A maioria de nós tem hábitos inúmeros. Temos hábitos e idiossincrasias, físicos, e, ao mesmo tempo, hábitos de pensamento. Cremos nisto e não cremos naquilo; somos patriotas, nacionalistas; e observamos tenazmente o seu especial padrão de pensamento. (…) Uma vez firmada numa série de hábitos, a mente parece funcionar um pouco mais livremente, mas, na realidade, ela é irrefletida, “não cônscia”. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 155)

Em parte por nossa educação escolar, em parte pelo condicionamento que a sociedade psicologicamente nos impõe, e também por nossa própria indolência, a nossa mente funciona numa série de hábitos. Se não aprovamos determinado hábito de que estamos bem cônscios, lutamos para quebrá-lo, e, quando quebramos um hábito, formamos outro. Parece não haver momento em que a mente esteja livre do hábito. (…) (Idem, pág. 155)

Consideremos um hábito muito simples, que muita gente tem: o hábito de fumar. Se fumais e desejais abandonar o hábito, a idéia de abandoná-lo cria uma resistência contra o fumar. Agora, pelo conflito ou pela resistência, podeis quebrar um hábito, mas isso não liberta vossa mente do processo formador de hábitos; o mecanismo criador dos hábitos não deixou de existir. (…) (Idem, pág. 155-156)

Temos hábitos de pensamento, hábitos sexuais – uma infinidade de hábitos, que tanto podem ser conscientes como inconscientes; e é sobretudo difícil ficarmos cônscios dos hábitos inconscientes. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 156-157)

Se não estamos libertos do passado, não há liberdade nenhuma, porque, assim, a mente nunca está nova, fresca, “inocente”. (…) A liberdade nada tem que ver com a idade da pessoa (…) com a experiência; e quer-me parecer que a própria essência da liberdade reside na compreensão de todo o mecanismo do hábito, consciente e inconsciente. (…) (Idem, pág. 158)

Mas, como, de que maneira e em que nível irá realizar-se essa revolução? (…) E observa-se, também, que a mente, o próprio cérebro se tornou mecânico e, por conseguinte, repetitivo: ensine-se-lhe certo padrão de comportamento, certas normas de conduta, atitudes, desejos, ambições, etc., e ele ficará funcionando dentro desse canal, desse padrão. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 90-91)

O problema, pois, consiste no seguinte: Meu pensamento está condicionado, fixado num padrão; e a qualquer estímulo, que é sempre novo, o meu pensamento só pode reagir de acordo com o seu condicionamento, transformando o novo no velho, modificado. Dessa maneira, o meu pensamento nunca pode ser livre. Meu pensamento, que é o produto de ontem, só é capaz de reagir nas mesmas condições de ontem. (…) (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 26)

(…) A mente subordinada à autoridade, sujeita à compulsão, não pode absolutamente ter ordem. Vede, pois, que o ajustamento a um padrão, por melhor, mais nobre e mais completo que seja, não produz ordem. Por conseguinte, temos de investigar, dentro de nós mesmos, todo esse “processo” de submissão a um padrão de vida, pois é isso, de fato, o que está acontecendo. Estais na sujeição de uma idéia, como nacional de um país, como hinduísta, como muçulmano. (…) Estais submisso a uma idéia e, portanto, ajustado a uma tradição. (…) (A Suprema Realização, pág. 178)

Ora, essa mente, até onde posso ver, funciona tão só como atividade egocêntrica; quer meditando em Deus, quer buscando satisfação sexual, praticando o ideal da “não-violência”, lançando-se a reformas sociais. (…) E é possível a mente libertar-se dessa atividade egocêntrica, sem compulsão, sem a disciplina do ajustamento a um padrão? (O Homem Livre, pág. 146)

O estado criador não exige, por certo, luta alguma; pelo contrário, sempre que há luta não há estado criador. Quando o “eu” está totalmente ausente, dá-se então a possibilidade de se manifestar esse estado criador. E enquanto a idéia predomina, tem de haver luta, (…) conflito. Isto é, o moldar a ação de conformidade com uma idéia gera, necessariamente, o conflito. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 48)

A maior parte das pessoas está sempre empenhada em viver de acordo com uma idéia. Primeiro surge a idéia – ser nobre, ser bom, ser espiritual, etc., etc. – e procuramos daí por diante viver de acordo com essa idéia. (…) Por que isso? Todo o processo de ideação não é produto do “eu”? (…) O “eu” cria o padrão. O “eu” é uma idéia, e, em conformidade com essa idéia, nós vivemos e tentamos proceder. (Idem, pág. 48)

A idéia, portanto, é sobretudo resultado da importância atribuída ao “eu”. (…) E tendo determinado a importância do “eu”, do “meu”, isto é, o padrão de comportamento, procuramos viver de acordo com ele. Daí a idéia de controlar a ação, impedir a ação. Considerai, por exemplo, a generosidade, (…) a do coração. Se uma pessoa fosse viver de acordo com essa generosidade, seria muito perigoso, (…) ocasionaria atritos de toda ordem com os padrões em vigor. Assim, a idéia intervém e controla a generosidade. (Idem, pág. 48-49)

Nestas últimas semanas temos considerado o problema da transformação. A meu ver, para realizar essa transformação, uma das coisas mais difíceis é cessar o esforço. Porque, para nós, a transformação implica sempre esforço. (…) Associamos o esforço à transformação. (…) É possível, porém, modificarmo-nos radicalmente, profundamente, fundamentalmente, sem nenhum esforço? Por outras palavras: só pode haver revolução radical com a completa cessação do esforço? Desejo examinar esse problema. (O Problema da Revolução Total, pág. 81)

A transformação, para a maioria de nós, implica esforço. Sou isto e, para me tornar aquilo, preciso fazer esforço. Na escola, depois de adultos (…) nos é inculcado esse “processo do esforço” consciente; estamos condicionados por essa idéia. (…) Dizemos que se necessita um esforço correto, constante exercício, controle, disciplina, um constante moldar da mente com palavras, explicações, diretrizes; (…) (Idem, pág. 81-82)

(…) Nessas condições, não é necessário compreendermos todos esses problemas (…) e verificar se existe a possibilidade de transformação sem a ação da vontade? Eu afirmo ser possível a transformação sem a ação da vontade. Essa é a única transformação. (…) Porém, para se compreender isso, requer-se muita penetração, muita meditação (…) a meditação que revela o processo completo do esforço. (Idem, pág. 87)

Talvez, se compreendermos o que é ação criadora, estejamos aptos a compreender o que significa esforço. É a criação resultado de esforço, e estamos cônscios nos momentos em que somos criadores? Ou é a criação um estado de auto-esquecimento (…) isento de agitação, em que estamos de todo inconscientes do movimento do pensamento, quando só há o existir (…) cheio de riqueza? (…) (A Arte da Libertação, pág. 197)

Não sei se já notastes que, quando fazeis uma coisa com facilidade, com presteza, não existe esforço, mas, sim, completa ausência de luta; mas como as nossas vidas, em geral, são uma série de batalhas, conflitos e lutas, somos incapazes de imaginar uma vida, um “estado de ser”, no qual tenha cessado toda luta. (Idem, pág. 107)

Pois bem, se não fazemos esforço para fugir, que acontece? Ficamos com essa solidão, com esse vazio; e, com a aceitação desse vazio, veremos surgir um estado criador, completamente isento de luta e de esforço. O esforço só existe enquanto desejamos evitar o vazio interior. (…) (Idem, pág. 109)

Mas quando há compreensão do que é, que é nosso vazio, nossa insuficiência interior, quando nos deixamos ficar com essa insuficiência e a compreendemos plenamente, surge a realidade criadora, a inteligência criadora, a única coisa que traz felicidade. (Idem, pág. 109)

(…) Todo esforço não significa luta por transformar a coisa “que é” naquilo que ela não é, ou naquilo que deveria ser ou deveria “vir-a-ser”? Isto é, vivemos a lutar para não olhar de frente “o que é”, ou procuramos fugir a ele, ou transformá-lo, ou modificá-lo. O homem que sente o verdadeiro contentamento é o homem que compreende o “que é” e atribui-lhe a sua significação própria. (Uma Nova Maneira de Viver, pág. 122)

O esforço, pois, representa uma distração que nos afasta do que é. (…) No momento em que aceito o que é, cessa a luta. Toda forma de luta ou de esforço denota distração, e a distração, que é esforço, existirá necessariamente enquanto eu desejar transformar a coisa “que é” no que ela “não é”. (…) (Idem, pág. 123)

Assim, desejo considerar (…) como poderemos realizar uma revolução, uma revolução psicológica, sem esforço. Estou empregando a palavra “esforço” no sentido de lutar, tentar alcançar ou vir-a-ser algo; emprego-a em referência à mente que, vendo-se envolvida em contradição, luta para superar, disciplinar, adaptar, ajustar, produzir uma modificação em si própria – estou empregando a palavra “esforço” em referência a tudo isso. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 13)

Ora, é possível efetuar uma revolução total sem esforço, não apenas na mente consciente, mas também nas camadas profundas, no inconsciente? Porque, quando fazemos esforço para promover em nós mesmos uma revolução psicológica, isso implica pressão, influência, motivo, direção, e tudo isso é resultado de nosso condicionamento. (Idem, pág. 13)

A realização da verdade vem somente quando há plenitude de ação sem esforço. E a cessação do esforço vem pelo apercebimento das limitações – não quando tentais vencê-las. Isto é, quando estiverdes inteiramente consciente, integralmente apercebido em vosso coração e em vossa mente, quando estiverdes apercebido com todo o vosso ser, então, por meio desse mesmo percebimento, estareis livre de limitações. Experimentai e vereis. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 27)

A vossa concepção da vida é baseada nesse princípio. O vosso esforço pelo atingimento, crescimento espiritual, é a conseqüência de vossos desejos de novas seguranças, novo engrandecimento, nova glória, e daí essa luta contínua e incessante. (Idem, pág. 27)

(…) Poderá o viver em conformidade com um padrão condutor, com um ideal, seguindo-o implacavelmente, meditando sobre ele, trazer-vos à descoberta de vós mesmo? Pode o que é real ser percebido através da disciplina ou da vontade? Isto é, pela compulsão, pelo esforço do intelecto, curvando-se, controlando, disciplinando, guiando, forçando o pensamento em uma direção particular, podeis conhecer-vos? (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág.77)

Tudo isso é esforço da vontade, que considero mecânico, um processo do intelecto. Podeis conhecer-vos pelo emprego desses meios – por intermédio de meios mecânicos? Todo esforço mecânico, ou da vontade, é formador de hábitos. Mediante a formação de hábitos, podeis ser capazes de criar certo estado, (…) mas como é resultado de esforço intelectual, ou esforço da vontade, é inteiramente mecânico e por isso não verdadeiro (…) (Idem, pág. 78)

Pode-se ver que a ação da vontade produz de fato certo resultado. Se desejo algo muito ardentemente, se o persigo pacientemente, tê-lo-ei. Mas isso implica o funcionamento da vontade, e a vontade é essencialmente um “processo” de resistência, e a mente cuja disciplina é puramente processo de resistência não pode de modo nenhum compreender a outra espécie de disciplina. (O Homem Livre, pág. 145)

Está cada um apercebido do processo mecânico do intelecto, da vontade, que destrói o espontâneo, o real? Não podeis responder imediatamente, mas podeis começar a pensar sobre o intelecto, sobre a vontade, e especialmente sentir a sua qualidade destrutiva. (…) (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 81)

Já que o medo não vos permite ser vós próprio, como, então, se pode dominar esse medo – medo de todos os tipos, não de um tipo particular? (…) Se estais inconsciente do medo, tornai-vos consciente dele; (…) O processo mecânico ou da vontade pode apenas ocultá-lo (…) guardá-lo e (…) restringi-lo, permitindo apenas as reações da moralidade controlada. Sob esse padrão de comportamento controlado, o medo sempre continua. Esse é o resultado inevitável do processo mecânico da vontade, com suas disciplinas, desejos (…) (Idem, pág. 82-83)

A ação da vontade é o “eu”; e, seja qual for a roupagem, a transformação que o “eu” deseja, sejam quais forem suas esperanças, insucessos, pesares – estamos sempre na esfera do “eu”. Nessa esfera não pode haver revolução, visto ser o “eu” a ação da vontade. Quando o ‘eu” diz: “Não devo ser ambicioso, não devo ser invejoso”, a vontade (…) está desejando ser outra coisa, positiva ou negativamente. Por conseguinte, aí está presente o “eu”. Se tiverdes realmente compreendido, quer dizer, se estais realmente escutando – vereis que a “vontade de ação” termina; e com esse terminar há uma transformação radical; não mais vos preocupa, então, a transformação do “eu”. (O Problema da Revolução Total, pág. 87-88)

Assim, a espontaneidade só pode surgir quando o intelecto não se está defendendo, (…) protegendo, quando já não teme por si; e isso só pode suceder partindo do interior. Isto é, o espontâneo deve ser o novo, o desconhecido, o incalculável, o criativo, o que deve ser expressado, amado, em que a vontade, como processo do intelecto, controlando, dirigindo, não toma parte. Observai os vossos próprios estados emocionais e vereis que os momentos de grande alegria, de grande êxtase, não são premeditados; eles acontecem, misteriosa, obscura, desconhecidamente (…) (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 79)

Há sempre guerra entre o espontâneo e o mecânico. Para mim, o que estou dizendo é vitalmente novo e não pode ser torcido para se adaptar aos vossos preconceitos particulares do “eu” superior e inferior, do transitório e do permanente, do “eu” e do “não-eu”. (…) A maioria de nós, infelizmente, quase destruiu essa espontaneidade, essa alegria criativa do desconhecido, a única de que pode resultar ação sábia. (…) (Idem, pág. 79-80)

(…) O processo da disciplina, da violência, do domínio, da resistência, da imitação – tudo isso é a resultante do desenvolvimento do mero intelecto, que tem suas raízes no medo. O mecânico é (…) dominante em nossas vidas. Nele está baseada a nossa civilização e a nossa moralidade; em raros momentos, quando a vontade está adormecida, esquecida, há a alegria do espontâneo, do desconhecida (Idem, pág. 80)

Portanto, qual é a condição interna necessária para sermos nós mesmos, para sermos espontâneos? A primeira condição interna necessária, é que o mecanismo formador de hábitos deve cessar. Qual é a força motriz atrás desse mecanismo? (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 87-88)

O desejo dá uma falsa continuidade ao nosso pensamento, e a mente apega-se a essa continuidade, cujas ações são apenas o seguimento de padrões, ideais, princípios, e o estabelecimento de hábito. Assim, a experiência jamais é nova, fresca, alegre, criativa. (…) (Idem, pág. 88)

Se existe esse hábito (da vaidade), quando dele vos tornardes conscientes, ele desaparecerá se realmente amais todo esse processo de viver. (…) Mas aqueles de vós que se acham profundamente interessados, (…) observai como este ou qualquer outro hábito cria uma cadeia de memórias que se tornam cada vez mais fortes, até que somente permanece o “eu”, o “mim”. Esse mecanismo é o “eu”, e, enquanto existir esse processo, não pode haver o êxtase do amor, da verdade. (Idem, pág. 93-94)

O poder-motor que está por trás da vontade é o medo, e, quando começamos a compreender isso, o mecanismo do hábito intervém, oferecendo novas fugas, novas esperanças. (…) Quando há apenas medo, sem nenhuma esperança de fuga, nos mais negros momentos, na mais completa solidão do medo, aí surge, como do interior de si próprio, a luz que o dissipará. (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 104)

(…) Ninguém pode, por modo algum, forçar a espontaneidade. Nenhum método vos dará a espontaneidade. Todos os métodos apenas criam reações mecânicas. Nenhuma disciplina produz a alegria espontânea do desconhecido. Quanto mais vos esforçardes para ser espontâneo, tanto mais a espontaneidade se afasta e se torna oculta e obscura, e menos pode ser compreendida. (…) Tendes de vos aproximar dela negativamente, não com a intenção de capturar o desconhecido, o real. (Palestras em Ommen, Holanda, 1937-1938, pág. 81)

Desejo explicar hoje que há um modo de viver naturalmente, espontaneamente, sem a constante fricção da autodisciplina, a constante batalha do ajustamento. (…) Precisais senti-lo, pois podeis realizar o preenchimento da vida somente quando as vossas emoções bem como os vossos pensamentos agirem em harmonia. Quando viveis completamente na harmonia de vossa mente e coração, então o vosso agir é natural, espontâneo, sem esforço. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 130)

O ciúme, em quase todos nós, tornou-se um hábito e, como todo hábito, tem continuidade. Quebrar o hábito significa, meramente, estar cônscio do hábito. (…) Estar cônscio de um hábito significa não o condenar, porém, simplesmente, observá-lo. (…) Nesse estado de total percebimento (…) descobrireis terdes eliminado completamente aquele sentimento habitualmente identificado com a palavra “ciúme” (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 151)

É só a mente embotada, sonolenta, que cria o hábito e a ele se apega. A mente que está atenta momento a momento – atenta para o que ela própria está dizendo, atenta para o movimento de suas mãos, de seus pensamentos, de seus sentimentos – descobrirá que se terá acabado a formação de hábitos. (…) A mente que se limita a freqüentar a igreja, a recitar orações, que está apegada a dogmas ou que abandona uma seita para ingressar noutra, não é uma mente religiosa. (…) Religiosa é a mente livre, num estado de constante “explosão”. (…) (Idem, pág. 158)

Um indivíduo é hinduísta, cristão, alemão, russo, suíço, americano, etc., com o respectivo conjunto de hábitos, do qual em geral está inconsciente. Como poderá o indivíduo ficar cônscio desse condicionamento? Como podereis tornar-vos cônscio do inconsciente, onde se encontra essa imensa série de hábitos não revelados? Como podereis ficar cônscio do padrão inconsciente que se acha profundamente enraizado em vós? Ireis procurar um psicanalista (…) para que ele vos “arranque” o padrão do inconsciente? Isso adiantará? Ou vós mesmos vos analisareis? (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 163)

O importante é romper essa muralha de condicionamento, de hábito. E muitos de nós achamos que poderemos rompê-la por meio da análise, quer feita por nós mesmos, quer por outrem; mas isso não é possível. A muralha do hábito só pode ser rompida quando a pessoa está completamente cônscia, sem escolha, negativamente vigilante. (Idem, pág. 164)

Existe um “método de quebrar o hábito”? Ora, método implica tempo, movimento de um ponto de partida para um ponto de chegada. Se virdes por vós mesmo que o tempo não vos liberta do hábito e que, por conseguinte, os métodos e sistemas para nada servem, ficareis então frente a frente com a realidade, o fato de que vossa mente está enredada no hábito. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 175-176)

E, então, que acontece? Não estais procurando modificar o hábito, não estais tentando quebrá-lo. Estais simplesmente em presença do fato de que vossa mente funciona na rotina do hábito. (…) Se não tentardes alterá-lo, o próprio fato vos dará uma extraordinária energia, com a qual podeis quebrá-lo completamente. Compreendeis? (…) Por conseguinte, vossa atenção é completa, toda a vossa energia se concentrou, e essa energia destroça totalmente o fato. (Idem, pág. 176)

Não sei se já vos observastes no ato de fumar. Com “observar-vos” quero dizer “estardes cônscio de cada movimento que fazeis”: como a vossa mão vai ao bolso, retira um cigarro, coloca-o na boca, volta ao bolso para apanhar os fósforos, acende o cigarro, e como, então, “puxais umas fumaças” e atirais fora o fósforo. O importante é dar-vos conta de todo esse processo, sem resistir-lhe, sem rejeitá-lo, sem desejardes ficar livre dele – estando, apenas, totalmente cônscio de cada movimento inerente ao hábito. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 155-156)

De modo idêntico, podeis estar cônscio do hábito da inveja, do hábito de adquirir, do hábito do medo; e então, observando, podereis ver o que está implicado nesse hábito. Vereis instantaneamente tudo o que a inveja implica; mas não podereis ver tudo o que a inveja implica, se, na vossa observação da inveja, entrar o elemento tempo. (…) (Idem, pág. 156)

Pensamos que podemos libertar-nos da inveja gradualmente e esforçamo-nos por afastá-la pouco a pouco, introduzindo assim a idéia do tempo. Dizemos: “Tentarei livrar-me da inveja amanhã, ou um pouco mais tarde” – e, entrementes, continuamos invejosos. (…) Ou quebramos um hábito imediatamente, ou ele continua existente, embotando gradualmente a mente e criando novos hábitos. (Idem, pág. 156)

Pergunta: Como se pode pôr fim aos hábitos?

Krishnamurti: Se pudermos compreender, nos seu todo, o processo do hábito, talvez tenhamos a possibilidade de pôr fim à formação dos hábitos. Pôr fim a determinado hábito, apenas, é relativamente fácil, mas o problema não fica resolvido. Todos temos vários hábitos, dos quais estamos ou não estamos cônscios; por conseqüência, devemos descobrir se nossa mente se deixou apanhar na armadilha do hábito, e a razão por que cria hábitos. (Realização sem Esforço, pág. 68)

O nosso pensar não é, na maior parte, “habitual”? Desde crianças, nos têm ensinado a pensar numa certa direção, como cristãos, comunistas (…) e não ousamos desviar-nos dessa direção, porque qualquer desvio, em si, representa temor. Assim, o nosso pensar é basicamente “habitual”, condicionado; nossa mente está funcionando dentro de rotinas fixas, e naturalmente temos também hábitos superficiais, que procuramos suprimir. (Idem, pág. 68-69)

(…) Se estais agora investigando, procurando descobrir se vossa mente pensa sob a influência dos hábitos, (…) então qualquer hábito, como, por exemplo, o de fumar, terá significação toda diferente. Isto é, se vos interessa investigar o processo do hábito, que se acha num nível mais profundo, sabereis atender ao hábito de fumar de um modo completamente diferente. (Idem, pág. 69)

Estando bem claro para vós, interiormente, que desejais pôr fim não só ao hábito de fumar, mas ao inteiro processo de pensar pela rotina dos hábitos, já não lutais contra o movimento automático de apanhar o cigarro, etc., pois sabeis que, quanto mais combatemos um hábito, mais vitalidade lhe damos. Mas, se estais atento e bem cônscio desse hábito, sem combatê-lo, vereis que ele desaparecerá por si, no tempo próprio; a mente não está mais ocupada com ele. (…) (Realização sem Esforço, pág. 69)

A mente detesta a incerteza e necessita, portanto, dos hábitos como meio de segurança. Mas nunca está livre do hábito a mente que se sente segura, e, sim, só aquela que se acha em completa insegurança. (…) A mente que se acha na mais completa insegurança, incerteza; que está sempre a investigar e a descobrir algo; que morre para cada experiência, cada aquisição, e por conseguinte se acha sempre num estado de “não saber” – só essa mente pode ser livre do hábito. (Idem, pág. 70)

(…) A questão não é de acabar com o hábito, porém, antes, de ver totalmente a estrutura do hábito. Deveis observar como se formam os hábitos e como, pela rejeição de um hábito ou pela resistência a ele, outro hábito se forma. O relevante é estardes totalmente cônscio do hábito; porque então, como vós mesmos vereis, já não há formação de hábitos. O resistir ao hábito, o combatê-lo, ou rejeitá-lo, só pode dar continuidade ao hábito. (…) Mas, se ficais simplesmente cônscio de toda a estrutura do hábito, sem resistência nenhuma, vereis então que estareis livre do hábito e que, nessa liberdade, ocorre uma coisa nova. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 158)

Podem-se quebrar hábitos, sem se criar outro hábito? Meu problema, por certo, não se refere à possibilidade de abandonar um hábito doloroso, ou de conservar um hábito aprazível, mas sim à possibilidade de me tornar livre de todo o mecanismo formador de hábitos. (…) Isto é, posso quebrar, abandonar o pensamento, o padrão que se formou, que se criou através de séculos, sem criar um novo padrão? É isso o que, em geral, gostamos de fazer. (…) Se sou hinduísta, quebro esse padrão e me torno comunista. (…) (Poder e Realização, pág. 73)

(…) Por conseguinte, para eu poder ser livre de todos os padrões, torna-se necessária uma revolta isenta de qualquer incentivo e de qualquer idéia nova. Tal revolta é criadora; esse estado é o “estado de criação”, é o estado puro, não adulterado, não corrompido; porque, aí, não há (…) esperança, (…) oposição, sujeição a nenhum padrão. (Idem, pág. 75)

A formação da idéia a que a mente se apega, a adesão a uma crença, um hábito, um prazer – tudo isso cria, (…) forma o molde em que a mente se aprisiona. (…) O pensamento é o criador do padrão; o pensamento é sempre condicionado; (…) porque o que penso é resultado do meu acervo mental, e todo pensar é reação a esse fundo. A questão, pois, não é de saber “como libertar-me de um padrão ou hábito de pensamento”, mas, sim, “se a mente pode ficar livre da criação de idéias.” (…) Só então há possibilidade de quebrar o padrão e ficar inteiramente livre de todos os padrões. (Poder e Realização, pág. 75)

Em geral, não estamos nada cônscios de nossos hábitos e, por isso, eles se tornaram inconscientes. No momento em que vos tornais cônscio de um hábito, vós o “arrancastes” do inconsciente (…) Mas, no momento em que me torno plenamente cônscio desse hábito e não lhe resisto, mas me limito a observá-lo, então foi ele “arrancado” do inconsciente. (O Homem e seus Desejos em Conflito, lª ed., pág. 162-163)

Ora, é porque quase todos os nossos hábitos são inconscientes, que nós não os despedaçamos, não os “dinamitamos”. (…) A questão, pois, é de como estarmos cônscios, plenamente cônscios de todos os hábitos “animalescos”. (Idem, pág. 163)

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