Pergunto-me (…) se estamos cônscios de estar condicionados. Sabemos, vós e eu, que estamos condicionados, como cristãos ou hinduístas, condicionados de acordo com certa norma de pensamento, certo padrão de ação, condicionados pela rotina de nossas ocupações diárias e todos os temores e tédios a ela inerentes? Sabemos que somos produto das inumeráveis influências da sociedade? (…) (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 25)

Estamos cônscios de tudo isso? (…) Não há condicionamento nobre e honroso, há só condicionamento. (…) E é possível a mente descondicionar-se? Mas o que nós vamos tentar, em primeiro lugar, é “experimentar”, não teoricamente, (…) mas (…) praticamente, o fato de estarmos condicionados. (…) E, a seguir, o que devemos investigar por nós mesmos, sem dependermos de nenhuma autoridade, é se há possibilidade de a mente se tornar descondicionada. (…) (Idem, pág. 25)

Muitos de nós recebemos, como parte de nosso condicionamento, a idéia de que o descondicionamento da mente é um processo gradual, que se estende através de várias vidas, exigindo a prática de disciplinas, etc. Ora, tal pode ser o mais errôneo modo de pensar e o descondicionamento da mente pode ser, muito ao contrário, uma coisa imediata. Eu acho que ele é imediato, e isto não é mera opinião. (…) (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 89)

Esse descondicionamento é essencial, porque os tempos atuais exigem uma nova compreensão criadora, e não a mera reação de um condicionamento do passado. Qualquer sociedade que não saiba reagir ao desafio novo de um indivíduo ou grupo, tal sociedade tem de deteriorar-se. E a mim me parece – se desejamos criar um mundo novo, uma sociedade nova – (…) que devemos ter livre a nossa mente. E essa mente nova não pode nascer sem um verdadeiro autoconhecimento. (Idem, pág. 89-90)

O nosso pensamento está condicionado pelo passado; o “eu” é o resultado de experiências armazenadas, sempre incompletas. A lembrança do passado está sempre absorvendo o presente; o “ego” (…) está sempre a acumular e rejeitar, forjando de contínuo novas cadeias para o seu próprio condicionamento. À lembrança agradável, ele se apega, rejeitando a desagradável. O pensamento deve transcender esse condicionamento, para que o Real seja. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 149-150)

Só a mente que investiga a fundo a questão do autoconhecimento, afastando de si toda autoridade (…) – só essa mente é capaz de descobrir a Realidade. (…) Mas, para descobrir o que é verdadeiro, (…) se há Deus, necessita-se de liberdade da mente, (…) completa, e isso significa que se deve descondicionar a mente de todo o passado. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 89)

Procuramos servir-nos do novo como meio de (…) consolidar o velho, e com isso corrompemos o presente, em que palpita a vida. O presente renova, e dá-nos compreensão do passado. É sempre o novo que dá compreensão, e, na sua luz, assume o passado um significado novo e vivificante. Quando ouvimos uma coisa nova, ou a sentimos em nós, nossa reação instintiva é compará-la com o velho, com algo já conhecido e sentido. (…) Essa comparação dá força ao passado, desfigura o presente, e por essa razão se transforma o novo sempre em coisa passada e morta. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 170)

O que importa é não controlar o pensamento, mas entendê-lo, saber a sua origem (…) O pensamento nunca é livre, ele é sempre velho. O pensamento nunca pode ser, ele mesmo, livre; ele pode falar de liberdade, mas ele é resultado de memórias, experiências e conhecimento passados; portanto, ele é velho. Ainda assim, deve-se ter essa acumulação de conhecimento, porque de outra forma não se poderia funcionar, não se poderia falar um com o outro, etc. (The Awakening of Intelligence, pág. 96)

(…) O desafio é sempre novo, a ação, sempre velha. Encontrei-me ontem convosco, e hoje vindes à minha presença. Estais transformado, (…) estais mudado, sois novo; mas eu conservo a vossa imagem de ontem. (…) Não vos encontro de maneira nova, mas com o vosso retrato de ontem; por isso, minha reação ao desafio é sempre condicionada. (…) Isto é, o novo está sempre se absorvendo no velho, nos velhos hábitos, costumes, idéias, tradições, memórias. (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 72)

Nunca há o novo, porque ides sempre ao encontro do novo com o velho; o desafio é sempre novo, mas vós o enfrentais com o velho. Assim, pois, o problema contido na pergunta é: Como libertar o pensamento do velho, para que seja novo todo o tempo? (…) (Idem, pág. 72)

Ora, a velha reação procede do pensador. O pensador não é sempre o velho? Porque o vosso pensamento está fundado no passado. Como é então possível o novo? Só é possível quando não há mais resíduo de memória, e há resíduo quando a experiência não é completada, concluída, terminada, isto é, quando a compreensão da experiência é incompleta. (Da Insatisfação à Felicidade, pág. 72-73)

(…) Não é certo que, por muitas de nossas ações, estimulamos de maneira positiva a expansão do “ego”? Nossa tradição, nossa educação, nosso condicionamento social, tudo isso sustenta, de modo positivo, as atividades do “ego”. (…) Como pode o pensamento libertar-se desse condicionamento? Como pode ficar tranqüilo, em silêncio? Havendo essa tranqüilidade, (…) mostra-se-nos a Realidade. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 188-189)

(…) Essa transformação é que é essencial, e ela não é alcançável por meio de nenhuma influência, de nenhum saber. O saber não resolve os nossos sofrimentos. Saber significa ter explicações. Só suprimindo completamente o saber, só deixando de considerá-lo como meio de orientação, só então a nossa mente poderá sentir o inefável, será capaz de produzir uma transformação fundamental, uma revolução verdadeira. (Claridade na Ação, pág. 91-92)

(…) Que se passa em vossa mente, ao compreenderdes que ela precisa ser nova, que o vosso passado tem de desaparecer? (…) Isto é, se desejais compreender um quadro moderno, é claro que não deveis chegar-vos a ele com vossa formação clássica. Se reconhecerdes isso como um fato, que acontece à vossa formação clássica? Vossa formação clássica fica ausente quando há a intenção de compreender um quadro moderno – o desafio é novo e reconheceis que não o podeis compreender através do crivo do passado. (A Arte da Libertação, pág. 119)

Assim é que vamos averiguar se há alguma parte do cérebro que não esteja condicionada. Tudo isso é meditação, o descobri-lo. Pode uma pessoa dar-se conta do condicionamento em que vive? Pode você verificar que está condicionado como cristão, capitalista, socialista, liberal, de que um crê nisto e outro não crê naquilo? – tudo isso é parte do condicionamento. (La Verdad y la Realidad, pág. 208)

É o pensamento que se dá conta de que está condicionado? Ou existe uma observação, uma percepção alerta, na qual há pura observação? Existe um ato ou uma arte de puro escutar? (Idem, pág. 208)

Importa não nos limitarmos a escutar o que se diz, e aceitá-lo ou rejeitá-lo, mas que também observemos o “processo” do nosso pensar, em todas as nossas relações. Porque nas relações, que são o espelho, vemo-nos a nós mesmos como somos realmente. E se não condenarmos nem compararmos, será então possível penetrarmos mais fundo no “processo” da consciência. Só então pode ocorrer uma revolução fundamental. (…) O homem que se está libertando de todo condicionamento, que está plenamente vigilante – esse é um homem religioso, e não aque1e que meramente crê. E só esse homem (…) é capaz de realizar uma revolução no mundo. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 90)

A coisa importante, por conseguinte, é o autoconhecimento, percepção de nós mesmos, como somos, no espelho das relações. É muito difícil observarmos a nós mesmos sem desfiguração, porque fomos educados para desfigurar, para condenar, comparar, julgar; mas se a mente é capaz de observar a si mesma sem desfiguração – e ela o é – descobrireis, pelo experimentar, que a mente pode descondicionar-se. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 9)

Ora, eu estou sugerindo que a mente pode ser descondicionada. Certo, essa possibilidade só existe quando percebemos que estamos condicionados e não aceitamos esse condicionamento (…) A mente descondicionada é a única mente verdadeiramente religiosa; e só a mente religiosa pode realizar a revolução fundamental. (Idem, pág. 10)

Como vemos, (…) Uma mente inferior nunca descobrirá o que existe além da esfera mental; e mente condicionada é mente inferior, quer creia em Deus, quer não. É por essa razão que todas as crenças e dogmas que defendemos, todas as autoridades, principalmente as (…) espirituais, têm de ser rejeitadas, porque só então se tornará possível o descobrimento do que é eterno, atemporal. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 10-11)

(…) Vem a transformação quando há compreensão direta e, por conseguinte, certa espontaneidade e nenhum senso de compulsão. Mas isso só é possível quando sois capazes de escutar muito tranqüilos, interiormente, com completa ausência de barreiras. Se vos modificais em conseqüência de argumentação, de imperativos lógicos, de influência, estais, então, apenas condicionado numa direção diferente. (Claridade na Ação, pág. 91)

Portanto, é possível aos seres humanos, a você, realizar uma completa mutação? Tal mutação transforma as células do cérebro. Quer dizer, tem-se ido em direção ao norte por toda a vida e alguém vem e diz: “Ir para o norte não faz sentido, não tem valor, não há nada lá. Vá para o leste ou o oeste ou para o sul”. E porque você ouve, (…) está interessado, (…) determinado, você vai para o sul. Nesse momento, quando você vira e vai para o sul, há uma mutação nas células do cérebro.

Porque ir para o norte se tomou o padrão, a moda, e, quando você vai para o leste, você quebra o padrão, correto? É simples. Mas requer que escutemos, não meramente palavras, não apenas com a audição do ouvido, mas que escutemos sem nenhuma interpretação, (…) comparação, escutemos diretamente, sem trazer à tona suas tradições, seu background, sua interpretação. Então esse escutar verdadeiro quebra seu condicionamento. (Last Talks at Saanen, 1985, pág. 99)

Agora (…) vereis que, embora a reação, o movimento do pensamento, pareça tão célere, existem vãos, existem intervalos entre os pensamentos. Entre dois pensamentos há um período de silêncio não relacionado com o “processo do pensamento”. Se observardes, vereis que esse período de silêncio, esse intervalo, não é de tempo; e o descobrimento desse intervalo, o completo “experimentar” do mesmo, vos liberta do condicionamento. Assim, a compreensão do processo do pensar é meditação. (…) (Que Estamos Buscando, 1ª ed., pág. 179-180)

(…) É só quando a mente não está dando continuidade ao pensamento, só quando tranqüila, com uma tranqüilidade não provocada, isto é, sem nenhuma ação causal – é só então que estamos livres do background. (…) (Idem, pág. 180)

A compreensão do processo integral do condicionamento não nos vem por meio de análise ou de introspecção; porque, no momento em que temos o analista, esse mesmo analista faz parte do “fundo” condicionado (background); a sua análise, portanto, não tem valor. (…) (Que Estamos Buscando?, 1ª ed., pág. 178)

Creio que algo ocorre. Vejo que estou condicionado e me separo a mim mesmo do condicionamento, sou diferente do condicionamento. E vem você e diz: “Não, não é assim, o observador é o observado”. Se posso ver, ter o discernimento – de que o observador é o observado – então o condicionamento começa a dissolver-se. (La Verdad y la Realidad, pág. 39)

Nossa investigação, por conseguinte, deve visar, não à solução de nossos problemas imediatos, mas, sim, a descobrir se a mente – não só a mente consciente, mas também a inconsciente, (…) profunda, onde estão depositadas todas as tradições, lembranças, e herança racial – se a totalidade da mente pode ser posta de lado, abandonada. (…) (Transformação Fundamental, pág. 10)

(…) E podemos estar cônscios desse condicionamento sem lhe opormos nenhuma reação, sem condená-lo, (…) alterá-lo, (…) para que o próprio “processo” de condicionamento (…) seja “queimado” pela raiz? (…) (Idem, pág. 11)

Se a mente puder libertar-se do seu condicionamento, dos seus desejos, (…) disciplinas, padrões, acidentes, haverá então o libertar da mente do passado. Dessa liberdade virá o silêncio, a tranqüilidade mental. Essa tranqüilidade não pode ser feita, mas ocorre quando a mente é livre. (…) O que está num movimento extraordinário, (…) está quieto. E dessa tranqüilidade surge o mistério da criação, aquela verdade não mensurável pela mente. (As Ilusões da Mente, pág. 107)

(…) Porque (…) só do vazio pode provir uma coisa nova, e não da mente que está “carregada”, condicionada. O novo não é condicionado pelo velho. O novo não é reconhecível pelo velho. (…) Só desse vazio extraordinário, vigilante, sensível, pode provir o novo. (…) (Uma Nova Maneira de Agir, 1ª ed., pág. 16)

Portanto, esta é a primeira coisa que se deve perceber: que não podeis contar com ninguém para vos descondicionardes. Ao percebê-la, ou vos assustareis, vendo que não podeis contar com ninguém, mas só e unicamente com vós mesmos (…); ou, reconhecendo que ninguém pode valer-nos e, portanto, vós mesmos tendes de trabalhar, já não sentireis medo e tereis vitalidade, energia, entusiasmo. (…) Sereis vosso próprio mestre, vosso próprio discípulo; estareis aprendendo, descobrindo. (Viagem por um Mar Desconhecido, pág. 160)

O importante é a destruição, não a mudança; esta é apenas a continuidade modificada do que foi. Todas as reformas sociais e econômicas são meras reações. (…) Essa mudança não destrói as raízes do egocentrismo. (Diário de Krishnamurti, pág. 13)

O que deve interessar-nos, pois, é destroçar a mente, para que algo novo possa ocorrer. (…) Há necessidade dessa revolução; torna-se necessária a total destruição de todos os dias passados, pois, do contrário, não teremos a possibilidade de nos encontrarmos com o novo. E a vida é sempre nova, tal como o amor. O amor não tem ontem ou amanhã; é sempre novo. (…) (O Passo Decisivo, pág. 123)

(…) Requer-se, pois, uma mente diferente, (…) verdadeiramente religiosa. Só a mente que ama é verdadeiramente religiosa, e a mente religiosa é que é revolucionária, e não a que está sob o domínio de crenças e dogmas. Quando a mente está cônscia (…) de que se acha condicionada, nessa percepção apresenta-se um estado que não é condicionado. (Palestras na Austrália e Holanda, 1955, pág. 27)

(…) Mas o condicionamento da mente deve quebrar-se por si, a mente nada pode fazer nesse sentido. Estando condicionada, não pode atuar sobre seu próprio condicionamento. (…) Vós não podeis destruir o vosso condicionamento; mas o próprio percebimento do fato de estardes condicionado produz uma vitalidade que destrói o condicionamento. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 240)

Quando conhecerdes o seu processo integral – como raciocina ela, os seus desejos, “motivos”, ambições, ocupações, sua inveja, sua avidez, seu temor – então a mente poderá transcender-se a si mesma e, fazendo-o, dar-se-á o descobrimento de algo que é totalmente novo. Essa qualidade de novo infunde um ardor extraordinário, um descomunal entusiasmo, que dá origem a profunda revolução interior, e só essa revolução interior poderá transformar a mundo. (Visão da Realidade, pág. 18)

A percepção disso é o fim do condicionamento. Quando se der conta de que o observador é o observado, essa é a verdade. Então, nesse dar-se conta – que é a verdade – o condicionamento desaparece. (…) (La Verdad y la Realidad, pág. 39)

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