Em última análise, a coisa que chamamos “eu”, o “ego”, é a entidade que está acumulando experiência. É essa a entidade que luta incessantemente? (…) Se escutardes devidamente, vereis como, em presença da Verdade, acontece uma coisa extraordinária, a desintegração do “eu” e, em conseqüência, a possibilidade de uma mente nova, mente que estará de fato experimentando o que é verdadeiro, sendo ela própria, por conseguinte, a Verdade. (O Problema da Revolução Total, pág. 120)

A mente que compreende, que percebe a verdade relativa ao “vir-a-ser”, ao ser, a verdade relativa ao acumular – essa é uma mente tranqüila; e a mente tranqüila pode experimentar sem se corromper. E pode então, nessa tranqüilidade, penetrar mais fundo, (…) naquele estado maravilhoso que nenhuma mente consciente ou disciplinada (…) pode atingir. Deus, a Verdade, não pode ser acumulado – Ele é de momento a momento. (…) (Idem, pág. 121)

(…) Todavia, esse “eu” está constantemente se afirmando, traduzindo toda experiência, (…) reação, (…) movimento do pensar em conformidade com seu próprio centro. O “eu”, o “ego” é fonte de conflito e dor, de luta perene por vir a ser, realizar, alcançar; e, enquanto não percebermos esse fato, a nossa mente, por mais hábil, sutil e ilustrada que seja, só haverá de criar mais problemas e (…) sofrimentos. Assim, pois, aqueles dentre nós que tiverem intenções realmente sérias, devem evidentemente orientar a sua indagação no sentido de descobrir se esse “eu” pode chegar a um fim. (Percepção Criadora, pág. 54)

Uma vez cônscia da totalidade desse processo do “eu”, na sua atividade, que deve a mente fazer? Só com a renovação (…), a revolução – não pela evolução, ou pelo “vir-a-ser” do “eu”, mas pela completa extinção do “eu” – só assim o novo se apresenta. O processo do tempo não pode trazer-nos o novo, pois o tempo não é o caminho da criação. (A Primeira e Última Liberdade, 1ª ed., pág. 125)

Porque, o que constitui o tempo é a ocupação da nossa mente com a memória, e a capacidade de distinguir diferentes lembranças. E é possível à mente permanecer fora do tempo, fora do conhecimento, que é memória, que é experiência, palavra, símbolo? Pode a mente estar livre de tudo isso e, por conseguinte, fora do tempo? Não há então, no centro, uma revolução, uma transformação fundamental? Porque então a mente já não está lutando por alcançar um resultado, acumular, chegar a um fim. Então não há mais temor. A mente, em si mesma, é o desconhecido; (…) é o novo, “o não-contaminado”. Por conseguinte, é o Real, o incorruptível independente do tempo. (Poder e Realização, pág. 73)

(…) Mas, por certo, o que muito nos interessa é descobrir a verdade acerca dessa coisa que chamamos de “eu”, desse centro que é a causa do conflito, bem como averiguar se existe a possibilidade de dissolver esse centro. (…) Mas podemos, de certo, averiguar se a mente pode ser livre, se pode achar-se naquele estado de “não saber”, em que não esteja preocupada com acumulações e “projeções” do seu próprio saber. (…) O que se precisa fazer é só vigiar a si mesmo, penetrar nos arcanos da mente, observar as tendências do “eu”, em sua atividade de acumulação e projeção. (A Renovação da Mente, pág. 25)

Pergunta: Como pode deter-se a ação do “eu”?

Krishnamurti: Só poderá deter-se se o virdes em atividade. Se o virdes em ação, ou seja, no estado de relação, esse ver será o fim do “eu”. Esse ver, não só é uma ação não condicionada, mas também atua no condicionamento. (A Luz que não se Apaga, pág. 131)

Como poderá o “eu”, o “ego” – que constitui todo o processo do nosso pensar – terminar, cessar? (…) Nessas condições, enquanto cada um de nós – pela compreensão do processo integral das relações, que nos são como um espelho – não descobrir a si mesmo (…); enquanto não estiver cônscio de todo o processo do “eu” – o que é autoconhecimento – tem muito pouca significação a nossa luta. (O Problema da Revolução Total, pág. 25-26)

(…) Devemos pôr de lado todas essas coisas e chegar-nos ao problema central, que é: “Como dissolver o “eu”, que nos prende ao tempo, e no qual não existe nem amor nem compaixão? Só é possível passarmos além, depois que a nossa mente não mais se dividir em pensador e pensamento. Quando pensador e pensamento são uma só unidade, só então há silêncio (…) em que não há fabricação de imagens, nem a expectativa de “mais” experiência. Nesse silêncio (…) há uma revolução psicológica criadora. (Claridade na Ação, pág. 145)

Pode o “eu”, em algum tempo, libertar-se da auto-escravização e suas ilusões? Não deve o “eu” deixar de existir, para que tenha existência o “sem nome”? E esse lutar constante pelo alvo final não tem apenas o efeito de dar mais força ao “eu” (…)? Vós lutais pelo alvo final, outro anda atrás das coisas mundanas; (…) Reflexões sobre a Vida, 1ª ed., pág. 128)

(…) O homem que está observando o perpassar das suas experiências, lembranças, conhecimentos, sem a eles se prender, esse homem não aspira à virtude; não está acumulando. E quando a mente já não está acumulando, quando a mente está desperta para todo o processo da consciência, com todas as suas lembranças e seus motivos inconscientes, todos os impulsos de gerações, de séculos, deixando tudo isso passar por ela sem a prender – não se acha então a mente fora do tempo? A mente que, embora consciente das experiências, não se prende a nenhuma delas, já não está livre da rede do tempo? (Poder e Realização, pág. 72)

Nada dissolverá o “eu” enquanto a mente estiver diligenciando dissolvê-lo, uma vez que a mente é incapaz de arrasar as barreiras, as muralhas que ela própria criou. Mas, quando estou cônscio de toda essa complexa estrutura do “eu , que é o passado em cada movimento, através do presente, para o futuro; quando estou cônscio de tudo que se passa tanto interior como exteriormente, tanto oculta como abertamente – quando estou de todo cônscio de tudo isso, então, a mente, que criou as barreiras, no seu desejo de sentir-se segura, permanente, no seu desejo de continuidade, se torna extraordinariamente tranqüila, inativa; e só então apresenta-se a possibilidade de dissolução do “eu”. (Claridade na Ação, pág. 90-91)

Assim, o que importa não é como ficar livre do orgulho, mas sim compreender o “eu”; e o “eu” é muito insidioso. (…) Portanto, enquanto existir esse centro do “eu”, o fato de uma pessoa ser orgulhosa ou reputadamente humilde será de pequeníssima significação. Serão apenas diferentes casacos para vestir. Quando um dado casaco me atrai, visto-o; e no ano seguinte, de acordo com minhas fantasias, desejos, visto outro. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 88)

O que vocês têm de entender é como esse “eu” aparece. O “eu” surge por meio das várias formas da sensação de realização. Isso não quer dizer que vocês não devam agir; mas a sensação de que vocês estão agindo, (…) realizando, de que (…) precisam abandonar o orgulho, precisa ser entendida (…) (Idem, pág. 88)

(…) Vocês precisam compreender a estrutura do “eu”. Precisam tomar consciência de seu próprio pensar (…) observar como tratam o criado, os pais, o professor; (…) como consideram os que estão acima de vocês e os que estão abaixo de vocês, aqueles que vocês respeitam e aqueles que vocês desprezam. Tudo isso revela os processos do “eu”. Entendendo os processos do “eu”, há a libertação do “eu”. (…) (Idem, pág. 88)

(…) Mas será tão difícil assim o estudo do “eu”? Será necessária a ajuda de outra pessoa, por mais adiantado, elevado que seja o nível (…)? Ninguém, por certo, pode ensinar-nos a compreender o “eu”. Cabe-nos descobrir o processo total do “eu”; mas para isso requer-se espontaneidade. Não podemos impor-nos uma disciplina, um modo de operar; só podemos estar cônscios de instante a instante, de cada movimento do pensamento, de cada sentimento, na vida de relação (…) (Viver sem Confusão, pág. 35-36)

Enquanto houver um padrão de pensamento, a contradição continuará a existir; e, para eliminar o padrão e, assim, a contradição, torna-se necessário o autoconhecimento. (…) O “eu” precisa ser compreendido, na nossa linguagem diária, na maneira como pensamos e como consideramos o nosso semelhante. Se pudermos estar cônscios de cada pensamento, de cada sentimento, momento a momento, veremos que, na vida de relação, compreenderemos as peculiaridades e tendências do “eu”. Só então podemos ter aquela tranqüilidade da mente, (…) ver surgir a realidade final. (Por que não te Satisfaz a Vida, pág. 40)

(…) Pode um homem viver, dia a dia, enfrentando cada fato que surge e nunca buscando refúgio; enfrentando “o que é” a todas as horas, todos os minutos do dia? Porque, então, penso eu, descobriremos que não só o sofrimento termina, mas também a mente se toma sobremodo simples e clara, apta a perceber diretamente, sem ajuda das palavras, do símbolo. (O Passo Decisivo, pág. 166)

“Viver com uma coisa” significa amá-la. Quando amais alguém, desejais viver com essa pessoa, estar em sua companhia, não? Da mesma maneira pode uma pessoa “viver com o sofrimento, não sadicamente, porém sentindo-lhe a força, a intensidade, e também sua absoluta superficialidade; e isso significa nada poder fazer contra ele. (…) (O Passo Decisivo, pág. 167)

(…) É facílimo fugir; pode-se tomar uma droga, uma bebida, ligar o rádio, abrir um livro, tagarelar com outros, etc. Mas “viver com uma coisa” – prazer ou dor – inteiramente, totalmente, requer mente bem vigilante. E quando a mente é assim vigilante, ela cria sua ação própria – ou melhor, a ação nasce do fato, e a mente nada tem que fazer contra o fato. (Idem, pág. 167-168)

(…) No momento em que se percebe a totalidade da coisa, esta se desvanece. Quando um coisa é percebida totalmente, está acabada. Ao conhecermos a estrutura completa do sofrimento, (…) sua “interioridade”, sem formular teorias a respeito, porém observando o fato realmente, a sua totalidade – então o fato cai por si. A rapidez, a presteza do percebimento depende da mente. Mas, se vossa mente não é simples, direta, e se está repleta de crenças, esperanças, temores, desesperos, desejando modificar o fato, “o que é”, nesse caso estais prolongando o sofrimento. (O Passo Decisivo, pág. 170)

Há compreensão do “eu”, e liberdade, só quando posso olhá-lo completa e integralmente, como um todo; e isso só posso fazer quando, sem justificar, sem condenar, sem reprimir, compreendo na íntegra o processo de toda a atividade do desejo, (…) porque o pensamento não é diferente do desejo. Se posso assim compreender, terei a possibilidade de transcender as restrições do “eu”.(…) (Quando o Pensamento Cessa, pág. 64-65)

(…) Assim sendo, o que me parece importante é essa investigação do “eu” de “mim”, para se conhecer o “eu” tal qual é, com suas ambições, invejas, exigências agressivas, falácias, divisão em “superior” e “inferior” – de tal maneira que não só seja revelada a mente consciente, mas também a inconsciente (…); o conhecimento da totalidade do “eu” significa o seu fim. (…) (Transformação Fundamental, p .60)

Se houver correta compreensão do fato de que não pode existir verdadeiro discernimento enquanto persistir a vontade de desejo, essa mesma compreensão faz com que o processo do “eu” chegue a ser destruído. Não existe outro ou mais alto “eu” que destrua o processo do “eu”; nenhum ambiente e nenhuma divindade pode acabar com esse processo. Porém, a própria percepção do processo do “eu”, o discernimento de sua insensatez, de sua natureza transitória, é que o destrói. (Palestras em Nova York, Eddington, Madras, 1936, pág. 56)

(…) Há uma atividade diferente que não procede do “ego” e que cumpre ser encontrada. Uma inteligência diferente é necessária para compreender o Atemporal, pois é só este que nos pode libertar de nossas lutas e sofrimentos (…) A inteligência que agora possuímos é produto do desejo de satisfação e segurança, material ou espiritual; é resultado da cupidez; (…) da auto-identificação. Tal inteligência é incapaz de compreender o Real. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 215-216)

Pergunta: Como podemos ultrapassar essa inteligência limitada?

Krishnamurti: Se ficarmos passivamente vigilantes de suas atividades complexas e inter-relacionadas. Com essa vigilância, as causas que nutrem a inteligência do “ego” extinguem-se sem esforço autoconsciente. (Idem, pág. 216-217)

Pergunta: De que maneira pode ser cultivada a outra inteligência?

Krishnamurti: Não está errada essa pergunta? (…) Existem, naturalmente, certos requisitos óbvios e essenciais para libertar a mente dessa inteligência limitada; a humildade (…) e a piedade, a ausência de avidez, que é ausência de identificação; o não ser mundano, que significa estar liberto dos valores materiais; e estar livre da estupidez e da ignorância, que denotam falta de autoconhecimento, etc. Devemos estar cônscios das atividades sutis e erradias do “ego”, pois, quando as compreendemos, começa a existir a virtude (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 217)

(…) Para vermos a luz pura, devemos primeiramente dar-nos conta de nossos óculos coloridos; essa própria percepção, se for intenso o desejo de vermos a luz clara, ajuda-nos a retirar os óculos de cor. O retirá-los não representa a ação de uma resistência contra outra, mas, sim, uma ação sem esforço da compreensão. Devemos tomar conhecimento da realidade, pois a compreensão do que é libertará o pensamento; essa própria compreensão dar-nos-á a receptividade franca, transcendendo a inteligência especializada. (Idem, pág. 218)

Pergunta: Pode haver felicidade quando não há mais a consciência do “eu”? (…)

Krishnamurti: Primeiramente, que se entende por consciência do “eu”? Quando tendes consciência desse “eu”? (…) Estais consciente de vós mesmos como um “eu”, uma entidade, quando estais em aflição, quando experimentais derrota, conflito, luta. (Palestras na Itália e Noruega, 1933, pág. 137-138)

Dizeis: “Se este “eu” não existe, que é que existe?” Digo que descobrireis só quando a vossa mente estiver livre desse “eu”; (…) Quando a vossa mente e o vosso coração estiverem em harmonia, (…) não (…) mais coibidos no conflito, sabereis. (…) Digo que descobrireis a vida não identificada como o “vós” ou o “eu”, a vida que é eterna, infinita, somente quando essa consciência limitada se dissolver. Não a dissolveis; ela se dissolve a si mesma. (Idem, pág. 138)

(…) Só depois de cessar a atividade do “ego”, da memória, apresenta-se uma consciência totalmente diferente, a respeito da qual toda especulação é somente estorvo. O esforço que visa à expansão é sempre atividade do “ego”, cuja consciência quer crescer, “vir a ser”. Essa consciência prende-se ao tempo e por isso não se encontra, nela, o Atemporal. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 200)

O que podemos perceber é, somente, que estamos fechados, que a atividade da vontade é resistência e que o próprio desejo de alcançar vigilância passiva é um obstáculo a mais. (…) Estar atento para as atividades egocêntricas é anulá-las; (…) A vigilância passiva só nos vem quando tranqüila a mente-coração. Nessa tranqüilidade, vem o Real à existência. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 214)

(…) O problema, pois, é este: pode a mente, que é resultado do tempo, a mente que é o “eu”, o “ego”, ainda que muito lhe agrade dividir-se em “eu” superior e “eu” inferior, observador e coisa observada – pode o “eu”, cuja consciência, no seu todo, é resultado da acumulação de experiência, de memória, de conhecimentos, findar sem o desejarmos (…)? (Poder e Realização, pág. 71)

E pode essa mente, que pertence ao tempo e não tem relação nenhuma com a Verdade (…) deter-se instantaneamente, para que possa existir a outra mente, o outro “estado de ser”, a mente que experimenta a Realidade e é, por conseguinte, ela própria o Real? (Idem, pág. 71)

Em momentos de intensa criação, de grande beleza, há uma tranqüilidade absoluta; em tais momentos verifica-se uma ausência completa do “ego” e de todos os seus conflitos; é essa negação – a forma suprema do pensar-sentir – que é essencial para alcançarmos o estado de potência criadora. (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 88)

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