Pergunta: A família é o arcabouço do nosso amor e da nossa avidez, do nosso egoísmo e da nossa divisão. Que lugar tem ela (…)?

Krishnamurti: (…) A vida é uma coisa viva, uma coisa dinâmica, ativa, não podeis encerrá-la num arcabouço. São os intelectuais que põem a vida num molde (…) Em primeiro lugar, temos o fato de nossas relações com os outros, uma esposa, um marido ou um filho – as relações a que chamamos família. (…) (Novo Acesso à Vida, p. 40-41)

Pois bem, que é isso a que chamamos família? Trata-se, obviamente, de uma relação de intimidade, de comunhão. Ora, em vossa família, em vossas relações com vossa esposa, vosso marido, há comunhão? (…) Relação significa comunhão sem temor, liberdade de mútua compreensão, de comunhão direta. (…) (Idem, p. 41)

Estais em comunhão com vossa esposa? Talvez estejais, fisicamente, mas isso não é relação. Vós e vossa esposa viveis dos lados opostos de uma muralha de isolamento (…) Tendes os vossos alvos e ambições próprios e ela os seus. (…) (Idem, p. 41)

Ora, se existem relações reais entre duas pessoas, o que significa que existe comunhão entre elas, o que isso implica é de extraordinária significação. Porque então não há isolamento, há amor, e não responsabilidade ou dever. Um homem que ama, porém, não fala de responsabilidade – ele ama. Por isso partilha com alguém a sua alegria, a sua tristeza, o seu dinheiro. (…) (Novo Acesso à vida, p. 42)

Então, senhores, não é isso que está acontecendo? Em nossas famílias o que há é isolamento, e não comunhão; logo, não há amor. Amor e sexo são duas coisas diferentes (…) Se tivésseis interesse pelo próximo, se estivésseis em real comunhão com vossa esposa, com vosso marido, o mundo não estaria nesta desgraça. (…) (Idem, p. 42-43)

Como, então, quebrar esse isolamento? Para quebrarmos esse isolamento, precisamos estar cônscios dele (…) Tomai nota da maneira como tratais vossa esposa, vosso marido, vossos filhos; notai a insensibilidade, a brutalidade, as asserções tradicionais, a falsa educação(…) E, por não saberdes amar vossa esposa, vosso marido, não sabeis amar a Deus. (Idem, p. 43)

Pergunta: O casamento é necessidade ou luxo?

Krishnamurti: Examinemos (…) Por que nos casamos? Em primeiro lugar, (…) por força da necessidade biológica, do impulso sexual, que a sociedade legaliza (…) A sociedade deseja proteger a prole (…) Casamo-nos também por exigência psicológica. Preciso de um companheiro ou companheira, alguém que eu possua, e domine, e chame “meu” ou “minha”. (Da Insatisfação à Felicidade, p. 199-200)

Aqui (na Índia) o sistema matrimonial faz da mulher uma escrava, para ser protegida, dominada, governada, possuída. A mulher é uma coisa que se possui; assim como possuo bens, possuo minha mulher. Possuo-a sexualmente e a domino exteriormente. Psicologicamente, a posse me dá conforto, me dá segurança: minha propriedade, minha esposa, meus filhos (…) (Idem, p. 200)

Tratamos seres humanos como tratamos as coisas materiais, sem consideração (…) E vós bem conheceis as coisas da vida, os horrores, as agonias, os sofrimentos dos que são casados e não se amam. Como pode haver amor quando há instinto de posse? (…) (Idem, p. 200)

Como, na maioria, vivemos tão concentrados, tão absortos em nossas atividades comerciais, em ganhar dinheiro (…); como somos impiedosos no comércio e cruéis no mundo, como é possível ter amor por alguém no lar? No entanto, é o que quereis fazer, e por isso não tendes amor. (…) (Da Insatisfação à Felicidade, p. 200)

O casamento é também uma forma de perpetuação do “eu”. Desejo continuidade, através dos meus filhos. Por conseguinte, os filhos se tornam muito importantes, não por eles próprios, mas por causa de minha continuidade – meu nome, minha classe, minha casta. (…) (Idem, p. 200-201)

(…) Assim, para compreender todo esse processo humano, que é extremamente complexo e sutil, requer-se inteligência. Inteligência é também amor, e não apenas intelecto; e não podemos ter amor se, por um lado, procedemos cruelmente em nossos negócios, na vida cotidiana, e, por outro lado, procuramos ser ternos, meigos e bondosos. Não podeis fazer as duas coisas (…) (Idem, p. 201)

Só quando há amor, compaixão, que é inteligência – a forma mais elevada de inteligência – é que pode ser resolvido esse problema. (…) No momento em que nos considerarmos uns aos outros como seres humanos, como indivíduos, não como algo para ser possuído, teremos então a possibilidade de compreender e de transcender esse conflito existente entre dois cônjuges. (Idem, p. 201-202)

Pergunta: Não sois contrário ao matrimônio como instituição?

Krishnamurti: (…) A família é um processo de identificação particularista; e quando a sociedade está baseada nessa idéia da família como unidade exclusiva, em oposição a outras (…), tal sociedade (…) há de produzir violência. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., p. 248)

Usamos a família como meio de segurança para nós mesmos. (…) Essa exclusão é chamada “amor”, e, nesse chamado estado de família ou de matrimônio, existe realmente amor? (…) Não estamos considerando o ideal do que ela deveria ser, mas (…) tal como a conhecemos. (Idem, p. 248)

Entendeis por “família”, vossa esposa e vossos filhos (…) É uma unidade (…), e nessa unidade sois vós quem tem importância – não a vossa esposa, nem os vossos filhos ou a sociedade – mas somente vós, que estais em busca de segurança, de nome, de posição, de poder, tanto na família como fora dela. (…) (Idem, p. 248-249)

Dominais a vossa esposa, e ela vos é subserviente; vós ganhais e gastais o dinheiro, ela é vossa cozinheira e a progenitora dos vossos filhos. Criais, assim, a família, que é uma unidade exclusiva (…) Por conseguinte, não pode haver reforma do coletivo enquanto vós, como indivíduo, fordes exclusivista e buscardes o auto-isolamento em cada uma de vossas ações, limitando o vosso interesse a vós mesmos. (Idem, p. 249)

Ora, esse processo de exclusão não é, por certo, amor. O amor não é criação da mente. O amor não é pessoal (…) O amor é algo que não pode ser compreendido enquanto existir o pensamento, que é exclusivista. O pensamento, que é reação da mente, nunca pode compreender o que é amor; o pensamento é invariavelmente exclusivista, separatista (…) (Que Estamos Buscando?, p. 249)

A família, como a conhecemos, (…) é exclusivista, é um processo de engrandecimento do “eu”, que é resultado do pensamento; (…) Dizemos que amamos a verdade, (…) a esposa, o esposo, os filhos; mas essa palavra está rodeada pelo fumo do ciúme, da inveja, da opressão, da dominação (…) (Idem, p. 249-250)

A solução reside, não na legislação, mas na vossa própria compreensão do problema; e o problema só é compreendido e, por conseguinte, desaparece quando há o verdadeiro amor. Quando as coisas da mente não enchem o coração (…) e a ambição individual (…) não predominam, só então conhecereis o amor. (Idem, p. 250)

Que tem o casamento a ver com isso? Fazeis do casamento um embaraço, em vez de um auxílio; tende-o como um cativeiro. No fim de tudo, ele é um processo de assimilação de experiência, não um cativeiro que vos force. Sei que ele vos aprisiona na maioria dos casos, porque não sabeis como utilizar, como assimilar a experiência dele. Tratai todos os que vos rodeiam como amigos, por intermédio de quem e com quem cresceis. (…) (Viver Harmonioso, em “Boletim Internacional da “Estrela”, de janeiro de 1931, p. 8)

Pergunta: Por que a mulher tem a propensão de se deixar dominar pelo homem? (…)

Krishnamurti: Ora, (…) Quando o marido domina, a mulher gosta disso e considera-o afeição; e quando a esposa governa o marido, ele também gosta disso. Por quê? Denota isso que a dominação proporciona certo sentimento de maior proximidade, nas relações. (…) Temeis a indiferença de vossa esposa ou de vosso marido (…) (A Arte da Libertação, p. 75)

E esse domínio dá um sentimento de relação, esse domínio gera o ciúme: se não me dominais, é porque estais com os olhos noutra pessoa. (…) Senhor, o homem que ama não é ciumento. O ciúme é coisa do cérebro, mas o amor não pertence ao cérebro; e onde há amor não há domínio. Quando amais alguém, não sois dominante, sois parte dessa pessoa. Não há separação, mas completa integração. É o cérebro que separa, e cria o problema da dominação. (Idem, p. 76)

Pergunta: Quais são os deveres de uma esposa?

Krishnamurti: (…) Neste país (Índia), o marido é o patrão; ele é a lei, o senhor, porque economicamente dominante, e é ele quem diz quais são os deveres de uma esposa. Podemos considerar o problema do ponto de vista do marido ou da esposa. (A Arte da Libertação, p. 42-43)

Se considerarmos o problema da esposa, vemos que, porque não é livre, economicamente, a sua educação é limitada (…); e a sociedade lhe impôs regras e modos de conduta estabelecidos por homens. (…) (Idem, p. 43)

Portanto, ela aceita o que se convencionou chamar direitos do marido; e como este é quem domina, por ser economicamente livre e ter capacidade para gastar dinheiro, quem dita a lei é ele. (…) Quando o marido exige os seus direitos e quer uma esposa “cumpridora de seus deveres” (…) a relação entre os dois não passa evidentemente de contrato mercantil. (…) (Idem, p. 43)

Enquanto as relações estiverem baseadas em contrato, em dinheiro, em posse, autoridade ou dominação, elas serão, forçosamente, questão de direitos e deveres. É evidente a extrema complexidade das relações, quando elas resultam de um contrato, em que se estipula o que é correto, o que é incorreto e o que é o dever. (A Arte da Libertação, p. 43)

Mas não haverá uma outra maneira de considerar esse problema? Isto é, quando há amor, não há nenhum dever. Quando amais vossa esposa, vós lhe dais participação em tudo – na vossa propriedade, nas vossas tribulações, vossas ansiedades e vossas alegrias. Não a dominais: não sois o homem e ela a mulher, para ser usada e posta de parte, uma espécie de máquina procriadora. (…) (Idem, p. 44)

Se o homem que não tem amor no coração, fala em direitos e deveres, e, neste país, direitos e deveres tomaram o lugar do amor. Vossa esposa não tem participação em vossa responsabilidade (…) porque considerais a mulher menos importante do que vós, como coisa para ser guardada e usada sexualmente, segundo vossa conveniência, quando o apetite o exigir. (Idem, p. 44)

Sem amor, não percebo a utilidade de se terem filhos. Sem amor criamos filhos feios, imaturos, incapazes de pensar; (…) porque nunca se lhes deu afeição, porque só serviram de brinquedo e de divertimento, e para conservar o vosso nome. (A Arte da Libertação, p. 44-45)

Para que venha a existir uma nova sociedade, uma nova civilização, não deve evidentemente haver dominação nem por parte do homem nem por parte da mulher. A dominação existe em virtude da pobreza interior. (…) (Idem, p. 45)

Certamente, só sentimento afetuoso, o calor do amor, pode implantar uma nova condição, uma nova civilização. O cultivo do coração – não é um processo da mente. A mente não pode cultivar o coração; mas, quando é compreendido o processo a mente, surge então o amor. (…) (Idem, p. 45)

Pergunta: O casamento é necessário para as mulheres?

Krishnamurti: Não sei por que será mais necessário para as mulheres do que o é para os homens. (…) Vamos tentar compreender o problema do matrimônio, o qual implica relações de sexo, amor, camaradagem e comunhão. Evidentemente, não havendo amor, torna-se o matrimônio uma ignomínia. Torna-se, puramente, um meio de satisfação. (…) (Uma Nova Maneira de Viver, p. 219-220)

E só existe amor quando o ego está ausente. Ao considerar o matrimônio, se ele é necessário ou não, é preciso primeiro compreender o amor. O amor é casto, e sem amor não podeis ser casto; um indivíduo pode (…) ser celibatário, mas isso não significa que seja casto, puro, se não houver amor. ( … ) (Idem, p. 220)

(…) E, visto como à maioria das mulheres é negado o amor, buscam elas o preenchimento nas coisas ou nos filhos. Dessarte, as coisas e os filhos assumem toda a importância para as mulheres, enquanto o homem busca o preenchimento no trabalho e nas atividades. (…) E por essa razão dou valor às coisas, às relações, às idéias. Atribuo-lhes valor superior ao que têm (…) (Idem, p. 221)

(…) Podeis ter filhos, mas não existe amor, porque vós e vossa esposa estais isolados. Estais escondidos atrás de uma parede por vós mesmos edificada (…) e para haver essa comunhão é necessário o amor. (…) Quando há amor, há castidade, pureza, incorruptibilidade. (Idem, p. 222-223)

É só para os poucos (…) que amam, que as relações matrimoniais têm significado; então, elas são inquebrantáveis, não representam mero hábito ou conveniência, nem estão baseadas na necessidade biológica, na necessidade sexual. (A Arte da Libertação, p. 232-233)

Nesse amor, que é incondicional, as identidades se fundem (…) Para que haja a fusão de duas entidades separadas, tendes de conhecer a vós mesmo, e ela, a si mesma. Isso significa amar. (Idem, p. 233)

Só há castidade quando há amor. Quando existe o amor, não existe o problema do sexo; (…) Senhor, isso significa que tereis de submeter vosso coração e vossa mente a uma intensa busca, da qual resultará uma transformação em vosso interior. O amor é casto; e quando existe amor (…) então o sexo já não é um problema e tem significação inteiramente diversa. (Idem, p. 237)

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