Estamos vivendo num mundo completamente fragmentado (…) onde se vê luta constante de um grupo contra outro grupo, de uma ideologia contra outra, uma classe contra a outra, etc. Tecnologicamente, observa-se um assombroso progresso e, contudo, há mais fragmentação do que nunca. E, observando-se objetivamente o que está ocorrendo, percebe-se a essencial necessidade de o homem aprender a cooperar. (A Libertação dos Condicionamentos, pág. 28)

Não conseguimos trabalhar juntos em coisa alguma – a questão da “escola nova”, (…) das relações entre os homens, (…) de pôr fim às guerras monstruosas (…) – se cada indivíduo, se cada um de nós está a isolar-se numa ideologia, num princípio, numa disciplina, numa técnica, numa crença, num dogma; (…) (Idem, pág. 28)

Um dos problemas básicos que o mundo está enfrentando é o da cooperação. Que significa a palavra “cooperação”? Cooperar é trabalhar juntos, construir juntos, sentir juntos, ter algo em comum, livremente. (A Cultura e o Problema Humano, pág. 112)

Entretanto as pessoas, em geral, não se sentem inclinadas a cooperar natural e espontaneamente, felizes; assim sendo, são forçadas a cooperar por vários meios de persuasão – ameaça, intimidação, castigo, recompensa. (…) (Idem, pág. 112)

Nas chamadas nações civilizadas, somos persuadidos a cooperar mediante o conceito de “pátria” ou em prol de alguma ideologia (…) largamente propagada (…); ou ainda (…) para a execução de um plano (…) um projeto de utopia. (Idem, pág. 112)

Pois bem; eu não chamo a isso de cooperação. De modo nenhum (…), porém uma forma de avidez, (…) de medo, de compulsão. Atrás de tudo está a ameaça de que (…) o governo não o reconhecerá, ou o “plano qüinqüenal falhará”, ou ele será mandado para um campo de concentração (…) (Idem, pág. 113)

Para mim, cooperação é coisa muito diferente. Cooperação é a alegria de “estar juntos e atuando juntos” (…) A verdadeira cooperação nasce (…), porém, com a alegria, o sentimento de união, (…); porque, nesse sentimento, não há a obstinação das idéias e opiniões pessoais. (Idem, pág. 113-114)

Quando conhecerdes essa qualidade de cooperação, sabereis também quando não se deve cooperar – o que é igualmente importante. (…) Mas (…); porque, se não formos sensatos, podemos cooperar com líderes insensatos, cheios de planos grandiosos e idéias fantásticas como Hitler e outros tiranos (…) (Idem, pág. 114)

A maioria de nós está habituada a cooperar nos moldes da autoridade estabelecida. Reunimo-nos para idear um conceito, (…) desenvolver um ideal, e isso exige convicção, persuasão, propaganda (…) Essa cooperação no sentido de realização de um conceito ou da busca de um ideal é totalmente diferente da cooperação que advém de se enxergar a verdade e da necessidade de pôr essa verdade em prática.

Operar sob o estímulo de alguma autoridade (…) não equivale a uma real cooperação. Uma autoridade dominante, que sabe muita coisa ou que tem forte personalidade e está obcecada por certas idéias, pode forçar ou sutilmente convencer os outros a cooperar (…); mas isso certamente não representa a cooperação de indivíduos alertas e dinâmicos. (…) Aquele que coopera porque vê a verdade como verdade, o falso como falso, e a verdade no falso, também saberá quando não cooperar – o que é igualmente importante. (O Verdadeiro Objetivo da Vida, pág. 20)

É possível cooperarmos, mantermo-nos coesos, sem termos um alvo, um resultado? Podemos, vós e eu, cooperar, sem estarmos em busca de resultado? Essa, sem dúvida, é que é a verdadeira cooperação (…) Nossas mentes estão de acordo, nossos pensamentos, nossas mentes intelectuais estão, naturalmente, de acordo; mas, emocionalmente, todo o nosso ser pode estar resistindo, do que resulta mistificação, (…) conflito entre vós e mim. Esse é um fato evidente e observável (…) (Quando o Pensamento Cessa, pág. 190)

Vós e eu combinamos executar juntos certo trabalho, e intelectualmente estamos de acordo; mas, inconscientemente, profundamente, estamos a batalhar um contra o outro; eu desejo um resultado que me dê satisfação; quero dominar, quero que meu nome sobressaia ao vosso (…) Dessarte, nós dois, que somos os criadores do tal plano de cooperação, somos na realidade adversários, embora exteriormente estejamos de acordo quanto ao plano. No íntimo, estamos em guerra um com o outro, embora, conscientemente, possamos estar em harmonia. (Idem, pág. 190-191)

Pergunta: Qual é o verdadeiro espírito de cooperação?

Krishnamurti: Senhores, que é que chamais “cooperação”? Cooperais com a autoridade, com aqueles que pensais ter as idéias corretas, o plano infalível (…)? Isso é cooperação? Quando aceitais certa autoridade e com ela cooperais, é isso cooperação? (…) (Visão da Realidade, pág. 33-34)

Quando hostilizais a esquerda, como a lei exige, estais cooperando? (…) Se compreendemos o que é cooperação, saberemos também quando não devemos cooperar, e ambas as coisas são importantes, pois cooperar com outros pode, em certas circunstâncias, conduzir a destruições e sofrimentos. (Idem, pág. 34)

Cooperar significa “trabalhar juntamente”, não é? Se há um plano, porém, um traçado imposto pela autoridade, não há então cooperação, mas, simplesmente, compulsão. Trabalhar em conjunto, por medo, por causa de uma recompensa, por necessidade, por compulsão, não é, evidentemente, cooperação. Que é então cooperação, e como nasce ela? (Visão da Realidade, pág. 34)

(…) Podemos ficar livres da parolagem (tagarelagem) nacionalista, do separatismo racial e religioso, e termos esse espírito de cooperação, construindo juntos? Isso é uma coisa completamente diversa da chamada cooperação sob compulsão de qualquer espécie, ou medo de punição (…) Essa coisa significa, com efeito, ausência do “eu”, do “mim”. E, quando há esse espírito de cooperação, existe ao mesmo tempo o discernimento de quando se não deve cooperar, o que é igualmente importante. (…) (Idem, pág. 35)

Não sabemos o que significa cooperar. Sabemos cooperar com o Estado, que nos proporciona o meio de subsistência, ou com uma idéia em prol de uma utopia que nos proporcionará vantagens; ou conhecermos a cooperação subordinada à autoridade, que significa compulsão, ajustamento. Mas a cooperação a que nos referimos é coisa toda diferente. Essa cooperação só se verifica quando há zelo. (…) (O Despertar da Sensibilidade, pág. 97)Tendes de compreender a verdade contida nesta breve palavra – zelo – de escutar essa palavra, compreendê-la. Significa ela ser sensível – sensível para com outrem; sensível ao céu, à ave, à arvore, à beleza (…). Se não sois inteiramente sensível, vulnerável, jamais conhecereis o amor. Podeis ser casado, ter filhos, ter relações, mas não tereis amor. O começo da realidade está justamente no primeiro passo – no ser zeloso. (Idem, pág. 98)

Só o homem que é livre pode cooperar. E é o homem livre que também diz: “Não cooperarei!” A cooperação, como geralmente se entende, significa cooperar em torno de uma pessoa, de uma idéia, de uma utopia, (…) da autoridade de uma pessoa, (…) de uma idéia representada pelo Estado. Se se observa (…), vê-se que não é cooperação (…) E quando muda a autoridade, vós também mudais (…); trata-se, pois, de uma compulsiva forma de ajustamento. (O Despertar da Sensibilidade, pág. 176-177)

Mas estamos falando de uma cooperação totalmente diferente; pois o homem precisa cooperar. Não se pode viver sem cooperação. (…) Mas a cooperação requer liberdade. (…) Liberdade não significa fazer cada um o que entender; (…) Só o homem que é livre para amar, que não tem ciúme, nem ódio, que nada deseja para si próprio (…) – só o homem que é livre e conhece o pleno significado do amor e da beleza, é capaz de cooperar. (Idem, pág. 177)

Quando um homem está interessado só em si mesmo e no prolongamento de si mesmo, como pode ele ter amor no coração, (…) ter boa-vontade? (…) Senhor, um homem de boa-vontade não tem autoridade, não pertence a nenhuma sociedade, (…) religião organizada, não adora a riqueza e os títulos. O homem que não pensa em si criará por certo um mundo novo, uma nova ordem, e é para esse homem que devemos volver os olhos, se queremos a felicidade, (…) um novo estado de civilização, e não para os ricos ou aqueles que adoram a riqueza. A boa-vontade, a felicidade, a bem-aventurança, só virá quando houver a busca do Real. (A Arte da Libertação, pág. 104-105)

Devemos cooperar, pois do contrário não podemos existir. Não há sociedade, (…) estado de relação, sem cooperação. É isto o que está acontecendo neste país: não existe cooperação; cada grupo (…) cada parte da nação só pensa em si. E essa fragmentação com que estamos bem familiarizados, ou seja o “tribalismo” ou nacionalismo, é de certo um estado de não-cooperação e, por conseguinte, de desintegração, destruição, deterioração. Só se pode viver quando há cooperação, trabalho em conjunto. (A Suprema Realização, pág. 68)

É possível trabalharmos juntos, sem medo de punição, sem esperança de recompensa, sob nenhuma compulsão? Parece-me que, pela própria natureza e significado da palavra, a verdadeira cooperação só existe quando há afeição, (…) amor. (…) (Idem, pág. 68)

Parece-me que não tentastes compreender o significado da palavra “participar”. No participar não há autoridade, pois não há nem vós nem eu. Não há consciência de dar ou de receber, só há o ato de participar, que não confere importância nem a quem dá nem a quem recebe (…) Não sei se alguma vez conhecestes esse sentimento de completa união, (…) comunhão existente no ato de participar, que é com efeito um ato de grande afeição e compaixão. (A Suprema Realização, pág. 115)

Que pretendeis dizer com a palavra serviço? Quem pode dizer o que é serviço? O homem que pertence ao exército, preparando-se para matar (…), diz que está servindo ao país. (…) O explorador, que detém os meios de produção (…) e que a monopoliza, diz que está servindo à comunidade. O homem que explora as crenças (…) diz que está servindo ao país, à comunidade.(…) (Palestras em Auckland, 1934, pág. 31)

Podemos ainda encarar isso de modo perfeitamente diferente. Pensais que uma flor, uma rosa, esteja sempre considerando que está servindo à humanidade, que está ajudando o mundo com sua existência, com o ser bela? Ao contrário, pelo fato de ser bela, supremamente linda, inconsciente de sua magnificência, é que verdadeiramente ela ajuda. Não assim o homem que percorre as ruas clamando que está servindo ao mundo. (…) (Idem, pág. 31-32)

Para servir realmente, precisamos estar supremamente livres da consciência limitada que denominamos de “eu”, de ego, a consciência egocentralizada; e enquanto esta existir, não estais realmente servindo ao mundo. (…) (Idem, pág. 32)

Fechar Menu