade que o cérebro todo, que está tão condicionado, tão consumido pelas próprias conclusões, idéias, prazeres e esperanças, esteja completamente quieto e, no entanto, vivo para aquilo que está observando. Estou me tornando claro? (Talks and Discussions at Brockwood Park, 1969, pág. 10-11)

“O que é” só pode ser observado quando não há “eu”. No momento em que o cérebro opera, há distorção. Olhem algo sem mover os olhos e vejam como o cérebro se aquieta. Observa-se então, não só com os olhos, senão com toda a atenção, afeição. Então há uma observação de fato – não a idéia do fato. Aborda-se “o que é”, fazendo-o com solicitude, dedicação, e, portanto, não há juízo, (…) condenação; por conseqüência, se está livre dos opostos. (La Totalidad de la Vida, pág. 220-221)

Muito importa, pois, aprender a ver, a observar. Não apenas o fenômeno externo, mas também o estado interior do homem. Porque, a menos que haja uma revolução fundamental, radical, na psique, na raiz mesma de nosso ser, o mero apagar, o mero legislar na periferia é insignificante. Assim, o que nos interessa é descobrir se o homem é capaz de efetuar uma radical transformação em si próprio. Esse próprio percebimento produzirá a transformação radical. (Fora da Violência, pág. 13)

Para observar, necessita-se de liberdade. Em regra estamos fortemente condicionados pela sociedade em que vivemos, pela cultura em que crescemos. (…) Com a mente condicionada, evidentemente não temos liberdade para observar. (…) A questão, pois, é se a mente tem alguma possibilidade de descondicionar-se, para que possa ser livre. (Palestras com Estudantes Americanos, pág.14)

(…) Como libertar o pensamento da ansiedade? Percebemos a causa da ganância – o desejo de satisfação, de prazer, mas como dissolvê-la? Através da aplicação da vontade? Então, de que espécie de vontade? Vontade de dominar, de refrear, de renunciar? Sendo ganancioso, avarento, mundano, não é o nosso problema desembaraçar o pensamento da ganância? (Palestras em Ojai e Sarobia, 1940, pág. 25-26)

Se estiverdes alerta, observareis profundamente o processo da ansiedade; vereis que nessa observação há um desejo de escolher, de racionalizar, mas esse desejo ainda faz parte da ansiedade. Deveis estar profundamente apercebidos das sutilezas da ansiedade e, pela experimentação, surge a compreensão integral, a única que liberta radicalmente o pensamento da ansiedade. (…) (Idem, pág. 27)

(…) Se sou ciumento (…) tenho de ver esse fato integralmente, mediante observação total, e não parcial. Olho o meu ciúme – por que sou ciumento? Porque me vejo sozinho (…) e subitamente me vejo frente a frente com meu vazio, meu isolamento, e isso me faz medo. (…) Posso compreender imediatamente essa solidão? Só posso compreendê-la, observando-a, não fugindo dela; olhando-a, observando-a criticamente, com a inteligência desperta, sem procurar escusas, sem tentar preencher o vazio. (…) (O Vôo da Águia, pág. 84)

Para olhá-la, tenho de estar em liberdade; quando há essa liberdade para olhar, estou livre do ciúme. Assim, o percebimento, a observação total do ciúme, e o libertar-me dele não depende do tempo, mas, sim, de lhe dar atenção completa, percebimento crítico, observando (…) sem escolha, à medida que se apresenta. Há então liberdade – não no futuro, mas agora – estamos então livres disso que chamamos “ciúme”. (Idem, pág. 84)

O mesmo se pode dizer da violência, da cólera ou de qualquer hábito, como o fumar, o beber, ou o hábito sexual. (…) Uma vez em ação esse percebimento, todas as coisas que surgem – cólera, ciúme, violência, brutalidade, hipocrisia, inimizade – podem ser observadas, por inteiro, instantaneamente. Essa observação é libertadora, e a coisa (…) deixa de existir. (…) A idéia de gradualidade não denota indolência, incapacidade para lidar com o passado no momento em que ele aparece? Quando se tem essa extraordinária capacidade de observar o passado tão logo ele surge, aplicando-se por inteiro a mente e o coração a observá-lo, o passado deixa de existir. (Idem, pág. 84)

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