Ora, que entendemos por religião? Tal como a entendemos, é crença, dogma, ação segundo um padrão. (…) A crença organizada é a experiência de alguém coordenada de acordo com um padrão de ontem; e vós estais condicionados por essa crença. Isso é religião? (…) Evidentemente, a crença, com suas autoridades e seus dogmas, com suas pompas e sensações, não é religião. (…)

O que é conhecido já recuou para o passado. O que se necessita é a experiência direta do que é; e, para isso, o primeiro requisito é a liberdade, o que significa que deveis estar livre do falso, que é a crença (…) O começo da sabedoria é a compreensão de si mesmo, isto é, meditação. (Nosso Único Problema, pág. 15-16)

Verifiquemos o que se entende por idéias; (…) Que se entende por (…) crença, (…) por ideologia? (…) A idéia, obviamente, é a versão verbal do pensamento. O pensamento é reação ao condicionamento (…) Sois sinhaleses, budistas, cristãos, isso ou aquilo, e vosso pensamento é condicionado de acordo com esse fundo. Esse fundo é constituído pela memória, evidentemente; a memória reage ao estímulo, ao desafio, e a reação da memória ao desafio denomina-se pensar. (Idem, pág. 12-13)

Não há dúvida de que pensais de acordo com o padrão segundo o qual fostes criado (…) O pensamento examina as idéias e, como está condicionado, reage de acordo com esse condicionamento (…) Assim, as idéias unem as pessoas, conforme o padrão em que estas foram criadas; mas não há dúvida de que há idéias contrárias umas às outras. (Nosso Único Problema, pág. 13)

(…) A ação baseada em idéia divide os homens. É por isso que há miséria no mundo, que há fome, sofrimentos, guerras. (…) No mundo inteiro, as idéias estão separando os indivíduos, criando inimizade entre os homens. As idéias a que rendemos culto são a própria negação do amor, (…) não podem operar uma transformação radical. Para realizar-se essa revolução fundamental, precisais começar compreendendo a vós mesmo: só então sereis capaz de criar a unidade, e não por meio de idéias. (Idem, pág. 14)

Uma das coisas (…) é a questão das crenças. Não vou atacar as crenças. O que vamos fazer é tentar descobrir por que aceitamos crenças. Se pudermos compreender os motivos, as causas da aceitação, estaremos então, talvez, aptos, não só a compreender por que o fazemos, senão também a nos livrarmos das crenças. Pode-se ver como as crenças políticas e religiosas (…) separam os homens, geram conflitos, confusão e antagonismo. (…) Há a crença hinduísta, a cristã, a budista, (…) várias ideologias políticas, todas em luta entre si (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 155)

Pode-se ver muito claramente que a crença está separando os homens, fomentando a intolerância. É possível viver sem crença? Só podemos responder estudando a nós mesmos em relação a uma crença. (…) Afinal, a verdade é isto: termos a capacidade de nos encontrar com todas as coisas de maneira nova, momento a momento, sem a reação condicionada do passado, de modo que não haja efeito cumulativo atuando como barreira entre nós e aquilo que é. (Idem, pág. 55)

Se refletirdes, vereis que o temor é uma das razões do desejo de aceitar uma crença. Se nenhuma crença tivéssemos, que nos aconteceria? Não ficaríamos aterrorizados (…)? (…) Essa aceitação de uma crença não é uma das maneiras de encobrirmos o nosso temor – o temor de sermos nada absolutamente, de estarmos vazios? (…) Pela aceitação da crença, compreendemos a nós mesmos? Ao contrário. Uma crença, religiosa ou política, impede-nos, obviamente, a compreensão de nós mesmos. É como que uma cortina, através da qual nos olhamos a nós mesmos. (…) Se não tivermos crenças com que a mente esteja identificada, então, livre dessa identificação, ela é capaz de olhar a si mesma tal como é; começa aí, sem dúvida, a compreensão de nós mesmos. (A Primeira e Última Liberdade, pág. 56)

Como pode uma mente que resultou da insuficiência e do temor, conhecer qualquer atividade que não seja do “ego”? Como pode uma mente aquisitiva e tímida, vinculada pelo dogma e pela crença, conhecer a Realidade? Não o pode. (…) Se me permitis, sugiro que (…) procuremos estar cônscios desse cativeiro resultante da auto-expansão, porquanto essa limitação, esse “eu” que se expande, não será capaz, em tempo algum, de sentir ou descobrir o Real. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 211)

A crença (…) E uma mente que se acha abrigada, segura, certa, é, sem dúvida, incapaz de compreender qualquer coisa nova ou de receber aquilo que não é mensurável. A crença, pois, atua não somente como barreira entre o homem e o homem, mas também (…) como obstáculo a algo que é criador, que é novo. (A Renovação da Mente, pág. 29)

Mas, achar-se num estado de incerteza, de não saber, de não adquirir, é extremamente difícil, (…) Talvez não seja difícil, mas requer certo interesse, sem distração alguma, interior ou exterior. Mas, infelizmente, os mais de nós desejamos estar distraídos interiormente; e as crenças, as cerimônias, os ritos nos oferecem distrações boas, respeitáveis. (Idem, pág. 29)

Estes são os fenômenos que ocorrem no mundo (…) E incluem o isolamento, não só o que ocorre em cada ser humano, senão o isolamento dos grupos que se acham amarrados a uma crença, a uma fé, (…) a conclusão ideológica; (…) Os ideais, as crenças, os dogmas e os rituais estão separando a humanidade. (La Llama de la Atención, pág. 97-98)

(…) Assim, o condicionamento religioso deve ser despedaçado, para que possais ver a verdade no falso e libertar assim a vossa mente (…) A mente religiosa, pois, não tem crença nenhuma, o que não significa que seja ateísta – pois isso constitui uma forma de crença; um crê, e outro não crê; ambos são idênticos (…) (Uma Nova Maneira de Agir, pág. 85)

E esse conformismo se expressa na chamada vida religiosa. (…) para alcançardes a Deus, deveis ser sanyasi, ou monge, (…) levar certo gênero de vida, ser (…) eremita (…) A chamada vida religiosa do sanyasi, do monge, etc., é uma fuga à vida (…) (Idem, pág. 85)

Necessita-se de uma mente nova (…) Necessita-se de uma mente lúcida (…) Assim, o homem religioso, ou a vida religiosa, ou a mente religiosa, não se empenha em fugir da vida – a vida que é fome, sexo, avidez, ambição, alegria, (…) Dela não se pode fugir por meio de (…) misticismo. O místico foge por meio de uma fantasia, (…) experiência; ou hipnotiza-se para entrar em certo estado. (Idem, pág. 85-86)

Prestai atenção (…) Todas as religiões se baseiam na idéia do saber, do experimentar, do crer, e, assim, desde a meninice, somos condicionados para crer. Já temos conhecimento prévio, e adoramos isso que já conhecemos. Sempre nos assusta o desconhecido. (…) A mente que está “vivendo com o conhecido” nunca pode achar-se em estado de revolução, (…) aquele estado que a torna acessível à Verdade. (Viver sem Temor, pág. 16)

É evidente que as nossas mentes estão condicionadas pelas crenças – cristãs, hindus, budistas, etc. A não ser que se esteja completamente liberto de crenças (…), não é possível observar, descobrir, por si mesmo, se há uma Realidade que não pode ser corrompida pelo pensamento. E é preciso também estar liberto de toda moralidade social, porque a moralidade da sociedade não é moral. A mente que não é profundamente moral, que não está enraizada na retidão, não é capaz de ser livre. É por isso que é importante (…) conhecermo-nos a nós próprios (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 87)

(…) A religião se tornou um caso de dogma, crença e ritual, uma coisa totalmente divorciada do viver diário. Podeis crer ou não em Deus, mas vossa crença é muito pouco significativa na vida diária, em que enganais e destruís semelhantes, em que sois ambiciosos, ávidos, ciumentos, violentos. Credes em Deus ou num Salvador ou num guru e, no entanto, mantendes essa crença à distância (…) (Fora da Violência, pág. 43)

(…) Queremos ser entretidos espiritualmente e, assim, freqüentamos a igreja, ou o templo, ou a mesquita, e isso não está em nenhuma relação com nosso sofrimento diário (…) confusão e ódio. O homem realmente sério, que deveras deseja descobrir se algo existe de superior a esta (…) existência, deve, obviamente, estar de todo livre do dogma, da crença, da propaganda, (…) da estrutura em que foi criado, para ser então um homem religioso. (Fora da Violência, pág. 44)

Agora, o que estamos tentando averiguar nesta palestra, e bem assim nas próximas, é se pode haver experiência direta, destituída de todo e qualquer conhecimento, toda instrução, de modo que essa experiência seja verdadeira e não mera reação de nosso condicionamento como hinduísta, (…) budista, (…) cristão (…) O percebimento não pode ser verdadeiro, quando baseado em algum método (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 9)

Se percebemos que todo método é falso, ilusório, produto do tempo, e que o tempo não pode levar à experiência direta, então esse próprio percebimento nos liberta do tempo. Nossa relação é então toda diferente. O importante é que se liberte a mente do conhecimento e do método, das práticas baseadas naquele conhecimento, que só nos podem levar à coisa que ansiosamente desejamos. (Idem, pág. 9)

(…) Deveis, entretanto, tornar-vos apercebidos de que o vosso pensamento está limitado pela crença, de que estais agindo apenas de conformidade com certos grupos de crenças, de que vossa ação está mutilada pela tradição. Nessa liberdade de apercebimento está a plenitude da ação. (Palestra em Adyar, Índia, 1933-1934, pág. 38)

(…) Para compreender esse movimento do pensamento, essa plenitude da ação, que nunca pode ser estática como um padrão, como um ideal, a mente deve estar livre da crença; pois a ação que busca recompensa não pode compreender a sua plenitude, o seu preenchimento. (…) Somente quando já não estiverdes aprisionados pela crença, conhecereis a plenitude da ação. (Idem, pág. 38-39)

(…) O homem está sendo moldado, condicionado para pensar segundo certo padrão, e pode-se ver que é necessária uma revolução (…) verdadeiramente religiosa. Não me refiro à religião do hinduísta, do budista ou do cristão. Isso não é religião, em absoluto, porém mero dogma, sistema de crenças oriundas do medo, do desejo de segurança (…) Religião é coisa bem diversa, e, para se achar a vida religiosa, necessita-se de revolução total em nosso pensar. (…) (O Homem Livre, pág. 12)

Assim, a revolução religiosa a que me refiro não é o ressurgimento ou a reforma de dada religião, porém a completa libertação de todas as religiões, o que, em verdade, significa libertação da sociedade que as criou. (…) Assim, a mente precisa não só despojar-se de todas as cerimônias, crenças e dogmas, mas também estar livre da inveja. A liberdade total do homem está na revolução religiosa, porque só então será ele capaz de considerar a vida de maneira inteiramente diferente (…) (O Homem Livre, pág. 14)

Que quererá dizer “uma vida espiritual”? Uma pessoa se torna espiritual quando celebra cerimônias e ritos, quando tem inúmeras crenças ou princípios, de acordo com os quais procura viver? Isso vos faz espiritual? (A Renovação da Mente, pág. 27-28)

As cerimônias e os ritos talvez proporcionem, às vezes, no começo, certa sensação, certa “elevação”. Mas são práticas que se repetem sempre da mesma maneira, e toda sensação que se repete, em pouco tempo se esgota por si mesma. (Idem, pág. 28)

(…) Não vos sirvais de mim como de uma autoridade, não digais que Krishnamurti desaprova as cerimônias. Eu não aprovo nem desaprovo. Se desejais celebrar cerimônias, vós as celebrareis, e essa é uma razão suficiente em si mesma; se não desejais celebrá-las, não as celebrareis, e também essa é uma razão suficiente em si mesma. (…) (Que o Entendimento seja Lei pág. 7)Pergunta: Pode uma cerimônia ser benéfica (…) não limitadora? Krishnamurti: ( … ) Portanto, a cerimônia, tal como a usais, tem um significado mui definido. Uma cerimônia, no meu entender – de acordo com o uso que fazeis dessa palavra – é uma coisa por meio da qual esperais avançar espiritualmente, mediante a sua eficácia, ou então a assistis para espalhar pelo mundo forças espirituais. (Palestras em Auckland, 1934, pág. 72-73)

Ora, podemos pensar que, por freqüentar uma igreja, nos sintamos soerguidos, cheios de vitalidade e com uma sensação de bem-estar. (…) Tomando uma bebida ou ouvindo uma leitura estimulante, sentis a mesma coisa; mas, por que dais a uma cerimônia um lugar mais importante, mais vital, mais essencial (…)? (…) Assistindo a uma cerimônia, esperais que, por algum processo miraculoso, todo o vosso ser se purifique; (…) Cada um tem de descobrir isso por si mesmo. (…) (Idem, pág. 74)

O culto de uma imagem criada pelas mãos ou pela mente, e os dogmas e rituais da religião organizada, com o seu sentido de beleza, são considerados muito veneráveis e sagrados. Assim o homem, na sua busca daquilo que está para além de toda a medida, (…) de todo o tempo, é iludido, logrado e aprisionado, porque está sempre na esperança de encontrar algo que não seja inteiramente deste mundo. (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 85)

(…) Os ritos, o “puja”, as formas consagradas de meditação, as palavras e frases constantemente repetidas, ainda que proporcionem certas reações agradáveis, não libertam a mente do “eu” e das suas atividades; porque o “eu” é, na essência, produto dos sentidos. (A Educação e o Significado da Vida, pág. 74)

Sem dúvida, só é possível descobrir o que é real, ou se existe Deus, quando a mente está livre de todo condicionamento. (…) Religião, pois, não é freqüentar a igreja, ter certos dogmas e crenças. (Realização sem Esforço, pág. 7)

A religião deve ser uma coisa de todo diversa, pode significar a total libertação da mente de toda (…) tradição; porque só a mente livre é que pode achar a verdade, a realidade, aquilo que transcende todas as projeções mentais. (Idem, pág. 7)

Religião, conseqüentemente, não é crença nem dogma; é a compreensão da verdade, que se deve descobrir na vida de relação, momento a momento. Religião que é crença e dogma não passa de fuga da realidade das relações. (…) (Nosso Único Problema, pág. 80)

A substituição de uma ideologia por outra não constitui a solução para os nossos problemas. O problema não consiste em saber qual seja a melhor ideologia, mas sim no compreendermos a nós mesmos como um processo total. (…) Uma idéia pode servir para formar um grupo, mas esse grupo fica contra outro grupo, que tem uma idéia diferente (…) As ideologias, as crenças, as religiões organizadas, separam os homens. (Idem, pág. 81)

(…) Pelo contrário, eu digo: despertai da vossa hipnose; quer estejais hipnotizado pelos Upanishads ou pelo guru mais em moda, ficai livre deles. Observai os vossos problemas (…) mais próximos, e não os mais distantes, e compreendei as vossas relações com a sociedade. (…) (Que Estamos Buscando?, pág. 191-192)

(…) Tal é o fato que não quereis ver; e enquanto não quiserdes ver o fato, sereis sempre hipnotizado (…) pelo vosso próprio desejo, que sempre procura uma maneira de não ser perturbado, de seguir pelo caminho habitual, e de se tornar respeitável. Senhor, o homem respeitável, o homem dito religioso, é o homem hipnotizado, porque o seu refúgio supremo é a sua crença; (…) (Idem, pág. 192)

(…) A crença, pois, atua não somente como barreira entre homem e homem, mas também, por certo, como obstáculo a algo que é criador, que é novo. (…) (A Renovação da Mente, pág. 29)

Todas as religiões falharam. A religião nada tem em comum com crenças e dogmas; (…) Nossa necessidade atual não é volver ao passado, ressuscitar o passado. Não se pode ressuscitar os mortos; o que está morto foi-se, acabou-se. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 104-105)

Tendes de estar vivo, totalmente, para poderdes descobrir, por vós mesmos, o que é a Verdade. Não tendes guia, (…) guru, (…) instrutor. Tendes de descobrir a flor da bondade, a beleza infinita. E aquela realidade que transcende todas as palavras, todos os padrões do pensamento – vós mesmos é que deveis descobri-la. (Idem, pág. 105)

(…) O homem sempre buscou certa coisa superior ao viver diário, com suas dores, prazeres e tristezas; (…) E, na busca dessa coisa inominável, construiu templos, igrejas, mesquitas. Coisas incríveis se fizeram, em nome da religião. Houve guerras pelas quais as religiões foram responsáveis; entes humanos foram torturados, queimados, destruídos; porque a crença era mais importante do que a verdade, o dogma, mais essencial do que a percepção direta. Se a crença se torna da máxima importância, o indivíduo está pronto a tudo sacrificar por ela; (…) (Fora da Violência, pág. 42)

Como vemos, a nossa busca dentro do campo do condicionamento não é busca nenhuma (…) Uma mente inferior nunca descobrirá o que existe além da esfera mental, e mente condicionada é mente inferior, quer creia em Deus, quer não. É por essa razão que todas as crenças e dogmas que defendemos, todas as autoridades, principalmente as (…) espirituais, têm de ser rejeitadas, porque só então se tornará possível o descobrimento do que é eterno, atemporal. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 10-11)

(…) As velhas soluções, (…) argumentos, crenças, tradições e dogmas são totalmente inúteis. Não importa se sois cristão ou hinduísta (…); é a crença que está dividindo o mundo (…) A crença é que divide os homens em protestantes e católicos, místicos e ocultistas (…) Requer-se, pois, uma mente diferente, (…) verdadeiramente religiosa. Só a mente que ama é verdadeiramente religiosa, (…) é revolucionária, e não a que está sob o domínio das crenças e dos dogmas. (…) (Idem, pág. 27)

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