Para que haja o bem-estar do homem, faz-se necessária uma transformação, não no nível superficial porém no centro. O centro é o “eu”, que está sempre acumulando. (…) Nessas condições, se vós e eu reconhecemos esse fato, surge então o problema: pode a mente despojar-se de todo o seu conteúdo, libertar-se de toda a carga que ela mesma se impôs ou que lhe foi imposta?

Só quando a mente está vazia, existe a possibilidade de criação; mas não falo desse vazio superficial de que quase todos nós nos queixamos. (…) Não falo dessa espécie de vazio, que é falta de reflexão. Pelo contrário, refiro-me ao vazio que resulta de uma extraordinária atividade de reflexão, quando a mente, percebendo a sua própria capacidade de criar ilusões, passa além. (Claridade na Ação, pág. 154-155)

(…) Para ficarmos livres da acumulação, é preciso profundo conhecimento de nós mesmos, e não o conhecimento superficial das poucas camadas claras de nossa consciência. O descobrir e conhecer todas as camadas de nossa consciência é o começo da verdadeira meditação. Na tranqüilidade da mente-coração, reside a sabedoria e a Realidade. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 77)

A Realidade é algo que devemos sentir, e não objeto de especulação. Mas só poderemos senti-la depois de a mente-coração haver cessado de acumular. A mente-coração não deixa de acumular, pela simples negativa ou determinação, mas somente pela autovigilância; pelo autoconhecimento descobre-se a causa da acumulação. Só é possível sentir a Realidade depois de cessar o conflito dos opostos. (…) (Idem, pág. 77)

O exame dessa questão requer não só o ato de escutar, mas também o ato de perceber, de ver. Em verdade, escutar é ver. Para ver uma coisa mui claramente, (…) a pessoa deve olhar negativamente. “Olhar negativamente” uma coisa significa olhá-la sem permitir que seja deformada pelo preconceito, pela opinião, experiência, saber, pois tudo isso impede-nos o olhar. (Encontro com o Eterno, pág. 36)

(…) A compreensão só ocorre ao ficarmos completamente livres de nosso condicionamento. O condicionamento é o preconceito. Por isso não vos preocupeis com a verdade, e deixai que a mente se conscientize da própria prisão. A liberdade não está na prisão. A beleza do vazio é liberdade. (O Começo do Aprendizado, pág. 207)

Agora, se observardes com muito cuidado, vereis que, embora a reação, o movimento do pensamento, pareça tão célere, existem vãos, existem intervalos entre os pensamentos. Entre dois pensamentos há um período de silêncio não relacionado com o “processo” do pensamento. Se observardes, vereis que esse período de silêncio, esse intervalo, não é de tempo; e o (…) completo “experimentar” do mesmo vos liberta do condicionamento. Assim, a compreensão do processo do pensar é meditação (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 180)

O consulente pergunta: “É possível esvaziar a consciência de todo o seu conteúdo – tristezas, conflitos, lutas, as terríveis relações humanas, brigas, ansiedades, ciúmes, afeição, sensualidade? Esse conteúdo pode ser esvaziado? Se ele for esvaziado, haverá uma espécie diferente de consciência? (…) (Perguntas e Respostas, pág. 115-116)

É possível, sim, esvaziar completamente o conteúdo da consciência. A essência desse conteúdo é o pensamento, que construiu o “eu” – que é ambicioso, voraz, agressivo. Este conferencista assegura-lhes que sim: ele pode ser eliminado completamente. Isso significa que não há um centro a partir do qual você está agindo. (Idem, pág. 116)

(…) Agora, para esvaziar o consciente – o que significa compreender, no seu todo, o “estado do ser”, (…) de consciência – temos de ver de que ele se compõe, temos de estar cônscios das várias formas de condicionamento, que são as memórias da raça, família, grupo, etc, as várias experiências que não se completaram. (A Arte da Libertação, pág. 118)

Deve haver uma maneira diferente de descondicionarmos todo o nosso ser, dissolvendo as lembranças existentes, de modo que a mente seja nova a cada momento. Como conseguir isso? (…) Ora, pode-se enfrentar o dia de hoje, o presente, sem o pensamento de ontem? (…) (Idem, pág. 118)

Que se passa em vossa mente, ao compreenderdes que ela precisa ser nova, que o vosso passado tem de desaparecer? (…) Isto é, se desejais compreender um quadro moderno, é claro que não deveis chegar-vos a ele com vossa formação clássica. (…) (Idem, pág. 119)

Ao perceberdes a verdade aí contida, está dissolvido o passado. Só a verdade descondiciona completamente, e perceber a verdade do “que é” requer enorme atenção. (…) O homem que deseja compreender a verdade, deve aplicar-lhe toda a sua atenção, e essa atenção integral só vem quando não há escolha e, portanto, nenhuma distração. (…) (Idem, pág. 119-120)

Só a mente vazia pode ver com clareza, e não a mente abarrotada de informações e conhecimentos, não a mente que está incessantemente ativa, no afã de buscar, alcançar, exigir. Mas a mente vazia não está “em branco”. (…) E só nesse vazio há compreensão, há criação. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 18)

Enquanto a mente está entravada pelo passado, pejada de saber, de lembranças, de juízos, o novo não pode existir. Enquanto a mente constituir o centro do “eu’, que é resultado do tempo, não há possibilidade de realizar-se o atemporal. (Claridade na Ação, pág. 153)

Podemos atacar esse problema de outra maneira? Pode a mente, a totalidade da mente, esvaziar-se a si mesma de tudo, do conhecimento e do não-conhecimento – o conhecimento da ciência e da linguagem, e também o mecanismo do pensamento que está funcionando todo o tempo? Pode a mente esvaziar-se não só no nível consciente senão em suas camadas mais profundas e secretas? A partir desse vazio, pode o conhecimento operar e também deixar de operar? (Tradición y Revolución, pág. 331)

Vejamos. Pode a mente esvaziar-se de todo o conteúdo – o passado – de modo que não tenha motivo algum? Pode esvaziar-se e pode esse vazio utilizar o conhecimento, tomá-lo, usá-lo e abandoná-lo, porém permanecendo a mente sempre vazia? (Idem, pág. 331)

Vazia no sentido de que a mente é nada; um vazio que tem seu próprio movimento, que não é mensurável em termos de tempo. Um movimento que tem lugar no vazio e que não é o movimento do tempo, pode operar no campo do conhecimento, e não há outra operação. Esse movimento só pode operar no campo do conhecido e em nenhuma outra parte. (Idem, pág. 331-332)

A questão, pois, é: Como esvaziar a mente? Não há sistema, nem fórmula alguma. Deveis perceber a realidade deste fato: que a mutação é absolutamente necessária para a salvação do homem, para vós e para mim, para nossa salvação, (…) liberdade, (…) libertação do sofrimento, das agonias da vida. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 177)

Esse vazio que é força criadora, essa passividade ardente, não se consegue por ato de vontade. (…) Se desejais compreender, cumpre esteja tranqüila a mente-coração. (…) Essa percepção silenciosa (…) surge quando o pensamento-sentimento já não está preso na rede do vir-a-ser. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 87)

A mutação só é possível quando a mente está totalmente vazia de pensamento – assim como o ventre materno; (…) quando o ventre está vazio, (…) vem à luz um novo ser. A mente deve estar vazia da mesma maneira; só no vazio pode verificar-se uma coisa nova – algo novo. (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 177)

Cônscio de tudo isso, pergunto-me a mim mesmo se há possibilidade de a mente ser livre, de ficar completamente vazia do passado e capaz, por conseguinte, de ver algo que não seja projeção dela própria, que não seja de sua mesma fabricação. Para descobrirdes se isso é possível, deveis experimentar. (…) (Claridade na Ação, pág. 154)

Cada decisão de controlar gera resistência. Na realidade, a meditação é o completo esvaziamento da mente (…) O conflito é criado pelo pensamento que se identifica com uma das suas partes, que se torna o “eu”, e as várias divisões desse “eu”. (…) Só há o ver “o que é” e a própria percepção vai além do que é. O esvaziamento da mente não é uma atividade do pensamento nem um processo intelectual. O contínuo ver o que é, sem nenhuma distorção, esvazia de modo natural a mente de todo pensamento e, no entanto, a própria mente pode utilizar o pensamento quando necessário. (O Começo do Aprendizado, pág. 211-212)

(…) Para se ver qualquer coisa plenamente, integralmente, necessita-se de liberdade, e a liberdade não vem por meio de compulsão, (…) de disciplina, de repressão, mas só quando a mente se compreende a si mesma, o que é autoconhecimento. (…) (A Arte da Libertação, pág. 47)

Liberdade significa esvaziar a mente do conhecido. (…) Isso não significa que a mente deva libertar-se do conhecimento “factual”, pois, em certo grau, necessitamos desse conhecimento.(…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, pág. 214)

(..) Agora, para esvaziar o consciente – o que significa compreender, no seu todo, o “estado de ser” o estado de consciência – temos de ver de que ele se compõe, (…) de estar cônscios das várias formas de condicionamento, que são as memórias de raça, família, grupo, etc., as várias experiências que não se completaram. (A Arte da Libertação, pág. 118)

Pois bem, podem-se analisar essas lembranças, tomar uma a uma as reações (…) desdobrando-as, examinando-as minuciosamente e dissolvendo-as; mas, para tal, necessita-se de tempo infinito, paciência e atenção ilimitadas. (…) Deve haver uma maneira diferente de descondicionarmos todo o nosso ser, dissolvendo as lembranças existentes, de modo que a mente seja nova a cada momento. (…) (Idem, pág. 118)

Como conseguir isso? É o seguinte: costumamos enfrentar a vida com as velhas lembranças, as velhas tradições, os velhos hábitos; enfrentamos o dia de hoje com o de ontem. Ora, pode-se enfrentar o dia de hoje, o presente, sem o pensamento de ontem? (Idem, pág. 118)

Se prestastes atenção até aqui, ocorrer-vos-á naturalmente esta pergunta: “como posso libertar-me de toda acumulação do passado, de todo o meu condicionamento?” Não há “como”; só há o descobrimento da Verdade. (…) (Transformação Fundamental, pág. 42)

(…) Enquanto a experiência deixar vestígio de memória, que é tempo, nunca será possível experimentar o que é eterno. A mente, portanto, deve deixar-se morrer, momento a momento, para cada experiência. Efetivamente, só nesse estado ela é criadora (Idem, pág. 43)

Pergunta: Depois de nos “esvaziarmos” do “eu”, que há para preencher a mente?

Krishnamurti: (…) Primeiro, tratai de “esvaziar” a mente e, depois, descobrireis o que há(…) Temos muito medo do vazio e desejamos preenchê-lo.(…) É o fugir que gera o medo. (…) Quando tiverdes compreendido essa solidão, depois de atravessá-la e ultrapassá-la, descobrireis por vós mesmos o que há quando o “eu” já não existe. (…) (O Homem e seus Problemas em Conflito, 1ª ed., pág. 76-77)

(…) Mas (…) deveis começar pelo vazio. A taça só é útil quando vazia. Mas, para compreender esse vazio, é preciso atravessá-lo num clarão (…) e lançar a base correta. Então, vós sabereis; nunca mais perguntareis o que há além daquele vazio. (Idem, pág. 77)

Muito importa, pois, aprender a ver, a observar. E que estamos observando? Não apenas o fenômeno externo, mas também o estado interior do homem. Porque, a menos que haja uma revolução fundamental, radical, na psique, na raiz mesma de nosso ser, o mero apagar, (…) legislar na periferia é insignificante. Assim, o que nos interessa é descobrir se o homem é capaz de efetuar uma radical transformação em si próprio – não de acordo com certa teoria, filosofia, porém vendo a si próprio tal como é. Esse próprio percebimento produzirá a transformação radical. (…) (Fora da Violência, pág. 13)

E que se entende por ver? (…) Estou certo de que se pode ver qualquer coisa diretamente, independentemente de persuasão verbal, argumentação ou raciocínio intelectual. (…) Para mim, ver é uma ação de caráter imediato, independente do tempo. (…) (O Passo Decisivo, pág. 210-211)

Ora, é possível a vós e a mim (…) olhar a totalidade, em vez dos fragmentos? Como olhar? O ato de olhar (…) pode não ser tão importante quanto a maneira de olhar – como olhar. (…) Pode-se olhar o todo da consciência humana – que constitui a pessoa, o “eu” – sem nenhuma interferência, juízo, avaliação (…)? (…) Porque o importante é o ato de olhar e não aquilo que olhamos. Se sabemos olhar, então aquilo que olhamos muda completamente de natureza. Isso se pode observar em nossa vida de cada dia. (A Essência da Maturidade, pág. 150)

(…) E, para se poder ver claramente, sem nenhuma desfiguração, deve desaparecer toda espécie de imagem – a imagem de serdes americano ou católico, rico ou pobre – todos os vossos preconceitos devem desaparecer. E tudo isso desaparece no momento em que vedes claramente o que está à vossa frente. (…) (Fora da Violência, pág. 13)

Ver sem a interferência do pensamento ou da palavra, sem a reação da memória, difere totalmente do “ver” baseado no pensamento e na sensação. É superficial o que se vê com o pensamento. Ver sem o pensar é visão integral. Contemplar uma nuvem sobre a montanha, sem o pensamento e suas reações, é o milagre do “novo”; e isso (…) é imensamente explosivo (…) Isso é a totalidade da vida, não o fragmento do pensamento. (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 49)

A compreensão independe do tempo. A compreensão está sempre no presente, nunca no amanhã; é agora ou nunca. (…) O “ver” (perceber) é instantâneo. (…) Esse “ver” é explosivo, isento de cálculo ou raciocínio. Na maioria das vezes, é o medo que impede a compreensão. (…) O “ver” não apenas vem do cérebro, mas também o transcende. A percepção do fato cria sua própria ação.(…) (Diário de Krishnamurti, pág. 64)

Não sei se já pensastes alguma vez no que significa olhar, ver. Trata-se simplesmente da percepção visual, ou o ver, olhar, é algo muito mais profundo do que a percepção visual? Para nós, em geral, “ver’ implica algo imediato: o que hoje está sucedendo e o que irá suceder amanhã; e o que amanhã sucederá terá o colorido do ontem. Nosso modo de olhar, portanto, é muito estreito, muito aproximado, muito circunscrito, e nossa capacidade de olhar, muito limitada. (…) (O Passo Decisivo, pág. 120)

Necessita-se de uma mente muito firme; e não é firme a mente que não está livre. E considero importantíssimo termos a capacidade de ver, não apenas aquilo que desejamos ver, não apenas o que é agradável e conforme as nossas estreitas e limitadas experiências, porém ver as coisas como são. O ver as coisas como são liberta a mente. É algo realmente extraordinário – perceber diretamente, simplesmente, totalmente. (Idem, pág. 120-121)

Quando dizeis: “vejo aquela árvore”, estais vendo-a realmente, ou vos estais satisfazendo apenas com a palavra “vejo”? (…) Dizeis: “aquilo é um carvalho, um pinheiro”, (…) e passais adiante? (…) Isso é muito difícil – olhar – porquanto significa que o nome, a palavra, com todas as lembranças, reminiscências associadas à palavra, têm de ser postos de lado. (…) Se puderdes despojar a mente de todo esse absurdo, podereis então ver – e esse “ver” é completamente diferente de ver através da palavra. (O Passo Decisivo, pág. 132)

Assim sendo, (…) só há liberdade quando não há pensar, o que não significa ficar com a mente “em branco”. Pelo contrário, é preciso inteligência no grau mais elevado para se chegar à percepção de que todo pensar é reação, é resposta da memória, e, por conseguinte, mecânico. (…) (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 105)

(…) O observar é meditação, e isso não significa que, para observar, temos de meditar. Observar significa, com efeito, estar cônscio da interferência do pensamento; perceber como a imagem que tendes da árvore, da pessoa, (…) intervém no ato de olhar. (…) Assim, observar significa: observar sem a interferência de nosso background. (…) (A Essência da Maturidade, pág. 17)

(…) Mas a mente pode libertar-se do seu fundo de tradição, de experiências acumuladas, e dos vários impulsos, conscientes e inconscientes, que representam reações daquele background; e ficar completamente livre desse background significa rejeitar, pôr de lado, morrer para o conhecido. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, pág. 214)

Se não há liberdade total, toda percepção, (…) visão objetiva se deforma. Só o homem totalmente livre pode olhar e compreender imediatamente. Liberdade subentende (…) a necessidade de ter a mente completamente vazia. (…) Estamo-nos referindo a uma liberdade que vem natural e facilmente, sem ser solicitada – quando a mente é capaz de funcionar em seu mais alto nível. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 120)

Ver e compreender não é questão de tempo, (…) de gradação. Ou vedes, ou não vedes. (…) Quando estais cônscios de vosso condicionamento, deveis observá-lo sem escolha; deveis ver o fato, sem emitir opinião ou juízo a respeito do fato. Por outras palavras, deveis olhar o fato sem pensamento. Há então um percebimento, um estado de atenção, sem centro, sem fronteiras, no qual o conhecimento não pode interferir; e é nesse estado de atenção total que a mente pode compreender o incognoscível. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 56-57)

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