A arte tem seu lugar próprio, é claro; mas a coisa não acaba aí. Só quando sois capaz de ultrapassar a arte, (…) a beleza criada pelo homem, só então conhecereis por vós mesmo aquela beleza inexprimível. E estando presente aquela beleza, nada mais necessitais buscar. (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 34)

Ora, como dizia, na atenção total há uma criação que não pode se expressar em palavras, símbolos, idéias. Ela é energia total. Eu posso ter o dom de escrever poesias; mas como posso expressar em palavras essa energia total, essa coisa extraordinária chamada criação? (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 33)

Uma pessoa sente, talvez, que existe essa coisa – um movimento de criação, imensidade, eternidade. Mas como expressar em palavras o imensurável? E, mesmo quando o expressamos, a expressão não é a própria coisa. (…) Quem bebeu na fonte da criação, de que mais necessita ainda? (Idem, pág. 33)

Penso ser este o problema real (…) O problema básico é que o homem não é criador, não descobriu por si mesmo a extraordinária fonte de criação, não inventada pela mente; e só quando se descobre essa fonte criadora, atemporal, é que se encontra a suprema felicidade. (Da Solidão à Plenitude Humana, pág. 55)

Pergunta: No meu entender (…) Entretanto, falais freqüentemente da pessoa que cria. Quem é ela, senão o artista, o poeta, o arquiteto?

Krishnamurti: O artista, o poeta, o arquiteto é necessariamente criador? Ele não é também lascivo, mundano, ansioso de prosperidade? Não está, assim, contribuindo para o caos e as misérias do mundo? (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 51)

Não é responsável pelas suas catástrofes e sofrimentos? Ele o é, quando ambiciona a fama, quando é invejoso, quando é mundano; quando os seus valores são dos sentidos; (…) A circunstância de possuir certo talento faz o artista criador? (Idem, pág. 51)

Criar é coisa infinitamente superior à mera capacidade de expressão. A simples expressão de efeito feliz, e os aplausos que suscita, não representam, por certo, manifestações da atividade criadora. (…) (Idem, pág. 51-52)

A potência criadora surge quando estamos livres da servidão do anseio, com o seu conflito e seus pesares. Pelo abandono do “eu”, com sua positividade e crueldade, com suas lutas incessantes por vir a ser, surge a Realidade criadora. (Idem, pág. 52)

Na beleza de um pôr-do-sol ou de uma noite calma, já não sentistes uma alegria intensa e criadora? Num momento desses, estando o “eu” temporariamente ausente, ficais suscetíveis, abertos à Realidade. Essa é uma ocorrência rara, não buscada (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 52)

Todos nós temos conhecido momentos de ausência do “eu”, sentindo (…) o extraordinário êxtase de criar, mas, em vez desses instantes raros e fortuitos, não será possível efetivarmos o verdadeiro estado no qual a Realidade é o eterno ser? Se buscais com diligência aquele êxtase, poderão, dessa atividade do “ego”, advir certos resultados, que não serão, entretanto, aquele estado que vem com o pensar e a meditação corretos. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 52-53)

(…) Quando sentimos esse pujante êxtase criador? Só depois de cessar todo conflito, só na ausência do “ego”, só na tranqüilidade completa. Não é possível sentir-se essa tranqüilidade, quando a mente-coração está agitada, em conflito. (…) (Idem, pág. 63)

Pergunta: O que é a verdadeira criatividade (…)?

Krishnamurti: O que geralmente chamamos de criatividade é o que é feito pelo homem – pintura, música, literatura romântica e factual, toda a arquitetura e as maravilhas da tecnologia. E os pintores, os escritores, os poetas, provavelmente se consideram criativos. (…) Muitas coisas feitas pelo homem são muito belas: as grandes catedrais, templos e mesquitas; algumas delas são extraordinariamente belas e nós não sabemos nada das pessoas que as construíram. Mas agora, entre nós, o anonimato quase que desapareceu. (Perguntas e Respostas, pág. 47)

Mas a maior parte da criatividade feita pelo homem, como o chamamos, surge do conhecido. Os grandes músicos, Beethoven, Bach e outros, agiram a partir do conhecido. Os escritores e filósofos leram e acumularam; embora tenham desenvolvido seu próprio estilo, eles estiveram sempre se movendo, agindo ou escrevendo a partir do que eles acumularam – o conhecido. E a isso geralmente chamamos criatividade. (Idem, pág. 47-48)

Por acaso, a criatividade é algo totalmente diferente, algo que todos nós possamos ter – e não somente o especialista, o profissional, o talentoso, o bem-dotado? Penso que todos nós podemos ter essa mente extraordinária, realmente livre dos fardos que o homem se impôs. Dessa mente sã, racional, saudável, surge algo totalmente diferente, que pode não se expressar necessariamente como pintura, literatura ou arquitetura. (…) A experiência implica uma mente que ainda está tateando, perguntando, procurando, (…) lutando no escuro (…) (Perguntas e Respostas, pág. 48)

Haverá uma resposta total e completa à pergunta se dedicarmos a mente e o coração a ela; há uma criatividade que não é feita pelo homem. Se a mente é extraordinariamente lúcida, sem uma sombra de conflito, então ela está realmente num estado de criação; ela não necessita de expressão, de realização, de publicidade e absurdos tais. (Idem, pág. 48)

Nós só conhecemos a ação que tem causa, motivo, que é um resultado. Se a relação se baseia em causa, ela é então sagaz adaptação (…), há de levar inevitavelmente a (…) embotamento. O amor é a música, coisa que não tem causa, que é livre; ele é beleza, é aptidão, é arte. Sem, amor, não há arte. Quando o artista atua com beleza, não há “eu”; há amor e beleza, portanto, arte. Arte é atuar com aptidão. Nesse atuar está ausente o “eu”. (A Luz que não se Apaga, pág. 107)

Por outras palavras, quando há impeto criador (…) temos o sentimento criador, não há luta, o gue significa que o “eu”, com todos os seus preconceitos, (…) condicionamentos, está ausente. Nesse estado de ausência do “eu”, manifesta-se a capacidade de criação, e logo procuramos expressar esse sentimento de força criadora, esse estado criador, pela ação – na música, na pintura, etc. Começa então a luta – o desejo de aplauso. (Nós Somos o Problema, pág. 47)

Ora, se o indivíduo não é livre, não vejo como possa ser criador. Não estou empregando a palavra “criador” no estreito sentido de “homem que pinta quadros, escreve poesias ou inventa máquinas”. Tais indivíduos, para mim, não são criadores, absolutamente. Poderão ter momentânea inspiração; mas criação é coisa muito diferente. Só pode haver criação quando há liberdade total. Nesse estado de liberdade, há plenitude, e, então, o escrever uma poesia, pintar um quadro, ou esculpir uma pedra, tem sentido completamente diferente. Já não é mera expressão da personalidade, nem resultado de frustração, nem busca de compradores; é coisa toda diferente. (…) (Experimente um Novo Caminho, pág. 36)

Este é um dos problemas mais importantes da vida moderna, porque somos educados, exercitados, condicionados para permanecer na esfera do conhecido, na qual existe ansiedade, desespero, sofrimento, confusão, aflição. Só os “inocentes” podem ser criadores, são capazes de criar algo novo, e não apenas produzir mecanicamente um quadro, um poema (…) (Idem, pág. 39)

A nossa dificuldade, por certo, está em que a maioria de nós perdeu o senso da criação. O ser criador não significa pintar quadros ou escrever poemas, para nos tornarmos famosos. Isso não é criação – é apenas a capacidade de expressar uma idéia, que o público aplaude ou menospreza. (…) (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 24)

(…) Não se devem confundir capacidade e potência criadora. Capacidade não é potência criadora. A atividade criadora é um modo de ser inteiramente diferente (…) É um estado no qual está ausente o “eu”, a mente já não é um foco de nossas experiências, (…) ambições, (…) empenhos, (…) desejos. (Idem, pág. 24)

(…) A atividade criadora não é um estado contínuo; é nova de momento a momento, é um movimento no qual não existe “eu” e “meu”, (…) o pensamento não está concentrado em torno de determinada experiência, ambição, realização, propósito ou motivo. É só quando não existe o “eu”, que existe ação criadora (…) (Por que não te Satisfaz a Vida?, pág. 24-25)

A compreensão do “eu” não é um resultado, uma culminação: é vermos o nosso “eu”, momento a momento, no espelho da vida de relação – em nossas relações com a propriedade, (…) as coisas, as pessoas e as idéias. Esse estado de criação só se manifesta quando o “eu”, que é processo de reconhecimento e acumulação, deixa de existir (…) Mas temos medo de ser nada, porque todos desejamos ser alguma coisa. (…) (Idem, pág. 25)

(…) Vosso próprio desejo de modificar a vossa mente medíocre, numa coisa superior, vos está impedindo de ser criador (…) Aquela criação que é atemporal, não ligada a nenhuma classe, nenhum grupo, nenhuma religião, que é a verdade, que é Deus (…), aquela criação não pode ser alcançada pela mente medíocre, a mente que diz: “tenho de ser criadora, tenho de conseguir tal coisa, tenho de saber mais”. A criação, porém, só vem quando a mente está frente a frente com o fato, e quieta. (O Problema da Revolução Total, pág. 44)

(…) Assim, o que é criação? Está (…) relacionada com o amor? Isto é, o amor não é ódio, ciúme, ansiedade, incerteza, o amor de sua esposa, pois este é o amor de uma imagem que você formou sobre ela, ou de seu marido ou namorada, amigo, ou a imagem que você construiu sobre seu guru, pelo qual você tem grande devoção, ou a imagem de um templo, mesquita ou igreja. Portanto, estamos perguntando: o amor é necessário à criação? Ou é o amor, que é também compaixão, criação? E está a criação relacionada com a morte? Entendem vocês todas essas questões? (Last Talks at Saanen, pág. 126)

(…) A criação não é para os talentosos, para os bem-dotados; esses conhecem a criatividade, mas nunca a criarão. Criar é transcender o pensamento, a imagem, a palavra e a expressão. A criação é intransmissível, porquanto não pode ser formulada, nem tampouco expressa em palavras. Podemos apenas senti-la em estado de total lucidez. (Diário de Krishnamurti, pág. 43)

O cérebro, com suas inúmeras e complexas reações, não pode compreendê-la, porquanto não dispõe de meios para entrar em contato com a criação; ele é incapaz de fazê-lo. O conhecimento é um obstáculo e, sem autoconhecimento, nada se cria. O intelecto (…) não pode conceber a criação. O cérebro (…) deve permanecer quieto, mudo, e, ao mesmo tempo, alerta e silencioso. (…) (Idem, pág. 43)

Só então ocorre o espantoso movimento da criação. Ela surge da completa negação; sem ser um processo dependente do tempo, a criação transcende o espaço. Resulta da morte total, do completo aniquilamento. (Idem, pág. 43)

(…) Portanto (…) Criação é engendrar, dar origem a algo totalmente novo. Em que nível? (…) Em nível sensorial, (…) intelectual, (…) da memória? (…) (Tradición y Revolución, pág. 408)

(…) Ao sensorial? Tome uma pintura nova, que é não-verbal. Pode você pintar algo que seja totalmente novo? Ou seja, pode você dar origem a algo que não seja auto-expressão? Se é auto-expressão, isso não é novo. (Idem, pág. 409)

O intenso brilho das estrelas realçava o encanto do amanhecer (…) Nada se movia na absoluta tranqüilidade (…); era a beleza da terra, do céu e do homem, dos pássaros (…) Exprimindo qualidade impessoal, havia nela certa austeridade, um ar de simplicidade não proveniente do medo e da renúncia, mas da incorruptível integridade e pureza. Naquele estado de meditação que transcende os estreitos limites do tempo, a beleza do céu cintilante (…) não emanava da busca individual de prazer; (…) (Diário de Krishnamurti, pág. 139)

(…) A beleza é desvinculada das emoções e da sensação agradável suscitada pela audição de um concerto, por um quadro ou por um espetáculo (…) Trata-se de uma beleza atemporal e que supera as dores e os prazeres do pensamento. O tempo e o sentimento são fatores de dissipação de energia e isso impede a percepção da beleza. A abundante e apaixonada energia é necessária para captar a beleza inacessível no mero olhar. Ela desaparece na presença do observador (…) (Idem, pág. 139)

A beleza do entardecer refletia-se na limpidez do céu e no colorido (…) Apesar do aparente silêncio, tudo parecia palpitar de vida: as pedras, os rochedos, (…) os arbustos (…) Consciente do ambiente que o cercava, o cérebro permanecia imóvel, sem reagir aos estímulos externos. Na absoluta quietude do cérebro, as palavras dissiparam-se com o pensamento, dando lugar àquela estranha energia, (…) profundamente ativa, sem motivo ou propósito algum. (Diário de Krishnamurti, pág. 131-132)

(…) Era a verdadeira e destruidora criação, não se tratava de um produto do cérebro humano, (…) O pensamento e o sentimento não serviam de instrumento para a compreensão daquela extraordinária e inatingível força, indiferente a qualquer análise ou definição. (…) Mas, o êxtase era gratuito, sem motivo, simplesmente existia como um fato e não como experiência a ser aceita ou não (…) Toda forma de busca deve cessar para que o êxtase se concretize mediante a ação devastadora do amor e da morte. (Idem, pág. 132)

Vedes, pois, que destruição é criação; e na criação não existe o tempo. A criação é aquele estado em que o intelecto, tendo destruído todo o passado, está completamente quieto e, portanto, no estado em que não existe tempo nem espaço para crescer, expressar-se, “vir a ser”. E esse estado de criação não é a criação de uns poucos indivíduos prendados – pintores, músicos, escritores, arquitetos. Só a mente religiosa pode encontrar-se num estado de criação. (…) O que faz a pessoa religiosa é a destruição total do conhecido. (O Passo Decisivo, pág. 195)

Nessa criação há um sentimento de beleza; uma beleza não construída pelo homem; (…) que transcende o pensamento e o sentimento. Afinal, o pensamento e o sentimento são puras reações; e a beleza não é reação. (…) Não se me afigura possível separar a beleza do amor. (…) Mas esse amor de que falamos é um estado em que se acha presente a chama sem fumo. (Idem, pág. 195)

(…) A expressão de um sentimento, a realização de uma descoberta, o escrever um livro ou poema, o pintar um quadro – qualquer dessas coisas é necessariamente criação? Ou é a criação coisa inteiramente diversa, independente da expressão? (…) Ou é a criação algo que não provém da mente? Afinal, quando a mente exige, ela encontrará uma solução. Mas sua solução será a solução criadora? Ou só há criação quando a mente está de todo silenciosa – quando não pede, não exige, não investiga? (Viver sem Confusão, pág. 38-39)

Suponhamos que tenhais um problema novo – e os problemas são sempre novos – como vos aplicais a ele? (…) É como um desses quadros modernos, com que estais completamente desacostumados. Que acontece, se desejais compreendê-lo? Se vos chegais a ele com a vossa formação clássica, será de rejeição a vossa reação ao desafio, que é aquele quadro; (…) Precisais contemplar o quadro sem o vosso preparo clássico, com percebimento e vigilância da mente, e então o quadro começa a revelar-vos a sua significação. (…) (Nosso único Problema, pág. 37-38)

(…) Enquanto a mente está ativa, formulando, fabricando, inventando, criticando, não pode haver criação; e vos asseguro que a criação vem silenciosamente, com extraordinária rapidez, sem compulsão, ao compreenderdes a verdade de que a mente precisa estar vazia, para que se realize a criação. Ao perceberdes a verdade disso, então, instantaneamente, há criação. Não tendes de pintar um quadro, (…) sentar-vos numa cátedra (…); porque a criação não requer necessariamente expressão. (A Arte da Libertação, pág. 177-178)

A própria expressão a destrói. Isso não significa que a não deveis expressar; mas se a expressão se torna mais importante do que a criação, então a criação se retira. Para vós, a expressão é da maior importância: pintar um quadro e assinar o nome ao pé do mesmo. Depois, quereis ver os que o apreciam, quem o irá adquirir (…); e quando alcançais a celebridade, pensais ter alcançado algo muito importante; isso não é criação (…) (Idem, pág. 178)

Assim, a única coisa necessária é que a mente finde ao compreender sua própria insuficiência, sua própria pobreza, sua própria solidão. Estando cônscia de si mesma, ela põe fim a si própria; então, aquilo que é criador, (…) imensurável, aparece, sutil e velozmente. Para pôr fim ao processo do pensamento, precisamos estar passivamente cônscios de nossa própria insuficiência, nossa própria pobreza, nosso próprio vazio, sem lutar contra ele; só então surge aquela coisa que não é produto da mente; e o que não é produto da mente é criação. (Idem, pág. 178)

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