Para compreendermos o que é essa atividade egocêntrica, é claro que devemos examiná-la, observá-la, estar cônscios do processo total. Uma vez cônscios dele, torna-se possível a sua dissolução; mas (…) é preciso ter certa compreensão, certa intenção de enfrentar a coisa tal como é, sem a interpretar, modificar, condenar. (…) (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 123-124)

Quase todos sabem que essa atividade egocêntrica produz malefícios e caos, mas só estão cônscios disso em certas direções. Ou a observamos noutras pessoas, ignorando nossas próprias atividades (…) Para poder compreender (…) temos de ser capazes de observá-la (…) em diferentes níveis, tanto conscientes como inconscientes (…) (Idem, pág. 124)

Só tenho consciência dessa atividade do “eu”, quando estou em oposição, quando a consciência é contrariada, quando o “eu” está desejoso de alcançar um resultado (…) Ou estou cônscio desse centro quando o prazer termina e desejo repeti-lo. Há, então, resistência e um propositado moldar da mente a determinado fim que me dá deleite, satisfação. (…) (Idem, pág. 124)

Reparemos na atividade egocêntrica que cria divisões; a atividade egocêntrica em torno de um princípio, de uma ideologia, de um país, de uma crença, em torno da família, etc. Essa atividade egocêntrica é separativa e, portanto, causa conflito. Ora, poderá esse movimento da fórmula – que é o “eu” com suas memórias, o centro à volta do qual se constroem os muros – poderá esse “eu”, essa entidade separada com a sua atividade egocêntrica, terminar por completo, não por uma série de atos, mas por um só ato? (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 112)

Vemos que essas divisões, essas fórmulas de “eu” e “não-eu”, “nós” e “eles’, por detrás das quais vivemos, originam medo. E se pudermos tomar consciência desse medo global, (…) total, poderemos compreender então qualquer medo particular. (…) (Idem, pág. 114)

O conflito, a luta pelo vir-a-ser e pelo não-vir-a-ser não leva ao egotismo? Pois não gera ele o sentimento da personalidade, do “eu”? E a própria natureza do “eu” não é de conflito e dor? Quando é que tendes consciência de vosso “eu”? Quando existe oposição, (…) atrito, (…) antagonismo. No momento da alegria, a consciência do “eu” é inexistente (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 41)

Nosso pensamento-sentimento está colhido no processo horizontal do “vir-a-ser”; o que vem a ser está sempre acumulando, sempre adquirindo, sempre a expandir-se. O “ego”, o que vem a ser, o criador do tempo, jamais pode conhecer o Atemporal. O ego (…) é a causa do conflito e do sofrimento. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 176)

As atividades do “eu” são atrozmente monótonas. O “eu” é fonte de tédio (…) Seus desejos opostos e em conflito entre si, suas esperanças e frustrações, suas realidades e ilusões, são escravizantes e, no entanto, vazias; as atividades conduzem-no ao cansaço. O “eu” está sempre subindo e caindo, sempre querendo alcançar e sendo frustrado, sempre ganhando e perdendo; e, dessa ronda fastidiosa e fútil, está sempre a procurar um meio de libertar-se. Busca fugir por meio de atividades exteriores, de soluções agradáveis, da bebida, do sexo, do rádio, dos livros, do saber, dos divertimentos, etc. (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 97)

(…) Seu poder de criar ilusões é enorme e complexo. Essas ilusões são por ele mesmo fabricadas, de si próprio projetadas; são elas o ideal, a idolátrica concepção de mestres e salvadores, o futuro como meio de autoglorificação, etc. Na tentativa de fugir de sua própria monotonia, busca o “eu” sensações e excitações exteriores, as quais são substitutos da negação do “eu”. (…) (Idem, pág. 97)

Toda ansiedade e qualquer experiência que dela nasça, constituem o processo automantenedor do “eu”. Esse processo do “eu”, com seus desejos e tendências, cria o medo o daí surge a aceitação do conforto e da segurança. (…) (Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 53-54)

O pensamento-sentimento está limitado por sua própria causa, o desejo de vir-a-ser, que se aprisiona ao tempo. O desejo, por meio da memória identificante, cria o “eu” e o “meu” É o ator que assume papéis diferentes, segundo as circunstâncias (…) Enquanto não compreendermos e solvermos o desejo, causa da ignorância e do sofrimento, continuará o conflito da dualidade (…) O desejo se expressa pela sensualidade, pelo apego às coisas materiais, pela busca de imortalidade pessoal e de autoridade, de mistérios e milagres. (…) (Autoconhecimento, Correto Pensar, Felicidade, pág. 53)

Já que somos egotistas e vivemos entre conflitos e sofrimentos, é essencial que estejamos intensamente vigilantes, porquanto, por meio do autoconhecimento, liberta-se o pensamento-sentimento dos empecilhos que ele próprio criou e que são a malevolência e a ignorância, a mundanidade e o desejo. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 161)

Que é sensação? Há um estímulo. Vê-se um rosto bonito, uma bela cor. Esse percebimento (do estímulo) é seguido pela sensação, depois é o contato, e depois o desejo, com o pensamento finalmente a intervir e a dizer: “Ah, quem me dera ter aquilo!”. E assim temos todo esse movimento – percebimento (do estímulo), sensação, contato, desejo – que é fortalecido pelo pensamento: “quero ou não quero aquilo”; “é meu” e “não é meu”. (O Mundo Somos Nós, pág. 119)

Surge então o problema de saber se pode haver a percepção de um belo rosto, de um lindo pôr-do-sol, etc., sem a interferência do pensamento, ou, por outras palavras, se será possível um estado de “não-experiência”, e apenas de percepção – que é maior do que todas as experiências. Consegui explicar (…)? Finalmente intervém o pensamento, e todo o mecanismo do prazer e da dor começa. Ora, será possível observar esse rosto sem a interferência do princípio do prazer e da dor? (…) (Idem, pág. 119)

O desejo pode fracionar-se em muitos impulsos opostos e em conflito entre si, mas tudo é sempre desejo. Esses impulsos numerosos concorrem para a formação do “eu”, com suas memórias, ansiedades, temores, etc., e a atividade total desse “eu” está limitada à esfera do desejo; (…) (Reflexões sobre a Vida, pág. 131)

Quando estamos conscientes, ficamos apercebidos de um processo dual que opera em nós – querer e não querer, desejos expansivos e desejos reprimidos. Os desejos expansivos têm a sua forma própria de vontade. Ao percebermos as conseqüências desses desejos expansivos, que tanta dor e tristeza nos causam, nasce o desejo de refreá-los, com seu próprio tipo de vontade. (…) (Palestras em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 102)

(…) Assim, há conflito entre a vontade expansiva e a vontade de reprimir. Esse conflito pode criar compreensão ou confusão e ignorância. A vontade expansiva e a vontade de reprimir são a causa da dualidade, fato que não pode ser negado. (Idem, pág. 102-103)

Investiguemos, pois, essa questão do desejo (…) Desejo significa impulso para preencher apetites de vária natureza, que exige ação – o desejo sexual, ou o desejo de ser um grande homem, (…) de possuir um carro ou uma casa. (…) (A Suprema Realização, pág. 34)

O amor não tem nenhum problema (…) O desejo possui uma extraordinária vitalidade, (…) persuasão, impulso, alcance; todo o processo do vir-a-ser, do sucesso, está baseado no desejo – desejo que faz com que comparemos, (…) imitemos (…) (A Rede do Pensamento, pág. 93)

Ora, que é que dá origem à ilusão? Não é o desejo, a vontade de buscar conforto, satisfação, salvação, (…) segurança (…)? Porque, na base desse desejo, se acha o acervo (background) do nosso condicionamento, dos inúmeros impulsos, temores, ansiedades(…) (Poder e Realização, pág. 52)

Enquanto houver desejo de ganho, de realização, de “vir-a-ser”, em qualquer nível que seja, tem de haver, inevitavelmente, ansiedade, sofrimento, medo. A ambição de ser rico, de ser isto ou aquilo, só desaparecerá quando perceberdes o caráter malsão, a natureza corruptora da própria ambição. No momento em que percebemos que o desejo de poder, em qualquer forma, é essencialmente mau, já não temos o desejo de ser poderosos. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 26)

É possível a um indivíduo libertar-se da avidez e viver numa sociedade que nada mais é que o resultado da avidez, da violência? (…) Afinal, a avidez se manifesta sob muitas formas – ânsia de verdade, avidez de posição, ambição de felicidade, avidez de coisas, de segurança. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 30)

Tudo isso é um processo de ver o fato (…) E agora – indo mais longe – o “eu”, o observador, está experimentando a avidez? A inveja é uma coisa separada de mim, que sou o observador? E quando não existe observador, existe a palavra “avidez”? – palavra que é, em si, uma condenação. Quando não existe observador, só então há possibilidade de desaparecer aquele sentimento. (A Renovação da Mente, pág. 35)

(…) A tensão produzida pela avidez, pelo temor, pela ambição, pelo ódio, é perniciosa, é causadora de males psíquicos e físicos, e, para que possamos transcender essa tensão, requer-se vigilância com abstenção de escolha. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 164)

Nossa vida – a maior parte dela – baseia-se no prazer; este constitui a necessidade fundamental da vida; prazer em todas as formas: conforto, segurança, prestígio, poder, domínio, sucesso, (…) lugar mais alto – tudo isso está incluído na palavra prazer. Esse prazer gera, invariavelmente, a dor (…) Para compreender o prazer, temos de compreender, em seu todo, a questão do desejo. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 33)

Deveis perceber que o prazer é justamente o princípio pelo qual o nosso cérebro funciona. Todos os nossos valores baseiam-se no prazer. Nossos interesses, (…) motivos, (…) princípios, tudo está essencialmente baseado no prazer. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 103)

(…) Vamos agora examinar o que é o prazer, no qual está baseada a nossa moralidade social, (…) a nossa busca, a nossa atividade? Toda essa exigência, a busca da realidade e todo esse contra-senso, apoiam-se no prazer. Vossos deuses, (…) virtudes, (…) moralidades, estão firmados no prazer. O que é, então, o prazer que todo ser humano reclama? (…) Existe também o prazer do sexo. O pensamento constrói a imagem, todos os estímulos são sustentados pelo pensamento e seu preenchimento amanhã. Dessa forma, o pensamento mantém o medo e dá continuidade ao prazer. (La Llama de la Atención, pág. 41)

O prazer é diferente do temor? Ou o prazer é temor? São como duas caras da mesma moeda quando se compreende a natureza do prazer, o qual também é tempo e pensamento. Uma pessoa há experimentado algo mui belo no passado (…) Então deseja que esse prazer se repita; o mesmo que quando se recorda do temor de um acontecimento passado e deseja evitá-lo. (…) (Idem, pág. 45)

É o que fazemos. Carregamos os nossos prazeres e os nossos medos. Como ser humano, você, o “eu”, o “meu”, é a carga do medo e do prazer. E você tem medo de perder essa carga. Uma mente que compreende a natureza e a estrutura do pensamento está livre do medo. E porque ela entende o medo, compreende também o prazer, o que não significa que você não possa ter prazer. Quando você olha para uma nuvem ou uma folha, é um prazer olhá-la; a beleza de alguma coisa é um prazer, mas carregá-la para o dia seguinte gera sofrimento. (…) (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 44)

Tendes um prazer; sexual ou trivial, e pensais nele, criais em vossa mente imagens, símbolos, palavras. E, quanto mais pensais nesse prazer, tanto mais intenso ele se torna. E essa intensidade exige preenchimento. (…) Mas, não é importante reprimir o desejo, moldá-lo, sublimá-lo, porém, sim, compreendê-lo, compreender o que lhe dá substância, intensidade, urgência de preenchimento. Compreendido isso, tem o desejo significação completamente diferente. (A Suprema Realização, pág. 45)

O prazer, para a maioria de nós, é de suma importância, e todos os nossos valores, e ânsias, e buscas, visam a mais prazer. (…) Prazer é gozo, deleite; também fruição sexual. Se alguma vez olhardes para o céu (…) encontrareis deleite no olhar aquela nuvem, aquela luz refletida na água; há deleite em ver um belo rosto todo iluminado de sorrisos e de inocência. (…) Em tudo isso há prazer intelectual, prazer emocional, prazer físico. Mas o amor é coisa muito diferente. (…) (A Suprema Realização, pág. 129-130)

Ora, o prazer criou o atual padrão social. Encontramos prazer na ambição, na competição, na comparação, na aquisição de saber, na conquista de poder, posição, prestígio. E essa busca de prazer por meio da ambição, da competição, da avidez, da inveja, da posição, do domínio, do poder, é considerada respeitável. Podeis (…) ser um ente humano cruel; e a sociedade aprova isso, porque (…) ou sois o que se chama “um homem de sucesso”, cheio de dinheiro, ou sois um “fracassado”, um ente humano frustrado. A moralidade social, portanto, é imoralidade. (Idem, pág. 131-132)

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