O corpo precisa ser sumamente sensível; esta é uma coisa das mais difíceis, porque estragamos a inteligência corporal com o beber (…) o fumar, cedendo a nossos apetites, entregando-nos ao prazer. Embrutecemos o nosso corpo. Olhai o vosso corpo, que devia ser tão cheio de vida e sensibilidade, e vereis o estado a que o reduzistes! (Fora da Violência, pág. 45)

O corpo está em relação com a mente e a mente em relação com o corpo e, por essa razão, é uma coisa essencial a sensibilidade do corpo, do organismo. Essa sensibilidade não pode ser criada submetendo-nos a jejuns e praticando artifícios de toda espécie. A mente deve observá-lo desapaixonadamente (…) não o deixando para “amanhã ou depois” (…). (Idem, pág. 45)

Pergunta: O regime alimentar e a regularidade têm alguma influência (…)?

Krishnamurti: Têm naturalmente. Tendes atualmente o alimento adequado (…)? Mas os que têm recursos são tão pouco inteligentes a respeito da alimentação que lhes convém; comem simplesmente para agradar ao paladar, gostam de comer. (…) Comeis o que estais habituados a comer. Se estais acostumados com alimentos fortemente condimentados e fordes privados deles, estareis perdidos. Não tendes pensado deveras no assunto da alimentação. (A Arte da Libertação, pág. 99)

Se o fizerdes, descobrireis facilmente como é simples saber o que se deve comer. Não posso dizer-vos o que deveis comer, é claro, porque cada um tem de determinar e organizar o regime que melhor lhe convém. Por conseqüência, é preciso experimentar, durante uma semana, durante um mês. (…) (Idem, pág. 99-100)

Assim, alimentação conveniente e regularidade são necessários, não só à criança, mas a cada um de nós. Para verificar o que é necessário, precisamos investigar, (…) experimentar, primeiro em nós mesmos. (…) Podemos, pelo menos, dar-lhe alimentos puros e cuidar de que tenha horas regulares (…) (Idem, pág. 101)

Não apenas a mente, mas também o corpo, têm de estar altamente sensíveis. Não se pode ter um corpo embotado, indolente, pesadamente alimentado de carne e de vinho, e tentar depois meditar – não tem sentido. (…) Portanto, (…) veremos que a mente tem de estar altamente desperta, sensível e inteligente (…) (O Mundo Somos Nós, pág. 33)

Por conseguinte, para que se possa gerar aquela paixão, aquela energia de que tanto necessitamos para penetrar qualquer coisa profundamente, infinitamente, cada dia e cada minuto, há certas coisas muito óbvias que têm de ser feitas. Temos de comer o que nos faz bem e não o que o nosso paladar exige. Podeis estudar esta questão e descobrir a alimentação conveniente; (…) (A Suprema Realização, pág. 84)

Pergunta: Advogais o vegetarianismo? Faríeis objeção à inclusão de um ovo em vosso regime alimentar?

Krishnamurti: É realmente um problema muito importante, se devemos ou não comer um ovo? Talvez tenhais (…) a preocupação de não matar. (…) Mas talvez comais carne ou peixe. Para evitar o matar, ides ao açougue e transferis a culpa para o magarefe, o matador (…) (Nosso Único Problema, pág. 32)

Não desejais matar animais para o vosso estômago, mas não vos repugna apoiar governos que estão organizados para matar (…) Não vos repugna apoiá-los e, entretanto, fazeis objeção à terrível calamidade de se comer um ovo (…) Afinal, o problema diz respeito não somente à matança de animais, mas, o que é mais importante, à matança de entes humanos. (…) (Idem, pág. 32-33)

Mas direis que não respondi a pergunta relativa ao ovo, que não disse se se pode ou não comer ovos. Ora, a inteligência é o que tem importância; não o que nos entra pela boca, mas, sim, o que dela sai; (…) Nosso problema é de como produzir uma transformação naquilo que é superficial e estreito; e essa transformação só é realizável pela compreensão. (…) Estudai o problema em nível muito mais profundo, e encontrareis a solução. (Nosso Único Problema, pág. 35)

Pergunta: Desejo perguntar-vos se comeis carne ou peixe.

Krishnamurti: Isso vos interessa realmente? Pois bem, em toda a minha vida nunca toquei em carne ou peixe, nunca os provei; nunca fumei ou bebi; isso para mim não tem encanto nem significação. Ora, o que acabo de dizer vos fará vegetariano? (…) Descobri vós por que comeis carne, por que gostais de fumar e de beber, por que não podeis viver uma vida simples (…) (Fora da Violência, pág. 54)

Temos muitos hábitos, tanto físicos como psicológicos. Um particular hábito, como o fumar ou o comer carne, apesar de tudo é um hábito. Pode ser ele esquecido imediatamente, (…) ou deve ser isso feito gradualmente? É preciso indagar, entrar na questão do tempo. Há uma vivência, uma ação (…) total, que não esteja envolvida no processo de consecução? Ocorre falarmos sobre o tempo, e a maioria de nós está relacionada com ele, no ficar idoso, no realizar, no entender, no se preencher, no ser livre, etc. (…) (Talks and Dialogues, Sidney, Austrália, 1970, pág. 52)

Vossa pergunta foi: A mente imatura não é aquela que está enredada nos hábitos? (…) Se percebeis que sois imaturo, que estais enredado nos hábitos, como acontece com a maioria das pessoas, então a questão seguinte é como vos tornardes “amadurecido” imediatamente, isto é, como vos libertardes do hábito completamente (…) já. (…) (O Homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 175)

(…) Esse hábito pode ser quebrado de imediato, ou deverá ser gradualmente eliminado através dos anos ? Se digo que isso “levará tempo” (…), qual é (…) o estado de minha mente? Evidentemente, ela está num estado de letargia, embotamento, irreflexão, não percebimento. (Idem, pág. 175)

(…) Se não tentardes alterá-lo, o próprio fato vos dará uma extraordinária energia, com a qual podeis quebrá-lo completamente. Compreendeis ? Quando estais frente a frente com o fato, diretamente, vossa mente já não se está dissipando com fugas, renúncias, esforços para modificar o fato através do tempo, etc; por conseguinte, vossa atenção é completa, toda a vossa energia se concentrou, e essa energia destroça totalmente o fato. (Idem, pág. 176)

Pergunta: Sou um fumante inveterado (…) Como poderei deixá-lo (o hábito) (…)?

Krishnamurti: Não luteis por abandoná-lo; tal como se dá com muitos outros hábitos, a luta contra ele só tenderá a fortalecê-lo. Compreendei o problema do hábito, sob seus vários aspectos – mental, moral, físico (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 35-36)

(…) A luta visando apenas a dominar um hábito, sem descobrir o seu significado mais profundo, torna a mente-coração incapaz de pensar (…) Identicamente, o conflito entre os opostos insensibiliza a mente-coração, (…) que impede a compreensão do problema. (…) (Idem, pág. 37)

(…) O abandono de um hábito virá naturalmente, com a plenitude da razão e da sensibilidade (…) Assim, pois, se desejais fumar, fumai, mas ficai intensamente cônscio de tudo que está implícito no hábito – exclusão do pensar, dependência, solidão, medo, etc. (…) Não luteis (…), mas tomai conhecimento de sua inteira significação. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 37)

Não vos percais no conflito e no sofrimento dos opostos. Não compareis nem luteis para vos tornardes o oposto do que sois. Ficai atentos, integralmente, imparcialmente, para o que “é” – vosso hábito, (…) temor (…) – e nessa chama singela da percepção se transformará aquilo que “é”. (…) (Idem, pág. 38)

Pergunta: Tenho lutado muito para deixar de beber (…) Que devo fazer?

Krishnamurti: Cada um de nós tem muitas maneiras de fugir. (…) Beber pode ter o seu valor social, e pode também ser mais nocivo; (…) (Nós Somos o Problema, pág. 34)

Ora, é bem evidente a razão da fuga: não estamos satisfeitos com nós mesmos (…) externa ou internamente. (…) Quando conhecemos a causa da fuga, paramos de fugir? (Idem, pág. 35)

Quando sei que bebo porque não me entendo com minha esposa, ou porque tenho um emprego detestável (…) deixo de beber? (…) Só deixo de beber quando estabeleço relações adequadas com minha mulher, com meu próximo, afastando assim o conflito que me causa sofrimento. (Nós Somos o Problema, pág. 35)

(…) E enquanto estiver a mente no empenho de se preencher, como “eu”, tem de haver frustração (…); enquanto eu for o centro de todas as coisas, dos meus pensamentos, (…) reações, enquanto atribuir importância a mim mesmo, tem de haver frustração. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 36)

Assim sendo, não nos preocupemos com o meio de que nos servimos para fugir (…) O importante é compreender que, enquanto uma pessoa tenta o preenchimento no campo do “eu”, tem de haver infelicidade e luta; e esse sofrimento não pode ser evitado enquanto a pessoa, o “eu”, for importante. (Idem, pág. 36)

Direis, porventura: “Que tem o hábito de beber com tudo isso”? Penso que o problema da bebida, como qualquer outro (…), só pode ser (…) eliminado depois de compreendido o processo do “eu”, isto é, quando temos autoconhecimento. (…) (Nós Somos o Problema, pág. 36)

Pergunta: Sou fumante e desejo livrar-me do hábito (…) Podeis ajudar-me?

Krishnamurti: O hábito é um problema, torna-se um problema quando desejo abandoná-lo; (…) Fumar transformou-se, para mim, num fator de perturbação, por isso quero livrar-me do vício.(…) (Nosso Único Problema, pág. 24)

(…) Quero deixar de fumar, livrar-me do hábito, abandoná-lo; nessas condições, minha atitude(…) é de resistência, de condenação. (…) Pois bem, é possível considerarmos o problema sem a tendência para condenar, justificar ou reprimir? (…) (Idem, pág. 24-25)

(…) Porque, se compreendeis que fumar é uma coisa estúpida, um desperdício de dinheiro, etc. – se o reconhecerdes verdadeiramente, deixareis o hábito e não haverá mais problema. Fumar, beber, ou qualquer outro hábito é fuga de outra coisa qualquer; (…) É uma fuga ao nosso próprio nervosismo, a um estado de perturbação; (…) (Nosso Único Problema, pág. 25)

Pergunta: Por que é tão difícil viver sem a “fome de ser”?

Krishnamurti: Há fome de ser, fome de publicidade (…), fome de tornar-se alguém neste mundo ou no (…) espiritual, fome de pão, fome de sexo, etc. E já tentastes alguma vez abandonar qualquer dessas “fomes”? (O homem e seus Desejos em Conflito, 1ª ed., pág. 85)

Já tentastes alguma vez abandonar algo que vos proporciona prazer, ou que se tornou um hábito – abandoná-lo, simplesmente? Muitos fumam, dentre vós. (…) Já tentastes abandonar esse hábito, morrer para ele, sem esforço, sem compulsão (…)? (Idem, pág. 85)

Por conseguinte, devo primeiramente compreender a inutilidade da resistência (…) Torno-me cônscio do hábito (…) Se fumo, observo-me quando o faço. Cônscio fico de que (…) tiro um do maço, (…) ponho-o na boca, acendo-o, (…) ponho-me a soltar baforadas de fumaça. (…) Descobrireis (…) quando o hábito é visceralmente corruptor. (O Homem e seus Desejos em Conflito, pág. 86)

(…) O fumar também vos torna semelhante a uma máquina, escravo do hábito, e é só quando se compreende tudo isso que a mente se torna fresca, jovem, ativa, viva, de modo que cada dia é um dia novo (…) (A Cultura e o Problema Humano, pág. 102)

Quanto mais lutamos contra um hábito, tanto mais vida lhe damos. O hábito é uma coisa morta – e não deveis lutar contra ele nem resistir-lhe; mas, com a percepção da verdade sobre o descontentamento, o passado terá perdido toda a sua significação. (Reflexões sobre a Vida, pág. 167)

Vede, senhor. Tendes um certo hábito: o hábito sexual ou de beber, de fumar, de falar (…) Podeis morrer para isso, abandonar completa e instantaneamente o fumo, a bebida, o prazer? (…) Pôr fim a um hábito é acabar com ele completamente. Isso acontece quando a morte chega. Com ela não se discute. (A Importância da Transformação, pág. 55)

Há também, o problema das drogas. Na Índia, na antiguidade, havia uma substância chamada soma – uma espécie de cogumelo, cujo suco era bebido, produzindo tranqüilidade ou experiências alucinatórias de todo gênero, (…) resultado do condicionamento da pessoa. (…) Mas perdeu-se o segredo daquele cogumelo (…) Desde então, apareceram na Índia, tal como aqui, várias drogas, tais como haxixe, L.S.D., maconha, tabaco, bebida, heroína (…) Há também o jejum. No jejuar, verificam-se certas reações químicas (…) (Fora da Violência, pág. 85)

Se temos a possibilidade de viver bem sem o auxílio de drogas, por que tomá-las? Mas aqueles que as tomam dizem-nos que elas provocam certas alterações; surge certa vitalidade (…) energia, e desaparece o espaço entre o observador e a coisa observada; as coisas são vistas com muito mais clareza. Diz um deles que (…) se vêem as cores mais esplendorosas então. Mas podem-se ver as cores com igual intensidade sem o auxílio da droga, desde que se preste atenção, que se observe sem o espaço entre o observador e a coisa observada. Quando se tomam drogas, fica-se na dependência delas e, mais cedo ou mais tarde, se farão sentir os seus desastrosos efeitos. (Idem, pág. 86)

Se sofremos organicamente, cuidemos desse estado da melhor maneira possível (…) Nossas ilusões, tensões, conflitos, incompatibilidades, de fundo psicológico, causam maior sofrimento do que os males orgânicos. Tentamos eliminar sintomas, em vez de suprimir-lhes a causa. A causa pode ser o valor material. Não tem fim a satisfação dos sentidos, e dela resulta somente perturbação (…) Tal modo de viver culmina, inevitavelmente, em desordens mentais e físicas (…) (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 126-127)

Essa transformação radical dos valores deve efetuar-se por meio da compreensão da existência psíquica. Se não vos modificardes, recrudescerão, infalivelmente, vossas ilusões e males orgânicos; faltar-vos-á equilíbrio, vivereis deprimidos e dareis constante trabalho aos médicos. Não havendo essa profunda revolução dos valores, torna-se a doença e a ilusão uma distração, uma fuga, um ensejo para serdes indulgentes com vós mesmos. (…) (Idem, pág. 127)

O predomínio dos valores sensuais não pode trazer sanidade mental e física. É necessário purificar a mente-coração, o que não se consegue por meio de agente externo. (…) A tensão não é forçosamente prejudicial; o que se requer é esforço mental adequado. Só a tensão inadequada produz transtornos psíquicos, ilusões, doenças e perversões. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 127-128)

A vida é complexa e dolorosa, uma série de conflitos internos e externos. Requer-se percepção das atitudes mentais e emocionais, que são a causa das perturbações externas e físicas. (…) Para que estejais cônscio de vosso estado psicológico, necessitais de períodos de tranqüila solidão, de retraimento do tumulto e da pressa do viver cotidiano e suas rotinas. É essa tranqüilidade ativa essencial, não somente para o bem-estar da mente-coração, senão também para o descobrimento do Real (…) (Idem, pág. 128)

Não devemos estar tensos, se desejamos compreender? A vigilância não consiste numa tensão de adequada intensidade? (…) O afrouxar da tensão é necessário e às vezes benéfico, mas, para que haja profunda compreensão, não é necessária vigilância, i.e., tensão adequada? Não é necessário retesar as cordas de um violino, para afiná-las? (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 162-163)

Se as distendemos em excesso, elas se partem, e, se as não distendemos na medida exata, não produzirão o tom adequado. Identicamente, nós nos alquebramos quando submetidos a tensão excessiva os nosso nervos; e tensão que excede a capacidade de resistência, produz desordens mentais e físicas de vária ordem (Idem, pág. 163)

Pergunta: Como procederíeis, em face de uma doença incurável?

Krishnamurti: Os mais de nós não nos compreendemos; não compreendemos as nossas variadas tensões e conflitos, nossas esperanças e temores, que muitas vezes produzem desordens físicas e mentais. (O Egoísmo e o Problema da Paz, pág. 125-126)

De primacial importância é a compreensão de nossos estados psicológicos, e o bem-estar da mente-coração, que estará, então, apta para ocupar-se dos acidentes da doença. Assim como um instrumento se gasta pelo uso, assim também se gasta o corpo, porém, para aqueles que se apegam aos valores materiais, esse desgaste constitui grande sofrimento; (…) (Idem, pág. 126)

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