Que entendeis pela palavra “espiritual”? Algo relativo ao espírito, independente do tempo (…) não fabricado pela mente (…) Ora, por certo, o Real, aquilo que é verdadeiramente espiritual, não é coisa construída pela mente (…) E pode a mente, que é resultado do tempo, encontrar aquilo que é atemporal e ilimitado? Podeis praticar virtude à vontade, mas isso, por certo, não é espiritual. (Viver sem Temor, pág. 60)

Quando a mente, compreendendo todo o processo do “vir-a-ser”, está inteiramente livre de toda e qualquer forma de ambição – o que, com efeito, significa: quando a mente está tranqüila de todo e, portanto, não se está projetando no futuro – só então se apresenta, aquilo que se pode chamar de “espiritual”. Mas, enquanto estivermos lutando para ser “espirituais”, continuaremos vulgares (…) (Idem, pág. 60)

Espiritualidade não é usar tanga, ou tomar uma só refeição por dia, ou repetir certo mantra ou frase fútil, ainda que estimulante. É mundanidade renunciar ao mundo e, interiormente, continuar a fazer parte desse mundo de inveja, avidez, medo, de aceitação da autoridade, de separação entre o homem que sabe e o que não sabe. E também é mundanidade buscar preenchimento, seja na fama, seja nisso que se pode chamar de ideal, ou Deus, ou outro nome qualquer (A Outra Margem do Caminho, pág. 45)

(…) Ora, por espiritual, entendemos uma coisa que não está sujeita a condicionamento, (…) que não é projeção da mente humana, que não está encerrada na esfera do pensamento, que não está sujeita à morte. Pois bem, será o “eu’ uma entidade espiritual dessa ordem? Se é uma entidade espiritual, tem de estar fora do tempo (…) O pensamento não pode pensá-lo; (…) Se o pensamento é capaz pensar o “eu”, então este faz parte do tempo; por conseguinte, esse “eu” não é livre do tempo, logo não é espiritual, evidentemente. (Nosso Único Problema, pág. 54)

Se pensais que sois uma entidade espiritual ou realidade, o que significa isso? Não implica um estado imortal, fora do tempo, um estado eterno? Se ele é eterno, então não tem crescimento; pois aquilo que é capaz de crescimento não é eterno. (Palestras em Ojai e Saróbia, 1940, pág. 95)

Assim, temos agora de examinar o que entendemos por austeridade. O que é austeridade? O mundo inteiro, especialmente o religioso, tem usado essa palavra, estabelecido conceito a respeito, particularmente em relação aos monges de vários mosteiros (Na Índia não há mosteiros, exceto para os budistas. Não há mosteiros organizados, felizmente). Portanto, o que entendemos pela palavra austero, que supõe grande dignidade? Olhamos a palavra no dicionário. Ela vem da Grécia, significa manter a boca calada, isto é, ser mudo, sério (…) Severo quer dizer austero? Intransigente, negar-se o luxo de um banho quente, ter poucas roupas, ou usar um tipo especial de traje, ou fazer voto de celibato, ser nobre, seguro ou sentar-se continuamente com a coluna reta, controlar todos os desejos. Certamente, nada disso é austeridade. Isso é o que exteriormente se revela. (Last Talks at Saanen, pág. 88)

A austeridade não consiste em nenhum ato ou símbolo exterior – usar tanga ou o hábito monástico, tomar uma só refeição ao dia, ou viver vida de eremita. Essa simplicidade disciplinada, por mais rigorosa que seja, não é austeridade; é mera ostentação exterior, sem realidade interior. Austeridade é a simplicidade da íntima solidão. Simplicidade de uma mente purificada de todo conflito, livre das chamas do desejo, mesmo o desejo de coisas sublimes. Sem essa austeridade, não pode existir amor; e a beleza vem do amor. (Diálogos sobre a Vida, 1ª ed., pág. 29)

Nessa total maturidade existe austeridade. Não a austeridade da penitência ou do hábito religioso, mas a displicente e espontânea indiferença com as coisas mundanas, perante suas virtudes, seus deuses, sua respeitabilidade, suas esperanças e valores. Cumpre negar tudo isso para que desponte a austeridade contida no “estar só”. Nem a sociedade nem a cultura podem influir nessa solidão. (Diário de Krishnamurti, pág. 52-53)

(…) Mas ela deve existir, não concebida pelo cérebro (…) Tem de surgir como um raio, sem se saber de onde vem. Sem austeridade, é impossível haver plena maturidade. O isolamento – que é a essência da autocompaixão, da autodefesa, da vida reclusa baseada no mito, no conhecimento e na idéia – nada tem de comum com o “estar só”; no isolamento, busca-se incessantemente a integração, porém mantendo-se a divisão. Estar só é viver livre de qualquer influência. E é essa solidão que é a essência da austeridade. (Idem, pág. 53)

Este tem sido, em todo o mundo, o ponto de vista das pessoas religiosas: comprometam-se com Deus e então terão ordem perfeita. E cada religião, cada seita, traduz o que é Deus segundo suas próprias crenças e, fragmentados nessa crença, aceitamos tal interpretação. Porém se você realmente quer descobrir se existe tal coisa como Deus, (…) algo que é inominável, (…) então esse mesmo interesse há de criar ordem. (…) (El Despertar de la Inteligencia, II, pág. 99)

(…) Para descobrir essa realidade, deve o indivíduo viver de maneira diferente: deve existir austeridade sem dureza; tem de haver amor. E o amor não pode existir se há medo, (…) prazer. Para descobrir, pois, essa realidade, deve ele compreender a si mesmo, a estrutura e a natureza do “eu”; (…) (Idem, pág. 99)

Pergunta: Dizeis que, para ser criador, há necessidade de um estado de completo abandono e, no entanto, a austeridade é também necessária. Podem as duas coisas existir juntas?

Krishnamurti: Senhor, que é a beleza e como nasce o estado de beleza criadora? Obviamente, é necessária a existência do amor. E o amor significa abandono completo (…) Não o estado de abandono criado pelo desejo, mas aquele abandono sem restrições, sem esperança de resultados, em que (…) não há medo. Só pode haver esse abandono completo quando não existe o “eu”, o “ego”; e quando já não existe “eu”, não há, no estado de abandono, austeridade, simplicidade? (Visão da Realidade, pág. 175-176)

A Realidade só pode ser compreendida com completo “abandono”, e não podeis abandonar-vos enquanto existir qualquer forma de atividade egocêntrica. Não se pode ser austero quando se cultiva a austeridade, porque então a mente está em busca de resultado. Há uma austeridade de espécie diferente, que nenhuma relação tem com o abandonar uma coisa a fim de alcançar outra coisa (…) (O Homem Livre, pág. 146)

(…) Se desejais compreender o que é a Realidade, deve vossa mente ser capaz de extraordinária lucidez, silêncio, velocidade; e não é lúcida, não é silenciosa, não é veloz a mente quando agrilhoada a qualquer forma de disciplina, paralisada pela moralidade social. Ao compreenderdes isso, vereis que existe uma disciplina, uma austeridade não resultante de atividade egocêntrica; e essa disciplina é que é essencial, para que a mente possa seguir o rápido movimento da Verdade. (Idem, pág. 147)

Mas o autoconhecimento não é “cumulativo”; é o descobrimento do que sois de momento a momento. A mente está então tranqüila, e nessa tranqüilidade há grande beleza, da qual nada sabeis. Há nela um espantoso movimento que destrói a germinação da mente. Esse silêncio tem uma atividade própria, seu modo próprio de atuar sobre a sociedade (…) Graças a essa compreensão, há o verdadeiro “abandono” (passividade) e só então se apresenta esse extraordinário sentimento de silêncio. (O Homem Livre, pág. 151-152)

Para a maioria das pessoas, austeridade significa a destruição de tudo o que é belo ao redor delas. Exteriormente, essas pessoas rejeitam todas as coisas mundanas e só possuem umas poucas coisas, mas, interiormente, elas não são simples, absolutamente; pelo contrário, são extraordinariamente complexas, consumidas de desejos, ansiando por certo resultado. Isso, por certo, não é austeridade. (…) Só há estado de abandono quando não existe o “eu”, mas o “eu” não pode ser destruído pelo simples expediente de reprimir o desejo. (Visão da Realidade, pág. 176)

Necessitamos de uma energia extraordinária para que a mente tenha a possibilidade de ficar quieta e descobrir o que é Deus, o que é a verdade; e se aquela energia está sendo controlada, moldada pelo medo, (…) um condicionamento qualquer, ela não pode fluir “com abandono”, não pode ser livre; (…) essa energia, quando livre, criará sua peculiar austeridade. (Idem, pág. 176)

É esse estado de abandono, com austeridade, que leva à beleza, e esse estado é amor. Se não temos amor, como podemos apreciar a beleza ou criar o que é belo? Mas não pode haver amor enquanto não houver aquele abandono, que só se tornará existente quando não mais existir o “eu”, o “ego”. Está visto, pois, que esse estado criador só pode surgir ao existir amor, “abandono” e austeridade; mas, a simples austeridade sem abandono, sem amor, nada significa. (Idem, pág. 176-177)

(…) Como sabeis, dividimos o amor em coisa divina e coisa terrena, e criamos assim uma batalha entre as solicitações da carne e a ânsia do divino, entre o amor virtuoso e o amor físico. Mas é possível amar, não sentimental ou fisicamente, mas amar com aquela bondade e aquele perfume do amor no nosso coração, esvaziado de todas as coisas da mente? Ora, por certo, isso só é possível quando entregamos completamente o nosso coração a uma coisa; não há então conflito: há abandono, e esse estado de abandono cria sua peculiar austeridade (…) (Visão da Realidade, pág. 177)

No entanto, há uma austeridade que não seja sensação, (…) concebida, lisonjeada, que não diga: “Serei austero a fim de (…)?” Há uma austeridade que não seja visível por todos? Estão entendendo? Há uma austeridade que não tenha disciplina – que tenha um sentido de totalidade, internamente, na qual não haja desejo, quebra, fragmentação? Com essa austeridade surge a dignidade, a quietude. (Last Talks at Saanen, pág. 88)

(…) Quando a mente está a libertar-se constantemente, pelo morrer para o conhecido, momento a momento, daí provém uma disciplina espontânea, uma austeridade nascida da compreensão. A verdadeira austeridade é uma coisa maravilhosa; não é a disciplina seca, e sem nenhum valor, da renúncia destrutiva, que em geral imaginamos. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 215)

Não sei se já alguma vez experimentastes esse extraordinário sentimento de “ser completamente austero” – coisa que nada tem em comum com a disciplina de controle, ajustamento, submissão. E essa austeridade deve existir, porque nela há grande beleza e intenso amor. É essa austeridade que é apaixonada; e só se apresenta essa austeridade quando há solidão interior. (Idem, pág. 215)

O abandono da personalidade, do “eu”, não se dá por ato de vontade; a travessia para a outra margem não é uma atividade dirigida para um fim ou ganho. A Realidade apresenta-se na plenitude do silêncio e da sabedoria. Não podeis chamar a Realidade, ela deverá vir por si mesma; não podeis escolher a Realidade, ela é que deverá escolher-vos. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 84-85)

Conheceis a palavra “paixão”; essa palavra significa, muitas vezes, “sofrimento”. (…) Não é nesse sentido que estamos empregando a palavra “paixão”. No completo estado de negação, encontra-se a mais elevada forma da paixão; essa paixão implica “total abandono de si próprio”. Para esse “total abandono” necessita-se de austeridade em alto grau; austeridade que não seja a rudeza do sacerdote para com os que o cercam; que não seja a austeridade dos santos, que a si próprios torturam (…).

Austeridade é, com efeito, simplicidade no mais alto grau – não simplicidade no vestir, no comer, porém simplicidade interior. Essa austeridade, essa paixão, é a negação total, a negação na forma mais elevada. (…) Podeis então fazer o que quiserdes – porque haverá amor! (A Essência da Maturidade, pág. 57)

Ao verificardes as limitações que o ambiente colocou ao redor de nós, ao discernimos o seu verdadeiro significado, e em virtude dele mesmo desarraigarmos essas coisas estúpidas, começamos a verificar o que é a verdadeira inteligência. E a expressão dessa inteligência na ação é imortalidade, é a bem-aventurança do viver no presente. (Palestras em New York City, 1935, pág. 11)

Tendes múltiplas idéias concernentes à completação da vida e à imortalidade. Para mim, porém, essa imortalidade, essa riqueza, essa vida completa, só pode ser compreendida e vivida quando a mente estiver integralmente livre das limitações, dos absurdos que o ambiente, tanto o passado como o presente, tanto o herdado como o adquirido, continuamente colocam ao redor de nós. (Idem, pág. 11)

A imortalidade é um contínuo vir-a-ser, não dessa consciência a que chamamos de “eu”, porém dessa inteligência que se libertou tanto do individual como do coletivo, dessa consciência que cria distinções. (Palestras em New York City, 1935, pág. 25)

Isto é, depois que a mente se despoja de toda ilusão e ignorância, é capaz de discernir o infinito presente. É uma coisa que se não pode explicar, acerca da qual não se pode raciocinar. Está para além de todos os argumentos. Tem de ser vivida. Exige grande persistência e constante firmeza de propósito. (Idem, pág. 25)

Para a maioria das pessoas, é este o problema: ser capaz de discernir o verdadeiro significado da vida com seus conflitos e tristezas, sem criar um novo conjunto de ilusões – portanto, vivendo direta e simplesmente – ou então só esperar, marcar passo. Uma das coisas conduz ao êxtase da imortalidade; a outra à completa desordem, à superficialidade, ao tédio, à vida fútil que a grande maioria vive (…) (Idem, pág. 26-27)

Compreender a imortalidade, a Vida, é coisa que exige grande inteligência. (…) Isso exige incessante discernimento, que só pode existir quando houver bastante penetração, demolição das paredes da tradição, da aquisitividade e das reações autoprotetoras. (…) (Palestras em New York City, pág. 44)

(…) Assim, pois, para averiguar o que é verdadeiro, qual o significado da vida, o que é a imortalidade, (…) tendes de possuir inteligência; e, para despertar essa inteligência, necessitais de despojar a mente e o coração das coisas estúpidas (Palestras em New York City, pág. 22)

Digo-vos que há uma realidade vivente, uma imortalidade, uma eternidade que não pode ser descrita; e que só pode ser entendida na plenitude de vossa própria ação individual, e não como parte de qualquer estrutura (…) social, política ou religiosa. (…) Enquanto não agirdes a partir dessa eterna fonte, haverá conflito (…) divisão e contínua luta. (Coletânea de Palestras, 1930-1935, pág.46)

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