Pergunta: Como posso experimentar Deus em mim?

Krishnamurti: Que entendemos por experiência? (…) Quando é que dizemos: “Tive uma experiência?” Dizemo-lo apenas quando reconhecemos a experiência, isto é, quando existe um experimentador separado da experiência. Isso significa que o nosso experimentar é um processo de reconhecimento e acumulação. (…) (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 34)

Só posso experimentar quando há o reconhecimento da experiência, e reconhecimento é recordação, memória; e a memória é, obviamente, o centro do “eu”. Isto é, todo processo de reconhecimento e de acumulação de experiência é o “eu”, e o “eu” diz, então: “tive uma experiência”. (…) (Idem, pág.34)

Ora, o interrogante indaga: “Como posso experimentar Deus em mim?” Deus, a Realidade, (…) é coisa suscetível de experimentar-se, de reconhecer-se, de modo que se possa dizer: “Tive uma experiência de Deus”? Evidentemente, Deus é o desconhecido; Deus não pode ser conhecido. No momento em que o conheceis, já não é Deus; é algo autoprojetado, reconhecido, isto é, memória. É por isso que o crente nunca poderá conhecer Deus; e visto que a maioria de vós crê em Deus, jamais conhecereis a Deus, porque vossa própria crença vo-lo impede. (…) (Idem, pág. 34-35)

A crença é o resultado do conhecido. Podeis crer no desconhecido, mas tal crença nasceu do conhecido, é parte do conhecido, que é memória. (…) Por essa maneira, a memória cria o desconhecido, e passa a crer nele como um meio de experimentar o desconhecido. (Idem, pág. 35)

Para que o desconhecido venha à existência, a mente precisa estar completamente vazia; não pode haver o experimentar da realidade, porque o experimentador é o “eu”, com todas as suas lembranças acumuladas, tanto conscientes como inconscientes. O “eu” (…) diz: “Estou experimentando”; mas aquilo que ele pode experimentar é apenas a sua própria projeção. O “eu” não pode experimentar o desconhecido; (…). (Idem, pág. 35-36)

Só uma mente livre pode conhecer “o que é” – essa coisa indescritível, que não pode ser expressa em palavras. (…) Descrevê-la significa cultivo da memória; significa verbalizá-la, situá-la no tempo; e o que é do tempo nunca pode ser o atemporal (Idem, pág. 36)

O que importa, pois, não é o que credes ou o que descredes, mas, sim, o compreender o processo integral, o conteúdo total de vós mesmos; (…). Quando a mente está de todo tranqüila, quieta, sem senso de aceitação ou rejeição, (…) acumulação, quando existe esse estado de tranqüilidade, no qual o experimentador não existe – só então sentimos aquilo a que podemos chamar Deus (…) e há, nesse momento, um estado de criação, que não é expressão do “eu”. (Idem, pág. 36)

(…) O passado é sempre o conhecido e o pensamento que está baseado no passado só pode criar o conhecido. Por conseguinte, pensar na Verdade é estar preso nas redes da ignorância. (…) A Verdade é um estado no qual deixou de existir a chamada atividade do pensamento. O pensar, como sabemos, é o resultado do processo do tempo, do passado, (…) da auto-expansão, (…) do mover-se do conhecido para o conhecido. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 263-264)

O que é conhecido não é Real. Nosso pensamento está ocupado numa constante busca de segurança, de certeza. A inteligência que promove a expansão do “ego” busca , por força de sua própria natureza, um refúgio, seja pela negação seja pela afirmação. Como pode a mente que está em busca de certeza, de estímulo, de animação, pensar naquilo que não tem limites? (…) (Idem, pág. 264)

Pelo pensamento não se pode conceber o imensurável, porque o pensamento tem sempre medida. O sublime não está encerrado na estrutura do pensamento e da razão, nem tampouco é produto da emoção e do sentimento. A negação do pensamento é ação, (…) é amor. Se estais em busca do sublime, não o achareis; ele deverá vir a vós se tiverdes boa sorte e essa “boa sorte” é a janela aberta de vosso coração, e não do pensamento. (A Outra Margem do Caminho, pág. 56)

Percebendo-se, pois, essa extraordinária complexidade, não acreditais necessário investigar se é possível chegarmos àquela revolução, (…) transformação interior, sem nenhuma interferência da mente? (…) Pode a mente transformar se? Sei que há momentos em que ela percebe a Realidade, que se manifesta sem ter sido chamada nem solicitada. Nesses momentos, a mente é o Real. (…) (Poder e Realização, pág. 71)

(…) Quando o “eu” já não está lutando, consciente ou inconscientemente, para tornar-se algo, quando o “eu” está de todo inconsciente de si mesmo, nesse momento se verifica aquele estado de devoção, (…) de Realidade. Nesse momento, a mente é o Real, é Deus. (Idem, pág. 71)

Pode-se, pois, descobrir o que é criação, ou Deus (…)? (…) A criação liberta a mente da mediocridade (…). E, se é este o estado que procuro, necessito de visão muito clara, (…) significa que ela, a mente, deve achar-se totalmente tranqüila, para descobrir. Porque o estado criador não pode ser chamado; ele tem de vir por si. Deus não pode ser chamado; ele deve vir. Mas não virá se a mente não for livre. (…) (Idem, pág. 39-40)

(…) Assim, Deus, ou a Verdade, (…) é uma coisa que vem à existência momento a momento, e que só acontece num estado de liberdade e espontaneidade, (…). Deus não é coisa da mente, não se manifesta por meio de autoprojeções; só vem quando há virtude, que é liberdade. Virtude é ver diretamente o fato como ele é, e o ver o fato é um estado de felicidade. Só quando a mente transborda de felicidade, quando está tranqüila, sem nenhum movimento próprio, (…) projeção do pensamento, consciente ou inconsciente – só então desponta na existência o eterno. (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 184)

Agora, que é a realidade, (…) Deus? Deus não é a palavra, a palavra não é a coisa. Para conhecer aquilo que é imensurável, que não é do tempo, a mente deve estar livre do tempo, (…) de todo pensamento, (…) de todas as idéias relativas a Deus. Que sabeis de Deus ou da Verdade? Nada sabeis (…). Só conheceis palavras, experiências alheias, ou alguns momentos de experiências, um tanto vagas, de vós mesmos. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 183)

(…) O desconhecido não é algo que possa ser “experimentando” pela mente; só o silêncio pode ser “experimentado”, e nada mais (…). Se a mente “experimentar” qualquer coisa, menos o silêncio, está ela apenas projetando os seus próprios desejos, e essa mente não está silenciosa; (…) (Idem, pág. 184)

(…) Assim, pois, para se encontrar o que é real, o que é Deus, (…) deve haver liberdade – precisamos estar livres do temor, (…) do desejo de segurança interior, (…) do medo ao desconhecido. E só então (…) estaremos aptos a “experimentar” o desconhecido, (…) e sabermos se existe Deus. Mas, se o homem que crê em Deus ou (…) não crê em Deus se atém a essa conclusão, fica (…) cativo da ilusão. Só posso conhecer aquela “coisa”, (…) compreendê-la, experimentá-la diretamente, quando não sou egocêntrico, (…) não estou condicionado pela crença, pelo temor, pela avidez, pela inveja, etc. (Nós Somos o Problema, pág. 38-39)

O pensamento pode colocar-se, e com efeito se coloca, em níveis diferentes: o estúpido e o profundo, o nobre e o gentil e o ignóbil; mas isto é sempre pensamento (…). O Deus do pensamento é sempre um Deus da mente, da palavra. O pensar em Deus não é Deus, e sim mera reação da memória. (…) (Comentários sobre o Viver, 1ª ed., pág. 168)

A mente que desejar achar-se num estado em que possa manifestar se o novo – seja Deus, seja a Verdade, (…) essa mente, sem dúvida, deve cessar de adquirir, de acumular, deve pôr de parte todo o seu saber (…) (A Renovação da Mente, pág. 24)

A Realidade, ou Deus, (…) não se alcança por meio de conflito. Pelo contrário, é imprescindível a extinção do “eu”, do centro de acumulação, (…). (Idem, pág. 25)

O abandono da personalidade, do “eu”, não se dá por ato de vontade; a travessia para a outra margem não é uma atividade dirigida para um fim ou ganho. A Realidade apresenta se na plenitude do silêncio e da sabedoria. Não podeis chamar a Realidade, ela deverá vir por si mesma; não podeis escolher a Realidade, ela é que deverá escolher-vos. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 84-85)

Dizeis, porventura, que desejais modificar-vos, mas alguma coisa há que impede a transformação. Explicações não alteram coisa alguma. Dizer que o “ego” é um obstáculo, é simples explicação, (…). Desejais que eu descreva a maneira de vencer os obstáculos; mas precisamos achar um meio de saltar a barreira; se possível, precisamos lançar-nos à corrente, ousadamente, aventurosamente, em vez de ficarmos sentados na margem a especular. (Que Estamos Buscando?, pág. 93)

Que nos está impedindo de dar o salto? O que no-lo impede é a tradição, que é memória, que é experiência (…). Tanto nos satisfazemos com palavras, com explicações, que não damos o salto, mesmo percebendo a necessidade de saltar. Alvitra-se que não ousamos lançar-nos à corrente porque temos medo do desconhecido. Mas, é-me possível saber o que acontecerá, é-me possível conhecer o desconhecido? Se eu o conhecesse, não haveria então temor algum – e não seria o desconhecido. Nunca me será dado conhecer o desconhecido, se não me aventuro. (Idem, pág. 93-94)

Será o temor que nos está impedindo de lançar-nos à aventura? Que é temor? Só pode haver temor em relação com alguma coisa, ele não existe em isolamento. Como posso temer a morte, (…) uma coisa que desconheço? Só posso temer o que conheço. Quando digo que temo a morte, estarei mesmo com medo do desconhecido, ou estou com medo de perder o que me é conhecido? (…) (Idem, pág. 94)

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